Mesmo que eu tentasse, talvez eu não pudesse explicar racionalmente o que me leva a gostar tanto de você, porque eu me sinto tão bem em ouvir tua voz. Sabe quando aquele sentimento que ocupa praticamente todo o seu coração, mesmo que seja totalmente platônico? Não digo que é sua culpa, até pode ser, mas não totalmente. Amar mais do que tudo não é sorrir o tempo todo, é aprender a solucionar os problemas. É dizer não quando a maior vontade é dizer sim. Aprender a se dar limites para não limitar outro alguém. Amar mais do que tudo é se colocar em segundo plano para fazer alguém sorrir, por mais que este alguém não faça o mesmo em troca. Amar mais do que tudo é esperar o tempo que for, por um mesmo sonho. É querer sempre mais, é tentar sempre mais por um ser que em sua mente é incapaz. Não por ser fraco, mas por nos meus olhos, ser único, frágil, e não estar perto de mim. De repente você pergunta o porque disso estar acontecendo e de repente você percebe que nem você mesmo sabe a resposta pra sua pergunta. Afinal, o que eu realmente sinto por você? Eu aprendi o verdadeiro significado de ser fã, e aprendi a amar de verdade. Aprendi a acreditar e acima de tudo a lutar pelos sonhos, acreditar que eles são possíveis. Agradeço todos os dias por você existir, por estar perto de mim, mesmo não estando. E mesmo que você nem saiba que eu existo, meu coração vai estar sempre contigo. E hoje eu estou aqui , e pra sempre vou ficar , tentando fazer você notar o verdadeiro amor que sinto por você. É tão estraho o modo de como eu necessito de ti, a cada dia que passa o meu sonho se torna mais intenso, desejado, e a cada dia eu tenho mais forças pra lutar por ele, por você, por vocês. Sonhos. Todos os têm. Alguns bons, outros ruins. Alguns tentam realizar todos, outros, tentam esquecer, ou simplesmente fingem que eles não existem. Mas sabe, eu não sei vou conseguir realizar... Mas de qualquer forma nunca deixo de tentar. Alguns de nós, têm apenas pesadelos. Mas não importa o quanto você sonhe. De manhã, os sonhos são interrompidos, a realidade insiste em interromper todos eles. O problema de não saber o que vem depois é exatamente o que vem depois. Você nunca sabe se o sorriso que alguém te deu ontem, amanhã pode ser uma decepção, não sabe se o amor que ontem era o maior que havia sentido, amanhã irá evaporar. São enigmas, descobertas nem sempre tão agradáveis e digo isso por hoje sentir que é assim, por bem dentro de mim isso ser forte e aquele arrependimento, aquela dúvida não me deixar nunca. Como seria se eu não tivesse te conhecido? Evitaria a dor, a saudade, os pensamentos, sonhos e tantas ilusões. Eu evitaria a espera também. Evitaria te amar tanto, e evitaria pensamentos quase impossíveis. Se eu acreditar eu posso? Não importa o quanto você queira algo, as vezes simplesmente não acontece, porque não tem que acontecer; sem importar o quanto você acredita que é possível, as vezes passam anos e nenhum sinal de que isso possa acontecer. Mas não me importo, é disso que eu preciso. Eu vou te esperar, tenha certeza disso. > Mesmo de longe eu queria te fazer, sentir tudo o que eu sinto por você ♥
# Mesmo de longe eu queria te fazer, sentir tudo o q eu sinto por voc ♪
domingo, 26 de setembro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
You Belong with me *-*
PEDRO GABRIEL LANZA REIS; Desde então fico perdida em meus pensamento, sera que isso vai passar, tomara que não demore não aguento mais, ja tentei esquecer pensar em outra pessoa mas foi em vão, tentei mas não teve como, eu não mando no meu coração, mas bem que eu queria, ja fiz pedido a estrela cadente pedi pra Deus briguei cmg mas nada adiantou meu coração não tem solução ele não me ouve, existe tantos caminhos, tantas pessoas mas meu coração só consegue enxergar um :/ tentei mudar , procurei distração , era tão facil tira isso do meu coração, tão mais simples pareci mas eu num consigo porque? é tão fora do normal oque eu sinto, não sei explicar, e não ta sendo bom isso pra mim, pois quando me pedi pra pensar em alguem só penso em uma, ouço musicas e sempre me vem a msm pessoa e eu que achava que nunca ia sentir isso, que era tontisse,coisa da cabeça, hoje to aqui bem assim, agora eu sei porque tenho chorado até não poder mais,e eu vim aqui só pra dizer que eu sou louca por você! ♥
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
OOI *-*
NOSSA ATÉ Q EMFIM CONSEGUI ENTRA AQUI MANOLOS *O*
g-zuuuis, eu pensei que tinha perdido o bloog D:'
- sorry mesmo pela ausenciia meus amoore #fail !
mais beem, tenho novidades para voocs *o* tipo como eu aacabei Sexy Biology, eu vou começar a postar ouutra weeb \õ #weee !
Mais dessa vez num ér erotiica :F e de personagens são minhas gatas bests da neet *u*'
Nath, Katlen, Biia <3 HAHA as 3 q eu amo demais demias ♥
E MANOLOS DO CÉU O QUE FOI AQUILO ONTEM NO #VMB ? SAAI GRITANDO NA RUA, CHOREEI LITROS,DEI MTA GARGALHADA BRISANDO E QUASE QUEBREI O PC \Õ #WEEEEEEEE @ROCKRESTART POOOORRA QUE ORGULHOOO VEEEEELHO !
FOI MTO MTO MTO BEM MERECIDOO *U*
MEUS NENIS MERECEM MTO MTO MTO MAAIS ! E QUE HONRA DE FAZER PARTE DA #FAMILIA MAIS LINDA DO MUUNDO *UUUUU*'
EU AMO MTO VOOCS <3
Enton nér voltando ! Gente essa semana eu aprendi q temos que valorizar mto mto as amizades, porq o que seriamos de nós sem elas ? pessoas solitarias e vazias ?
Mandando bejo pro pessoal que me aguenta dia e nooite ai , e dizer que eu não sou nada sem vocs ♥
Jeeh, Daah, Jessica Bertho,Elen, Even, Nath Matos, Sthe Morais, Yasmin, Ellen, Aninha, Cris, Nath Santos, Nath Rodrigues, Gabriela Faria, Netinho, Bertochi, Rafa, Marquinhos, Pedro, Laleska, Lucas, Lucas Rawr, Jacaré, Belinha, Giih, Nega, Livia, Ronaldo, Yuri, Alex, e puta mano, mais um monte de gente ai, e desculpa não lembrar os nomes ! e num importa de é virtual ou se ta aq comiigo, eu amo todos voocs do mesmo jeitiinho velho !
e a frase vai para os meus gatos q querem ver meu poost ;
AMIGO É COISA PRA SE GUARDAR, DEBAIXO DE 7 CHAVES, DINOSSAUROS AMO VOCS
MARQUINHOS & ALLAN ♥
HAHAHA pronto !
foto ; Eu de Blusa de Bolinha :B Jeeh de rosa, Alan no colo dela, Marquinhos no meu \õ
BEJO BEJO DAQ A POKO NOVA WEEEB *U*
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Sexy Biology '-' (FÃFIC) ULTIMOS CAPITULOS 34 & 35
heeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeey !
gente qm leu a fic toda, chora junto comiigo ? sim sim acabeei ;/
aah mto mto mto mto mto obg pra todos q leram vlh ! e q por causa dessa web/fic. eu fiz amiigos de vdd ! amigos q eu vou levar pra sempre comigo HAHAHA como eu amo voocs forever gatinhos & gatinhas da naiti ♥
se divirtam, chorem, gritem HEHE ! amovocs ♥Respirei fundo pela enésima vez, fechando meus olhos por alguns segundos. Apesar da leve brisa que entrava pela janela conforme Pe virava na rua de Pepe, eu estava me sentindo um tanto sufocada dentro de seu Porsche, e ele obviamente estava notando isso. Eu só não estava sendo bombardeada com palavras de conforto ou algo parecido porque ele estava ainda mais nervoso para sequer abrir a boca.
- Eu vou com você – ele disse num tom autoritário, enquanto estacionava na frente do prédio. Revirei os olhos. Era a quinta vez que eu teria que lhe explicar por que aquilo simplesmente não poderia acontecer.
- Eu entendo que você esteja preocupado, mas... Nem pensar – falei, com a voz calma, e o vi bufar em desaprovação – A única coisa que vai acontecer se você for comigo é uma briga. E não foi pra isso que eu vim.
- Que pena – Pe sorriu, cínico, e eu lhe lancei um olhar de censura – Desculpa, você sabe que eu não sei ser diplomático.
- E assim como eu, você sabe que um punho no fundo da garganta dele não vai resolver nosso problema – lembrei, cerrando meus olhos e vendo-o finalmente me olhar após desligar o carro – Por esse motivo, você fica aqui embaixo.
Pe sustentou meu olhar por alguns segundos, e depois desviou o seu, demonstrando seu descontentamento com aquela situação. Ele segurou minha mão, apertando meus dedos com certa força, e eu suspirei, com o coração um tanto acelerado. Meu Deus, ele estava me deixando ainda mais nervosa com aquela agonia toda.
- É pra tomar cuidado, ouviu? – ele murmurou, ranzinza, fitando nossas mãos com seriedade – E não demore, senão eu...
- Lanza, chega – o interrompi, vendo-o voltar a me encarar com os olhos surpresos e franzir levemente a testa, a cada segundo mais inquieto – Você já repetiu esse discurso pelo menos umas cinco vezes! Vai dar tudo certo, pense positivo junto comigo, pode ser?
Pe suspirou profundamente, e eu coloquei minha outra mão sobre a dele, baixando meu olhar até elas. Por um instante, a pequena cicatriz que eu havia deixado em seu braço há alguns meses prendeu minha atenção. Já havíamos passado por tanta coisa... Nunca pensei que viveria um momento como aquele.
- Desculpe, eu sei que estou sendo chato... Mas é que eu não estou gostando nada disso – Pe suspirou, e eu levei uma de minhas mãos até seu ombro, massageando-o e sentindo seus músculos rígidos ali – E não estou tendo sucesso nenhum em tentar disfarçar.
- Confie em mim – pedi, olhando-o com uma convicção que eu fingia ter – Vai ficar tudo bem.
Ele me encarou por alguns segundos, em dúvida, mas logo assentiu, mesmo que contra sua própria vontade. Ele sabia que não adiantaria tentar me convencer a voltar para casa sem falar com Pepe. Acariciei levemente seu rosto, sorrindo para ele, e deixei que ele se aproximasse o suficiente para tocar meus lábios com os seus.
- Tá bom, eu te deixo ir agora... Mas vai logo, antes que eu me arrependa – Pe sussurrou após alguns minutos, afastando seu rosto do meu com a expressão extremamente contida a ponto de parecer vazia aos olhos de alguém menos íntimo - E volte logo.
- Eu vou voltar – falei, abrindo a porta e saindo do carro – Fique calmo, professor.
- Impossível – ele negou, encostando a testa no volante, e eu respirei fundo antes de caminhar até a portaria do prédio.
- O sr. Munhoz já a está aguardando – Andy disse, com sua típica voz cordial, assim que cheguei à portaria. Engoli em seco, sabendo que aquela era a última vez em que eu entraria naquele edifício, se tudo fluísse de acordo com meus planos. Disfarcei o turbilhão de pensamentos que colidiam dentro de minha cabeça e assenti com um sorrisinho tenso, dirigindo-me à escadaria. Subi os degraus devagar, tentando imaginar como ele agiria (e eu também) quando chegasse ao meu destino, e somente quando parei à porta de seu apartamento foi que todas as especulações enfim sumiram de minha mente, dando total lugar à insegurança.
Ouvi passos cada vez mais próximos do outro lado da porta. Ele estava vindo me receber.
Num ato instintivo, quase dei meia volta e saí correndo. Mas, ao contrário do que meus instintos ordenavam, respirei fundo mais uma vez e aguardei até que a maçaneta girasse e a porta se abrisse.
O silêncio que se instalara em meus ouvidos assim que nossos olhares se encontraram me fez pensar por um momento que minha cabeça explodiria.
- Você veio – Pepe murmurou, com a voz fria, e eu senti um arrepio percorrer meu corpo inteiro. Quem era aquele homem que eu um dia pensei conhecer? Definitivamente, esse não era o mesmo.
- Por que não viria? – perguntei, tentando parecer um pouco mais firme do que realmente estava, e ele ergueu as sobrancelhas rapidamente, ponderando minha indagação. Não gostei nem um pouco daquilo.
Sem dizer mais nada, ele deu espaço para que eu entrasse em seu apartamento, e eu o fiz, parando a poucos passos da porta e virando-me em sua direção. Nos poucos segundos que tive para olhar ao meu redor, tudo que vi foram os móveis, desprovidos de qualquer decoração, e várias caixas empilhadas por toda a sala, o que para mim só significava uma coisa.
Mudança.
- Como você pode ver, eu ainda tenho muito o que fazer por aqui – ele disse, lançando um rápido olhar para as caixas e logo depois me encarando – Então pretendo terminar logo com essa conversa.
- Que bom que concordamos nesse ponto – assenti, sustentando seu olhar sem um mínimo sinal de fraqueza – Quanto mais rápido resolvermos nossas pendências, melhor para todos.
- Ele te trouxe aqui? – Pepe perguntou, e o vazio de emoções em seu rosto ao mencionar Pe me impressionou – Está te esperando lá fora?
- Isso não importa – respondi, um tanto incomodada com sua curiosidade mórbida – O que realmente importa agora é que eu quero terminar essa conversa de uma forma pacífica.
- Pacífica? – ele repetiu, num risinho medíocre, e eu não demonstrei emoção alguma – Depois de tudo que aconteceu, você ainda espera que eu seja pacífico?
- Se eu estou sendo pacífica, por que você não pode ser? – falei calmamente, encarando-o com firmeza e vendo sua hostilidade fraquejar – Nós dois estamos manchados nessa história, Pepe. Não banque o bonzinho, você não vai conseguir nada com isso.
- Você não entende – ele murmurou, balançando negativamente a cabeça de uma maneira um tanto perturbada, e pude vê-lo lacrimejar – Você nunca vai entender. Ele te cegou... Te envenenou contra mim.
- Não seja ridículo – rosnei, vendo-o respirar fundo e me fitar com os olhos vidrados, denunciando que lentamente ele ia perdendo o controle sobre si – Eu não vim aqui para ouvir seus motivos, porque pelo que estou vendo, você também não quer ouvir os meus. Explicações não vão mudar os fatos, pelo menos não para mim. E isso basta pra que resolvamos logo essa situação e sigamos com nossas vidas.
- Há quanto tempo? – Pepe indagou, dando um passo em minha direção, e pela expressão ressentida em seu rosto, pude ver que ele não havia entendido uma palavra do que eu havia acabado de dizer – Há quanto tempo vocês dois estão juntos?
Suspirei profundamente, encarando-o sem uma postura muito bem definida, e alguns segundos depois ele repetiu sua pergunta, num tom um pouco mais enérgico.
- Há quanto tempo, Carol?
- Desde o acidente de carro – respondi, fechando meus olhos por um momento, assustada com sua voz exaltada – Uns dois meses.
Encarei o chão por alguns segundos, ouvindo apenas a respiração pesada de Pepe, mas logo ergui meu olhar até o dele. Seu rosto estava paralisado, em choque diante de minha resposta; seus olhos estavam arregalados, suas sobrancelhas franzidas e seus lábios entreabertos. Ele deu mais um passo na minha direção, respirando fundo, e eu não consegui esconder o pânico em minha expressão ao vê-lo erguer sua mão como se fosse me dar um tapa, porém não realizando nenhum movimento. Seus dedos se fecharam, formando um punho, e ele contraiu seus lábios, tremendo levemente e me encarando com os olhos úmidos e cheios de ódio.
Pela primeira vez na vida, eu senti um olhar verdadeiramente assassino sobre mim. Ele queria me matar, e o faria se tivesse coragem suficiente. Felizmente, ou não, ele não tinha.
- Por que você fez isso comigo? – ele disse com a voz embargada, abaixando seu punho e inundando seu olhar com mágoa – O que... O que eu fiz de errado?
- Eu não queria fazer, eu juro... – suspirei, sentindo-me um pouco mais aliviada ao ver a cólera agora controlada em seus olhos, porém a mágoa neles fazia uma enorme culpa formigar sob minha pele e influenciar meu tom de voz – Mas foi inevitável.
- Você acha que isso me convence? – ele explodiu, enraivecido, e se afastou um pouco de mim, passando as mãos compulsivamente pelos cabelos – Eu posso ter sido idiota o suficiente pra não perceber que estava sendo traído, mas eu não vou mais admitir que você pise em mim!
- E você? Não pisou em mim também? – rebati, irritada com sua atitude mesquinha – Acha que pode me fazer de amante sem que eu sequer soubesse da existência de sua noiva desde o começo e simplesmente sair ileso, se fazendo de bom moço ainda por cima?
- Eu fiz isso porque te amo! Eu fui burro o bastante pra me apaixonar por você! – Pepe gritou, e agora as lágrimas rolavam por seu rosto enfurecido conforme ele voltava a se aproximar de mim – Eu já devia saber que você não vale porra nenhuma e não passa de uma vadiazinha que botaria um belo chifre na minha cabeça assim que tivesse a chance!
- Chega! – exclamei, e sem sequer conseguir pensar, atingi seu rosto com um tapa, usando toda a força que pude reunir – Eu não vim aqui pra te diminuir, e não admito que você faça isso comigo!
Pepe levou uma mão à parte atingida de seu rosto, pego de surpresa com minha agressão, e sem nem hesitar, devolveu o tapa com toda a sua força, fazendo-me cambalear para o lado, totalmente desnorteada e com muita dor. Levei minhas mãos à cabeça, fechando os olhos e sentindo tudo girar ao meu redor, e novamente o gosto de sangue surgiu em minha boca.
- Eu te diminuo sim – ele cuspiu, com a voz carregada de desdém, e aos poucos meus olhos foram se enchendo de lágrimas - Você não vale o chão que pisa, garota... Maldito foi o dia em que eu te deixei entrar na minha vida.
Respirei fundo, tentando organizar minha mente, mas minha cabeça doía tanto que eu mal conseguia abrir os olhos. Parecia que ele havia rachado meu crânio ou algo do tipo, pra ser bastante honesta. Mesmo assim, fiz um esforço, e por mais que minha voz tenha saído baixa, ele pôde me ouvir.
- Vá pro inferno.
- Eu vou... Pode ter certeza disso – ele murmurou, e sua respiração bateu em meu ouvido, mas por mais que eu sentisse medo, tudo estava girando demais ao meu redor para que eu pudesse me afastar – Mas vou arrastar vocês dois comigo.
- Me deixe em paz – pedi, apoiando-me no sofá ao meu lado ao sentir minha cabeça pulsar, e ele soltou um risinho debochado.
- Não posso fazer isso... Tenho uma promessa a cumprir – Pepe rosnou ao pé de meu ouvido, apertando meu braço com tanta força que seus dedos interromperam minha circulação e fazendo um gemido baixo escapar de minha garganta – Já se esqueceu dela?
Assim que ouvi suas palavras, foi como se eu tivesse sido arrancada dali. Eu não estava mais no apartamento de Pepe, minha cabeça não doía, nem sua mão machucava meu braço. Uma brisa suave brincava com meus cabelos, e um cheiro de mar adentrava minhas narinas, assim como um magnífico pôr-do-sol era tudo o que eu via diante de mim.
A promessa... Eu me lembrava bem dela. Tão bem que nem me assustei ao ouvir minha própria voz, junto com a dele, ecoar em minha mente.
- Se eu te pedir uma coisa... Promete que vai fazer?
- O que você quiser.
- Por favor, prometa que vai fazer.
- Prometo... Não confia em mim?
- Então me prometa só mais uma coisa... Se um dia eu te machucar... Prometa que vai fazer pior comigo.
- Como assim, Caah? Como você poderia me machucar?
- Eu só quero que você me dê a certeza de que vou me arrepender amargamente do dia em que te fizer sofrer... Quero que prometa que não vai me deixar em paz sem me punir por uma injustiça dessas.
Abri meus olhos, sentindo grossas lágrimas escaparem por eles, e o chão do apartamento de Pepe surgiu em minha visão. A brisa subitamente parou, e o cheiro do mar sumiu de imediato. Porém, as vozes em minha cabeça continuaram a reproduzir minha memória, como se alguém a estivesse sussurrando em meu ouvido.
- Você não me faria sofrer... Faria?
- Eu me lembro... – soprei, lutando contra o som das ondas do mar quebrando próximas à costa. O conflito entre a realidade e a lembrança estava me atordoando demais para que eu conseguisse dizer algo mais.
- Ótimo... Melhor não se esquecer dela tão cedo – ele sussurrou, fitando meu rosto desolado antes de me soltar – Caso contrário... Vai ser um prazer refrescar a sua memória.
Por alguns segundos, tudo que fui capaz de fazer foi encarar o chão, paralisada, até conseguir levar minhas mãos trêmulas ao rosto, cobrindo minhas lágrimas conforme eu corria desesperadamente até a saída do apartamento. Pepe não tentou me impedir, e sem nem ver o que estava fazendo, girei a maçaneta e abri a porta, mas quando fiz menção de correr, meu corpo colidiu contra o de alguém do lado de fora. Antes mesmo que eu pudesse reconhecer a pessoa, seus braços me envolveram e sua voz alarmada perguntou:
- O que aconteceu?
- Pe... – soprei, agarrando sua camiseta e afundando-me em seu peito. Eu não tive forças para dizer nada; estava tão nervosa e com tanta dor que mal conseguia pensar direito.
- Olá, Lanza – ouvi a voz de Pepe cumprimentar, transbordando uma falsa simpatia. O leve sadismo em seu tom me fez encolher meu corpo.
- Vamos embora – Pe me disse, após alguns segundos em silêncio, e me virou sutilmente na direção das escadas.
- A conversa ainda não terminou – Pepe impôs, voltando à sua postura agressiva, porém não foi necessário muito tempo para que ele recebesse uma resposta à altura.
- Estou pouco me fodendo para o que você acha – Pe rosnou, pronunciando cada palavra com todo o seu desprezo e ódio - Pra mim, ela não deveria nem ter começado.
Pepe pareceu intimidado demais para retrucar, e nós não o demos tempo para isso, pois em poucos segundos já estávamos descendo os degraus rumo à saída.
- Nunca.
- Mas o que... – Andy disse, levantando-se assim que nos viu, e eu imaginei que Pe não deveria ter sido muito diplomático há alguns minutos, quando entrou.
- Não enche – Pe o interrompeu, caminhando em passos largos até a rua e quase me carregando pelo caminho, pois minhas pernas insistiam em fraquejar – Caah, eu preciso que você fique acordada, está bem?
Meus olhos se fecharam sozinhos assim que tudo ao meu redor girou mais uma vez, me causando um certo embrulho no estômago. Eu me sentia numa montanha-russa após um farto almoço. Engoli em seco, sentindo minha cabeça latejar, e me deixei conduzir até o carro. Seria possível que Pepe tivesse conseguido me afetar tanto com aquele tapa ou tudo era apenas efeito psicológico causado por meu nervosismo?
- Casa... – balbuciei assim que ele me sentou e me ajudou com meu cinto de segurança, apertando seu pulso de leve para que ele prestasse atenção no que eu queria dizer – Eu... Vai me levar... Você vai...
- Claro que não, Carol, eu vou te levar pra um hospital – Pe respondeu, categórico – Você não está conseguindo nem formar frases!
- Não, eu... Quero ir pra casa – insisti, respirando fundo e conseguindo pensar com mais clareza – Eu só fiquei nervosa demais...
- Pode ser algo sério – ele resistiu, preocupado, mas eu não o deixei vencer.
- Eu só estou um pouco atordoada, não se preocupe... Só preciso ir para casa me acalmar – falei, dessa vez com mais firmeza, já me dando conta de que o perigo estava longe outra vez - Por favor, é só o que eu peço.
Apesar de a dor em minha cabeça ter pulsado logo após minhas palavras, pareceu funcionar. Pe sustentou meu olhar por alguns segundos, indeciso, e fechou a porta, entrando pelo lado do motorista sem demora.
- Só não durma – ele disse, ligando o carro e respirando fundo antes de acelerar. Assenti levemente, repousando minha cabeça no encosto do banco, e fechei os olhos para aliviar a dor.
Dois segundos depois, um alívio imenso inundou minha mente, fazendo com que o barulho do motor do carro sumisse e eu apagasse.
- Eu disse pra não dormir, sua... Coisa teimosa.
Abri os olhos, sentindo minha cabeça e pálpebras pesadas. Pisquei algumas vezes para focalizar o borrão azul e branco à minha frente, e fixei meu olhar no de Pe assim que consegui definir onde seus olhos estavam.
- Me desculpe – murmurei, e pigarreei ao ouvir minha voz completamente rouca. Olhei ao meu redor, reconhecendo meu quarto, e só então me dei conta de que estava deitada em minha cama, com Pe sentado ao meu lado.
- Como você está? – ele perguntou, enquanto eu me sentava devagar e levava as mãos à cabeça, massageando-a – Doendo muito ainda?
- Não... Quase nada – menti, dando um sorrisinho que não deve ter sido muito convincente e sentindo a dor aumentar a cada vez que piscava – Nada que um analgésico não resolva.
Pe soltou um suspiro discreto, me olhando com intensidade, e eu insisti no sorriso. Não deu certo.
- O que aconteceu naquele apartamento, Carol? – ele indagou, com a voz preocupada – O que ele fez?
Respirei fundo, abandonando o falso sorriso e desviando meu olhar do dele para pensar um pouco. Por que eu deveria mentir ou omitir algo? Eu estava cansada disso, e sabia que não precisava me preocupar quanto a ser sincera com ele.
- Ofensas, ameaças... Até aí, nada que eu já não esperasse – respondi, um tanto hesitante, e voltei a olhá-lo – Mas eu acabei perdendo a cabeça e dei um tapa nele.
- E ele revidou – Pe deduziu, franzindo a testa e cerrando os olhos em indignação – Que belo merda ele é. Eu ainda vou acabar com esse put...
- Ele vai se mudar, me parece – o interrompi, tentando não trazer de volta à minha mente aquela cena horrível – Não consegui perguntar para onde, mas tenho um palpite.
- Leeds – ele disse, e eu assenti – Espero que ele se mude amanhã mesmo, e fique pra sempre... Bem, com a outra lá.
Fingi concordar com suas palavras, mas a maldita promessa me atingiu em cheio. Mesmo que não conseguisse nos causar nenhum dano, o que não me parecia muito provável, Pepe ainda faria o que estivesse ao seu alcance para nos prejudicar.
E eu tinha uma certa noção de por onde ele começaria.
- Que horas são? – perguntei, um tanto assustada, e olhei para o relógio no criado-mudo – Sete e quarenta e dois! Minha mãe vai chegar daqui a pouco!
- Eu sei, já estou indo embora – Pe me acalmou, ainda reflexivo diante do que eu havia dito sobre minha conversa com Pepe – Você vai contar tudo a ela hoje?
Fechei meus olhos, esfregando meu rosto com as mãos e tentando não ficar nervosa diante do que ainda tinha que fazer. Eu não podia mais perder tempo. Se antes mesmo de todos os acontecimentos daquela tarde eu já tinha certeza de que Pepe agiria rápido, agora eu já estava preparada para que o dia seguinte fosse a confirmação de minha teoria.
- Não antes de um analgésico... Mas eu tenho que contar – assenti, com os olhos baixos e o coração apertado. Algo me dizia que eu ainda levaria outro tapa naquele dia.
- Aconteça o que acontecer, me ligue assim que puder, está bem? – Pe murmurou, segurando minhas mãos e notando meu nervosismo – Caso aconteça algo drástico, eu venho te buscar e te levo pro meu apartamento.
Concordei, erguendo meu olhar até o dele, e o vi dar um sorriso fraco, porém sincero.
- Obrigada – sussurrei, e ele levou uma mão até meu rosto, acariciando minha bochecha.
- Acho que agora é minha vez de dizer... – ele falou, soltando um risinho baixo – Vai ficar tudo bem.
Sorri, achando graça de sua brincadeira, e só então percebi que ele estava um tanto distante de mim. Ou talvez eu estivesse com tanto medo de tudo que não aceitaria menos que tê-lo colado a mim para ter certeza de que tudo ficaria mesmo bem.
- Você pode me dar um abraço? – pedi, com a voz involuntariamente manhosa – Acho que estou precisando.
Pe me lançou um olhar quase torturado, dando um sorriso derretido que eu nunca havia visto antes, e num segundo, seus braços envolveram minha cintura com força. Sorri junto, abraçando-o pelo pescoço e embrenhando meus dedos em seus cabelos. Inspirei seu perfume, sentindo-o fazer o mesmo, e o apertei contra mim, com o coração batendo muito forte. Todos os meus problemas pareceram simplesmente evaporar quando senti sua respiração bater em minha pele; naquele momento, foi como se só existisse ele em todo o universo, e só o que importasse fosse mantê-lo em meus braços. O resto parecia supérfluo demais para ser sequer lembrado.
- Como eu sou malvado, não? – ele murmurou após alguns segundos, me dando um beijo no pescoço, e eu ri baixinho, arrepiada – Mal consegui você só pra mim e já estou te fazendo passar vontade...
- Seu bobo – resmunguei, afastando-me apenas para que pudesse encará-lo bem de perto, e lhe dei um beijo de esquimó – Quem é o malvadinho?
- Olha, eu ainda sou seu professor e exijo um pouco mais de respeito, pode ser? – ele riu, cerrando os olhos para mim, e apesar de minha atitude idiota, notei que ele havia ficado mais envergonhado do que eu – Se for pra me chamar de alguma coisa, que seja no aumentativo.
- Ok então... Quem é o malvadão? – reformulei a pergunta, fazendo uma voz grossa e fechando a cara para parecer barra pesada – Melhorou?
- Sua ridícula! – ele exclamou, revirando os olhos e caindo na gargalhada junto comigo – Que bom que eu gosto demais de você e sou capaz de sobreviver a momentos como esse.
- Ah, que ótimo, eu ia mesmo conferir isso! – falei, rindo mais um pouco, e quando as gargalhadas cessaram, ele fez o que eu tanto queria. Suas mãos escorregaram por minha cintura enquanto nossos lábios se tocavam, e eu abri os meus, dando-lhe permissão para aprofundar o beijo. Agarrei seus cabelos com força, me sentindo como se não o beijasse há muito tempo, e aos poucos desci minhas mãos por seu pescoço e ombros, revertendo totalmente meu favoritismo por sua camiseta pólo e odiando-a por cobrir seu corpo.
- Caah... Eu acho que estou me empolgando – Pe soprou após alguns minutos, e só então me dei conta de que estava deitada novamente, com seu tronco sobre o meu – E isso não é muito conveniente agora.
Sorri, mordendo seu lábio inferior enquanto desabotoava os dois únicos botões de sua camiseta, apenas por puro charme.
- Ah... Só porque minha dor de cabeça estava passando – lamentei, dando-lhe um selinho e quase rindo ao vê-lo todo desgrenhado quando voltamos a nos sentar – Mas você tem razão. Não é nem um pouco conveniente agora.
- Além do mais, sua cama não agüentaria nem uma rapidinha – ele observou, ajeitando a camiseta e o cabelo com rapidez – Teríamos que procurar algum outro lugar, o que seria ainda menos conveniente.
- Por que você acha que a pia do banheiro é grande? – pisquei, vendo-o abrir a boca em surpresa, e logo depois dei risada – Brincadeira!
- Não deixa de ser uma idéia a considerarmos – Pe sorriu, extremamente malicioso, e eu ergui as sobrancelhas, sorrindo junto logo depois – Fiquei tentado agora, Trevisan.
- Infelizmente, hoje você vai ter que se contentar com pornografia – falei, com a expressão levemente triste – Enquanto eu sou expulsa de casa, você pode assistir a alguns vídeos de lésbicas se beijando ou mulheres fazendo sexo com cavalos.
- Acredite, eu não curto zoofilia – ele cerrou os olhos, enojado – Eu até experimentei pegando a Smithers, mas... Eca.
- Cretino! – falei, dando um soquinho em seu peito enquanto gargalhava, e ele deu um risinho maldoso.
- Vem comigo até a porta? – Pe perguntou, levantando-se e estendendo os braços para que eu fosse em seu colo. Sem pensar duas vezes, concordei com a idéia.
- Me sinto um bebê quando você me carrega assim – comentei, balançando minhas pernas, uma de cada lado de sua cintura, enquanto enroscava as mechas de cabelo de sua nuca em meus dedos e me deixava levar pelo corredor.
- Mas você é um bebê – ele disse, descendo as escadas com cuidado – Que quando quer, consegue ser um baita mulherão.
- Culpa sua, malvadão – brinquei, engrossando a voz outra vez, e ele soltou um risinho divertido, chegando à porta e me pondo no chão.
- Falando sério agora – Pe murmurou, me lançando um olhar preocupado – Boa sorte com a sua mãe, toda a sorte do mundo... Vou ficar morrendo de ansiedade em casa, checando o celular de cinco em cinco segundos esperando você ligar. Vai dar tudo certo, vamos pensar assim, está bem?
- Tomara mesmo – suspirei, sentindo-o envolver minhas mãos com as suas e apertando seus dedos – Obrigada.
- Se precisar de mim, não hesite em me ligar, ouviu? – ele reforçou, e eu assenti, recebendo um apertão carinhoso no nariz – Se cuida, bebê.
Cerrei meus olhos para ele ao ouvir o apelido, e recebi um sorriso discreto como resposta.
- Vou perdoar só por causa do malvadão – falei, vendo-o revirar os olhos – E porque eu te amo também, claro, mas isso é só um detalhe.
- Ah, sim, eu também já ia me esquecer de dizer que te amo – Pe concordou, balançando negativamente a cabeça – Eu te amo, viu? Mas é só um pouquinho, besteirinha mesmo.
- É, nada de mais – dei de ombros, vendo-o prender o riso, e dois segundos depois, me puxar pela cintura para mais um beijo.
- Eu te amo demais, garota – ele resmungou, afastando nossos lábios após apenas alguns calorosos e intensos segundos - Só pra esclarecer qualquer dúvida.
- Isso vai soar prepotente, mas eu não tenho nenhuma – sorri, olhando-o com determinação, e ele sorriu de volta – Espero que você não tenha dúvidas de que é recíproco.
- Bom, eu não sei como isso vai soar, mas você tem se saído bem em sanar todas elas – Pe murmurou, piscando e me dando um selinho rápido antes de nos afastarmos – Vou deixar pra dar boa noite por telefone, quando você me ligar contando que sua mãe mal espera para conhecer seu genro querido e másculo.
- Seu otimismo e humildade me deslumbram – dei risada, abrindo a porta para que ele passasse e dando-lhe um tapinha na bunda ao vê-lo sair – Até mais.
Fiquei observando-o entrar no carro e rapidamente ir embora, e fechei a porta. Um sorrisinho idiota estava estampado em meu rosto, mas bastaram alguns segundos para que ele se esvaísse e a preocupação tomasse seu lugar. Me sentei no sofá, fitando minhas próprias mãos, e comecei a formular meu discurso. A dor de cabeça ainda se fazia presente, mas nem se comparava ao tamanho de minha preocupação e medo diante de meu próximo desafio.
Nenhuma das dificuldades e obstáculos pelos quais eu havia passado e ainda teria de passar me pareciam piores que a reação de minha mãe.
Estava em alguma outra dimensão, alienada demais com os milhares de pensamentos em minha mente para ter noção do tempo, quando ouvi a maçaneta da porta girar. Meu coração pareceu parar por um momento, congelado de nervoso.
- Boa sorte – sussurrei para mim mesma, respirando fundo e ficando de pé a tempo de ver mamãe entrar. Era agora ou nunca.
- Oi, filha! – ela sorriu, trancando a porta por dentro – Você parece melhor... Como foi a sua tarde?
Sinceramente?
- Já tive melhores – respondi, sendo honesta de certa forma, sem conseguir retribuir o sorriso. Notando meu jeito estranho, mamãe parou a alguns passos de mim, me olhando com um pouco de receio.
- O que houve? – ela perguntou, colocando sua bolsa no sofá – Que carinha é essa?
Respirei fundo mais uma vez, necessitada de oxigênio para me acalmar, e dei o primeiro passo rumo ao meu desastre.
- Mãe... Eu tenho uma coisa pra te falar – comecei, sentindo meu coração disparar e meu corpo esquentar de tão nervosa que estava.
- Ah, não... – mamãe suspirou, levando as mãos ao peito com a expressão um tanto horrorizada – Você está grávida!
Franzi a testa, sem compreender seu pavor antecipado, e tratei de desfazer o mal entendido.
- Não, mãe, não é isso...
- Está usando drogas? – ela chutou novamente, mantendo o olhar aterrorizado, e se não estivesse tão nervosa, teria rido horrores.
- Claro que não! – falei, revirando os olhos.
- Não me diga que está pensando em abandonar os estudos e ir morar com um namoradinho do colégio num trailer no Texas! – ela disse, ainda mais chocada, e eu me irritei.
- Será que eu posso falar o que é de uma vez ou você vai continuar com esses palpites sem sentido? – bufei, e ela abandonou a expressão de horror, adotando uma séria – Obrigada.
- Desculpa, filha... É que eu me assustei com esse seu jeito sério – ela murmurou, e eu esbocei um rápido sorriso compreensivo – Pode falar, querida, o que foi?
Hesitei por alguns segundos, ainda ponderando a hipótese de desistir, mas eu sabia muito bem que não podia. Ou ela saberia por mim ali e agora, ou teria uma bela surpresa na manhã seguinte, na sala da diretora. E eu preferia cometer pelo menos um ato de honestidade em consideração a ela.
- Eu... Estou namorando – foi só o que consegui dizer, fechando os olhos por alguns segundos e me amaldiçoando por minha falta de coragem de completar a frase.
- Oh, meu Deus! – ela sorriu, parecendo aliviada – Era só isso, meu amor? Que susto! Pensei que era algo mais sério!
Abri os olhos, vendo-a me encarar com alegria, e esperei que ela fizesse a pergunta que provavelmente reverteria toda aquela situação.
- Quem é o sortudo?
Sustentei seu olhar, engolindo em seco. Não havia mais como fugir.
- Meu professor de biologia – respondi, completamente apavorada.
Mamãe não esboçou reação. Não a princípio.
Meus olhos estavam bem abertos e fixos em seu rosto, agora com um sorrisinho congelado que aos poucos se desfazia. Minha garganta fechou, meu coração batia freneticamente, minha respiração havia parado por alguns segundos, mas tudo que eu conseguia fazer era encarar mamãe, esperando que a ficha caísse.
Imaginei que ela levaria algum tempo para absorver o impacto.
- Uau... Isso... Isso é verdade? – ela riu, bastante chocada, mas ainda não havia repreensão em sua voz – Você está mesmo namorando seu professor?
Nervosa demais para abrir a boca, apenas assenti.
O sorriso de mamãe não desapareceu de vez assim que reafirmei minha revelação, como eu imaginei que desapareceria. Por um segundo, cogitei a hipótese de minha mãe estar usando drogas.
- Quantos anos ele tem? – ela perguntou, cerrando os olhos de uma forma interessada. O que diabos estava acontecendo? Cogumelos alucinógenos no cardápio da empresa?
- Trinta – respondi, vendo-a assentir devagar, processando a informação, e a poupei do cálculo - Ele é treze anos mais velho que eu.
Mamãe ficou em silêncio por alguns segundos, e eu não ousei quebrá-lo. Eu temia ser atacada a qualquer segundo, por isso me mantive na defensiva. Aquela reação inicialmente conformada não era a que eu estava esperando, me colocava em território completamente desconhecido.
- Há quanto tempo? – ela indagou, mantendo a bizarra naturalidade – Digo, há quanto tempo vocês estão namorando?
- Quase dois meses – falei, mal conseguindo piscar de tão alerta. Onde estava o momento em que ela se jogaria sobre mim e arrancaria todos os meus cílios com uma pinça? A qualquer momento agora, talvez.
- Hm... – ela voltou a assentir, e ergueu rapidamente as sobrancelhas – Ele é um bom rapaz? Quer dizer... Homem? Argh, isso é esquisito... Você entendeu.
Franzi a testa, sem saber como respondê-la. Eu estava completamente desprevenida.
- Erm... Que eu saiba, sim – balbuciei, vendo-a me olhar como se estivéssemos conversando sobre os bíceps do vizinho gostoso – Ele é bastante, hm... Gentil.
Ah, tá. Gentil não era um adjetivo exatamente abrangente para descrever Pe, mesmo que ele tivesse seus momentos. Mas tudo bem, eu estava ocupada demais tentando decifrar a reação de mamãe para pensar naquilo.
- Isso é bom... Gentileza é importante – ela comentou, aproximando-se de mim sem pressa, e eu me preparei para perder um braço no maior estilo Kill Bill ou algo parecido – Imagino que vocês já... Bem, vocês já dormiram juntos, certo?
- Mãe... Aonde você quer chegar? – perguntei, sem conseguir mais controlar meu nervosismo e me sentindo horrivelmente desconfortável com o rumo da conversa – Por que todas essas perguntas? Quer dizer... Eu estava esperando uma reação muito mais...
- Violenta? – ela completou, esboçando um sorrisinho quase divertido, e eu apenas pisquei algumas vezes, sem saber o que pensar.
- Talvez – confessei, completamente confusa. Mamãe fechou os olhos por alguns segundos, soltando um risinho, e segurou minhas mãos, levando-me para o sofá, onde nos sentamos.
- Eu imagino o quão estressantes esses dois últimos meses devem ter sido pra você, querida – ela suspirou, colocando minhas mãos entre as suas e me olhando com compreensão – Mas não precisava ter sido desse jeito. Fico muito feliz por você ter me contado hoje, foi muito corajoso da sua parte... No entanto, preciso confessar que já desconfiava de que havia algo por trás das temporadas na casa da Manuela.
Esbocei um sorrisinho extremamente sem graça, sentindo minhas bochechas esquentarem, e mamãe me lançou um olhar empático. Aquilo estava realmente acontecendo ou eu havia desmaiado e estava delirando?
- Nós, mães, criamos nossos filhos para o mundo – ela prosseguiu, alternando olhares entre nossas mãos e meu rosto – Com você não é diferente. A cada dia que passa, eu me dou conta de que você é menos minha e mais sua... A cada dia, o seu espaço e a sua privacidade se tornam muito maiores do que eu jamais vou poder acompanhar, e eu entendo isso. É completamente normal e saudável que você amadureça dessa forma. Enfim, o que eu quero dizer com todo esse papo furado é que eu agradeço por você ter me contado, muito mesmo. Apesar de saber que eu poderia sentir muita raiva, você não fugiu de mim, porque temos muita confiança uma na outra. E essa é uma das maiores lições que uma mãe pode ensinar a um filho. Estou orgulhosa dessa prova de que você está amadurecendo... Deixando de ser a minha garotinha para se tornar uma mulher independente, que sabe o que é melhor pra si.
Mamãe manteve o sorriso compreensivo, e só então eu me dei conta de que tinha chances concretas de continuar viva e inteira após aquela conversa. Toda a tensão daqueles últimos tempos estava se esvaindo lentamente, e eu me sentia mais leve a cada segundo. O apoio dela era tudo o que eu precisava para ser verdadeiramente feliz, e agora que eu o estava recebendo, todos os problemas pareciam cada vez menores.
- Obviamente, eu estou morrendo de medo disso – ela confessou, e ambas sorrimos de um jeito nervoso – Eu posso ser bastante liberal, mas ainda sou mãe, e mães têm uma certa fobia em relação a tudo que possa representar perigo para seus filhos. Portanto, sim, eu estou muito assustada com o fator idade e pretendo conhecer e investigar direitinho esse seu namorado. Mas eu não posso simplesmente enfiar a mão na sua cara e te botar pra fora de casa por causa disso... Sabe por quê?
Neguei com a cabeça, focando toda a minha atenção em suas palavras, e ela continuou:
- Porque a primeira coisa que você faria seria procurá-lo... Estou errada?
Sorri junto com ela, totalmente desconcertada, e neguei novamente.
- Qual seria a minha atitude como mãe deixando minha filha nas mãos de um homem que eu não conheço? – ela perguntou, erguendo as sobrancelhas e entortando a boca por alguns segundos – Eu seria uma completa desnaturada, sem dúvida alguma. Não é certo te punir por gostar de alguém mais velho. O amor não escolhe endereço, sexo, religião... Muito menos idade. E eu sei muito bem disso.
- Sabe? – murmurei, intrigada, e ela assentiu com um sorriso.
- Acha que nunca me apaixonei por um professor? – mamãe riu, e eu a acompanhei – É claro que já. Várias vezes, por sinal. Chorava porque eles nunca me notavam, me derretia toda só de conversar com eles, até tinha vergonha de simplesmente olhar pra eles... Acredite, eu era patética. E assim como nós duas, praticamente toda garota se apaixona loucamente por um professor. Faz parte da explosão de hormônios que acontece na adolescência.
Concordei com a cabeça, apertando sua mão e sentindo como se um peso enorme tivesse sumido de meus ombros.
- Além do mais, seu pai é oito anos mais velho que eu, esqueceu? – ela ressaltou, e eu ergui as sobrancelhas, só então me recordando disso – Quando nos conhecemos, eu tinha 19 e ele, 27. Mesmo com nossa diferença nem tão significativa aparentemente, enfrentamos um certo preconceito. Sua avó não aceitou durante os primeiros meses, mas quando eu disse que iríamos nos casar, dois anos depois, ela percebeu que nós nos amávamos de verdade e passou a aceitar muito bem os oito anos entre nós.
Assenti, refletindo sobre o que ela havia dito. Naquele momento, imaginei como estaria meu pai em Aberdeen, casado com sua nova esposa após a separação de mamãe.
Provavelmente, lidando muito bem com os dez anos de diferença entre ele e minha madrasta. O pensamento me fez sorrir, e me lembrou de que eu estava devendo uma visita a eles desde as férias de verão passadas.
- Obrigada por me compreender – agradeci baixinho, encarando-a com toda a minha sinceridade e gratidão – Eu juro que quis te contar desde o princípio, mas tive muito medo.
- Não precisa se desculpar, meu amor – ela disse, sorrindo compreensivamente – Namorado nenhum nesse mundo vai te amar mais do que eu, portanto confie em mim pra tudo, eu vou te apoiar seja no que for. Até mesmo se estiver grávida, usando drogas... Mas quanto à parte do trailer no Texas, nem pensar.
- Obrigada – falei, dando risada de sua careta ao finalizar a frase, e ela se empertigou no sofá, como se estivesse embaraçada com o que estava prestes a dizer.
- Já que estamos resolvidas quanto a isso... E se você me perdoa a curiosidade, eu... Bem, eu quero saber de tudo – mamãe confessou, dando um sorrisinho sem graça, e eu engoli em seco – Como começou, o que aconteceu... Só corte os detalhes mais sórdidos, por favor.
Hesitei antes de respondê-la. Talvez o pior ainda estivesse por vir.
- Eu não sei se você vai gostar disso... – respirei fundo, resgatando minha coragem e determinação para narrar os verdadeiros acontecimentos dos últimos meses, até mesmo os menos gloriosos – Mas eu prometi a mim mesma que você saberia de tudo por mim, antes de possivelmente ouvir versões de outras pessoas.
Mamãe franziu a testa diante de minha seriedade, e eu comecei.
Expliquei toda a história, desde breves perfis dos dois até os recentes acontecimentos em relação ao meu rompimento com Pepe. Não alterei nenhum detalhe, determinada a ser totalmente verdadeira com mamãe. Mesmo tendo demonstrado muita compreensão, eu não sabia como ela reagiria diante de todas aquelas revelações, e eu não pretendia mais mentir para ninguém. Muito menos para ela. Mesmo que isso fosse mudar completamente sua reação diante da situação.
- Deixe-me ver se entendi direito – ela disse, quando eu terminei de falar, concentrada em organizar os fatos em sua mente – Você namorou por um tempo com um, mas acabou traindo-o com o outro e se apaixonando por ele. Quando você já não agüentava mais toda essa culpa e estava finalmente disposta a ficar apenas com o amante, descobriu que o outro um tinha uma noiva desde o começo, e agora ele está disposto a tudo para te prejudicar porque descobriu que estava sendo traído?
- Basicamente, sim – assenti, levando alguns segundos para compreender o resumo confuso que ela havia feito e sentindo-me novamente nervosa diante dela. Agora sim eu estava quase certa de que receberia alguns golpes de luta livre ou seria submetida a algum tipo de tortura chinesa.
Mamãe ficou quieta por alguns minutos, compenetrada em algo que eu não estava enxergando na altura de seu joelho, e eu não ousei interromper seu devaneio. Era informação demais para uma noite só.
- Meu Deus... Minha filha é uma femme fatale e eu nem fazia idéia disso – ela murmurou, quando já parecia um pouco mais adaptada aos fatos, e me encarou com o olhar levemente perdido – Quer dizer... Dois de uma vez?
Baixei meu olhar, sentindo uma vergonha infinita, mas mamãe não me deu tempo suficiente para mergulhar nela.
- Se eu te disser que isso é algo fora do comum, vou ser honesta e mentirosa ao mesmo tempo – a ouvi continuar, e reergui meus olhos até os dela, agora um pouco mais focados – Não é todo dia que uma aluna conquista dois professores assim, mas traições inevitáveis acontecem todos os dias, assim como a Manuela te disse.
Ela fez uma breve pausa, buscando as palavras, e eu me concentrei em não parar de respirar, por mais tensa que eu estivesse.
- Isso tudo que você me contou... É passado, certo? Você e o Pe estão juntos de verdade agora, e não há chance alguma de Pepe retomar seu antigo posto? – ela perguntou, e eu confirmei sem hesitar – Ótimo. Você se meteu numa bela saia justa, mas pelo visto tomou a sua decisão e não pretende cometer o mesmo erro.
- De preferência, nunca mais – reforcei, realmente traumatizada, e mamãe esboçou um sorrisinho.
- Bom, eu não vou dar mais nenhum discurso filosófico por hoje, não estou conseguindo nem me lembrar do meu nome. Minha cabeça vai começar a doer daqui a pouco, e eu ainda tenho muito para digerir e concluir essa noite – ela disse, sem uma expressão muito bem definida – Só o que eu te digo é: se você esperava que eu te expulsasse de casa e arrancasse o seu rim pela boca... Infelizmente não foi dessa vez. Eu não estou te odiando nem com vergonha de você, só preciso formar uma opinião concreta sobre tudo isso... Está tudo bem, de verdade. Amanhã conversaremos de novo e eu vou saber exatamente o que te dizer, pode ser?
- C-claro – gaguejei, sentindo pela segunda vez um alívio imensurável me preencher devagar, e mamãe me deu um beijo na testa. Eu tinha uma certa noção de que ela era liberal e compreensiva, mas não tanto.
- Vou tomar um banho, começar a acomodar tudo isso na minha cabeça... A água quente vai me ajudar, tenho certeza – ela falou, levantando-se e indo até as escadas com um sorrisinho no rosto – Ah, sim, pode ligar pro Pe agora dizendo que está viva. E diga a ele que está intimado a vir jantar conosco nesse sábado. Vou preparar a melhor mousse de chocolate da história pra sobremesa.
Dei um risinho divertido, vendo-a subir os degraus, e fiquei paralisada por alguns segundos, completamente incrédula.
Eu tinha ouvido errado ou minha mãe acabara de dizer que ia fazer mousse de chocolate especialmente para Pe?
Talvez eu estivesse usando drogas sem saber disso. Eu já devia saber que o bebedouro da escola não era confiável.
Me mantive imóvel por mais um tempo, atordoada demais para me mover, e assim que fui capaz, peguei o telefone e disquei o número de Pe.
- Alô? – ele atendeu, no primeiro toque. Demorei algum tempo para finalmente abrir a boca.
- Eu... Eu tô viva – murmurei, sem saber exatamente o que pensar.
- Deu tudo certo? – o ouvi perguntar, eufórico, e eu assenti, esquecendo-me de que ele não me via.
- Sim... Pelo menos foi o que ela me disse – respondi, tropeçando um pouco nas sílabas – Ela até te... Convidou pra jantar no sábado.
- Pois diga a ela que eu estarei aí – ele comemorou, rindo de um jeito aliviado e divertido - Eu disse que ia ficar tudo bem, não disse?
Somente após ouvir o que ele havia dito, consegui sair de meu transe e me dar conta do que havia acontecido.
Tudo ficaria bem agora. Eu tinha o apoio de todos que realmente eram importantes para mim, e não precisava mais enganar ninguém.
Quanto a Pepe? Bom... Ele ainda era um problema. Mas agora eu podia enfrentá-lo com toda a minha força, sem precisar desviá-la para nenhuma outra pendência.
Pela primeira vez desde que toda aquela confusão começara, eu me sentia verdadeiramente forte.
- É... Você disse mesmo – sorri, sentindo uma certa dose de ansiedade e segurança circulando em minhas veias – Está tudo bem.
Me sentei em minha carteira, abrindo meu caderno e tirando o estojo da mochila. Por uma razão que tinha nome, sobrenome e sede de vingança, eu estava alerta, apesar da noite mal dormida devido à tensão e ansiedade que ainda me atormentavam.
Manuela, já a par de todos os acontecimentos da noite anterior (ligações noturnas são um certo costume entre nós, ainda mais em situações como aquela), me pedia calma. Tudo vai dar certo, nós estamos do seu lado, ela dizia.
Ok. Pode até ser.
Mas ainda assim, meu estômago insistia em contorcer-se a cada dez segundos, lembrando-me do mau pressentimento que apitava como uma bomba-relógio no fundinho de minha mente há dois dias.
Onde foi parar aquela dose de segurança que estava bem aqui ontem?
Um grupo de garotas rindo um tanto escandalosamente entrou na classe, parcialmente vazia devido ao constante atraso da maioria dos alunos, e em alguns dias, dos próprios professores, que costumavam enrolar um pouco antes de finalmente iniciarem seu dia de trabalho. Fingi anotar algo em meu caderno, mas pude sentir os olhares delas ardendo sobre mim, cheios de maldade. Me concentrei em minha respiração, tentando me manter calma, mas bastou uma espiada de canto de olho para que um nó se formasse em minha garganta.
Kelly Smithers não havia entrado na sala junto com suas melhores amigas, como ela fazia todos os dias... Sem exceção.
Não poderia haver nenhum tipo de irregularidade nisso, sendo que eu a havia visto no pátio antes de subir, certo? Talvez ela estivesse se amassando com algum parrudão do time de futebol e pretendendo matar a primeira aula... Pela primeira vez em toda a sua vida escolar.
É. Isso. Certo. Sem pânico. Não há o que temer.
- Carol Trevisan? – o inspetor perguntou, colocando a cabeça para dentro da sala de aula, e eu pulei na cadeira, assustada ao ouvir meu nome.
- E-eu – respondi, erguendo discretamente a mão, e ele me encarou com a expressão indiferente.
- A diretora me pediu pra te chamar – ele disse, e imediatamente todas as amigas de Kelly fincaram seus olhares em mim – Ela quer conversar com você na sala dela.
Prendi involuntariamente a respiração por alguns segundos, encarando o inspetor que começava a estranhar minha demora, e tudo que consegui fazer foi assentir, levantando-me e indo até a porta com a mente em branco. Talvez eu tivesse atingido um nível tão alto de tensão que boa parte de meus neurônios tivessem morrido fritos.
- Boa sorte, vadia – uma das garotas do grupinho maldoso murmurou quando passei por ela, me encarando como se eu fosse uma serial killer a caminho da injeção letal – Você vai precisar.
Franzi a testa, sem saber como reagir, e apenas continuei andando até o corredor, descendo as escadas rumo à diretoria. Minhas pernas tremiam e meu rosto estava congelado numa expressão vazia, mas meus músculos continuavam me levando até a sala na qual a diretora me esperava por algum motivo. Eu não era exatamente o tipo de pessoa masoquista, por mais que isso seja duvidoso de vez em quando, mas inexplicavelmente, eu sentia que meu corpo agora me guiava na direção do olho do furacão.
Parei à porta da diretoria, ainda num estado de hipnose. Encarei a maçaneta, sem coragem de tocá-la, mas algo fez com que minha mão fosse mecanicamente até ela e a girasse, abrindo a porta e revelando quatro pessoas dentro dela.
- Olá, senhorita Trevisan – a diretora Maggie Scott disse, indicando a única cadeira vazia em sua pequena sala com um gesto de cabeça – Sente-se, por favor. Receio que tenhamos alguns assuntos a esclarecer... E pelo que eu estou vendo, isso vai nos tomar um bom tempo.
Fixei meus olhos nela por alguns segundos, sentindo o mau pressentimento explodir dentro de meu peito, e logo desviei meu olhar do dela. Havia mais três olhares sobre mim, e cada um deles roubou minha atenção por um curto período de tempo, deixando-me zonza com as cargas emocionais tão divergentes que transmitiam.
Diante da mesa da diretora Scott, Pedro Lanza, Pedro Munhoz e Kelly Smithers me fitavam, todos com enorme intensidade.
Porém, com intenções bem diferentes.
Capítulo 35
opcional: coloquem Pixie Lott – Band Aid pra carregar e dêem play quando a letra começar
opcional: coloquem Pixie Lott – Band Aid pra carregar e dêem play quando a letra começar
Respire.
Mantenha a calma.
Pense.
Tudo vai dar certo.
Agora... Hora de reagir.
Voltei a fixar meus olhos na diretora, e entrei na sala, fechando a porta atrás de mim. Caminhei rapidamente até a cadeira vazia, que graças a Deus, ficava na ponta, ao lado da de Pe. Pelo menos eu não precisaria ficar perto de Pepe, muito menos de Kelly.
- Imagino que saibam por que estamos aqui, certo? – a diretora Scott disse, olhando para mim e para Pe, que assentiu – Não deve ser surpresa para nenhum dos dois o fato de que o professor Munhoz fez algumas acusações a seu respeito, então.
Engoli em seco, vendo-a nos encarar incisivamente. Um silêncio tenso caiu sobre nós, até que Pe o quebrou.
-Ainda assim, eu gostaria de ouvir o que o professor Munhoz tem a dizer – ele falou, extremamente sério, e ela ergueu uma sobrancelha, como se achasse seu pedido uma perda de tempo – Receber uma punição sem ouvir as acusações seria o mesmo que assinar um contrato sem lê-lo.
Após alguns segundos de reflexão, a diretora pareceu convencer-se.
- Por favor, professor Munhoz, repita o que me disse há pouco – ela assentiu, voltando seu olhar para Pepe, assim como todos nós. Ele me lançou um rápido olhar antes de começar a falar, e eu me senti estranhamente enjoada.
Talvez prevendo o que viria.
- Eu fui ameaçado.
Franzi a testa, sem me recordar do momento em que tal fato havia acontecido. Talvez porque ele não tenha acontecido.
- Ela sempre teve essa obsessão por mim, desde que comecei a dar aulas para a sua turma – Pepe prosseguiu, e eu senti que precisaria de muito esforço para que meu café-da-manhã, ainda sendo digerido em meu estômago, não fosse parar sobre a mesa da diretora – Eu sempre tentei evitar qualquer tipo de aproximação desnecessária, até o dia em que ela se cansou de meu comportamento profissional e ameaçou me acusar de abuso sexual se eu não aceitasse um relacionamento íntimo.
Meu rosto estava congelado numa expressão incrédula, ultrajada e revoltada. Eu só podia estar delirando... Não havia outra explicação plausível.
- Eu preciso do emprego, não tenho a vida ganha – ele continuou, com a expressão inocente, e minhas mãos se fecharam em punhos em torno dos apoios laterais da cadeira – Por isso, temendo que ela realmente me denunciasse, eu aceitei sua condição, mas sempre pensando numa forma de fazê-la voltar atrás e retirar sua ameaça. Felizmente, após algum tempo, convencida de que eu jamais poderia retribuir seus sentimentos, ela me libertou de sua chantagem. Infelizmente, porém, seu foco desviou-se para outro professor.
- No caso, o professor Lanza – a diretora disse, e Pepe assentiu. Meus olhar estava inconscientemente cravado nele durante todo o seu falso depoimento, e eu não me surpreenderia nem um pouco se ele e Kelly começassem a pegar fogo dali a alguns segundos devido ao meu ódio. Olhei rapidamente para Pe, vendo-o encarar a mesa com o rosto isento de expressão.
Ele já esperava truques baratos como aquele. Eu também já. Mas não tão baratos como simplesmente jogar toda a culpa para cima de mim. E ainda por cima, trazer Kelly, cuja presença eu ainda não entendia.
- Não foi muito difícil para ela fazê-lo corresponder seus sentimentos, já que seu histórico entre as alunas do colégio sempre foi bastante comentado – ouvi Pepe falar, e decidi adotar a tática de Pe e não olhar mais para ninguém; mantive meus olhos baixos e o maxilar trancado, recusando-me a assistir àquele momento deplorável - E honestamente, diretora, eu não creio que seja esse o tipo de profissional que uma instituição de ensino tão renomada queira ter em seu corpo docente. Além do fato de que a srta. Trevisan claramente necessita de suporte psiquiátrico, afinal, ninguém em seu perfeito estado mental faria o que ela fez.
Vai pro inferno, desgraçado, minha consciência dizia, e eu respirei fundo para não externar as palavras. Virei meu rosto na direção oposta à de Pepe e todos os outros presentes, sentindo meu corpo inteiro queimar de ódio. Filho de uma senhora puta.
- O que os senhores têm a dizer? – Maggie perguntou alguns segundos depois, e nem precisei olhá-la para saber que se referia a mim e a Pe. Ele suspirou, preparando-se para falar, porém as palavras simplesmente irromperam de minha boca, sem que eu sequer me desse conta de que elas estavam subindo por minha garganta.
- Se eu dissesse que é tudo mentira e que quem precisa de suporte psiquiátrico é ele, a senhora acreditaria em mim?
A diretora piscou algumas vezes, surpresa com a minha resposta rápida, e eu a encarei com determinação. Se ele achava que conseguiria nos afundar sem que eu lutasse contra isso, estava muito enganado. Ele podia ter sua determinação, mas ela nem se comparava à minha.
Eu tinha por quem lutar. Ele só tinha a si mesmo.
- Acreditaria – ela disse, devolvendo meu olhar determinado com firmeza – Se fosse apenas a sua palavra contra a do sr. Munhoz. O que não é o caso.
Cerrei levemente meus olhos, sem entender, e foi então que uma quinta voz finalmente se pronunciou, explicando o motivo de sua presença.
- Eu vi o professor Lanza e a Trevisan se beijando no laboratório de biologia – Kelly mentiu, me lançando um olhar de censura. Fechei meus olhos por um breve momento, soltando um risinho descrente, e voltei a baixar meu olhar. Sério mesmo, Smithers?
- Há uma testemunha contra vocês – a diretora observou, entrelaçando seus dedos por sobre a mesa – E isso não pode ser ignorado.
- É mentira – Pe se pronunciou, sem perder a inexpressividade, porém com muita certeza do que dizia – Nós nunca fizemos nada nos laboratórios. Mesmo que ela seja uma suposta testemunha, é a minha palavra contra a dela.
- Ah, é? E você tem como provar que seu argumento é verdadeiro? – Kelly perguntou, esquecendo-se de comportar-se educadamente.
- Você tem como provar que o seu é? – rebati, encarando-a com desprezo e destruindo sua autoridade num segundo. Pe não estava sendo totalmente sincero, mas nunca havíamos sido flagrados no laboratório, sempre nos precavíamos. Aquele testemunho era absolutamente inconcebível.
- Com licença, diretora Scott – ouvi uma voz masculina dizer da porta, e todos nos viramos para ver o inspetor – Desculpe interromper.
- Tudo bem – ela bufou, incomodada com a intervenção – O que houve?
- A mãe de uma aluna acabou de ligar para a secretaria – ele explicou, e eu franzi a testa ao ver duas cabecinhas familiares por sobre seu ombro – Ela disse que está vindo para o colégio falar com a senhora.
Prestei pouca atenção em suas palavras, mais concentrada em saber o que raios Manuela fazia do lado de fora da secretaria, acenando discretamente para mim e acompanhada de Amy Houston. Totalmente confusa, olhei rapidamente para Pe, que ostentava a mesma expressão perdida que eu.
- Esta manhã eu não posso atender mais ninguém – a diretora falou, balançando negativamente a cabeça – Peça a ela para vir amanhã.
- Com licença, diretora – Manuela chamou da porta, e o inspetor pareceu irritado com a intromissão – A mãe que está vindo é a dela.
Arregalei os olhos ao vê-la me indicar com um aceno de cabeça, e olhei novamente para Pe, recebendo um olhar surpreso de volta. Pelo visto, ele não sabia muito mais do que eu, e isso me confortava de certa forma.
- A sra. Trevisan? – Maggie perguntou, e logo após ver Manuela assentir, ela dirigiu seu olhar para mim – Ela sabe de tudo isso?
- Ela sabe a verdade – corrigi, encarando a diretora com firmeza – E tudo isso não é a verdade.
- Ela não é a única – novamente Manuela disse, olhando com certa indignação para o inspetor que bloqueava a porta, e logo em seguida invadindo a sala com Amy em seu encalço – Eu e a srta. Houston também sabemos.
Olhei para Manuela, em pânico, e a vi esboçar um sorriso satisfeito. Com toda a certeza do mundo, eu havia perdido algo.
- Pois não, senhoritas – a diretora Scott assentiu após alguns segundos de hesitação, e dispensou o inspetor com um aceno de mão – Sou toda ouvidos.
- Se incomoda em começar? – Manuela perguntou, virando seu rosto para Amy, assim como todos os outros presentes. Notando que era o centro das atenções, ela respirou fundo antes de falar.
- Eu ouvi uma conversa entre os dois há alguns meses... Numa sala vazia – ela começou, parecendo tímida, porém bastante certa do que dizia – Eu saí da sala para ir à enfermaria tomar um comprimido para dor de cabeça, e assim que apareci no corredor, vi o professor Munhoz puxando Carol pela mão para uma sala perto dos banheiros. Fiquei curiosa e me aproximei para ouvir a conversa deles por trás da porta, e só consegui escutar alguns pedaços. E bem... Eu ouvi claramente o professor Munhoz dizer que queria beijá-la.
- Eu não admito que uma aluna faça uma acusação dessas sem poder provar! – Pepe exclamou, exaltado, e a diretora ergueu uma mão, ordenando que ele se acalmasse.
- Ninguém aqui tem provas concretas, professor – ela esclareceu, olhando para Amy em seguida – A senhorita tem certeza do que disse?
- Absoluta – Amy confirmou, e só então eu me dei conta de que mal respirara desde que ela começara a falar. Se eu não estava enganada, aquele momento ocorrera no dia seguinte ao nosso primeiro beijo. Como fomos tão descuidados a ponto de permitir que alguém nos visse e ouvisse?
Minha mente mergulhou em questionamentos, mas parte dela manteve-se atenta a tudo que acontecia à minha volta. A diretora assentiu, respirando fundo, e olhou para Manuela.
- E a senhorita... O que tem a dizer?
- Será que eu posso me sentar? – ela perguntou, fazendo uma caretinha, e eu quase ri da forma confiante através da qual ela lidava com a situação – A história é um pouco longa, e eu faço questão de ser bem detalhista.
- Eu vou buscar duas cadeiras em alguma sala vazia – Pe se ofereceu, levantando-se antes mesmo que a diretora se pronunciasse, e todos se mantiveram quietos até que ele retornasse.
- Muito obrigado, professor, o senhor é muito gentil – Manuela agradeceu enquanto ela e Amy se acomodavam, sorrindo para Pe e logo em seguida lançando um rápido olhar de desprezo para Pepe – Agora eu posso contar tudo. Hm... Por onde começo?
Quinze minutos se passaram, durante os quais a voz de Manuela fora praticamente soberana na sala. Apenas a diretora fazia algumas perguntas, que eram muito bem respondidas, enquanto o resto dos presentes, incluindo eu, ouvia em silêncio. Observei o rosto de Pepe, já um pouco nervoso diante de todo o relato verídico e convincente de Manuela, e meu coração acelerou. Desviei os olhos para Pe, que olhava atentamente de Manuela para a diretora, e então olhei para Amy, cochilando sobre o próprio ombro. Típico.
- Com licença, diretora Scott – o mesmo inspetor interrompeu, e todos nós o olhamos – A sra. Trevisan acabou de chegar.
- Peça-a para entrar, por favor – Maggie pediu, e meu coração quase parou ao ver minha mãe entrando, poucos segundos depois, na pequena sala já tão cheia de gente.
- Bom dia, diretora – ela sorriu, sem o menor sinal de nervosismo ou raiva, e logo em seguida olhou para Pe – Olá, querido. Como vai?
- Bem, e a senhora? – ele disse imediatamente, sorrindo de maneira amigável, e ela assentiu, respondendo-o.
Espera um pouco aí.
O que diabos eu havia perdido afinal? Eu tinha ficado desacordada por algumas semanas? Desde quando minha mãe conhecia Pe?
- Bom dia, sra. Trevisan – a diretora cumprimentou, alguns segundos depois, parecendo tão pega de surpresa com a simpatia entre os dois quanto eu e Pepe, que mal conseguia disfarçar sua indignação – Por favor, sente-se.
- Fique à vontade – Pe adiantou-se, ficando de pé e fazendo um gesto para que minha mãe ocupasse o seu lugar.
- Muito obrigada – mamãe falou, obedecendo-o e dando um breve sorriso para mim enquanto Pe parava atrás de minha cadeira e apoiava suas mãos no encosto dela. Apenas pisquei, olhando para Manuela e vendo-a prender um sorrisinho. A voz da diretora me trouxe de volta à realidade, e eu me concentrei para guardar minhas dúvidas e prestar atenção nela.
- Pois bem... A que devo sua presença?
- Primeiramente, eu trouxe alguns bilhetes que encontrei no criado-mudo de minha filha – ela começou, mexendo em sua bolsa e retirando alguns pedaços de papel dobrado dela, logo depois colocando-os sobre a mesa - São bilhetes do professor Munhoz, pelo que pude perceber. E se a senhora ler qualquer um desses, terá como se certificar de que a caligrafia é dele.
Encarei os bilhetes sobre a mesa, totalmente perplexa. Como minha mãe os havia descoberto? Tentando encontrar uma resposta racional, apenas observei a diretora abrir um deles e lê-lo em voz alta:
Tenho uma surpresa pra você nesse fim de semana. Pode ir se preparando, vou te seqüestrar de sexta a domingo! Te amo.
Eu ainda me lembrava desse. Ele havia me dado antes de irmos à casa de praia. Olhei rapidamente para Pepe, e por um segundo o choque e o pânico percorreram seu rosto.
- Isso não prova nada – ele protestou, sem se deixar abater pela súbita prova contra si – Quem garante que eu os escrevi, mesmo se a caligrafia for minha? Esses bilhetes podem ter sido forjados! E mesmo que eu os tivesse escrito, quem prova que foram para ela?
A diretora não reagiu, apenas analisou os outros bilhetes em silêncio. Lancei um rápido olhar a Manuela, que piscou para mim, e senti uma ansiedade enorme me preencher. Tinha dedo dela naquilo, sem dúvida.
- O senhor tem como confirmar que não são seus? – Maggie perguntou a Pepe, imparcial, e ele simplesmente se manteve imóvel, sem a capacidade de responder – Então eles são até que possa provar o contrário.
- Eu vim para colocar um ponto final nessa história – mamãe disse, objetiva e cordial – Todos já estamos muito bem informados sobre as várias versões dos fatos, e meu posicionamento quanto a elas é mais do que nítido. Portanto, agora a decisão está em suas mãos, Scott. Que medidas serão tomadas?
- O colégio tem regras, sra. Trevisan – Maggie suspirou, recostando-se em sua cadeira – Diante dos fatos apresentados, preciso acatar à que melhor enquadrar os acontecimentos.
- Que seja... Minha filha não será prejudicada, tenho certeza disso – minha mãe sorriu, como se agradecesse por uma xícara de chá, e todos na sala pareceram impressionados com a sutil, porém intensa persuasão em sua voz – A senhora é uma profissional muito prudente, saberá como punir as pessoas certas.
- Concordo plenamente – Pepe sorriu, sem se desfazer de sua pretensão apesar de praticamente encurralado, e mal completou sua frase, recebeu uma belíssima resposta de mamãe:
- Quando eu disse pessoas certas, estava me referindo a você.
- Por favor, sem ofensas – a diretora pediu, levando as pontas dos dedos às têmporas – Alguém mais tem algo a dizer?
Ninguém se pronunciou, e após um suspiro, ela prosseguiu:
- Bom, se não há mais nada a ser dito, peço a todos que se retirem. Ainda vou precisar de algumas informações e de alguns dias para analisá-las e tomar a decisão mais apropriada. Voltarei a entrar em contato em breve. Enquanto isso, uma coisa fica estabelecida: Lanza, você está afastado do corpo docente por tempo indeterminado.
- Por que só ele? – perguntei, franzindo a testa enquanto todos se levantavam.
- O professor Munhoz pediu demissão antes de fazer suas acusações – a diretora esclareceu, e eu me senti burra por não ter deduzido aquilo - E quanto à senhorita... Considere-se dispensada das aulas hoje. Amanhã conversaremos mais.
Todos assentimos, e nos retiramos da sala rapidamente.
- A senhora foi brilhante! – Manuela sussurrou em êxtase assim que fechei a porta da diretoria atrás de mim, batendo palminhas para minha mãe, que sorria de leve para ela – Botou todo mundo no chinelo!
- Minha filha não fez nada que possa ser julgado errado pelas regras da escola - a ouvi dizer, alto o bastante para que Pepe e Kelly, já a alguns passos de distância, também a escutassem – Estou com a consciência tranqüila.
- Seja como for, ela é uma vadia – Pepe cuspiu, encarando-a com raiva - Meus parabéns.
- E você é um broxa que não deu conta dela e a obrigou a procurar quem desse – Pe sorriu cinicamente, sem conseguir se conter, e Manuela caiu no riso. Pepe não respondeu, talvez para não se deixar tirar do sério, enquanto Kelly tentava acalmá-lo e nos olhava com desprezo conforme os dois desciam as escadas.
- Deixa pra lá – pedi, ainda um pouco atordoada, enquanto parávamos à frente do elevador. Amy já não estava mais conosco; eu mal a havia visto deixar a sala, mas não me importava muito com seu paradeiro. Ela já havia ajudado bastante para uma simples colega distante, e eu preferia agradecê-la num dia menos atribulado.
- Claro que não, é um absurdo um homem feito ser tão mal educado a esse ponto! – mamãe interferiu, apertando o botão do elevador com uma força excessiva – Ele errou tanto quanto você e ainda quer agir feito o dono da verdade? Oras!
Respirei fundo, tentando aliviar um pouco o peso da preocupação em minha cabeça. Não precisei de muito tempo para deduzir que a única coisa que me traria um pouco de satisfação seria saber que esquema havia sido armado para que até minha mãe surgisse na diretoria na hora certa. Precisei de menos tempo ainda para disparar tal pergunta.
– Será que agora alguém pode me explicar o plano maligno?
- Maligno? Só se for pro Pepe, amiga! – Manuela reivindicou, fazendo cara de brava, e eu sorri discretamente, ouvindo Pe e mamãe soltarem risinhos baixos – Não foi plano maligno nenhum, apenas coincidências convenientes. Eu cheguei cedo e resolvi subir para estudar um pouco. No caminho, encontrei o Pe, e ele me contou que a diretora o havia chamado à sala dela.
- Eu já sabia o que ela queria, porque vi Kelly e Pepe chegarem mais cedo que o normal e subirem juntos, aos sussurros... Obviamente, fiquei desconfiado – Pe continuou, aproveitando-se da pausa de Manuela - Quando o inspetor veio me chamar, poucos minutos depois, foi só ligar os fatos.
- Ele me disse o que estava acontecendo antes de entrar na diretoria e me pediu para avisar sua mãe – Manuela retomou, me fazendo sentir num desses filmes em que todas as armações são rapidamente reveladas uma atrás da outra no final – Liguei pra sua mãe, e como ela ainda estava em casa, pedi que ela trouxesse os bilhetes que você guardava na gaveta do criado-mudo. Enquanto isso, revirei o colégio procurando a Amy, porque já sabia que ela podia ajudar, e a convenci a vir comigo.
- Como você descobriu que ela sabia daquilo? – perguntei, um tanto chocada; eu realmente estava por fora dos acontecimentos – E por que não me contou?
- Na verdade, a própria Amy veio me contar, mas só há pouco tempo – ela respondeu, e eu arregalei os olhos – Disse que estava preocupada com você, mesmo sem te conhecer direito, e não sabia se eu estava por dentro da história. Eu não te contei porque você já estava com a cabeça cheia, e ela prometeu não contar a ninguém. Vamos combinar, a quem ela se sentiria interessada a contar isso? Ela nem sequer fala com as pessoas!
- Foi um risco mesmo assim – comentei, ainda sem acreditar na participação de Amy naquele rolo – Bom... De qualquer forma, já passou.
- Preciso voltar pra sala, mas antes passo na sua e pego seu material, está bem? – Manuela disse quando o elevador finalmente chegou, e eu agradeci com um sorrisinho fraco, aliviada por não precisar passar pelas piranhas amigas de Kelly e ouvir mais alguma gracinha a meu respeito - Me esperem na saída.
Ela subiu rapidamente os degraus, deixando que eu, Pe e mamãe seguíssemos a direção oposta de elevador.
- Os bilhetes e os nossos testemunhos são fortes demais contra os argumentos dele e a falsa acusação da Smithers – Pe opinou enquanto descíamos, e mesmo que eu concordasse com ele, estava insegura demais para conseguir externar isso – A sua mãe saber de tudo e vir aqui te defender rendeu muitos pontos a seu favor.
- Tem razão – assenti, olhando para mamãe e vendo-a sorrir calmamente – Obrigada por estar me apoiando... Mesmo que eu não esteja exatamente merecendo isso dessa vez.
- O que foi que eu te disse ontem? – ela perguntou, me abraçando e logo depois apertando meu nariz, o que fez com que Pe risse de minha careta involuntária – Desde que você não queira fugir para um trailer no Colorado, te dou meu apoio.
- Não era no Texas? – corrigi, sorrindo, e ela parou por um momento, pensando no caso.
- Os dois, na verdade – ela riu, e eu fiz o mesmo – Por acaso, você não tem um trailer, certo, Pe?
- Não, fique tranqüila – ele respondeu, e eu me lembrei de outra dúvida que surgira em minha cabeça dentro da diretoria.
- Aliás... Quando vocês dois se conheceram? – cochichei, temendo ser ouvida por pessoas desagradáveis enquanto atravessávamos o pátio rumo à saída da escola – Foi um tanto chocante ver os dois se cumprimentando como se fossem amigos lá dentro.
- Hm... Na verdade, nós não nos conhecemos – mamãe explicou, olhando para Pe e sorrindo de um jeito simpático – Mas eu deduzi quem ele era assim que cheguei, porque o outro estava com aquela garota pendurada no ombro. Logo, o que sobrou só podia ser o tal Pe Lanza. Foi aí que eu quis quebrar as pernas de todo mundo e cumprimentá-lo como se já nos conhecêssemos. Graças a Deus ele entendeu e entrou na encenação e a diretora ficou de queixo caído com a nossa suposta familiaridade. Foi arriscado, mas funcionou, e a propósito, obrigada!
- De nada – Pe riu, me deixando ainda mais impressionada com o esquema habilmente improvisado ao meu redor sem que eu sequer me desse conta dele – Foi uma idéia brilhante, sra. Trevisan.
- Mães se tornam gênios quando precisam defender os filhos – ela riu, e subitamente começou a revirar sua bolsa, como se seu celular estivesse tocando; e de fato, estava – Com licença, é do trabalho, preciso atender.
Mamãe se afastou um pouco, parando na calçada a alguns metros de nós, e assim que não era mais capaz de nos ouvir, Pe sussurrou ao pé de meu ouvido:
– Você está bem?
Suspirei, virando-me de frente para ele, e só quando meus olhos focalizaram os seus me dei conta do quanto aquela manhã havia sido tensa.
- Eu não sei – respondi, sendo bastante honesta – Tudo está se atropelando dentro da minha cabeça.
- É compreensível, foram emoções demais em pouco tempo – ele murmurou, acariciando meus ombros discretamente.
- Principalmente surpresas – ressaltei, arregalando um pouco os olhos ao me recordar de todas as barbaridades e choques pelos quais havia passado – Mal dá pra enxergar o antigo Pepe no de agora... Desde as atitudes até a fisionomia, tudo está diferente. Isso me assusta.
- Não precisa ficar assustada, não temos de que ter medo – ele murmurou, dando-me uma injeção de positivismo através de seu olhar e tom de voz – Olhe só a quantidade de evidências que apresentamos, contra apenas o suposto testemunho de Kelly! Além do mais, não temos nada a perder. Você se forma daqui a praticamente um mês, já tem notas boas o bastante para ser aprovada... E eu não faço mais questão de trabalhar aqui mesmo.
- Vou ser bem sincera ao dizer que me sinto culpada pela sua demissão, e de certa forma eu sou mesmo – confessei, vendo-o fazer cara de tédio – Mas nós já sabíamos que isso aconteceria caso a diretora tomasse conhecimento da verdade.
- Carol, ia ser bem bacana se você sorrisse e dissesse Parabéns, você está desempregado!, só pra variar – ele revirou os olhos, encurvando os ombros em desânimo e me fazendo rir baixo – Faz uma cara melhor, não são nem oito e meia da manhã e você já parece exausta!
- Bobão – resmunguei, sorrindo fraco de seu senso de humor inapropriado. Em resposta, ele enrugou o nariz, numa imitação perfeita (a não ser pelo nível maior de beleza) de minha expressão enfezada, e me abraçou apertado.
- Podemos nos abraçar em público agora! – ele sussurrou, empolgado, e eu alarguei meu sorriso, retribuindo seu gesto – Vamos poder ir ao cinema, passear, andar de mãos dadas, comprar lingerie...
- Ai, meu Deus, eu não ouvi isso – gargalhei, dando um tapinha em suas costas e afastando-me dele, notando que mamãe se reaproximava.
- Vamos, filha? – ela perguntou, um tanto apressada – Tenho que ir pro serviço, já estou atrasada.
- Hm... A senhora se incomoda se eu a levar? – Pe perguntou, sem jeito, e eu prendi um sorriso ao ouvir exatamente o que queria – Só preciso pegar minhas coisas na sala dos professores e já vou embora... A senhora parece estar com pressa, deixe que eu a levo para casa.
Mamãe me olhou brevemente, hesitante, e eu devolvi seu olhar, me esforçando ao máximo para deixá-la confiante quanto à minha segurança enquanto Pe estivesse comigo. Após alguns segundos, ela apenas deu de ombros, dando um sorrisinho agradecido, porém não muito convincente. Era nítido que ela ainda tinha seus medos e incertezas com relação àquele relacionamento, e eu a entendia perfeitamente.
- Bom... Obrigada – ela agradeceu, e Pe retribuiu com um gesto de cabeça – Foi um prazer conhecê-lo. Tchau, filha, se cuida. É pra ir pra casa, ouviu? Qualquer coisa me ligue.
- Pode deixar, mãe – sorri, retribuindo seu abraço rápido, e a observei entrar no carro rapidamente, arrancando e sumindo pela rua logo depois. Respirei fundo, sentindo uma pontada de alívio pelo desfecho até então positivo, e me virei para Pe, abrindo um sorriso de orelha a orelha assim que o fiz.
- Hm... Vamos recapitular – ele disse, fingindo estar pensando – Demissão já esperada: confere. Plano maligno realizado com sucesso: confere. Conquista de parte da simpatia da sogra: confere. O que mais está faltando?
- Algumas horas sozinhos lá em casa – pisquei, abraçando-o pelo pescoço, e ele sorriu, gostando do que havia ouvido – Confere?
- Se isso é um convite, está mais do que aceito – ele respondeu, me dando um selinho demorado, porém uma voz resmungando perto de nós me fez afastá-lo.
- Com licença, fofuxinhos do meu coração – Manuela sorriu com simpatia exagerada, estendendo-me minha mochila, e eu a peguei, agradecida – Bem que eu queria ir embora também, mas sabe como é... Aula do Hammings daqui a pouco.
Eu e Pe fizemos caretas apavoradas ao mesmo tempo, e os três caíram na gargalhada.
- Obrigada por tudo, Manu – falei, olhando-a com enorme gratidão – Você foi simplesmente incrível hoje.
- É verdade – Pe concordou, sorrindo amigavelmente – Você foi demais.
- Ah, gente, imagina – ela negou, tímida, porém deu uma jogadinha esnobe de cabelo logo em seguida, o que só causou mais riso – Eu não podia deixar aquele corno do Pepe se safar dessa e prejudicar vocês.
- Obrigada mesmo – reforcei, e ela retribuiu com um sorriso sincero – Agora vamos antes que você leve bronca.
Fizemos o caminho inverso, acompanhando Manuela pelo trajeto de volta à classe, e nos despedimos ao chegarmos ao andar da sala dos professores. Pe entrou rapidamente para pegar suas coisas, e eu notei que alguns alunos estavam no corredor, devido à troca de aulas. O primeiro tempo havia acabado, e geralmente a maioria dos estudantes saía de suas salas para conversar ou para esticar o esqueleto mesmo.
- Pronto – ele disse assim que deixou a sala, já com sua mochila nas costas – Vamos dar o fora daqui.
- Eba, fuga da escola – brinquei, percebendo alguns olhares intrigados sobre nós conforme descíamos os degraus rumo à saída, e respirei aliviada por não precisar esconder mais nada de ninguém. Minha reputação ficaria completamente manchada quando todos soubessem sobre meu relacionamento com dois professores (ou melhor, ex-professores), mas eu pouco me importava.
Seguimos até o pátio, atraindo olhares de alguns alunos matando aula por ali, e assim que a rua se tornou visível, Pe intensificou levemente o aperto em minha mão. Franzi a testa, sem entender, e bastaram mais alguns passos para que eu entendesse seu alerta mudo.
Na vaga à frente do Porsche prateado, Pepe se preparava para entrar em seu carro.
- Deixa ele dar um olhar torto pra você ver o que acontece – Pe murmurou, com a expressão fechada, e eu me assustei diante de sua mudança brusca de humor – Eu não tenho mais nada a perder mesmo.
- Só entre no carro e dirija – rebati, tentando podar seus instintos homicidas subitamente aflorados. Ele havia se controlado bem até então, não queria uma explosão de violência logo agora que estávamos quase vencendo a guerra.
Atravessamos a rua, ambos tensos demais para disfarçar, e Pepe fixou seu olhar em nós dois conforme entrávamos no carro. Mais especificamente, em Pe.
Ele realmente não devia ter feito isso.
Mal tive tempo de entrar no carro, Pe já estava de pé novamente, caminhando na direção do antigo amigo e atual rival com uma postura ofensiva. Sem nem ter tempo de pensar, imitei sua atitude, correndo até ele e segurando seu braço.
- Tá olhando o quê? – ele perguntou, parando à frente de Pepe e encarando-o com irritação – Quer uma despedida calorosa?
- Pe, vamos embora – pedi, percebendo que o clima ficava a cada segundo mais hostil.
- Na verdade, só estava pensando no quanto as coisas mudam – Pepe respondeu, com tom de superioridade, o que só fez o punho de Pe se fechar mais ainda – Quem diria... O pedófilo redimido e a santinha depravada!
Não foi como se eu pudesse ter evitado. O fato era que eu simplesmente não poderia, nem mesmo se quisesse, ter impedido que o braço de Pe se desvencilhasse de minhas mãos e seu punho atingisse o queixo de Pepe, sem a menor intenção de preservar seu formato. Apenas observei Pepe cambalear, apoiando-se na lateral de seu carro com as mãos sobre o rosto, e voltei a me aproximar de Pe, dessa vez me agarrando em seu braço numa tentativa mais empenhada de mantê-lo abaixado.
- Como se você tivesse muita autoridade para falar alguma coisa! – ele cuspiu, totalmente tomado pela raiva, e esboçando um sorriso satisfeito ao ver que a boca de Pepe sangrava – Prefiro ser um pedófilo redimido a um fracassado cagão!
- Cala essa boca – Pepe rosnou com dificuldade devido ao maxilar prejudicado, e partiu para cima de Pe, que aceitou de bom grado a reação. Novamente, meus esforços foram inúteis, e o pânico me dominou ao vê-los brigando sem poder fazer nada a não ser tentar apartá-los. E foi exatamente isso o que fiz. Busquei uma forma de me intrometer na confusão de punhos, porém não encontrei nenhuma brecha para que pudesse interferir sem levar uma bela porrada. Apenas quando Pe disparou outro soco, que fez Pepe colidir contra a lateral de seu carro e cair sentado na calçada, a confusão cessou.
- Chega! Vamos embora! – exclamei desesperada, parando à frente de Pe e empurrando-o pelo peito para longe dali, em vão – Por favor, pára!
Ele me encarou, parecendo retomar um pouco de sua consciência, e respirou fundo para recuperar o fôlego. Ouvi um burburinho do outro lado da rua, e vi vários alunos parados nos portões, além dos que observavam a cena das janelas de suas salas. Fechei os olhos por alguns segundos, detestando aquele espetáculo todo, e voltei a me concentrar em Pe.
- Vamos pra casa – murmurei, fitando-o com firmeza, e ele assentiu após uma curta hesitação.
- Eu não quero te ver nunca mais – ele grunhiu, referindo-se a Pepe, que tentava se levantar, porém estava tão tonto que voltava a cair sentado no chão – Se eu fosse você, torceria pra isso não acontecer.
- Chega, Pe – pedi pela última vez, puxando-o pelo braço, e dessa vez consegui fazer com que ele me obedecesse. Entramos no carro em silêncio, e logo estávamos nos afastando da escola e de seus curiosos alunos.
- Por favor, Caah!
- Não, senhor!
Mordi meu lábio inferior ao ouvi-lo reclamar do outro lado da linha, e observei mais uma vez meu reflexo no espelho do meu quarto.
- Pelo menos a cor! Qual é o problema em me dizer? – ele insistiu, manhoso, e eu rodopiei, vendo a saia de meu vestido acompanhar meu movimento com graciosidade.
- Não seja tão apressado, Lanza – sorri, admirando agora meus sapatos – Por que ao invés de ficar me perguntando, você não vem me buscar e tenta descobrir sozinho a cor da minha lingerie?
- Tudo eu, tudo eu – ele grunhiu, e eu prendi com muito esforço uma gargalhada – Bom, tô saindo de casa. Daqui a uns quinze minutos estarei aí.
- Sim, senhor – assenti, antes de desligar. Respirei fundo, checando pela milésima vez todos os detalhes de meu visual: vestido, maquiagem, brincos, cabelo, sapato, perfume... Tudo estava certo para a minha festa de formatura.
Encarei meu rosto no espelho, perdendo-me em pensamentos. Só eu sabia o quanto tudo havia mudado durante o último mês.
Desde que a diretora havia descoberto tudo, cerca de quatro semanas se passaram, nas quais eu tive que passar por um breve acompanhamento psicológico. Digamos que a sra. Scott acreditou em nossa versão, mas não abriu mão de certas burocracias exigidas pelas regras da escola, e essa era uma delas. Não me importei, tinha plena consciência de que não era desequilibrada (pelo menos não como Pepe me acusara), e conquistei ótimos relatórios da psicóloga em relação à minha sanidade mental. Sem mais penitências a cumprir, apenas concluí o ano letivo, sem causar maiores problemas.
Pe fora demitido do colégio no dia seguinte à briga. Nada que já não esperássemos. Nada que ele não tenha amado. Ele estava lidando muito bem com sua vida de desempregado, a propósito. Somente as alunas não aprovaram muito a substituição de seus dois professores de biologia por duas senhoras, mas quanto a isso, nada tenho a declarar.
De qualquer maneira, tudo ia às mil maravilhas entre nós. Ele já havia jantado em minha casa algumas vezes, nas quais conquistara a confiança de mamãe o suficiente para que ela me permitisse dormir em seu apartamento. Como? Não pergunte a mim. Nem eu sei como ele conseguiu deixar minha mãe tão impressionada com apenas sorrisos gentis e boas maneiras. Quando eu digo que Pe Lanza não é normal, não estou exagerando.
Pepe nunca mais apareceu. Outro fator que deixava Pe muito feliz, assim como todos nós. Não gostava muito de pensar nele, mas quando minha mente tornava isso inevitável, imaginava que ele havia ido para Leeds morar com sua noiva. Ou então... Bem, havia ido para algum outro lugar que não me interessava muito saber.
E Kelly? Bem... Ela continuava sendo Kelly Smithers. Nada que eu já não soubesse administrar, após tanto tempo de rivalidade.
Resumindo: tudo ia muito bem, obrigada!
Deixei o momento retrospectivo de lado e desci as escadas, vendo mamãe ver TV na sala. Apesar de meus convites, ela havia preferido ficar em casa, alegando que festas eram para os jovens, e que estava velha demais para essas coisas. Pura bobagem, claro, mas não consegui convencê-la do contrário. A cerimônia oficial da formatura já havia acontecido há alguns dias, e a essa sim ela compareceu, portanto não havia tanto problema se ela se ausentasse da festa.
Avisei que Pe estava a caminho, e esperei com ela até que o porteiro anunciasse sua chegada dali a poucos minutos.
- Com todo o respeito... Sou o homem mais bem acompanhado do universo! – ele sorriu assim que saí do prédio com mamãe, e fez uma reverência.
- Esse Pe... Cortês como sempre – mamãe brincou, cumprimentando-o com um breve abraço, e eu concordei com um olhar derretido.
- Cortês não, sincero – ele corrigiu enquanto eu me aproximava, e me abraçou pela cintura, beijando-me no rosto – Hm... Se não estou enganado, agora é a hora das recomendações?
- Exatamente! – mamãe concordou, e eu ri baixinho – Hm... Eu sei que não preciso mais repetir meu discurso, mas mesmo assim, nunca é demais reforçar, certo? Então lá vai: juízo, não bebam muito, especialmente o senhor, que vai dirigir depois, tomem cuidado na rua... E bem, o resto eu deixo subentendido. Posso ser uma mãe compreensiva, mas certos limites eu ainda prefiro preservar.
Desviei o olhar dela, envergonhada devido às tais recomendações subentendidas. Use camisinha definitivamente era a principal delas.
- Pode deixar – Pe assentiu, firme, e nos despedimos de mamãe. Ele abriu a porta do carona para mim, cheio de pose, e eu entrei no carro, vendo-o fazer o mesmo logo em seguida. Partimos em direção ao local da festa, uma das casas noturnas mais procuradas exatamente para aquele tipo de comemoração, e não demoramos a chegar, afinal, Pe já sabia o caminho de cor, acostumado a comparecer às festas de formatura de todos os anos durante os quais trabalhara na escola. Um sorrisinho sacana, porém, era a diferença este ano. Desta vez, ele não estava, como poderíamos dizer? Ah, sim. A trabalho. Era apenas a formatura de quem ele agora chamava, minha namorada pirralha.
Nos acomodamos numa das mesas reservadas para os alunos, mais especificamente a que eu e Manuela havíamos reservado juntas. Como ela e Ewan já haviam chegado, nos cumprimentamos com alegria, e eu logo fui arrastada para a pista de dança por minha querida amiga.
- Vem comigo! – pedi, estendendo a mão para Pe, que havia se sentado numa das cadeiras da mesa - Socorro!
- Prefiro ficar só olhando por enquanto – ele sorriu, achando graça de minha cara desesperada, e eu revirei os olhos, me deixando levar por Manuela. Ficamos dançando por alguns minutos, conversando sobre como Pe e Ewan estavam lindos de smoking, e do quão bacana era o fato de que eles pareciam ter engatado uma conversa muito animada sobre algo que depois investigaríamos. Mas, pela quantidade de olhares lançados a nós, não parecia muito difícil adivinhar o assunto.
Falando em olhares, eu me sentia a própria Britney Spears. Nenhum aluno que passava por nós, fosse menino ou menina, abria mão de um belo olhar de censura ou desprezo para mim, mas eu apenas fingia que eles não existiam. Era a minha formatura, eu estava me divertindo com a minha amiga e que se dane o que pensam de mim.
- Chega, Manuela, mal cheguei e já estou me descabelando toda – dei risada, após um bom tempo dançando, e voltei para a mesa, sendo imediatamente puxada por Pe para seu colo.
- E aí, vai me dizer agora qual é a cor ou eu vou ter que dar meu jeitinho de descobrir? – ele provocou ao pé de meu ouvido, arrepiando-me inteira. Eu adorava joguinhos daquele tipo, ainda mais em locais onde não podíamos ser exatamente flagrados.
- Não vou dizer nada – falei, abraçando-o pelo pescoço – A propósito, eu tenho minha própria cadeira.
- A minha é mais quentinha e macia, não acha? – ele insistiu, deslizando sua mão por minha coxa aproveitando-se do fato de que ninguém veria aquilo debaixo da mesa. Beijei o canto de sua boca, tentando não atrair ainda mais olhares, e como eu não estava lidando com nenhum idiota, aquilo virou um beijo de verdade, e dos bons. Não que para isso precisássemos abrir mão da discrição, claro.
- Rosa – sussurrei contra seus lábios, e percebendo que ele não havia entendido, expliquei – Minha lingerie é rosa.
- Uh... Adoro rosa – ele aprovou, com a voz propositalmente rouca – Você me diz isso justo agora que eu não vou poder tirá-la daí? Você não tem pena de mim, garota?
Soltei um risinho divertido, plantando um beijo em seu maxilar, e sussurrei antes de me levantar:
- Nem um pouquinho.
Refiz o caminho que havia percorrido até a pista de dança, agora um tanto preenchida por alguns casais devido à música romântica que tocava, e com charme, olhei por sobre meu ombro, vendo Pe vir logo atrás de mim com um sorriso enviesado. Agora que estávamos no principal lugar da festa, eu podia sentir todos os olhares em nós, mas nenhum deles realmente importava para mim a não ser o dele.
Virei-me de frente para ele, deixando-o segurar meu quadril suavemente e unir nossos rostos até que houvessem apenas milímetros de distância entre eles. Inconscientemente, meus pés começaram a acompanhar a música a seu próprio ritmo, seguindo a batida lenta, e os dele fizeram o mesmo, o que transformou nossa espécie de abraço numa tímida e deslocada dança.
- Estou me sentindo romântico agora... Posso dizer algo romântico? – Pe soprou, com um sorriso de canto, e eu assenti, achando graça de seu jeito impulsivo - Eu já disse que você está linda?
Meu olhar se derreteu diante de seu elogio, assim como o sorriso que eu já esboçava alargou-se em meu rosto. Sua mão contornou minha cintura, parando na base de minhas costas, e eu me deixei ser levemente puxada para perto de seu corpo, deslizando minhas mãos por seu peito até atingir seus ombros.
- Sinceramente, eu não me lembro... Acho que sim – respondi, vendo-o soltar um risinho baixo ao acariciar meu queixo com a outra mão – Mas não estou tudo isso. Digamos que eu apenas me esforcei para não parecer uma baranga do seu lado.
- Eu teria ficado muito feliz com um obrigada – ele disse, e eu apenas sorri ao senti-lo me beijar com delicadeza. Abracei seu pescoço, respirando fundo seu perfume, e permiti que ele aprofundasse o beijo, porém sem estendê-lo muito.
- Hm... Obrigada – falei, um tanto zonza, fazendo-o sorrir de um jeito esperto – E a propósito... Você também está muito lindo.
- Não estou tudo isso... Digamos que eu me esforcei para não parecer um velho babão do seu lado – ele piscou, e eu lhe dei um soquinho no peito, enrugando meu nariz em sinal de desgosto – Obrigado, Trevisan.
Fechei meus olhos para aproveitar o momento, e ouvi uma nova música começar a tocar. Relaxei ainda mais ao reconhecê-la, e involuntariamente meus lábios começaram a se mover conforme a letra.
When I met you, I didn't really like you
(Quando eu te conheci, eu realmente não gostei de você)
First impression was you were somebody who'd
(Minha primeira impressão foi a de que você era alguém que)
Walk right by when I waved at you and say "Hi"
(Passaria direto quando eu acenasse e dissesse "Oi")
But they say
(Mas dizem)
Bad beginnings make happy endings
(Maus começos fazem finais felizes)
Now that I know you, I begin to understand things
(Agora que te conheço, eu comecei a entender as coisas)
Turn around a hundred and eighty degrees
(Uma mudança de 180 graus)
I found my missing piece
(Eu encontrei o pedaço que me faltava)
There's something ‘bout you that's like the sun
(Há algo em você que é como o sol)
You warm up my heart when I come undone
(Você aquece meu coração quando eu me despedaço)
You're like my soul mate, and on those days
(Você é como minha alma gêmea, e naqueles dias)
When I hurt, when I break
(Em que eu me machuco, em que eu me parto)
You are my band aid
(Você é meu curativo)
When I get caught in the rain and it feels like
(Quando eu sou pega pela chuva e parece que)
There is no one in the world who understands my
(Não há ninguém no mundo que entenda minhas)
Complications that I face on certain days
(Complicações que eu encaro em certos dias)
I talk it through with you
(Eu converso sobre elas com você)
No matter how I try to hide
(Não importa como eu tente esconder)
You see straight through my disguise
(Você enxerga através do meu disfarce)
You know how to fix me
(Você sabe como me consertar)
You are my therapy
(Você é minha terapia)
There's something ‘bout you that's like the sun
(Há algo em você que é como o sol)
You warm up my heart when I come undone
(Você aquece meu coração quando eu me despedaço)
You're like my soul mate, and on those days
(Você é como minha alma gêmea, e naqueles dias)
When I hurt, when I break
(Em que eu me machuco, em que eu me parto)
You are my band aid
(Você é meu curativo)
Isn't it funny how these things can turn around?
(Não é engraçado como as coisas podem mudar?)
Just when I thought I knew you, you prove me wrong
(Quando eu achava que te conhecia, você prova que eu estou errada)
I used to hate the things you love and love the things you hate
(Eu costumava odiar as coisas que você ama e amar as coisas que você odeia)
But now I like it
(Mas agora eu gosto)
- Você canta bonitinho – ele comentou, fazendo-me abrir os olhos e deparar-me com sua expressão serena. Franzi a testa, duvidando de sua sinceridade.
- Só você, minha mãe e a Manuela acham – sorri, percebendo que ele não havia sido irônico.
- Bom, eu sou suspeito pra falar... Acho tudo o que você faz bonitinho – Pe suspirou, observando o resto das pessoas ao nosso redor para disfarçar a timidez ao pronunciar sua confissão – Até a cara que você faz quando tá prestando atenção na TV.
Dei um sorriso envergonhado, acompanhando o movimento de seu braço e rodopiando conforme ele me girava.
- Você tem essa mania adorável de ficar me encarando quando eu tô distraída – observei, sarcástica, recebendo um sorriso sem vergonha em resposta – Mas talvez estejamos quites... Eu também adoro ver você se arrumando na frente do espelho. A cara que você faz quando olha seu reflexo é tão... Sexy.
- É porque eu me amo – ele disse, sério, e eu caí na gargalhada – Quando me vejo no espelho, quase tenho um orgasmo.
- Quando eu te vejo na frente do espelho, quase tenho um orgasmo, isso sim – corrigi, e dessa vez foi ele quem riu.
A festa passou relativamente rápido, graças ao DJ digno e ao grande número de músicas conhecidas que ele tocara. Dancei feito uma desvairada com Manuela, e de vez em quando, com Ewan, que adorava atiçar as línguas maldosas da escola que o tachavam de homossexual e entrava na nossa onda. Mal sabiam elas o que ele e Manuela eram capazes de fazer num espaço vazio onde não fosse proibido ficar nu.
Aproveitei muito a presença de Pe também. Não era difícil me encontrar sentada em seu colo, com as pernas cruzadas elegantemente enquanto sussurrava provocações nada elegantes em seu ouvido, ou então conversando e nos agarrando um pouquinho no bar enquanto aguardávamos nossas bebidas.
É, acho que eu estava me divertindo.
Até minha grande sorte colaborar comigo, e reverter a situação. Ou talvez, intensificá-la.
Pe havia ido ao bar pedir mais uma bebida, e eu fiquei observando-o da mesa, falando sem parar com Manuela e Ewan. Bastou um minuto de distração para que meus olhos o flagrassem conversando com um elemento loiro cujos cílios pareciam aberrações de tão gigantes, devido aos quilos de rímel.
- Carol... Acaba com ela pra mim, por favor? – Manuela sorriu, falsa, ao ver exatamente o mesmo que eu. Respirei fundo, retribuindo sua expressão, e me levantei.
- Ewan, meu querido... Você que tem essa mania irremediável de andar com chicletes nos bolsos desde a quarta série – falei, sem tirar os olhos de Pe, que agora dava um sorrisinho ácido para a garota (e se eu o conhecia tão bem quanto imaginava, ele devia, no mínimo, estar chutando a cara dela em pensamento) – Faça sua amiga feliz e diga que você tem pelo menos um no bolso.
- Se você quer fazer mesmo o que eu tô pensando, eu tenho – Ewan respondeu imediatamente, e eu apenas estendi a mão, piscando para ele – E vê se faz direito, hein?
Soltei um risinho malvado, pegando o chiclete e mascando-o rapidamente enquanto me dirigia até o bar. Se Kelly Smithers queria uma noite inesquecível, ela definitivamente o teria.
- Boa noite – falei, com a voz calma, aproximando-me de Pe e embrenhando-me em seu abraço, que já aguardava discretamente por mim há alguns segundos.
- Boa noite, sra. Lanza – Kelly respondeu, no mesmo nível de falsidade que eu, e não manteve seus olhos em mim por mais que dois segundos, voltando a fixá-los em Pe – Não esperava que vocês viessem... Especialmente você, Carol. Que coragem.
- Por que eu não viria à minha própria formatura? – alfinetei, vendo Pe tomar um gole de sua bebida e me oferecer logo em seguida – Não, obrigada. Prefiro estar sóbria para presenciar essa nossa maravilhosa conversa.
- Eu não – Pe confessou, dando um risinho medíocre e ocupando seus lábios com o álcool. Não pude evitar acompanhá-lo na cara de deboche, e ainda por cima fiz uma bola com o chiclete que mascava, no maior estilo vadia de luxo.
- Vocês se acham imbatíveis, não é mesmo? – Kelly suspirou, fraquejando um pouco em sua firme expressão simpática – Que esse romance perfeito vai durar pra sempre.
- O que nós achamos não lhe convém – rebati, incisiva, porém sorri amigavelmente em seguida – Tudo o que lhe convém é que sim, estamos num romance perfeito. E você só não se mata de tanta inveja agora mesmo porque cometer suicídio é algo complicado demais para alguém tão intelectualmente incapacitado.
- Adolf Hitler de pernas depiladas, vamos embora – Pe sugeriu perto de meu ouvido, prendendo seu riso com toda a força – Hoje é uma noite de festa, não vamos nos desgastar.
- Desgastar? Quem está se desgastando aqui? – perguntei, vendo a raiva arder nos olhos de Kelly, e somente para provocá-la ainda mais, me dei ao luxo de soltar uma risadinha relaxada – A festa não poderia ter sido melhor!
- Some daqui, garota – Kelly rosnou, com a voz trêmula, e eu arqueei uma sobrancelha, segurando um sorriso pretensioso com dificuldade. Fiz uma breve reverência, vendo Pe dar um sorriso divertido, e me preparei para o melhor momento da festa. O gran finale ainda estava por vir.
- Eu espero sinceramente que você não volte a nos incomodar – murmurei, dando um passo em sua direção e adotando uma postura ameaçadora, sem abrir mão da expressão carismática - E como eu não tenho a menor confiança em você, vou me prevenir para que isso não aconteça, antes mesmo de você sequer pensar em chegar perto de nós dois outra vez.
Kelly franziu a testa, ultrajada, e eu rapidamente tirei o chiclete de minha boca, colocando-o no topo de sua cabeça e esmagando-o para que aderisse mais aos fios. Ela soltou um grito apavorado, digno de filme de terror, e eu apenas lhe dei as costas, caminhando na direção oposta e sendo seguida por Pe, que ria sem parar.
- Ela vai ficar traumatizada com chicletes a partir de hoje – ele disse, olhando para trás e rindo do que via – Vai ser o holocausto até ela conseguir tirar aquilo do cabelo!
- Oras... Você tinha me chamado de quê mesmo? – perguntei, fazendo-me de desentendida – Adolf Hitler de pernas depiladas? Pois é... Adoro um holocausto!
Pe apenas me encarou com os olhos cerrados devido à minha piada infame, mas se rendeu às minhas gargalhadas, continuando comigo o trajeto até a mesa.
- Eu já disse que sou sua fã? – Manuela falou, mal conseguindo respirar.
- A gente devia ter filmado a cara dela! – Ewan acrescentou, roxo de tanto rir.
- Carol, como você tem amigos malvados – Pe censurou, fingindo seriedade com muito esforço, porém logo caiu na gargalhada ao ver Kelly a alguns metros, correndo até sua mãe aos prantos com as mãos na cabeça. Acho que ela estava tão mais preocupada em desgrudar o chiclete de seu cabelo que me levar ao óbito (ou pelo menos tentar) ficara em segundo plano na sua lista de afazeres.
Vejamos... Agora acho que posso concluir. Festas de formatura deliciosas e com vingança triunfal: confere.
Puxei Pe pelo colarinho ao ouvir o barulho das portas do elevador se abrindo. Cambaleei para trás em busca de algum móvel, e ri contra os lábios dele ao tropeçar em meus próprios pés, já um pouco alegre devido ao álcool. Prático como sempre, ele passou um braço por trás de meus joelhos, carregando-me como recém-casados (bêbados) através da sala escura de seu apartamento. Balancei as pernas e joguei a cabeça para trás por um momento, curtindo a sensação de estar me movendo sem tocar o chão.
- Sabe do que eu lembrei agora? – Pe perguntou ao pé de meu ouvido, parando à frente do sofá e sentando-se nele, comigo sobre suas pernas – Daquela vez em que eu te trouxe aqui e tive que te carregar até o elevador.
- Aquele dia foi bem tenso – comentei, abraçando-o pelo pescoço e desfazendo-me de meus sapatos – E um dos que mais me marcaram, sabia?
- É verdade – ele concordou, dando um sorriso enviesado enquanto alcançava o zíper de meu vestido e buscava minha boca com a sua – Mas a casa de praia me marcou mais que todos.
- Todos me marcaram de um jeito ou de outro – confessei contra seus lábios, tirando sua gravata borboleta e desabotoando sua camisa – Sem eles, eu não estaria feliz como estou hoje.
- Sem eles, eu não estaria feliz como nunca estive antes – ele repetiu, adaptando minha frase e mordendo meu lábio inferior – E quem diria, comprometido!
Ri baixo de sua contradição, esfregando levemente a ponta de meu nariz no dele antes de beijá-lo com calma. A palavra comprometido naquele contexto, confesso, me agradava muito.
- Pode ser que não dure pra sempre, como a Smithers disse – soprei, encarando-o de pertinho com um sorriso bobo – Mas isso não significa que não possa ser intenso e verdadeiro.
- Já é intenso e verdadeiro – Pe afirmou, me olhando profundamente conforme descia devagar o zíper de meu vestido por toda a extensão de minhas costas – E mesmo que um dia termine, vai ser eterno na nossa memória.
- Vai mesmo – concordei, acariciando seu tronco por debaixo da camisa já aberta e me arrepiando com sua pele quente, como de costume.
- Pode ser que eu me arrependa de ter dito isso amanhã, mas hoje eu quero dizer e que se dane o depois – ele resmungou de olhos fechados, dedilhando minhas costas agora nuas com o mesmo carinho de sua voz ao voltar a falar – Eu... Nossa, como eu queria ter sido o primeiro. A te beijar, a te fazer carinho, a dormir enroscado em você... O primeiro em tudo.
Levei minhas mãos até seu rosto e o acariciei lentamente, sem palavras. Pe abriu os olhos, revelando muita sinceridade neles, e tudo que fui capaz de fazer foi sorrir feito uma idiota.
- Não ligue pros meus olhos marejados, é o álcool – murmurei, fungando baixo ao notar minha visão embaçada e recebendo um risinho tímido como resposta – Você tá me deixando sensível, seu... Seu...
- Bobo? Feio? Chato? – ele chutou, prevendo minhas possíveis palavras, e eu cerrei os olhos.
- Malvado – finalizei, rindo ao me lembrar da piada ruim que havia feito com aquela palavra há algum tempo. Pe revirou os olhos, pensando no mesmo ocorrido que eu, e me deitou no sofá bruscamente.
- Eu sou malvado mesmo – ele sussurrou, puxando meu vestido para baixo e revelando o sutiã meia taça rosa bebê por baixo dele; meu coração acelerou muito ao senti-lo beijar meu colo, assim como o ar começou a sumir de meus pulmões – E eu sei que você me ama exatamente por isso.
- Metido – arfei, encarando-o com birra, e ele deu um sorriso sacana, guiando seus lábios por meu rosto até alcançar minha orelha.
- Gostosa – o ouvi retribuir de um jeito sujo, o que fez uma súbita onda de calor percorrer meu corpo; eu adorava quando ele falava com aquele tom pervertido ao extremo.
Resultados sucessivos ao adjetivo muito bem empregado e muito mal intencionado: lingerie danificada, utensílios sobre a mesa de centro derrubados por peças de roupa voadoras e mais momentos inesquecíveis para guardar na memória.
Assim como todos os outros que, com certeza, ainda estavam por vir. E que eu aguardava ansiosamente!
FIIIIIIIIIIIIIIIM ;/
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