# Mesmo de longe eu queria te fazer, sentir tudo o q eu sinto por voc

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Web Novela ; Eu te Odeio ! FINAL '

EU TE ODEIO !

Cap. 44

Com o passar dos dias ficava cada vez mais evidente as bolsas que se formavam em baixo dos olhos de Nathalia, por sua falta de sono e por excesso de choro e mesmo com todas as evidências ela tentava se esconder dos amigos. Por outro lado, PeLu passava os dias trancado no quarto escrevendo em seu caderno ou apenas olhando para o teto, sem sair para outro lugar que não fosse a escola. Com a aproximação das férias todos estavam imaginando que ele criaria raízes no quarto quando não precisasse sair dali todas as manhãs.
- Ok Pedro, o que a gente faz? – perguntou Carol, enquanto os dois tomavam sorvete numa lanchonete. – Eu não agüento mais ficar naquela casa com duas múmias.
- Eu sei, isso tá sendo péssimo para todos nós. – disse Pedro cutucando o sorvete com a colher – A banda não ensaia a quase uma semana, não saímos todos juntos há tanto tempo que perdi a conta e PeLu e Nath parecem não se interessarem por mais nada no mundo.
- Eu daria tudo para entender esse motivo que ela não pode nos contar.
- Aposto que o seu irmão também daria, mas pelo que parece ela não vai contar.
- Sabe, tem uma coisa estranha em tudo isso. – falou Carol parando de comer.
- Caah, difícil é achar uma coisa normal nisso tudo.
- Sim, eu sei. – disse ela revirando os olhos – Mas tem mais uma coisa.
- O que?
- O Chris. Você não acha muito suspeito ele, simplesmente, ignorar a falta de ânimo da Nath e agir como se ela sempre fosse assim?
- Acho que eu ainda não peguei a idéia.
- Ai Pedro, pensa comigo. Ele parece está se aproveitando dessa situação, eu diria que está até feliz da Nath não está querendo ficar no intervalo com a gente ou conversar com o PeLu.
- Você acha que ele sabe que algo tá magoando ela, e, mesmo assim, parece estar feliz por isso ser vantajoso para ele?
- Isso. – disse a garota – Eu acho isso muito suspeito.
- Se for assim, ele deve desconfiar da Nath e do PeLu.
- E por isso está muito feliz dos dois estarem sem se falar, mesmo que isso deixe a Nath triste. – completou Carol batendo com força na mesa.
- Caramba, vai que ele sabe de tudo sobre os dois?
- Eu não chegaria a tanto já que os únicos que sabem de tudo somos nós dois, mas ele deve ter suas suspeitas.
- Acho que é hora de investigar o engomado. – falou Pedro com a voz mais baixa – Pronta para ação?
- Já nasci pronta, baby. – riu Carol batendo na mão do amigo para selar o plano.
- Olha que tá se achando!
- Eu não me acho, Pedro, você que me procura.
- É assim agora? – perguntou ele rindo.
- Sempre foi. – disse Carol piscando.
- Mas tá muito saliente mesmo... - riu Pedro - Só porque sabe meia dúzia de frases idiotas.
- Ei, idiotas nada. - reclamou a garota - Elas são bem legais.
- Dou oito pela graça e zero pela criatividade.
- Ok, vai ficar julgando minhas palavras ou vai levantar para agirmos?

...

- Nath, vamos ao cinema? – convidou Gabriela, sentada na cama da amiga.
- Não estou com vontade de sair. – disse a garota com a cara enfiada no travesseiro.
- Deixa disso vai, você anda nessa deprê há dias e não me fala o que houve.
- Não é nada Biiah, eu só estou ficando em casa para estudar, o que todos deveriam estar fazendo também, já que temos várias provas antes das férias.
- Nath, até parece que você está ficando em casa para estudar. – falou Gabriela puxando o travesseiro do rosto da amiga – Além do mais, eu só vou me preocupar com as provas do final do ano, essas não são muito importantes.
- Acho que o Thomas está te levando para o mau caminho. – disse Nathalia tentando rir.
- Acho que sim, mas já que eu estou no caminho obscuro quero te levar junto comigo, eu não desgrudo de você, ser depressivo! – disse Gabriela pulando em cima da amiga.
- Saaaaai! – gritou Nathalia, tentando se soltar.
- Só se você falar que vai no cinema comigo. – falou Gabriela, rindo.
- Ok, ok, eu vou. – disse Nathalia buscando ar para os pulmões.
- Oba!!!!!! – disse a garota saindo de cima da cama num pulo – Nós vamos nos divertir muitão e você vai voltar a ser a Nath de sempre.
- Mas o filme tem que ser de terror... – disse Nathalia com cara de tédio – Com muito sangue e gente morta.
- Olha só, temos uma futura homicida. – riu Gabriela jogando uma blusa do armário para a amiga – Coloca essa aqui que tem mais cor.
- Aceita a condição do filme? – perguntou Nathalia olhando a blusa vermelha estendida sobre a cama.
- Aceito. – falou a menina fazendo uma careta – Como a senhora quiser.
- Certo. Pelo menos assim eu me livro da visita do Chris.
- Vocês brigaram?
- Não. – Nathalia fraquejou na resposta, ela não devia ter dado essa informação – Eu só preciso de um tempo para mim, sem ele no meu pé.
- Sei... – disse Gabriela desconfiada – Nath, você vai ver seus pais nas férias?
- Acho que não, pelo que eles me falaram no último telefonema o plano era eu ir passar uns dias lá, mas eu ainda não decidi nada.
- Se você abandonar a gente eu te mato, guria! – ameaçou Gabriela apontando uma escova de cabelo como se fosse uma arma – Os meninos estão planejando gravar um CD caseiro e nós já prometemos ajudar no que for possível. Você não pode perder essas férias por nada.
- Vou pensar nisso. – disse Nathalia vestindo a blusa vermelha – E não me olhe com essa cara de assassina – brincou ao ver o olhar da amiga.

...

- PeLu, qual é? Você não vai mesmo me dizer? – perguntou Thomas pela décima vez naquela tarde. Os dois garotos estavam jogados no chão do quarto de PeLu olhando para o teto e comendo salgadinhos.
- Eu já falei que não sei do que você está falando. – replicou o garoto com esforço, PeLu tinha passado tanto tempo calado, que, agora, falar parecia dar muito trabalho.
- Sabe sim. Você e a Nath estão estranhos há dias e eu tenho certeza que não são casos isolados. Vocês voltaram a brigar?
- Você, por acaso, me viu discutir com ela?
- Não. – disse Thomas relutante – Mas isso é só porque não vejo mais vocês juntos. O mais próximo que chegam é estudarem na mesma sala e, mesmo assim em lugares totalmente opostos.
- Só por isso você acha que nós brigamos?
- Dude, não subestime a minha inteligência, para isso que servem as mães. Você está trancado nesse quarto mofando e a Nath, idem. Só saiu agora porque a Biiah praticamente arrastou ela porta a fora.
- Ela saiu? – perguntou PeLu finalmente interessado na conversa.
- Saiu. – respondeu o amigo confuso – Eu e a Biiah viemos com a missão de tirar vocês de casa, mas parece que ela foi mais bem sucedida.
- Você acha que elas demoram quanto tempo?
- Bem... acho que elas devem voltar lá pelas sete ou oito, mas é só um palpite.
- Thomas, tchau! – disse PeLu levantando num salto.
- O quê?
- Eu sei que você prometeu que arrumaria seu quarto há mais de uma semana, acho que esse é o momento perfeito. – falou o garoto sentando na cama com um papel no colo.
- Você tá me expulsando? – perguntou Thomas já de pé.
- Não coloque a coisa assim. Digamos que eu estou devendo um favor para sua mãe que sempre manda comida decente para ninguém nessa casa morrer de fome.
- Eu vou, só porque você tá muito chato, mas não pense que nossa conversa acabou. – resmungou Thomas saindo do quarto – Eu volto amanhã.
Durante os últimos dias, PeLu tinha sido perseguido por sonhos loucos onde ele via Nathalia indo embora com Chris para sempre e ele ficava para trás, apenas acenando, sem fazer nada. Ele não estava disposto a perder a mulher que ele amava assim, sem luta, sem esforço. Ele continuava machucado pela atitude dela, mas ele também não era nenhum santo, então, quem sabe um não pudesse perdoar o outro.
Carol e Pedro tinham saído juntos para sei lá onde. PeLu suspeitava que os dois estavam tendo um caso secreto ou algo assim, andavam muito misteriosos. Mas isso era bom, a casa estava vazia e ele podia pensar melhor e executar seu plano melhor, tinha apenas que checar alguns pontos para tudo sair perfeito. Seu coração estava batendo rápido à medida que os ponteiros do relógio mudavam de posição de forma acelerada. Para não enlouquecer andando de um lado para outro da casa PeLu resolveu tomar um banho para acalmar seus próprios pensamentos.
- Thomas. – disse PeLu ao telefone enquanto se vestia.
- Lembrou do amigo foi? – respondeu Thomas carrancudo.
- Qual é dude, ainda está chateado? – perguntou PeLu cinicamente.
- Imagine, eu nem fui expulso da sua casa.
- Thomas eu te convido para vir aqui amanhã... – disse PeLu já com certa pressa – Mas eu preciso de um favor seu.
- Viu, só ligou para pedir alguma coisa e além do mais, eu já ia amanhã ai com ou sem convite.
- Dude, é sério, me escuta. Você precisa ligar para Biiah e pedir para ela não entrar com a Nath em casa. – disse PeLu tentando parecer um pouco normal – Mas ela precisa ser discreta, a Nath não pode desconfiar.
- Eu deveria perguntar o motivo desse pedido? – falou Thomas confuso.
- Agora não. – respondeu PeLu – Mas se tudo der certo você logo irá descobrir.
- Ok dude, mas você fica me devendo uma.
- Fechado.
- Espera um pouco. Uma não, duas, uma você já está me devendo por ter me expulsado daí.
- Certo Thomas. – concordou PeLu olhando para o relógio, que marcava sete horas em ponto. – Agora liga logo para Gabriela e não esquece de dizer para ela ser discreta.
- E se ela perguntar o motivo?
- Você inventa qualquer coisa ou então fala que diz depois, se vira... – completou o garoto já desligando o telefone e correndo para janela, que mostrava uma noite estrelada no céu. Agora não deveria demorar muito.

Cap. 45

- Vai entrar? – perguntou Nathalia quando as duas desceram do taxi em frente a casa dos Flechers naquela noite .
- Hã... não – disse Gabriela lembrando do estranho telefonema de Thomas – Vou andando até a casa da Kath, prometi ajudá-la com matemática.
- Certo então – Falou a garota olhando para o próprio pé. – Biiah...
- Sim.
- Obrigada pela tarde de hoje, eu realmente estava precisando.
- Não precisa agradecer nada, guria. – Disse Gabriela abraçando a amiga – Fiz um bem a toda humanidade trazendo pelo menos parte da velha Nath de volta.
- O que seria de mim sem vocês?
- Um ser menos lesado intelectualmente? - Perguntou Gabriela rindo.
- Bem... Talvez – Confessou a amiga parando para pensar. – Mas, às vezes, ser lesada é legal.
- Viva aos lesados, então! – Gritou Gabriela antes de começar a descer a rua rumo a casa de Katlen.
Assim que viu a amiga se tornar apenas um borrão na rua, Nathalia teve que encarar a realidade sentindo uma pontada no estômago por isso. Essa tarde a tinha alegrado e por alguns poucos momentos ela pôde fingir que estava tudo bem, ela dizia para si mesma que tudo tinha sido apenas um pesadelo e que agora as coisas tinham voltado ao normal. Porém, ficar sozinha a fazia lembrar de todos os seus problemas e do aperto que ela sentia no coração que, por vezes, até deixava-a sem ar. Amar deveria ser proibido por ordens médicas, disso ela tinha certeza.
Nathalia abriu a porta da frente sem se dar o trabalho de acender as luzes. O silêncio facilmente denunciava a ausência de outras pessoas, o que não era nada surpreendente já que Carol tinha saído misteriosamente com Pedro e disse que voltaria tarde. Quanto a PeLu, bem, ultimamente ela nunca sabia onde ele estava, talvez estivesse até no quarto dormindo, mas ela não iria checar. Depois de subir as escadas entrou no próprio quarto colocando a bolsa sobre a cama onde tinha um pequeno pedaço de papel rabiscado numa letra familiar.

Eu te amo, sempre amei e nunca vou deixar de amar.
PeLu
O quarto girou rapidamente e Nathalia teve que sentar na cama para não cair. Sua mente estava bloqueada e tudo que ela conseguia fazer era ler e reler o pequeno bilhete para ter certeza do seu conteúdo , ela não estranharia nada se estivesse imaginando aquelas palavras ou até mesmo aquele bilhete. Ela estaria ficando louca ou coisa do tipo? Mas, assim que as letras bagunçadas entraram em sua mente, ela só precisava de uma coisa, falar com PeLu. Nathalia correu até o quarto do garoto mas tudo que encontrou foi o vazio, então desceu a escada de dois em dois degraus para procurar no andar inferior. A cozinha estava deserta assim como a sala então com as mãos tremendo ela segurou a maçaneta que abria a porta do porão, respirando fundo antes de entrar.
- PeLu? – Chamou tateando no escuro. O nome dele parecia agora tão estranho saindo de sua boca.
A luz foi acesa e Nathalia pôde ver PeLu sentado num banquinho com sua calça verde, seu moletom colorido e o cabelo todo bagunçado espetadinho para cima. Ela teve que morder o lábio inferior para não ficar de boca aberta, ele era tudo que ela queria, isso era fato indiscutível. A garota deu alguns passos ainda segurando o bilhete nas mãos quando ele finalmente olhou-a nos olhos e sem nenhuma explicação apontou para que ela sentasse no sofá. Contendo o instinto de chegar mais perto e abraçá-lo forte Nathalia fez o que ele queria, vendo o garoto colocar o violão no colo e então começar a cantar.

I never meant the things I said
To make you cry
Can I say I'm sorry
It's hard to forget


(Nunca quis dizer as coisas que eu disse
Para fazer você chorar
Posso dizer que sinto muito?
É difícil esquecer)


And yes I regret
All these mistakes
I don't know why you're leaving Me
But I know you must have your reasons
There's tears in your eyes
I watch as you cry
But it's getting late


(E sim, eu me arrependo
De todos esses erros
Eu não sei por que você está me deixando
Mas eu sei que você deve ter suas razões
Há lágrimas em seus olhos
Eu assisto enquanto você chora
Mas está ficando tarde)


Was I invading in on your secrets
Was I too close for comfort
You're pushing me out
When I'm wanting in
What was I just about to discover
When I got too close for comfort
Driving you home
Guess I'll never know


(Eu estava invadindo seus segredos?
Eu estava perigosamente perto?
Você está me afastando, quando eu quero entrar
O que eu estava a ponto de descobrir,
Quando eu cheguei perigosamente perto?
Levando você para casa de carro
Acho que nunca saberei)


Remember when we scratched our names into the sand
And told me you loved me
But now that I find
That you've changed your mind
I'm lost the words
And everything I feel for you
I wrote down on one piece of paper
The one in your hand
You won't understand
How much it hurts to let you go


(Lembra quando nós escrevemos nossos nomes na areia
e disse que me amava
E agora que descubro
Que você mudou de idéia
Perdi as palavras
E tudo o que eu sinto por você
Eu escrevi em um pedaço de papel
Esse na sua mão
Você não entenderá
O quanto dói te deixar partir)


Was I invading in on your secrets
Was I too close for comfort
You're pushing me out
When I'm wanting in
What was I just about to discover
I got too close for comfort
Driving you home
Guess I'll never know

(Eu estava invadindo seus segredos?
Eu estava perigosamente perto?
Você está me afastando, quando eu quero entrar
O que eu estava a ponto de descobrir?
Eu cheguei perigosamente perto?
Levando você para casa de carro
Acho que nunca saberei)


All this time you've been telling me lies
Hidden in bags that are under your eyes
And I when I asked you I knew I was right
But if you took it back on me now
When I need you most
But you just let me down, down, down


(Todo esse tempo você esteve me dizendo mentiras
Escondidas em bolsas que estão debaixo dos seus olhos
E quando eu te perguntei, eu sabia que estava certo
Mas se você descontar em mim agora,
Quando eu mais preciso de você
Mas você só me desaponta, desaponta...)


Was I invading in on your secrets
Was I too close for comfort
You're pushing me out
When I'm wanting in
What was I just about to discover
I got too close for comfort
You're pushing me out
When I'm wanting in


(Eu estava invadindo seus segredos?
Eu estava perigosamente perto?
Você está me afastando, quando eu quero entrar
O que eu estava a ponto de descobrir,
Quando eu cheguei perigosamente perto?
Você está me afastando, quando eu quero entrar)


What was I just about to discover
When I got too close for comfort
Driving you home
Guess I'll never know


(O que eu estava a ponto de descobrir?
Eu cheguei perigosamente perto?
Levando você para casa de carro
Acho que nunca saberei)


Nathalia não conseguiu se mover um milímetro no sofá durante toda a música e quando PeLu colocou o violão de lado ela parecia ter sido grudada ali. Ele tinha conseguido fazer uma música linda de uma história desastrosa e ela não conseguia nem ao menos parabenizar o ótimo trabalho. Seus olhos simplesmente se encheram de lágrimas e ela não conseguiu controlar o choro que veio em seguida.
- Não, Nath – disse PeLu correndo para sentar ao seu lado no sofá com o rosto preocupado – Não era para chorar.
- Por favor... – pediu ele ao ver que a garota continuava chorando ao seu lado apertando fortemente o bilhete na mão.
- Ah, PeLu... – Disse ela entre as lágrimas – Eu nunca quis te magoar .
- Calma, está tudo bem... – Falou ele puxando a menina para mais perto – Eu também disse coisas que nunca deveria ter dito. Deixei me levar pela raiva do momento.
- Não tente aliviar o meu lado, PeLu, eu errei por não ter te falado a verdade, e qualquer outro no seu lugar faria o mesmo.
- Mas qualquer outro não te amaria como eu amo. – Respondeu ele no seu ouvido.
- PeLu a verdade é...
- Shiiii – Repreendeu o garoto – Você não precisa me falar nada agora .
- Eu preciso te dizer – Falou Nathalia soltando-se do abraço – Eu te deixei porque o Chris está passando por um problema muito delicado, sobre o qual ele pediu segredo e eu não tive coragem de magoá-lo nesse momento, mas eu não o amo, na verdade nunca amei ninguém como amo você.
- Eu fico aliviado de ouvir isso da sua boca – disse o garoto passando a mão pelo rosto dela – Mas mesmo que fosse por vingança ou qualquer outro motivo você já estaria perdoada e não pense que é só por você – completou vendo novas lágrimas se formarem nos olhos da menina – É por mim também, eu não posso mais viver sem você.
- O que nós faremos agora? – Perguntou ela agarrada ao pescoço de PeLu como se estivesse com medo dele ir embora e nunca mais voltar.
- Olha, Nath, – Disse ele respirando fundo – você decide a sua parte, o que fazer com Chris é escolha sua, mas eu sempre estarei aqui te esperando.
- Eu devo ser a pior pessoa do mundo. – confessou Nathalia colocando o rosto no peito de PeLu.
- Por que está falando isso?
- Estou fazendo você esperar que eu resolva os meus problemas com uma pessoa que eu não amo para finalmente ficarmos juntos. Isso é no mínimo doentio.
- Eu diria que você não gosta de magoar as pessoas ao seu redor.
- Mas te magoei com o meu silêncio.
- E eu te magoei com as minhas palavras, estamos quites então.
- Você não vai brigar com o Chris, não é? Afinal ele não têm culpa de está passando por todo esse problema, ele nem sabe sobre nós dois.
- Fica tranqüila Nath, como disse Shakespeare "Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor."
- Acho que alguém andou estudando para a prova de literatura. – Riu a menina sentando no colo de PeLu e passando os braços pelo seu pescoço.
- Às vezes é preciso. – Disse PeLu rindo ao abraçá-la pela cintura.
- Eu não estudei nada essa semana – Confessou Nathalia - Espero não me ferrar muito nas provas.
- Naquele tempo todo que você passou no quarto ficou fazendo o quê? – Perguntou o garoto brincando distraidamente com o cabelo dela.
- Bem... A verdade?
- Sempre – Disse PeLu beijando seu pescoço.
- Na maior parte do tempo eu fiquei pensando em você – Disse a menina num sussurro envergonhado.
- Se o diretor descobrir que eu fui o culpado da aluna nota A tirar nota baixa, eu sou até banido daquela escola. – Brincou o garoto.
- PeLu? – perguntou a menina minutos depois .
- Sim
- Seus pais vão vir nas férias? – Perguntou Nathalia medindo o tamanho da sua mão na mão dele.
- Não – Falou PeLu com um pouco de ressentimento na voz. – Parece que eles estão ocupados demais fazendo palestras pela América para virem ver se estamos vivos. – Você vai ver seus pais?
- Acho que não – Disse ela com o pensamento distante. – Meu pai estava disposto a me levar para uns dias num vilarejo africano, mas minha mãe parece tê-lo convencido que a maior diversão que eu teria era ouvir gente tocando uns instrumentos estranhos ao redor de uma fogueira e pelo que parece ela acha que eu mereço mais que isso depois de meio ano letivo.
- Já que está livre que passar as férias ajudando a banda?
- Com o cd caseiro?
- Com ele e, talvez, até com umas visitas a umas gravadoras.
- Mas é claro! – Falou ela animada – Vai ser emocionante ver todas as músicas de vocês gravadas.
- Nath, você acha que isso pode mesmo dar certo? – Indagou PeLu observando o rosto sereno da garota encostado no seu peito.
- Se eu não tivesse certeza disso não seria sua maior fã. – Falou ela rindo.
- Mas tem tanta banda de porão por ai lutando por uma vaga no mercado.
- PeLu, você tem fé? – Perguntou a menina mordendo o lábio inferior enquanto esperava a resposta .
- Tenho – Disse ele um pouco confuso com a pergunta.
- Então pronto – falou Nathalia esfregando a bochecha dele com o polegar – Quando alguém nasce com a estrela nada pode tirá-la... Nada, nem ninguém.
- Eu já disse que te amo? – Perguntou PeLu segurando-a com mais força.
- Com todas as palavras – Respondeu Nathalia mostrando o papel amassado que ainda estava na sua mão. – Acho que é a minha vez agora. – Completou levantando o rosto para encostar nos lábios de PeLu puxando-o para um beijo.
ap. 46

- O que você fez durante meu aniversário do ano passado? Quando disse que estava doente... – perguntou Nathalia sentada, no sofá da sala, ao lado de PeLu enquanto os dois comiam sorvete de colher direto do pote.
- Essa é tão humilhante... – reclamou o garoto ficando levemente corado.
- Agora mesmo que eu quero saber. – falou Nathalia sentando mais ereta motivada pela curiosidade.
- Bem, eu fiquei a maior parte do tempo andando pelas ruas, chutando latas. – confessou ele depois de um longo suspiro.
- Chutando latas?
- Não precisa fazer essa cara, também... – riu PeLu – Tem gente que joga bola para relaxar, eu costumo chutar latas.
- Ok, vou fingir que nunca ouvir isso para não estragar o momento. – brincou Nathalia analisando o sorvete, que ainda restava no pote, como se ainda tivesse decidindo entre comer ou não, o resto.
- Agora é minha vez. – disse PeLu enchendo mais uma colher – O que você estava fazendo quando se recusou a ver uma apresentação da banda, algumas semanas antes dos seus pais mudarem?
- Eu fui. – respondeu ela engolindo a maior quantidade possível de sorvete para manter-se ocupada.
- Não, não foi, não. Eu lembro bem que as meninas fizeram de tudo para te levar.
- Eu fui só. – disse ela após ficar com o sorvete tempo demais na boca antes de engolir – Fiquei de longe só ouvindo, não queria que ninguém me visse lá.
- Por quê?
- Pelo mesmo motivo que você ficou chutando latas pelas ruas enquanto todos estavam comemorando o meu aniversário... acho.
- Nós somos dois idiotas. – riu PeLu colocando o pote de sorvete no chão enquanto puxava a menina para seus braços.
- Ei, pelo menos eu não chutei lixo... a minha idiotice foi bem mais digna!
- Só não vou discutir isso porque você está sexy demais com a boca toda suja de sorvete, mas depois voltamos a esse assunto. – riu PeLu passando o polegar pelos lábios da garota.
- Eu acho que tenho um jeito melhor de fazer isso. – falou Nathalia passando os braços ao redor do pescoço de PeLu, beijando-lhe os lábios. Ele, por sua vez, trouxe a cintura dela para mais perto inclinando-a no sofá enquanto segurava seus braços sobre sua cabeça.
- Você agora é a minha refém, baby. – falou ele com um olhar maroto.
- Devo temer alguma coisa? – perguntou Nathalia, rindo.
- Talvez. – falou ele pensativo – Mas só se você não for uma boa garota.
- Eu sou uma ótima garota. – disse ela mordendo o lábio inferior – Você que é mau e está me prendendo.
- Vou provar que não sou mau... – falou o garoto, em seu ouvido, descendo a boca pelo pescoço da menina, que sentiu a respiração saindo do seu pulmão rapidamente.
- Isso... é a... prova? – perguntou Nathalia tentando prestar atenção no que falava, era difícil se concentrar assim.
- Só o começo. – confessou PeLu deixando seu peso cair um pouco mais sobre a garota enquanto voltava a beijar sua boca. Nathalia conseguiu soltar seus braços, já que PeLu parecia distraído com outras coisas, mais importantes, então passou a mão pelo cabelo do rapaz enquanto tentava continuar respirando, atividade que ficava mais difícil a cada segundo e pelo o que parecia, o garoto se divertia com aquilo. PeLu girou sutilmente no sofá deixando a garota sobre o seu corpo, para não machucá-la, analisando detalhadamente todo seu rosto antes de voltar ao beijo. Nathalia aproveitou a nova posição para segurar os braços do garoto, como ele a segurava antes.
- Agora você é o meu refém, honey. – disse ela, triunfante em seu ouvido.
- Aposto que você não consegue me segurar assim, nem por um minuto. – ele desafiou.
- Qual o meu prêmio? – perguntou Nathalia sentando inclinada sobre o corpo de PeLu, segurando sua cintura com as pernas.
- O meu prêmio... – sussurrou PeLu mordendo o lóbulo da orelha da menina – É você. – completou rolando novamente e pondo-se facilmente sobre ela.
- Hey, você roubou. – reclamou ela como uma criança – Me distraiu.
- Na guerra e no amor não existem regras, por isso estou duplamente anistiado. – riu PeLu antes de ouvir o barulho próximos de vozes – Senta e tenta agir normalmente. – sussurrou ele antes de sair de cima da garota.

...

- Por que hoje? – perguntou uma voz masculina, vindo da entrada.
- Porque você fez isso se estender por tempo demais. – respondeu outra voz masculina parecendo irritada – Se tem um culpado aqui, é você.
- Mas não foi a minha intenção eu ia...
- Todos tem boas intenções. – foi a vez de uma terceira voz falar, enquanto um barulho de chaves sendo testadas soava ao fundo – E é assim que o inferno tá mais lotado do que o London Eye, em alta no turismo.
- Vocês ainda têm que fazer piadinhas? – perguntou a primeira voz.
- Cala a boca, ok? Sua hora de falar está bem próxima. – retorquiu a segunda, parecendo mais impaciente. – E onde está a droga dessa chave?
- Eu tô testando. – disse a voz mais delicada – O problema é que tá escuro e eu tenho umas dez chaves aqui.
- Dez chaves e nenhuma serve?
- Só não achei a chave certa, ainda. Calma, já estamos próximo.
- Não podemos resolver isso amanhã de manhã?
- NÃO! – responderam duas vozes juntas ao mesmo tempo em que a porta da frente rangia, ao abrir, dando passagem às três figuras que antes discutiam na soleira da entrada.

Cap. 47

Nathalia e PeLu prenderam a respiração por alguns segundos enquanto viam as três figuras, com roupas encharcadas pela chuva fina, que caía lá fora. Entraram na sala em silêncio. Pedro vinha na frente e logo que avistou os dois amigos sentados no sofá. Parou, esperando Carol, que vinha logo atrás, tirando o casaco molhado. Parado um pouco depois da porta, Chris esperava com o olhar preso no rosto assustado de Nathalia, com uma expressão ilegível. Uma mistura de raiva, vergonha e amor.
- Alguém pode explicar isso? – perguntou Nathalia, após vencer seu dilema pessoal entre temer o que Chris teria a falar ou festejar a felicidade contida nos olhos de Pedro e Carol.
- Acho que o engomado aqui precisa falar com você, Nath. – disse Pedro cruzando os braços – Ele estava louco por essa oportunidade de direito a voz.
- Que palhaçada é essa? – perguntou PeLu segurando instintivamente a mão da garota na sua.
- PeLu, deixa ele falar. – alertou Carol ao irmão.
- Eu posso ao menos ter um pouco de privacidade? – perguntou Chris dando alguns passos em direção ao grupo.
- Não. – falaram três vozes em coro que logo calaram-se com o olhar desaprovador de Nathalia.
- Será que eu posso ficar a sós com o Chris por alguns minutos? – perguntou ela numa voz irritada, seja lá o que ele tinha a dizer ela não precisava de proteção, podia agüentar sozinha.
- Certo. – disse a amiga por fim – Mas qualquer coisa estaremos na cozinha. – completou praticamente arrastando Pedro e o irmão consigo. PeLu, ao passar, deu uma olhada em Chris com olhos furiosos e ameaçadores como um pequeno lembrete para que este não ousasse machucar a garota, que se mexia nervosamente no sofá esperando uma explicação.
- Pode sentar. – disse ela quando os outros já desapareciam do seu campo de visão pela porta da cozinha.
- Eu prefiro ficar em pé, se você não se importar. – disse Chris andando em círculos.
- Fique a vontade. – falou Nathalia mordendo o lábio inferior com tanta força que quase pôde sentir gosto de sangue.
- Eu não sei o que dizer. – confessou o rapaz parecendo frustrado – Eu disse a eles que não saberia.
- Eu não estou entendendo nada. – disse a garota tentando ver algum sentindo em tudo aquilo. Carol e Pedro pareciam felizes, mas também irritados. Chris, este não tinha nem classificação, estava uma confusão só.
- Certo. – falou Chris parando de rodar pela sala abruptamente – Vou tentar te explica de uma forma resumida. Eu menti, quer dizer, não menti, mas acabei mentindo por não falar tudo que eu sabia, mas quando te falei, eu realmente não sabia, então não foi omissão, pelo menos não quando eu falei.
- Chris, isso não faz o menor sentido para mim. – disse a garota envergonhada por ainda não ter pego a idéia.
- Nath... – falou ele respirando fundo – Meu pai foi fazer uns exames de rotina há pouco tempo e por causa de uns resultados alterados os médicos alarmaram-se, deixando toda família de sobre-aviso para o caso de qualquer complicação.
- Sim, você me falou que ele poderia estar muito doente. – disse Nathalia lembrando daquele dia em que toda sua vida tinha virado de cabeça para baixo.
- Mas os médicos estavam enganados. – falou Chris voltando a andar em círculos – Meu pai está bem, não corre risco de vida...
- Mas isso é uma ótima notícia. – disse a garota saltando do sofá, mas antes que pudesse falar mais alguma coisa seus pensamentos tomaram outro rumo – Mas o que a Carol e o Pedro têm haver com tudo isso? Como eles ficaram sabendo?
- Acho que eles me seguiram até um restaurante no centro da cidade, onde eu esperava uns amigos. – disse o rapaz rapidamente como se cada palavra doesse ao sair da garganta – Eles me ouviram no telefone pedindo que meu pai não viesse a Londres, agora, para não estragar tudo.
- Estragar tudo... – balbuciou a garota começando a entender – Você já sabia. – falou num sussurro enquanto dava alguns passos para trás.
- Já. Eu soube dois dias após ter te falado, mas não quis desmentir logo, porque estava gostando das coisas como estavam. Você ficava mais tempo comigo, não ficava de risinhos com o Munhoz. – confessou Chris numa voz mais alta – Você pensa que eu não percebi como vocês estavam mais próximos, como se olhavam? Eu não quis te perder para ele. Você era minha e eu não quis por isso em risco contando a verdade, mas eu ia contar.
- Algum dia. – riu Nathalia com um sarcasmo que não lhe pertencia.
- Sim, algum dia. – repetiu Chris envergonhado – Eu não ia viver numa mentira, não ia te enganar para sempre, era só uma medida temporária.
- Isso realmente me deixa mais tranqüila. – disse ela sentindo a raiva pulsar nas veias – Quem sabe na nossa noite de núpcias você me contasse, ou talvez fosse muito cedo, quem sabe após uns cinco anos de casamento.
- Nath, não fala assim. – pediu ele vendo a raiva na voz da garota.
- Assim como? Como alguém que foi enganada? Que viveu uma mentira? – gritou ela fazendo PeLu quebrar um copo entre as mãos na cozinha – Você sabe que eu não te amo mais. Depois de tudo que você me falou agora eu sei que você sabe. Você sabia que eu amava outro, que ia te deixar... você tentou me prender.
- Não, eu só queria ter uma chance de te provar meu amor.
- Que amor Chris? Quem ama não prende, liberta. – disse ela tentando se acalmar – Isso não é amor.
- Então o que é? – perguntou ele exasperado.
- Você só não queria me perder porque foi acostumado a não perder nada, você sempre teve tudo que quis enquanto quis. As pessoas não são assim, eu não sou como um dos seus mimos caros que te distraem nos momentos de tédio.
- Você ama ele? Você ama o Munhoz?
- Amo! – respondeu a garota sem hesitar – Amo como nunca amei ninguém, mas mesmo assim fiquei ao seu lado porque achava que você precisava e merecia uma boa namorada. Agora vejo como estava enganada.
- Não! – disse Chris num grito – Eu ainda preciso de você, Nath. Você me faz uma pessoa melhor. Antes de você eu não via valor em nada que não fosse dinheiro, agora você me parece o mais valioso bem.
- Chris você está enganado. – falou Nathalia passando a mão no seu rosto. – Você também não me ama, um dia você vai amar alguém e eu não quero estar no seu caminho, te atrapalhando.
- Como você sabe que eu não te amo? – perguntou ele frustrado – Você não tem como saber.
- Eu sei. – disse ela sentando no sofá por temer que as pernas não conseguissem mais ficar firmes – Se você sentisse o que eu sinto pelo PeLu, preferia sumir da face a Terra, a me ver sofrer por estar com você por obrigação. Eu faria qualquer coisa para ver o PeLu feliz, qualquer coisa.
- Você realmente ama ele? – perguntou o rapaz com acidez.
- Não sei nem se a palavra amor consegue definir o que eu sinto por ele, Chris. – confessou Nathalia abaixando a cabeça nas mãos – Eu não sei nem explicar como é forte o que eu sinto por ele.
- Ele não vai te dar nenhum futuro. O que ele vai ser? Um cantor de porão? Sonhos adolescentes não sustentam uma casa.
- Chris, eu não me importo com o que ele vai ou não ser, vai ou não ter. – disse ela levantando o rosto – Tudo que eu me importo é quem ele é.
- A idéia de virar dona de casa cercada de filhos e afazeres domésticos então não te incomoda? Saber que seus filhos poderiam ter um nome, poderiam ser alguém.
- Nada disso me assusta. – disse a garota – O que eu sinto é tão forte que nem ao menos preciso de filhos para me sentir completa.
- Você é impossível. – disse Chris irritado com a teimosia da menina – Eu posso te dar tudo e você simplesmente se nega a receber.
- Se quiser me dar sua amizade. – falou Nathalia juntando forças para continuar – É tudo que poderei aceitar.
- Eu estou indo para Alemanha amanhã, vou terminar o último ano lá para dar maior assistência aos negócios do meu pai naquela parte da Europa – disse ele olhando para o chão – Estarei esperando você mudar de idéia, eu sei que vai mudar, pode não ser hoje ou mês que vem, mas um dia você vai me querer de volta e eu estarei te esperando – completou Chris caminhando até a porta sem olhar mais para trás.
Cap. 48

Nathalia ouviu a porta da frente bater com força e tudo que conseguiu fazer foi, escorregar do sofá para o piso frio da sala, onde deixou-se dominar por seus pensamentos. Uma onda de sentimentos antagônicos invadiram sua mente, de uma vez só, mal deixando espaço para o cérebro controlar a respiração ou as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Por um lado, a raiva de ter sido enganada, o arrependimento pelos erros que cometeu em prol de uma mentira, por outro a dor causada pelas palavras de Chris e o medo de um futuro tão incerto. Para completar, uma mistura de felicidade por, finalmente, poder ficar com PeLu, sem nenhum empecilho e a dor que o amor gerava em seu peito. Antes ela, apenas, sentia o amor, mas depois de ouvir sua voz falando nele, tudo parecia grande demais. Era intimidante o crescimento daquele sentimento dentro de si mesma. Quando parecia ser impossível alguém sentir mais amor, vinha um novo dia, para lhe provar que ela podia amar ainda mais que no dia anterior.
- Nath! – disse PeLu, correndo até a garota, que estava sentada no chão, abraçando os joelhos enquanto chorava silenciosamente - Está tudo bem agora, ele já foi. – completou sentando ao lado da menina abraçando-a contra o peito.
- PeLu, eu não terminei de limpar o corte... – disse Carol saindo da cozinha com um pano sujo de sangue nas mãos.
- Eu acho que já terminou. – disse PeLu soletrando cada letra enquanto mandava um olhar irritado para irmã.
- Acho que ele quer que a gente vá embora. – sussurrou Pedro no ouvido da garota enquanto observava o estado crítico em que a amiga estava.
- Mas e a Nath...
- Deixa o PeLu ser útil uma vez na vida. – falou Pedro puxando Carol pela mão – Voltamos depois. – completou sem nenhuma necessidade já que as únicas pessoas que ficaram na sala, não escutavam mais uma palavra ao seu redor.
- Nath amor, está tudo bem, eu estou aqui com você. Não há motivo de choro. – disse PeLu passando o polegar para enxugar as lágrimas que não paravam de brotar de seus olhos – Você está me ouvindo?
- PeLu... – falou Nathalia, por fim, soltando os joelhos para abraçar o garoto – Agora eu sei, na realidade eu sempre soube, mas só agora fui entender.
- Entender o que? – perguntou ele encostando a cabeça no cabelo da garota para sentir seu cheiro adocicado.
- Entender que eu preciso de você. – disse Nathalia entre lágrimas – Jura que enquanto me amar vai estar ao meu lado?
- Eu sempre vou estar ao seu lado. – corrigiu PeLu se afastando um pouco para olhar em seus olhos.
- Sua mão. – disse a garota percebendo o corte aberto na palma esquerda – Está machucada.
- Isso não é nada. – falou ele escondendo a mão dos olhos preocupados da menina – Como você se cortou? – perguntou Nathalia ignorando a fala do rapaz – Está doendo muito?
- Nath, não foi nada. – disse PeLu se amaldiçoando por não ter deixado a irmã terminar o serviço – Só um copo que escorregou.
- Mas se o copo escorregou, como... – começou a garota antes de ser interrompida por um beijo apressado dele.
- PeLu... – disse a menina se afastando com dificuldade – Você tá com a mão machucada, deixa eu fazer um curativo.
- Acho que antes a gente precisa voltar ao ponto em que estávamos antes de sermos interrompidos. E de qualquer forma, eu não preciso de curativos, tenho você para me fazer sentir mais forte. – disse ele voltando ao beijo.
Depois de alguns minutos, o chão frio começou a ficar desconfortável, então, PeLu pegou Nathalia nos braços e subiu a escada interrompendo o beijo, apenas, para abrir a porta do seu quarto. Nathalia não sentia nenhuma parte do seu corpo que não estivesse em contado com os lábios de PeLu. E onde seus corpos se encontravam parecia correr uma corrente elétrica que fazia os dois estremecerem. PeLu colocou a garota na cama e deitou delicadamente sobre ela tirando seus lábios de sua boca e indo para o pescoço, percorrendo até o seu ombro direito. Nathalia colocou as mãos dentro da camisa do rapaz fazendo seu abdômen contrair com o toque gelado, o que a fez sorrir. Passou as mãos, para as costas do garoto que resolveu tirar logo a camisa. PeLu não conseguiu mais apoiar os braços na cama, para não pesar sobre a menina, por isso deitou entre suas pernas fazendo ela corar e perder o fôlego momentaneamente. O garoto riu da cor rosada que se formou no rosto de Nathalia, deixando-a muito parecida com as bonecas de porcelana que sua irmã tinha quando criança, todas com as bochechas bem vermelhar e o olhar brilhante, mas foi quando PeLu parou para ver o olhar dela, percebendo o caminho molhado deixado pelas lágrimas minutos atrás, que foi puxado de volta a realidade.
- Preciso de um banho. – disse o garoto arfando, sentando na cama de uma vez.
- O quê? – perguntou Nathalia um pouco zonza.
- Água, água fria sempre ajuda. – falou PeLu balançando a cabeça para tirar certos pensamentos de dentro dela.
- Água? Do que você está falando? – perguntou a garota sentando no seu colo.
- Nath eu não posso. – disse ele fechando os olhos com força – Não agora.
- Do que você está falando? – disse Nathalia beijando seu pescoço enquanto escutava a respiração do garoto voltar a acelerar.
- Nós não podemos continuar com isso hoje... – falou ele tirando a garota com cuidado do seu colo – Você está confusa, não está em condições de escolher nada agora.
- Eu sei bem o que eu quero. – disse a menina bufando – Eu quero você.
- Eu também te quero, mas do que qualquer outra coisa nesse mundo. – falou ele passando a mão pelo cabelo.
- Então qual é o problema? Nós dois estamos livres, não devemos nada a ninguém. – falou ela ainda incrédula com a palavras do garoto.
- O problema é que essa não seria a minha primeira vez. Com certeza a única com sentimentos, que vão além do desejo, mas mesmo assim não a primeira de todas, mas seria a sua e eu não quero que suas lembranças estejam misturadas com o que aconteceu a pouco.
- Eu já nem lembro mais o que aconteceu antes disso. - disse ela com cautela para não ser traída por sua própria voz tremendo.
- Você é uma péssima mentirosa. – falou PeLu fechando as mãos em punhos para não correr o risco de abraçá-la novamente – Seus olhos sempre te entregam.
- O que têm meus olhos? – perguntou ela passando a mão pelo rosto tentando achar alguma coisa.
- Nada de errado. – tranqüilizou ele – Só estão molhados por causa das lágrimas.
- Isso é injusto. – reclamou Nathalia passando a mão no braço nu de PeLu – Eu não estou triste.
- Nath, eu realmente preciso de um banho. – disse o garoto sentindo um arrepio correr por sua espinha fazendo-o levantar.
- Não. – disse a menina segurando sua mão antes que ele se afastasse – Não me deixa sozinha, eu prometo ficar quieta.
- Nath...
- Eu juro. – falou ela fazendo beicinho – Vou ficar quieta.
- Aiiiii, eu fico então. – disse PeLu revirando os olhos dando-se por vencido – Mas você vai para o seu quarto e eu fico lá um pouco... depois vou tomar o meu banho.
- Fica até eu dormir? – perguntou ela levantando de um pulo da cama.
- Fico. – disse PeLu respirando fundo enquanto mentalizava “Tenha controle, tenha controle”. Enquanto seguia a menina atravessando o pequeno corredor, que dividia os dois quartos, teve uma inundação de idéias que praticamente cantavam na sua cabeça enquanto via a garota de sua vida deitar entre as cobertas grossas de sua cama.


“Looking in your eyes
Hoping they won't cry
And even if you do
I'll be in bed so close to you
Hold you through the night
And you'll be unaware
But if you need me I'll be there”



(Olhando em seus olhos
Esperando que eles não chorem
E mesmo se você chorar
Eu vou estar na cama tão perto de você
Para te abraçar pela noite
E você vai estar inconsciente
Mas se precisar de mim, eu estarei lá)


Cap. 49

Na manhã seguinte todos fizeram as últimas provas do semestre, exceto Chris, que já tinha embarcado no primeiro vôo para Alemanha, ainda de madrugada. Perto do meio dia, uma multidão de alunos passou correndo, pelos grandes portões de ferro, rumo à liberdade das tão esperadas férias de verão. O sol brilhava fracamente sobre as espessas nuvens que cobriam o céu, mas a temperatura continuava agradável para os padrões londrinos. Conversas calorosas enchiam o estacionamento enquanto alunos se despediam dos colegas e relatavam seu itinerário de férias com muita animação, e professores com expressões cansadas agradeciam, mentalmente, a folga que teriam, daquele lugar, infestado de hormônios juvenis.
- FÉRIAS!!!!!!!!!!!! – gritou Lucas correndo com Katlen pendurada em suas costas.
- Nem acredito, que estamos livres dessa prisão, por um bom tempo! – disse Thomas girando o caderno no dedo como se fosse uma bola – Hasta la vista escola.
- Então, vamos comemorar o primeiro dia de liberdade fazendo o quê? – perguntou Gabriela parando de andar.
- Lá em casa. – disse PeLu abrindo seu carro – Preciso falar com todos vocês, hoje.
- Dude, se for falar de algum assunto relacionado à banda, não dá para esperar até amanhã? – perguntou Lucas colocando a namorada no chão – Não vamos falar de trabalho na primeira hora de liberdade, por favor.
- Não é sobre a banda. – falou PeLu olhando significativamente para Nathalia – É muito importante.
- Vamos logo galera, a gente aproveita e faz uma festa ao estilo McFly na casa do PeLu. – sugeriu Pedro abrindo um sorriso enorme por suspeitar do que o amigo queria falar. Ele não tinha tido tempo a sós com nenhum dos dois e por isso ainda não sabia o que tinha acontecido na noite anterior.
- Se vai ter festa precisamos de comida. – lembrou Carol – Lá em casa tá faltando até água.
- Eu e o Lucas passamos no supermercado e compramos salgadinhos, bebidas e todo besteirol engordante que acharmos... – disse Thomas – Enquanto isso, vocês pedem alguma coisa para o almoço.
- Pode deixar comigo. – riu Nathalia – sou muito boa pedindo comida por telefone.
- Não sei como eu viveria, se não ignorasse cada besteira que ela fala. – riu Gabriela revirando os olhos.
- Admite que você me ama. – falou a amiga dando língua.
- Às vezes. – riu Gabriela, correndo para se proteger, atrás de Thomas.
- Certo, certo acabou a macaquice. – disse Katlen puxando Nathalia para dentro do carro de PeLu – Eu estou com fome, vamos logo.
- Você vive faminta. – acusou Carol entrando no carro em seguida – Parece que não come em casa.
- Eu preciso comer por dois, ok? – defendeu-se a menina.
- ! - disse PeLu arregalando os olhos – Você não...
- Kath? – perguntou Lucas num sussurro.
- Ei! Calma vocês dois... – disse Katlen – Preciso comer por mim e pela solitária que vive na minha barriga.
- Só podia ser. – falou Gabriela voltando a respirar após alguns segundos.
- Se um dia eu morrer por problemas cardíacos... – disse Lucas com a mão no peito – A culpa é TODA dela.

...

- Então? – disse Carol ao ver que todos já estavam espalhados num círculo mal feito pela sala – Pode falar PeLu.
- E, por favor, seja breve. – pediu Thomas mandando um olhar de desejo para cozinha que já estava abastecida com as compras do supermercado.
- Tem outra pessoa que também quer falar. – disse PeLu sentando no centro do círculo – Nath.
- Ah, que ótimo. – riu Lucas – Virou um comício.
- Cala boca ! – disse Pedro jogando uma almofada no amigo.
- Obrigada, hon. – agradeceu Nathalia sentando ao lado de PeLu – Prometemos ser o mais breve possível.
- Podem começar, então. – falou Gabriela.
- Bem, é um pouco complicado para vocês entenderem... – começou PeLu – Mas até terminarmos de falar tudo, ninguém interrompe para fazer nenhum comentário, ok?
- Ok. – falaram seis vozes juntas.
- Primeiramente... – falou Nathalia vendo o olhar incentivador de PeLu – Quero dizer que ontem à noite terminei com Chris.
A reação da sala foi instantânea, todos pareciam felizes em ouvir aquelas palavras, as meninas até tentavam disfarçar como forma de solidariedade, mas os garotos nem se deram o trabalho de tanta sutileza. Apenas ficaram rindo como se estivessem parabenizando a amiga, pela decisão inteligente. Quando Thomas parecia querer falar alguma coisa PeLu interrompeu para continuar com as revelações.
- Eu e a Nath... – disse PeLu segurando a mão da garota – Nós estamos namorando.
Todo barulho evaporou para algum lugar desconhecido, todos os presentes simplesmente perderam a respiração, a fala, o pensamento. Ninguém sabia se aquilo tudo era uma piada ou se era uma alucinação maluca que estavam tendo. Pedro e Carol eram os menos chocados, pois já esperavam alguma coisa do tipo, após os acontecimentos da noite anterior, mas mesmo assim a surpresa era inevitável. Os amigos simplesmente não conseguiam processar a idéia de que, duas pessoas que só faltavam se matar, estarem diante de seus olhos, de mãos dadas, assumindo um relacionamento. Tudo parecia utópico demais até para aqueles que já sabiam alguma coisa do passado dos dois amigos.
- Nós já terminamos. – disse PeLu vendo que os amigos pareciam num estado de hipnose há minutos.
- HÃ? – foi tudo que Katlen conseguiu murmurar enquanto piscava algumas vezes para ter certeza do que via.
- Qual é gente? Não estamos confessando que matamos a rainha nem nada do tipo... – brincou PeLu numa tentativa de relaxar o ambiente.
- Vocês... – balbuciou Thomas – Puta que pariu, esse é o fim do mundo.
- Deixa de ser dramático Thomas. – disse Nathalia fazendo uma careta.
- Mas como? – perguntou Gabriela incrédula – Foi rápido demais. Você estava namorando há menos de vinte quatro horas.
- Digamos que isso já era uma coisa certa, só faltava tirar uma peça do jogo para tudo se oficializar. – disse PeLu sem querer dar muitos detalhes.
- Isso é loucura. – Katlen falou depois que recuperou a voz – Vocês andaram bebendo?
- Não! – responderam os dois quase rindo das caras de espanto dos amigos.
- Vocês nos enganaram muito bem... – disse Lucas com a boca ligeiramente aberta – Esse tempo todo fingindo que se odiavam e na realidade estavam apaixonados.
- Eu não diria que o ódio foi mero fingimento. – riu Nathalia – Tem horas que eu tenho vontade de matar o PeLu.
- Ah, obrigado por me avisar. – riu PeLu – Agora vou procurar ficar bem longe quando você estiver zangada.
- Acho bom tomar cuidado, mesmo, Munhoz! – disse a garota fingindo uma cara maquiavélica.
- Alguém tem mais alguma coisa a dizer? – brincou Carol – Que diga agora ou se cale para sempre.
- Depois disso tudo eu poderia até dizer que sou gay... não seria chocante para ninguém. – disse Pedro entrando no jogo, eles precisavam parecer tão surpresos quanto os colegas.
- Como assim você não é gay? – falou Thomas arregalando os olhos – E todas as vezes que você disse me amar? Era tudo mentira?
- Thomas você nunca soube guardar um segredo. – reclamou Pedro fazendo uma cara gay.
- Vocês querem parar? – falaram juntas Gabriela e Carol.
- Por quê? – perguntaram os meninos contendo o riso?
- Porque eu fico constrangida ouvindo que meu namorado é gay. – disse Gabriela irritada.
- Qual é a sua desculpa, Caah? – perguntou Lucas, que adorava colocar a garota em situações delicadas.
- Não é da sua conta. – respondeu Carol, corando.
- Ok, que tal a gente comer, agora? – sugeriu Nathalia levantando do chão.
– Vamos lá gente, esse é o nosso primeiro dia de férias, temos que aproveitar.
- As pizzas! – disse Katlen dando um pulo ao ouvir a campainha – Deixa que eu pego.
- Esse é o espírito da coisa. – riu PeLu levantando também – Vamos lá gente, fechem essas bocas e parem de me olhar com esses olhos arregalados, ok? Temos uma festa pela frente.

Cap. 50

- Falando sério, quantas músicas já temos para gravar? – perguntou Thomas durante uma reunião, feita pela banda, no dia seguinte. Os quatro garotos estavam sentados no chão do porão, rodeados de folhas de papel com números de telefone, letras de música e lixo do dia anterior.
- Já com melodia e tudo... – disse PeLu contando as folhas – Temos “All About You”, “Too close for comfort”, “Recomeçar”, e só a letra temos mais duas.
- Podemos gravar umas músicas de outras bandas também. – sugeriu Pedro – Só queremos que alguma gravadora veja que temos potencial.
- Boa, dude. – falou Lucas animado – Podemos gravar umas dos Beatles.
- PeLu, que músicas são essas que ainda não têm melodia? – perguntou Pedro pegando duas folhas para dar uma olhada.
- São idéias mais novas. – explicou o garoto – Acho que ficaram boas, só falta achar o ritmo certo.
- Me deixa ver. – disse Thomas, já tomando, as folhas das mãos de Pedro – Você fez essas músicas para a Nath?
- Não idiota, ele fez para a minha avó. – riu Lucas batendo na cabeça do amigo – Você acha que alguma música que o PeLu fez não foi para ela?
- Isso ainda é um pouco confuso para minha mente, ok? – reclamou Thomas emburrado – Ainda estou processando a informação.
- Porque você é lerdo. – disse Pedro distraidamente enquanto tentava montar os acordes certos para uma das músicas.
- Tenho que admitir uma coisa... – falou Lucas parecendo mais sério – Mas se algum de vocês falar que eu disse isso, nego até a morte.
- Fala logo! – reclamou PeLu impaciente.
- Eu amo a Nath.
- O que? – perguntaram três vozes, duas em total choque e uma em total fúria.
- Não seus lesados... – disse o garoto revirando os olhos – Pensem comigo, não sendo a Nath só teríamos a música do sonho louco do Pedro.
- Verdade. – disse Thomas após alguns segundos analisando a fala do amigo – A guria é boa mesmo nisso.
- Ei. – riu PeLu – Eu que fiz as músicas e a boa é a Nath?
- Desculpa dude, mas todas as vezes que tivermos que escolher um de vocês dois para ser bom... – disse Thomas piscando – Ela sempre vai ganhar.
- Quem sempre vai ganhar? – perguntou Nathalia descendo as escadas do porão sendo seguida por Carol.
- Você. – disse PeLu rindo – Eu sou um perdedor, já me acostumei com a idéia.
- Não fala isso, seu bobo. – disse a garota pulando no seu colo – Meu namorado não é um perdedor.
- Ela diz isso só para não te fazer sofrer, você sabe disso. – riu Carol sentando no chão ao lado de Pedro.
- Obrigado Carol, você é uma irmã muito gentil. – rebateu PeLu cerrando os olhos.
- E sincera. – completou a garota rindo.
- O que vocês estão fazendo? – perguntou Nathalia olhando a bagunça de papéis.
- Checando o material que já temos para gravar. – respondeu Lucas – Três músicas completas e duas inacabadas.
- Temos músicas novas, então? – perguntou Carol, curiosa.
- Temos, mas você não vai olhar até estarem prontas. – disse PeLu pegando rapidamente o papel e sentando em cima.
- Eu quero ver! – reclamou Nathalia tentando tirar as folhas de debaixo da perna do garoto.
- Não. – falou PeLu segurando as mãos da menina – Deixa de ser curiosa, é surpresa.
- Chato. – disse Nathalia dando língua.
- Viu, eu sempre disse que era melhor que ele. – riu Pedro – Mas você sempre me rebaixou ao cargo de amante.
Nathalia já estava pronta para responder a reclamação boba do amigo quando o celular de PeLu tocou espantando todos, que estavam entretidos na discussão que se iniciava. Quando o garoto olhou o número no visor pediu silêncio antes de atender, mantendo uma voz profissional ao telefone durante toda conversa que se arrastou por alguns minutos. Cinco pares de ouvidos aproximaram-se para ouvir qual era o assunto tão importante enquanto PeLu respondia com algumas palavras vagas “Temos”, “Certo”, “Seria ótimo”.
- E então... – perguntou Thomas assim que o amigo desligou.
- Quem era? – Pedro soltou em seguida.
- Temos uma pequena apresentação essa noite. – disse PeLu abrindo um sorriso que acabou por distrair Nathalia da importância da conversa. Ela sempre acabava perdida com os olhos no sorriso dele.
- Sério? – perguntou Lucas – Já estava com saudade de fazer uma apresentação.
- Nem me fale, ainda bem que estamos de férias. – disse Pedro – A escola restringe muito nossos horários.
- Vai ser hoje mesmo? – perguntou Carol sentando sobre os joelhos.
- Daqui a exatamente cinco horas. – respondeu PeLu olhando rapidamente rel[ogio – Vai ser num pequeno pub perto do centro.
- Mas como nos acharam? – perguntou Thomas surpreso – Fizemos poucas apresentações até agora. Tirando a galera da escola, quase ninguém conhece a banda.
- Mais uma vez tenho que admitir que sou muito bom, nisso. – disse PeLu se gabando – Falei com as pessoas certas e eles me prometeram arranjar algo, então quando a banda que tocaria essa noite ligou desmarcando por alguns problemas que apareceram, eles não demoraram a lembrar de mim.
- Isso é a oportunidade que pedimos aos céus. – disse Pedro com os olhos brilhantes – Nossa primeira apresentação séria.
- O primeiro passo rumo à fama. - disse Lucas aos gritos.
- Eu... – tentou Nathalia sem sucesso enquanto as lágrimas apareciam discretamente nos seus olhos.
- O que foi Nath? – perguntou PeLu passando os braços ao seu redor, trazendo seu corpo para mais perto – Qual é o problema?
- O deve ter estourado os tímpanos dela. – disse Thomas olhando feio para o amigo.
- Vocês dois querem calar a boca? – brigou Carol enquanto tentava entender o choro da amiga.
- Vocês vão realmente tocar profissionalmente. – disse Nathalia por fim enquanto abraçava PeLu com força.
- Isso te incomoda? – perguntou o garoto confuso.
- Claro que não! – respondeu ela enxugando as lágrimas na blusa de PeLu – Só estou emocionada. As coisas parecem estar ficando mais reais a cada dia.
- Ah guria... – disse Pedro abraçando a amiga também – Você é muito chorona mesmo.
- Abraço coletivo na Nath! – disse Carol pulando sobre os três.
- Aewwwww!! – gritaram Thomas e Lucas ao mesmo tempo pulando sobre os amigos num montinho bagunçado e espalhado pelo chão.
- Ok, ok, me deixem respirar! – gritou a menina tentando se livrar do sufocamento.
- Você sempre estraga a brincadeira. – reclamou Lucas saindo de cima de Pedro.
- Temos uma apresentação para fazer, esqueceram? – perguntou a menina já de pé.
- Verdade. – disse PeLu levantando também – Temos que chegar ao pub pelo menos uma hora antes, para checar o som.
- Katlen e Gabriela estão aonde? – perguntou Pedro dando por falta das amigas.
- A Kath me disse que estava fazendo um bolo para o aniversário da tia ou tio... ou sei lá quem. – disse Lucas – Mas ela tem que ir com a gente.
- Mas é claro que ela vai! – disse Nathalia – Ela e a Gabriela.
- Biiah vai ser mais fácil. – falou Thomas – Ela só está em casa curtindo uma dor de cabeça pela festa de ontem.
- Thomas então você busca ela e vem aqui para casa. – disse PeLu ao amigo – Carol, você corre até a casa da Katlen e arrasta ela com ou sem bolo pronto.
- Pode deixar. – disseram os dois batendo continência antes de saírem apressados.
- Enquanto eles não chegam vamos tentar arrumar uma melodia para essas músicas. – disse PeLu sentando no sofá com as folhas amassadas nas mãos.
- Eu já tenho uma idéia para essa primeira. – disse Pedro começando a falar algumas coisas técnicas demais para Nathalia realmente entender.
- Eu quero ajudar também. – falou a garota impaciente – Não vou conseguir ficar parada esse tempo todo.
- Faz um lanche para a gente, então. – sugeriu Lucas esperançoso.
- Eu quero fazer algo útil para a banda, não para sua barriga.
- Minha barriga faz parte da banda. – retrucou Lucas – Sem minha barriga eu não existiria e sem eu existir a banda não se formaria logo, ajudando minha barriga você estará ajudando a banda.
- Nath por que você não vai lá em cima e separa umas roupas para usarmos de noite? – perguntou PeLu ignorando o discurso do amigo e aproveitando essa desculpa para tirar os ouvidos da garota do porão.
- Mas vou achar só roupas suas. – disse ela relutante em sair de perto – E os meninos vão usar o que?
- Eu faço apresentação até pelado. – riu Pedro – Isso não é problema.
- Um dia quem sabe. – disse PeLu rindo – Mas até eu beber o suficiente, para não me importar de te ver pelado, a Nath separa umas roupas minhas para vocês usarem.
- Certo, eu vou arrumar as roupas. – disse a garota por fim – Mas não vão se acostumando com essa moleza toda não, é só dessa vez.
- Vamos te pagar por ser nossa estilista, assim que ficarmos ricos. – prometeu Pedro vendo a amiga subir as escadas rumo a sala.

Cap. 51

- Todos os instrumentos no carro? – perguntou PeLu com uma lista na mão.
- Confere. – respondeu Lucas checando na mala dos dois carros parados em frente à casa dos Munhoz’s.
- Roupas? – perguntou PeLu após riscar o item “instrumentos” do papel.
- Confere. – disse Nathalia com um sorriso vitorioso no rosto.
- Biiah, Katlen?
- Aqui. – disseram as duas meninas levantando as mãos no ar.
- Chaves?
- Na mão. – disse Thomas girando dois chaveiros entre os dedos.
- Ok. – disse PeLu depois de riscar todos os itens da lista – Vamos lá galera.
- Temos um probleminha, ainda. – disse Pedro cortando a animação.
- O que? – perguntaram todos, já irritados com a demora.
- Temos que nos dividir em dois grupos para caber nos carros. – lembrou o garoto – Metade vai no carro do PeLu e metade no carro do Thomas. – completou gesticulando exageradamente para os amigos.
- Qual é o problema disso? – perguntou Katlen sem entender a dificuldade de dividir oito pessoas em dois grupos de quatro. Tudo bem que os garotos nuca foram bons em matemática, mas isso já era demais.
- O problema é que nós quatro temos que ir juntos para terminar de pensar nos últimos detalhes. – disse Thomas parecendo um pouco incomodado.
- Vão em um carro só. – disse Gabriela.
- Mas se formos num carro só, nenhum de nós vai no outro. – rebateu PeLu, tentando medir as palavras com cuidado, ao mesmo tempo que olhava cuidadosamente seu carro, parado, a poucos passos de distância.
- E? – perguntaram as meninas sem paciência.
- Resumindo... – disse Lucas – Nem o PeLu nem o Thomas querem deixar uma garota dirigir seus carros.
- Como? – perguntaram as quatro irritadas.
- Vocês acham que não sabemos dirigir? – perguntou Carol ficando ligeiramente vermelha.
- É só por precaução. – justificou-se Thomas, rapidamente.
- Sem falar que eu já te vi dirigindo, Carol. – disse PeLu de forma cautelosa – Você é péssima no volante.
- Vocês estão generalizando, então? – perguntou Gabriela cruzando os braços.
- Claro que não, amor. – respondeu Thomas tentando abraçar a garota que virou de costas.
- PeLu? – perguntou Nathalia.
- Nath nós não estamos generalizando... – disse o garoto já planejando mil e uma formas de matar Lucas quando estivessem longe dos olhos das garotas. – Mas da última vez que a Carol pegou um carro, o coitado saiu destruído, você lembra.
- Então está tudo certo. – disse Nathalia puxando um chaveiro da mão de Thomas – Se não é uma generalização a Caah não dirige, mas eu sim.
- De qual carro é a chave? – perguntaram Thomas e PeLu rapidamente.
- D'Villa, vamos ter um prazer enorme de dirigir seu belo carro durante nosso tour. – disse a garota sorrindo enquanto girava o chaveiro na mão.

...

- Mostra para eles como uma garota dirige, Nath. – disse Katlen do banco traseiro enquanto a amiga colava na traseira do carro de PeLu.
- Se eu fosse fazer isso, eles já estariam muito atrás. – riu Nathalia piscando para amiga pelo retrovisor.
- Quanto tempo temos até chegar lá? – perguntou Carol jogando as pernas por cima de Katlen para se esticar no banco.
- Levando em consideração o trânsito nesse horário... – disse Nathalia pensando um pouco – Mais ou menos uma hora.
- Se vamos ficar esse tempo todo no carro, vamos nos divertir um pouco... – disse Gabriela do banco de passageiro, ligando o som – Vamos ver o que está tocando por aqui.
- Depressiva demais. – disse Nathalia mudando de emissora.
- Música de corno. – falou Gabriela mudando novamente.
- Música de marginais. – disse Nathalia passando rápido para outra música.
- Hey, não fala assim. – brigou Katlen – Eu sou do gueto, ok?
- Ah, tá bom. – falou Carol rindo – E eu sou a bala que matou John Lenon, prazer.
- É sério. – rebateu a menina – Sinto muito, ser eu a te informar, que moramos no subúrbio londrino.
- Nós moramos apenas distante, mas isso não nos inclui no gueto.
- Essa! – disse Gabriela acabando a discussão das amigas ao aumentar o som assim que começou a tocar Girls Just a Wanna Have Fun.

“I come home in the morning light
My mother says when you're gonna live your life right
Oh mother dear we're not the fortunate ones”


- Vamos lá meninas, todas juntas! – gritou Nathalia tirando as mãos do volante e levantando-as no ar.

“And girls they wanna have fun
Oh girls just wanna have fun”


- O que essas loucas estão fazendo? – perguntou PeLu olhando o carro de Thomas, pelo retrovisor, andar fazendo curvas na pista, enquanto as quatro meninas pulavam com os braços para cima.
- Porra! – gritou Thomas olhando o motivo da preocupação do amigo – Meu carro!!!!
- Eu quero ir para lá! – disse Lucas encostando o rosto e as mãos no vidro traseiro.
- Cala a boca, seu idiota. – brigou Thomas colocando os braços para fora tentando fazer as quatro pararem.
- Assim elas vão bater. – disse PeLu buzinando.
- Dude, elas parecem estar cantando... – disse Pedro colado no vidro traseiro, também.

“The phone rings in the middle of the night
My father yells what you're gonna do with your life
Oh daddy dear you know you're still number one
But girls they wanna have fun
Oh girls just wanna have”


- Acho que eles querem falar alguma coisa. – disse Carol olhando o carro da frente.
- Relaxa Caah, eles só estão com medo de perderem a corrida. – disse Nathalia rindo ao aumentar ainda mais o som.

“That's all they really want
Some fun
When the working day is done”


- Que corrida? – perguntaram as três de uma vez.
- A que começa agora. – disse a menina acelerando.

“Oh girls... they wanna have fun
Oh girls just wanna have fun
Wanna have fun
Girls wanna have...”


- O que é isso agora? – perguntou PeLu aumentando a velocidade para não ter a traseira do carro amassada.
- Acho que elas querem nos ultrapassar. – disse Pedro tentando conter o riso.
- Mostra para elas como se dirige, dude! – falou Lucas pulando no banco traseiro – Vamos mostrar quem são os melhores.
- Não!!! – gritou Thomas – PeLu pára esse carro agora, essas malucas vão destruir meu carro, meu lindo e único carro, que eu economizei desde os sete anos para comprar!
- Exagerado. – acusou Pedro batendo na cabeça do amigo.
- Eu também quero me divertir... como elas. – reclamou Lucas colocando a cabeça entre os bancos da frente – Vamos jogar também.

“Some boys take a beautiful girl
And hide her away from the rest of the world
I wanna be the one to walk in the sun
Oh girls they wanna have fun
Oh girls just wanna have”


- Por que eles não aceleram ou simplesmente saem da frente? – perguntou Gabriela frustrada com as tentativas falhas de ultrapassagem.
- Acho que eles ainda estão decidindo entrar ou não na corrida. – disse Carol olhando os olhos furiosos de Thomas pelo retrovisor.
- O meu celular. – disse Nathalia assim que o aparelho começou a vibrar no seu bolso – Alô?
- Nath, o que vocês estão fazendo? – perguntou PeLu, quase aos gritos, para poder ser ouvido com o som tão alto do carro de Thomas.
- PeLu, querido... – disse a menina rindo – Isso é uma corrida, não percebeu? Vocês querem uma intimação para participarem?
- Nath isso não tem graça, o Thomas está a um passo do enfarte olhando o carro dele correr desse jeito...
- Sendo dirigido por uma garota... – completou Nathalia- ele só está preocupado porque é uma mulher que dirige. PeLu, não estamos fazendo nada demais, só nos divertindo.

“That's all they really want
Some fun
When the working day is done
Oh girls... they wanna have fun
Oh girls just wanna have fun,

Wanna have fun
Girls wanna have...”

- Teimosa! – bufou PeLu tendo que se afastar de Thomas para este não arrancar o celular da sua mão.
- Eu também te amo. – riu Nathalia – Agora você decide, ou sai da frente e libera a passagem... ou tenta ganhar, o que eu acho uma possibilidade bem remota.

“They just wanna.... (girls)
They just wanna.... (girls just wanna have fun)
They just wanna have fun...”



- Nath...
- Tchau PeLu, que o melhor vença. – disse a menina antes de desligar sobre aplausos e gritos da amigas.
- Que saber? – disse PeLu dando mais uma olhada pelo retrovisor.
- PeLu, você não vai fazer o que eu estou pensando que você vai fazer e... - disse Thomas com raiva.
– Desculpa, dude. - disse PeLu olhando mais uma vez pelo retrovisor - Que se dane! –completou acelerando o carro até ouvir seu motor gemer.

“When the working
When the working day is done...
When the working day is done...
Oh girls...
Girls just want to have fun...

They just wanna.... (girls)
They just wanna.... (girls just wanna have fun)
They just wanna have fun...”
They just wanna.... (girls)
They just wanna.... (girls just wanna have fun)
They just wanna have fun”

Cap. 52

- GANHAMOS! – gritaram as quatro meninas descendo do carro, assim que ele parou na calçada, de um movimentado bairro da cidade.
- Losers. – disse Carol fazendo um “L” com no ar.
- Por isso não queriam entrar no jogo. – riu Katlen dando pulinhos - Estavam com medo de perder.
- Hey! – disse PeLu saindo do carro – Nós deixamos vocês ganharem. Não forçamos muito a velocidade só para vocês não tentarem ir mais rápido...
- E acabarem com o MEU carro! – completou Thomas pondo-se ao lado do amigo.
- Nem ao menos sabem perder. – disse Nathalia fazendo uma cara de reprovação – que coisa feia meninos, a mãe de vocês nunca disse que isso não é legal?
- Vocês não chegaram na frente... – falou Lucas emburrado – Nós só deixamos vocês estacionarem primeiro, somos cavalheiros, ok?
- Amorzinhooo, corta essa. – disse Katlen, rindo – Vocês não são cavalheiros nem quando devem ser, imagine num jogo.
- A Nath é demais, pampampam, a Nath é demais, pampampam, a Nath é sensacionaaaaal! – cantavam Gabriela e Carol enquanto faziam caretas para os meninos.
- Ok, chega. – disse PeLu pegando a chave do carro do Thomas das mãos da namorada – Todo mundo entrando pela porta dos fundos agora!
- Certo general. – riu Nathalia batendo continência.
- Todos menos você. – disse ele no ouvido da garota para que ninguém mais ouvisse – Thomas, Lucas e Pedro vão levando os instrumentos lá para dentro, Carol, Biiah e Kath levam as roupas.
- E vocês dois não fazem nada por quê? – perguntou Thomas levantando uma sobrancelha.
- Nós vamos ficar e checar se nada foi esquecido em nenhum carro. – disse PeLu – Estaremos lá dentro em dois segundos se vocês forem eficientes e levarem tudo.
- Mandão. – saiu resmungando Carol, para o irmão.
- O que foi PeLu? – perguntou a menina assim que todos entraram pela pequena porta dos fundos.
- Nath... – disse ele abraçando-a pela cintura – Nunca mais faça isso.
- Isso o que? – perguntou a menina confusa – Ganhar de vocês? Mas eu nem me esforço, sai naturalmente...
- Não, sua boba... – disse ele tentando não rir – Estou falando em fazer uma besteira dessas... sair correndo por ai, a mais de 100Km em um carro.
- Mas você também correu. – rebateu a menina fazendo manha.
- Eu sei. – falou PeLu fazendo uma cara estranha que fez a garota morder o lábio inferior para não rir – Mas eu sou o idiota aqui, você é a sensata. Você poderia ter batido o carro, e antes que fale alguma coisa, eu não estava preocupado com a droga do carro do Thomas, estava preocupado com você.
- PeLu, a gente só estava se divertindo, babe... nada aconteceu. – disse a menina encostando o rosto no peito dele – Não precisa ficar se preocupando com besteiras no seu grande dia.
- Isso não é besteira, eu realmente fiquei com medo de você bater e se machucar, eu me sentiria culpado.
- Culpado? Eu praticamente te obrigo a entrar na corrida e você se sentiria culpado? – perguntou Nathalia sem acreditar – Achei que eu devesse ser a sensata.
- Mas como você não foi eu deveria ser. – explicou PeLu – Dois idiotas em carros com velocidade em cento e vinte não resultam em boa coisa.
- Cento e trinta para ser mais exata. – disse a menina olhando para os pés fazendo cara de anjo.
- Nath...
- Esquece isso, PeLu – disse a menina soltando-se do abraço – Hoje tudo vai dar certo, nada tem o direito de atrapalhar esse dia.
- Como você sabe disso? Eu posso desamarrar o tênis, pisar no cadarço, tropeçar, cair, bater a cabeça e morrer.
- Dramático. – disse Nathalia batendo no braço do garoto – Não fala besteiras.
- Mas como você sabe que tudo vai dar certo se nem mesmo eu sei? Você parece sempre tão segura enquanto meu estômago dá mil voltas e minhas mãos não param de suar.
- Eu sinto que vai. – respondeu a garota olhando para o céu como se pudesse ver além da neblina que encobria a cidade – Eu sei que vai. Mas isso não significa que não estou nervosa.
- Você não parece nervosa. – rebateu o garoto analisando seu rosto – Está apenas eufórica pela corrida.
- Como é bobo. - riu Nathalia sem acreditar que realmente tivesse o convencido de uma falsa tranqüilidade.
- Ei, vocês dois! – gritou Gabriela colocando a cabeça para fora da porta – É para hoje ou não?
- Nunca temos um momento sozinhos. – resmungou PeLu – Parece que nascemos colados com mais seis pessoas.
- Ei, vocês! – gritou Biiah mais uma vez.
- Já vamos!!!! – responderam os dois antes de PeLu puxar Nathalia para um beijo.

...

Gabriela desistiu de esperar e entrou na frente, sendo seguida minutos depois por PeLu e Nathalia, que entraram pela porta dos fundos de mãos dadas. A entrada dava para um corredor que ficava atrás do palco, o que deveria ser o backstage improvisado, tendo apenas uma porta entreaberta de onde podiam ouvir a conversa animada dos amigos. Nathalia soltou a mão de PeLu e andou analisando cada parte da parede, rodeou o palco e encarou as mesas vazias, que em poucas horas estariam lotadas de pessoas, pessoas que ouviriam pela primeira vez a banda a qual ela tinha tanto carinho e orgulho. Olhou as paredes revestidas de madeira que davam um ar antigo ao local, que não tinha nem um ano, reparou nos quadros e instrumentos que enfeitavam e quebravam a monotonia do marrom, viu o bar com os copos virados para baixo e quando percebeu que o namorado a seguia deu um sorriso, entrelaçou a mão de volta a sua e sem falar nenhuma palavra caminhou rumo à porta entreaberta.

- Finalmente chegaram. – disse Pedro assim que os amigos entraram na pequena sala.
- O que perdemos? – perguntou Nathalia sentando ao lado do garoto, num sofá preto encostado na parede.
- Todo o trabalho de carregar os instrumentos. – disse Lucas sarcasticamente fazendo a namorada, que estava sentada no seu colo, revirar os olhos.
- Não falei, que nunca era cavalheiro. – disse Katlen bagunçando o cabelo do garoto – Bruto por natureza.
- Hey, eu não sou bruto! – rebateu Lucas tentando arrumar o cabelo – Só estava brincando.
- Sei, sei, você brinca seeempre, amor. – riu Katlen apertando as bochechas do namorado – Meu pequeno ser brutinho.
- Pára Kath. – reclamou o garoto segurando as mão da menina – Isso dói.
- O dono do pub disse que a gente podia ir montando os instrumentos no palco e passar o som para checar se está tudo bem. – disse Thomas ignorando os dois.
- E o que vocês ainda estão fazendo aqui... parados? – perguntou PeLu pegando a primeira guitarra que viu no chão – Vamos lá.
- Vocês já resolveram que músicas vão tocar? – perguntou Gabriela ajudando Thomas a carregar os cabos.
- Escolhemos só três nossas, porque a galera ainda não conhece as músicas “Recomeçar”, “All about you”(fazdecontaqédarestart')  e a outra... que terminamos a melodia no carro. – disse o rapaz – Mas vamos tocar umas bem conhecidas dos Beatles.
- Vocês realmente vão nos matar de curiosidade com essa nova música? – perguntou Nathalia impaciente.
- Vamos. – riu PeLu subindo as escadas do palco – Curiosidade não mata ninguém.
- Por favor. – pediu a garota com uma voz melosa – Me fala pelo menos o nome.
- Desculpa, hon. – disse PeLu piscando para ela – Mas não.
- Que saber? Eu nem queria mesmo... – disse a garota emburrando.
- Ela sempre faz isso quando não consegue o que quer. – riu Pedro vindo logo atrás.
- Mentiroso! – acusou Nathalia batendo em sua cabeça com uma baqueta que estava segurando.
- Outch! – reclamou Pedro passando a mão na cabeça.
- Nath, não faz isso. – repreendeu Thomas tomando as baquetas da amiga.
- Por que não? – perguntou Nathalia emburrada – Ele mereceu.
- Ele sim, mas as baquetas não te fizeram nada. – disse Thomas rindo – Da próxima vez que quiser punir o Pedro, faz assim... – completou dando um pedala no amigo.
- Hey! Virei saco de pancada? – perguntou o garoto irritado – Isso é uma nova brincadeira? Vamos ver quem mata mais neurônios do Pedro?
- Acho que não. – disse Carol rindo – Você não teria mais nenhum se tivessem matando um por pancada.
Cap. 53

- Nath, pára com isso! – brigou Gabriela vendo a amiga dar voltas ao redor da pequena mesa, em que as garotas estavam sentadas, bem em frente ao palco, esperando os meninos começarem a tocar.
- Não consigo. – respondeu Nathalia, sem parar de andar – Por que não nos deixaram esperar com eles? Essa espera está me matando.
- Pelo que parece, nós tiraríamos a concentração deles. – disse Carol, não muito satisfeita – Mas fica calma, eles devem começar em poucos minutos.
- Será que está tudo bem? O PeLu arrumou o cabelo? O Pedro colocou a roupa que eu separei? – perguntou a menina impaciente.
- Pára com isso! – disse Katlen levantando e segurando a amiga pelos ombros – Senta aí, que essas voltas estão me deixando enjoada.
- Desculpa. – disse a garota sentando no banco – Não sei o que está me dando, nunca fiquei assim antes de uma apresentação deles. Não fiquei assim nem quando subi no palco junto com o PeLu, naquele asilo.
- Olhe ao redor, Nath. – disse Gabriela – Você e nenhuma de nós nunca sentimos isso porque os meninos nunca tocaram num lugar assim.
- Eu preciso de uma bebida. – disse Katlen levantando em um pulo – Se o Lucas aparecer enquanto eu estiver sóbria terei um sério problema com os meus nervos.
- Traz o que for tomar para todas! – disse Carol parando de roer as unhas – Se não amanhã não me sobram nem os dedos para contar notícia.
As luzes do palco já tinham sido acesas quando Katlen voltou, equilibrando quatro taças com um líquido avermelhado dentro. Assim que olhou ao redor mais uma vez, e viu o pub lotado, cheio de conversas e cheiro de cigarro, Nathalia pegou sua taça sem nem perguntar o que continha e tomou tudo em três goles rápidos, pousando o recipiente vazio, na mesa, sob o olhar surpreso das amigas. A garota tentou sentir o estômago, mas de tanto girar parecia que ele não existia mais. Sua cabeça ficou mais leve como se tudo aquilo fosse apenas um sonho maluco. Mas assim que viu PeLu aparecendo no meio do palco sendo seguido por Thomas, Lucas e Pedro seu coração bateu com tamanha velocidade que a possibilidade de tudo ser um sonho foi completamente deletada. O garoto conseguia cortar até o efeito do álcool em seu corpo.
- Hey, dudes! – disse PeLu, no microfone, parecendo um pouco intimidado pelos olhares da platéia. – Nós somos a Restart e vamos tocar algumas músicas essa noite.
- Para começar... uma que todos já conhecem. – disse Pedro enquanto PeLu fazia um leve sinal com as mãos, que só as meninas reconheceram, para os acordes de “I Wanna Hold Your Hand”, iniciarem.

“OH YEAH, I´LL TELL YOU SOMETHING
I THINK YOU´LL UNDERSTAND
WHEN I SAY THAT SOMETHING
I WANNA HOLD YOUR HAND
I WANNA HOLD YOUR HAND
I WANNA HOLD YOUR HAND
OH, PLEASE SAY TO ME
YOU'LL LET ME BE YOUR MAN
AND PLEASE SAY TO ME

YOU´LL LET ME HOLD YOUR HAND
NOW LET ME HOLD YOUR HAND
I WANNA HOLD YOUR HAND”



Todos ao redor começaram a mexer os pés ou as cabeças no ritmo da música que invadia o pub numa onda contagiante. Algumas pessoas levantaram das mesas e começaram a dançar no pouco espaço que restava, enquanto no palco, os garotos ficavam mais confiantes, fazendo a música sair ainda melhor. Nathalia sentiu o coração bater no ritmo da bateria e tudo que ela conseguia fazer era olhar, olhar maravilhada para a pessoa que já tinha roubado seu coração há muito tempo. Ela podia sentir que as amigas também estavam num estado parecido de transe enquanto ouviam a música, mas não ousou tirar os olhos do palco para não perder nenhum segundo daquele momento.
- Se a minha mãe estivesse aqui, olhando o PeLu...! – disse Carol aos gritos para ser ouvida – Ela surtaria de uma vez por todas!
- Se minha mãe soubesse que eu estou num lugar assim... – riu Gabriela – Eu estaria morta!
- Onde ela pensa que você está? – perguntou Katlen começando a rir sem saber ao certo se era por causa da mentira da amiga, do nervosismo, ou do percentual alcoólico no seu sangue.
- Na sua casa. – respondeu Gabriela.
- Ótimo. – disse Katlen rindo mais alto – A minha mãe acha que eu estou na sua.

“OH, PLEASE SAY TO ME
YOU'LL LET ME BE YOUR MAN
AND PLEASE SAY TO ME

YOU´LL LET ME HOLD YOUR HAND
NOW LET ME HOLD YOUR HAND
I WANNA HOLD YOUR HAND

AND WHEN I TOUCH YOU I FEEL HAPPY INSIDE
IT´S SUCH A FEELING
THAT MY LOVE
I CAN´T HIDE
I CAN´T HIDE
I CAN´T HIDE

YEAH, YOU GOT THAT SOMETHING
I THINK YOU'LL UNDERSTAND
WHEN I SAY THAT SOMETHING
I WANNA HOLD YOUR HAND
I WANNA HOLD YOUR HAND
I WANNA HOLD YOUR HAND”


Em seguida foi a vez de “Hey Jude”, e quando “Twist and Shout” já estava sendo tocada um homem chegou perto perguntando alguma coisa que soava como dança ou canga ou alguma outra coisa que Nathalia não deu a menor atenção se dando apenas o trabalho de balançar a cabeça em sinal de negação. Depois dessas, começaram as músicas mais esperadas pelas quatro que vibraram assim que PeLu disse ao microfone que agora seria uma de autoria da própria banda. “All about you” fez todo sangue de Nathalia se alojar em suas bochechas e “Recomeçar” tirou gargalhadas de Carol, que ria de Pedro enquanto ele piscava para ela como se estivesse lembrando a garota, de que aquela obra, era sua.

“.E eu sei que assim talvez seja melhor
Mas não espero ver você voltar
E dizer que podemos recomeçar




- Muito bem, galera. – disse Pedro, no microfone, assim que a música acabou – Parece que alguns de vocês já estavam arranhando a música junto com a gente – Completou fazendo o ambiente se encher de risos.
- Para encerrar nossa apresentação essa noite... – disse PeLu sem desviar os olhos de Nathalia – Vamos cantar uma música que foi terminada hoje mesmo e é dedicada a pessoa que sempre acreditou em nós, em mim, e em um sonho. Essa é para você, Nath ... “Levo Comigo”.
E eu quis escrever uma canção
Que pudesse te fazer sentir
Pra mostrar que o meu coração
Ele só bate por ti.

Como uma bela melodia pra dizer
O que eu não consigo explicar
Como uma bela melodia pra você ver
Tudo o que eu queria te falar.

E dizer que é você
Que pode me mudar
Que pode me salvar.

E eu vou te esperar aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá
Te levo comigo
E eu vou te esperar
Aonde quer que eu vá (x2)
Te levo comigo.

E eu quis escrever uma canção
Que pudesse te fazer sentir
Pra mostrar que o meu coração
Ele só bate por ti.

Como uma bela melodia pra dizer
O que eu não consigo explicar
Como uma bela melodia pra você ver
Tudo o que eu queria te falar.

E dizer que é você
Que pode me mudar
Que pode me salvar.

E eu vou te esperar aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá
Te levo comigo
E eu vou te esperar
Aonde quer que eu vá (x2)
Te levo comigo.

Mas dessa vez eu já decidi
Quero ver teus olhos ao dizer
Tudo aquilo que eu só consegui
Sentir com você.

Nathalia sentiu como se o chão tivesse sido arrancado de seus pés. Tudo agora parecia pequeno demais, insignificante demais, perto disso. Não tinha como pensar ou sentir outra coisa, senão o coração acelerar de maneira assustadora dentro do seu corpo enquanto PeLu cantava como se não existisse mais ninguém além dos dois, naquela noite. Ela não tinha a menor idéia de como ele conseguia fazer isso, ele apenas abria a boca e saia tudo que ela não conseguia nem falar, apenas sentir. E ele, ele brincava com os sons e melodias, ele fazia tudo virar harmonioso e perfeito. Quando foi forçada a sentar novamente no banco que a garota pôde sentir que o ar já não entrava como deveria em seus pulmões, o ar faltava e uma pontada no peito a fez arfar. De repente um sentimento de perda se espalhou por todo seu corpo, era como se ela precisasse ser dele antes que ele se fosse. Quando conseguiu voltar a respirar Nathalia percebeu que o garoto que cantava já não era só dela, ele era de todos ao seu redor, assim como sua voz e seus braços sentiram uma necessidade imensa de abraçá-lo perto ao seu corpo.

E eu vou te esperar aonde que que eu vá
Aonde quer que eu vá te levo comigo
E eu vou te esperar aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá te levo comigo.


Cap. 54

- PeLu! – disse Nathalia ao entrar no backstage e ir correndo para os braços do garoto, que tombou um pouco para o lado com o abraço inesperado.
- Nath... – disse ele, surpreso, abraçando a garota o mais perto possível – Como nos saímos?
- Vocês foram maravilhosos! – disse a menina passando o polegar no rosto de PeLu para enxugar o suor que escorria de sua testa.
- Desculpe. – falou o garoto soltando a menina do abraço – Estava muito quente lá no palco, eu quase derreti.
- Não me importo. – respondeu a garota rapidamente voltando a abraçá-lo. Era muito bom sentir os braços de PeLu ao seu redor, era como se naquele momento ela estivesse segura, como se nada e nem ninguém pudesse tirar ele dela mais uma vez.
- O que foi? – perguntou o garoto tirando o cabelo do rosto de Nathalia para ver melhor sua fisionomia – Aconteceu alguma coisa?
- Não. – disse ela mordendo o lábio inferior – apenas não quero ficar longe de você.
- Eu nunca mais estarei longe, Nath – disse ele abraçando-a mais forte – Nunca mais.
- Finalmente chegamos. – disse Katlen arfando quando entrou na sala, onde PeLu e Nathalia estavam num abraço silencioso no lado oposto à porta, e os garotos estavam jogados no sofá.
- Lá fora está uma loucura! – falou Gabriela fechando a porta, assim que Carol entrou – Não dá nem para andar de tão cheio.
- A Nath voou sobre as pessoas, só pode – disse a garota surpresa ao ver que a amiga já estava ao lado do seu irmão.
- Hon, vocês foram ótimos. – disse Katlen sentando no colo de Lucas. – A galera simplesmente adorou.
- Adorou até demais. – disse Gabriela revirando os olhos ao se jogar no sofá esticando as pernas sobre Thomas.
- Como assim? – perguntou o garoto tentando não rir da cara que a namorada fez.
- Umas garotas gritando a plenos pulmões, que vocês eram hots. – disse Gabriela meio irritada – Por pouco não bato em uma loira siliconada.
- Tá com ciúmes do seu amorzinho? – perguntou Thomas rindo enquanto puxava a garota para seu colo.
- Tô sim, e daí? – disse a garota tentando manter a cara emburrada, esforço que foi por água abaixo assim que Thomas a puxou para um beijo.
- Foi realmente incrível. – disse Carol sem jeito por ser a única garota que não estava se pegando com ninguém na sala.
- Vai ficar ai em pé? – perguntou Pedro puxando-a pelo braço antes de receber uma resposta – Não paga para sentar não.
- Eu acho que vocês estão perdendo tempo. – disse Nathalia do canto da sala de onde observava a cena ainda agarrada a PeLu.
- Perdendo tempo com o quê? – perguntou Carol sentando na ponta do sofá.
- Todos aqui já são namorados, só faltam vocês dois. – respondeu a garota – Pedro beija logo ela, o que você está esperando? Um pedido por escrito?
- Bem... – disse o Pedro fingindo estar envergonhado antes de puxar a garota para um beijo que fez todos os outros casais pararem imediatamente tudo que estavam fazendo, ficando até mesmo sem respirar por algum tempo.
- Eles se beijaram! – disse Thomas com a boca meio entreaberta quando os dois se soltaram deixando Gabriela cair do seu colo para o chão.
- Eu não acredito. – disse a garota sem nem se dar ao trabalho de brigar com o namorado ou mesmo de levantar.
- Só para constar... – disse Carol rindo – Não foi o primeiro.
- Como? – perguntaram todos com espanto na voz.
- Nós já estávamos meio que ficando. – confessou o garoto ficando levemente corado.
- Vocês, vocês, vocês são dois putos! – disse Lucas incrédulo – Como estão ficando e não falam para ninguém?
- PeLu? – chamou Gabriela ainda no chão.
- O que?
- Você não vai falar nada? – perguntou a garota – Sua irmã... o Pedro...
- Libero vocês essa noite para resolverem a relação e vocês me liberam a casa até amanhã de manhã. – disse o garoto naturalmente como se tivesse propondo uma troca de sorvetes.
- Fechado, dude! – disse Pedro deixando Carol sentada no sofá enquanto levantava para apertar a mão do amigo – Amanhã tudo estará resolvido.
- Carol... – chamou o irmão fazendo a garota se recompor – Está liberada até uma da manhã e depois vai dormir na casa da Katlen.
- Finalmente. – disse Katlen levantando as mãos para o céu – O garoto ainda tem alguns neurônios.
- Por que a casa pode ser toda de você e da Nath e eu tenho que deixar a Carol na casa da Kath? – perguntou Pedro fingindo indignação.
- Porque como vocês mesmo falaram... – disse PeLu adorando o papel de “protetor” da família – Vocês estão apenas ficando e esse direito é apenas para namorados.
- Mas ... – tentou Pedro
- É isso ou nada, meu caro . – disse PeLu segurando para não rir.
- Está certo, então. – respondeu o garoto voltando para o sofá.
- A casa vai ser só nossa, então? – sussurrou Nathalia no ouvido de PeLu, assim que os seis amigos começaram com mais uma discussão boba.
- Você não achou boa idéia? – perguntou o garoto inseguro.
- Claro que achei. – disse ela mordendo o lábio inferior – Nunca temos tempo só para nós dois com a casa sempre cheia.
- Bom... – disse PeLu de um jeito meio bobo ao perder a linha do raciocínio – E, e o que achou da música?
- Perfeita. – confessou Nathalia – Ela me lembra a gente, quer dizer, a maioria das músicas me lembra a gente.
- É porque são feitas para você, sua boba. – disse PeLu rindo – Tudo é por você e eu já fiz até música falando isso, quando vai entender?
- Acho que nunca. – admitiu a garota – Parece coisa de filme, às vezes acordo de madrugada pensando que tudo isso é um sonho, sabe?
- Qual é, Nath, muita gente namora, muitas garotas têm namorados com bandas de garagem e nem por isso acham que estão sonhando.
- O fato não é sermos namorados e você ter uma banda... – disse a menina incrédula com o pensamento de PeLu - O fato é como eu me sinto perto de você, é surreal.
- Eu sei. - disse ele após minutos pensando - É como um entorpecente, me sinto desligado de todo o resto quando estou com você.
- Viu!- disse Nathalia triunfante- E você acha isso normal? Quer dizer, quantas pessoas você conhece que tem uma história como a nossa?
- Ok, Nath... agora você tá me assustando. - disse PeLu rindo - Deixa de besteira e me beija logo! - disse antes de encostar a garota na parede e começar mais uma série de beijos que sinalizavam quão quente seria o resto da noite.

Cap. 55

A casa estava na total penumbra, assim como a rua que os rodeava. PeLu abriu a porta da frente e se afastou a fim de dar espaço para Nathalia passar. Era difícil enxergar alguma coisa naquela escuridão, então, os dois saíram batendo em tudo enquanto procuravam o interruptor. Nathalia sentou no chão tentando fazer as pernas pararem de tremer e deixando o garoto acender as luzes, sozinho. Seu coração batia de forma acelerada e só a idéia de passar a noite sozinha com PeLu já roubara todo seu equilíbrio. Depois de tanto tempo e tantas complicações, agora que tudo estava parecendo tão real, seu coração parecia incapaz de se controlar dentro do peito.
- Nath... – disse PeLu tentando encontrá-la – Nath?
- Aqui PeLu. – respondeu a garota balançando os braços no ar como se ele pudesse enxergá-los.
- Não estou te vendo. – disse o garoto a apenas alguns passos de distância.
- Isso porque você ainda não acendeu as luzes, benzinho. - riu Nathalia - Você ainda não achou o interruptor?
- Achei você. – disse PeLu tropeçando nas pernas da menina – Pensei que tivesse te perdido. – brincou sentando ao seu lado no chão.
- PeLu, tudo bem que essa idéia de encontro às escuras é meio que... emocionante, mas dá para, por favor, acender as luzes? Não consigo ver nada assim.
- Esse é o problema, Nath. – respondeu o garoto – Não temos luz.
- Como assim não temos luz? – perguntou Nathalia levantando em um salto e tendo que se segurar num móvel próximo, para não cair.
- Pelo que parece, faltou luz. – explicou PeLu levantando também – Por isso a rua estava tão escura, acho que foi não foi só aqui.
- Ótimo. – disse a garota numa mistura de pânico e raiva – Espero por essa noite durante anos e quando tudo está dando certo, algo ruim acontece. Algo conspira contra nós dois, fato.
- Nath, calma. – falou PeLu achando a garota no escuro e passando seus braços por sua cintura – Eu estou aqui, você também, a casa é só nossa. Não é um simples detalhe que vai nos atrapalhar. – continuou com a voz mais baixa e a boca em seu ouvido – Nunca ouviu falar que as coisas no escuro parecem muito melhores?
- PeLu... – disse Nathalia sentindo imediatamente o coração pulsar mais rápido – Eu nem consigo te ver.
- Vamos procurar algumas velas, a Carol sempre compra para o caso de uma emergência. – disse o garoto segurando sua mão – Devem estar na cozinha, vem comigo.
- Para que lado fica a cozinha, então, senhor sabe tudo? – perguntou Nathalia colocando a mão livre, na cintura.
- Bem, não tenho certeza. – disse PeLu um pouco confuso – Mas vamos achá-la, juntos.
- Se não tem jeito... – falou a garota se rendendo – Vamos lá.
- Vem por aqui. – disse PeLu puxando sua mão – Se isso aqui for mesmo o sofá, então a cozinha fica para esquerda. Temos que achar a escada, ela fica entre os dois cômodos.
- Ai! – disse Nathalia parando abruptamente.
- Te pisei? – perguntou o garoto preocupado.
- Não, mas acho que achei o primeiro degrau da escada, meu pé acabou de dar uma topada nele.
- Bom trabalho, Nath, isso significa que estamos no caminho certo. Vamos continuar nessa direção. Acho que meus olhos já começaram a se acostumar com a escuridão, já consigo ver alguns vultos.
- Ali. – apontou a menina – Estou vendo o imã fluorescente da geladeira. Eu sempre disse que ele seria útil um dia.
- Antes tarde do que nunca. - riu PeLu - Eu procuro as velas e você os fósforos.
- Então me solta para eu poder procurar. – lembrou a garota sentindo a mão suada.
- Claro. – disse PeLu fazendo o que a garota pediu.
- Acho que os fósforos devem estar perto do fogão, ou eram para estar. – disse Nathalia apalpando os móveis da cozinha.
- Velas onde estão vocês? Velas? – chamou o garoto como se elas fossem simplesmente latir como cães de estimação obedientes.
- Aqui. – disse Nathalia balançando uma pequena caixinha nas mãos.
- Acende um para facilitar as coisas para mim. – pediu PeLu esvaziando uma gaveta.
- Prontinho. – falou a garota iluminando uma pequena área da cozinha.
- Hum... Achei. – disse PeLu pegando a embalagem de velas, que estava bem na sua cara o tempo todo. Pode acender.
- E fez-se a luz. - brincou Nathalia ao acender a primeira vela.
- Vai subindo com ela enquanto eu ligo para a central de energia e relato o problema.
- Não demora, eu não gosto de ficar sozinha no escuro. – disse a garota mordendo o lábio inferior.
- Não vou demorar. – disse PeLu piscando de um jeito maroto.
Nathalia subiu as escadas o mais rápido que pôde sem apagar a vela, que segurava firmemente em uma das mãos. Seus pensamentos voavam numa velocidade alucinante acompanhando sua pulsação que parecia explodir em suas veias. Ficou parada por alguns segundos no corredor tentando decidir em que porta entrar, e assim que a escolha foi tomada, um leve sorriso se formou em seu rosto. Ela podia ouvir PeLu falar apressado no telefone no andar de baixo, e só de pensar nele, seu corpo estremeceu. Pousou a vela na mesa de cabeceira e passou a mão para desamassar o vestido, o que era uma coisa realmente estúpida de se fazer, já que o objetivo era “tirá-lo”.

- Nath? – chamou PeLu no topo da escada - Por que você sempre some? Nath?

PeLu segurava uma vela quando abriu a porta do seu próprio quarto, a fazendo ranger, levemente. Piscou duas vezes até ter certeza que ela estava ali, com seu vestido preto, bem na sua frente, sentada no meio da sua cama com um olhar que irradiava brilho. O garoto fechou a porta atrás de si e sem conseguir falar nada, repousou sua vela ao lado da outra. Ficou assim, totalmente imóvel, somente admirando o que tanto lhe agradavas os olhos e que fazia seu coração disparar, como se aquela também, fosse sua primeira vez.
- Vai ficar aí, só olhando? – perguntou Nathalia tentando fazer a voz não tremer.
- Não. – disse PeLu de uma maneira meio boba enquanto tirava o tênis e subia na cama - É que você me deixou meio... anestesiado, ou sei lá como isso se chama.
- Bobinho. – falou a garota rindo.
- Você está linda, Nath, realmente linda. – disse PeLu passando a ponta dos dedos pelo rosto de Nathalia.
- Eu estou com a mesma roupa, PeLu. - lembrou a garota tentando achar forças para falar enquanto sentia as bochechas em brasa.
- Eu sei. – respondeu PeLu passando os dedos, agora por seus braços - Às vezes esqueço de te dizer coisas muito importantes por achar que são óbvias demais para serem ditas.
Nathalia passou os braços ao redor do pescoço de PeLu, que começou a beijar seu ombro fazendo a garota sentir o sangue ferver debaixo da pele. O beijo foi subindo até achar a boca e quando isso aconteceu, PeLu foi deitando a garota delicadamente na cama para ficar sobre ela. Com as mãos apoiadas na cama, para não pesar demais, o garoto deu continuidade ao beijo, que tirou um suspiro de Nathalia. A essa altura já não lembrava de muita coisa além do seu próprio nome. PeLu passou uma das mãos na barra do vestido, com um olhar, que meio que, pedia permissão para tirá-lo e assim que a garota concordou com a cabeça ele foi fazendo-o subir por todo corpo, deixando à mostra uma garota quase nua. Nathalia interrompeu o beijo para deixar o vestido passar por seus braços, ficando com um pouco envergonhada por estar apenas de lingerie na frente de PeLu.
- Você quer mesmo? – perguntou PeLu torcendo para não ouvir nada contrário, ao que seu corpo, praticamente, implorava.
- Mais que tudo. – respondeu a garota, timidamente, sem desviar os olhos dos seus.
Nathalia sentou de joelhos na cama para desabotoar a camisa de PeLu, enquanto ele tirava do bolso do jeans, sua carteira para jogá-la ao lado da cama. PeLu recomeçou o beijo assim que viu-se sem a blusa, deitando-se novamente sobre a garota, que agora respirava com dificuldade. Nathalia podia ver a luz vinda das velas praticamente dançar nos olhos de PeLu como se eles fossem um espelho que refletisse luz. Sem interromper o beijo, o garoto esticou uma das mãos para fora da cama e pegou uma camisinha de dentro da carteira, xingando mentalmente por quase ter se esquecido de uma coisa tão importante.
- Eu te amo. – foi a última frase que PeLu disse no ouvido da garota, antes das coisas, realmente, esquentarem.

Calei seus lábios com um beijo.
Minha língua transpassava por cada canto da sua boca, um incrível gosto doce, como se ela passasse anos deliciando-se com balas, para assim deixar com que essa doçura viesse para mim. O beijo era esperto, conveniente e, até mesmo, trágico.
Minhas mãos tocaram o seu corpo, alisando o linho do vestido com tamanha força que a bainha revirava-se. Deitamo-nos sobre as cartas; eu por cima dela. O pulsar do seu sangue aumentava gradativamente e instigava meus instintos vampíricos para o ataque final. Porém, mesmo assim, aquela minha metade humana gritava insensível à fome: possuí-la, tê-la, amá-la como devia ter amado.  Despi-a rapidamente, logo encontrando seu pescoço reluzindo diante meus olhos.
ele mais uma vez se deitou sobre ela e fazia movimentos de vai-e-vem, eles continuaram se beijando e PeLu desceu a calcinha da garota a deixando como ele,  se virou ficando por cima, e PeLu sorriu ao vê-la montada em cima de si, sentia a ereção de PeLu , queria melhorar aquilo, pegou uma mão de PeLu e pousou em seus seios que passaram a ser acariciados por PeLu, ela sorriu ao ver o quanto ele gostou daquilo, se inclinou sobre ele e lhe beijou, agora ela fazendo movimentos de vai-e-vem sobre ele, aquilo o enfraquecia, gemeu alto ao sentir ela mais uma vez apertar seu membro, ele não ia aguentar muito tempo, ele sabia, e ela também.
— ... — ele disse com dificuldade e isso fez ela dar uma risada malvada, mas ela também estava excitada, o toque de PeLu por todo o seu corpo lhe enlouquecia. E assim ficaram a noite toda até a Nath pegar no sono !
Cap. 56

O sol fraco da manhã passava pela janela de vidro, invadindo o quarto de PeLu, sem pedir licença. A faixa de luz iluminava o chão onde algumas peças de roupa estavam repousadas e chegavam até a cama, onde Nathalia dormia enrolada num cobertor grosso. O barulho de algo caindo no andar de baixo a roubou da sua inconsciência, mas a garota preferiu manter os olhos bem fechados como que por medo de ao abri-los perceber que tudo não passara de um lindo sonho. Ela lembrava que a noite anterior tinha sido a melhor de toda sua vida e por isso repassava todos os acontecimentos mentalmente: o escuro, as velas, os olhos de PeLu nos seus, suas mãos no seu corpo, sua boca na sua pele... Sua primeira vez nunca seria esquecida. Nathalia tateou a cama a procura de algum sinal de PeLu, mas quando finalmente abriu os olhos viu que estava sozinha no quarto.

Depois de conseguir sair da cama e de tomar um banho quente, Nathalia desceu as escadas com pressa de finalmente ver PeLu naquela manhã. Assim que colocou os olhos no garoto ela não conseguiu dizer nada, apenas encostou na porta da cozinha e ficou observando ele cantarolar uma música alegrinha enquanto andava de um lado para o outro tentando preparar alguma coisa no fogão. Nathalia mordeu o lábio inferior e tentou manter a respiração constante para não chamar a atenção de PeLu. Ele estava totalmente radiante aquela manhã e isso deveria ser um bom sinal, pelo menos ela esperava que sim. Era engraçado como ele mexia sem jeito numa frigideira e fazia uma cara estranha para seja lá o que ele estivesse fazendo. O fato de vestir apenas uma calça de moletom também deixava o ambiente muito mais bonito. Tal pensamento fez a garota rir, depois da noite passada era estranho ela ainda ficar rindo como boba só de vê-lo sem camisa.
- Nath? - disse PeLu, surpreso ao ver que a garota o observava da porta.
- Bom dia, chefe PeLu. - ela riu sem sair do lugar - O que temos para o café da manhã?
- Bom dia, sua dorminhoca. - respondeu PeLu desligando o fogão e caminhando em sua direção - Como você está?
- Bem. - disse Nathalia sentindo as bochechas corarem de imediato - Muito bem. E você, como está?
- Melhor impossível. - respondeu o garoto pegando-a nos braços e girando pela cozinha.
- Pára PeLu!!!!!!!! - gritou Nathalia rindo ao ver tudo girar ao seu redor.
- Eu sou o homem mais feliz do mundo!!!!!!!! - gritou o garoto girando sem parar.
- E eu vou vomitar se você não me colocar no chão! - ameaçou Nathalia segurando firme nele, por medo de cair.
- Tudo bem, tudo bem... - disse ele, parando de girar - Não queremos uma cozinha suja, logo de manhã... Opa! Cuidado. - disse segurando a garota pela cintura assim que ela quase caiu no chão.
- Tudo ainda está girando. - falou Nathalia deixando-se guiar até uma cadeira onde sentou com cuidado - Parece um carrossel.
- Desculpa. - disse PeLu sentando ao seu lado - Foi uma idéia idiota, eu não devia ter girado com você.
- Está tudo bem. - disse Nathalia rindo - Eu gostei, só estava com medo de cair.
- Nath... - disse o garoto segurando seu rosto com a mão - Eu nunca vou deixar você cair.
- Ontem foi a melhor noite do mundo. - falou a garota sentindo o coração acelerar enquanto a cozinha finalmente parava de girar.
- Está no topo das minhas, também. - disse PeLu beijando seu rosto - Então, pronta para o café da manhã?
- Você, realmente, acordou cedo para preparar o café? - perguntou Nathalia, surpresa - Você nunca faz isso, deve está doente.
- Quer parar de falar besteira? - disse o garoto rindo ao levantar - O que vai querer?
- O que nós temos? - perguntou ela achando muito estranho a idéia de PeLu cozinhando alguma coisa, em especial, pela manhã.
- Vejamos... - respondeu PeLu colocando uma toalha no braço, imitando um chefe de cozinha - Temos panquecas com formatos estranhos, sanduíches de queijo quente um pouco queimado, suco de laranja meio doce e leite totalmente normal e na caixa.
- Nossa. - disse a garota rindo - Não sei nem o que escolher com tantas opções boas.
- Posso sugerir o prato da casa, senhorita? - perguntou PeLu numa voz formal.
- Mas é claro, mon chef. - brincou Nathalia - O que me sugere?
- Panquecas a moda da casa com mel e um copo de leite quente. - disse PeLu parecendo muito feliz consigo mesmo, mas acrescentando em voz baixa - O suco realmente ficou muito doce, nem eu consegui tomar, e o sanduíche... bem, prefiro nem mostrar.
- Então, pode me trazer a sugestão, eu adorei. - disse Nathalia sentando ereta na cadeira - Estou morrendo de fome.
- Como a senhorita quiser. - falou PeLu indo buscar a comida.

...

- Você acha que ele vai topar? - perguntou uma voz familiar vindo da sala.
- Mas é claro que vai! - disse uma segunda voz - É uma grande oportunidade.
- Mas e se quiserem um de nós? - uma terceira voz invadiu a cozinha anunciando que a casa estava, mais uma vez, cheia de gente.
- Será que não podemos ficar sós um dia se quer? - perguntou PeLu revirando os olhos.
- Acho que para isso teríamos que fugir para outro planeta. - riu Nathalia levantando com o prato sujo nas mãos.
- Aí estão vocês! - disse Thomas invadindo a cozinha - PeLu, precisamos te contar uma novidade.
- A novidade não podia esperar? - perguntou o garoto irritado.
- Sinto muito dude, mas você vai gostar de saber. - disse Pedro - É sobre a banda.
- Panquecas? Suco? - Perguntou Lucas olhando os pratos ao redor - Isso é uma comemoração?
- Lucas! - disse PeLu prestes a matá-lo enquanto Nathalia tentava fugir de fininho pela porta, quando foi agarrada por Pedro.
- Nath? - perguntou Pedro segurando a garota na porta - Vocês...
- Pedro, se você não largar ela, agora, vou fazer um questionário com no mínimo cinqüenta perguntas assim que a minha irmã chegar. - falou PeLu olhando de forma ameaçadora para o amigo.
- Tudo bem, tudo bem. - disse o garoto deixando Nathalia sair da cozinha mais vermelha que um tomate - Mas não se iluda, ela vai me contar tudo, a Nath nunca me esconde nada.
- Ameaçou!- riu Thomas afastando a garrafa de leite para sentar na mesa.
- Vocês querem fazer o favor de falar logo! Qual é a novidade? – pediu PeLu respirando fundo - Se estragaram minha manhã, podem pelo menos ser breves...
- Nossa dude, não precisa tanto drama. - disse Lucas sentando na cadeira, que antes era ocupada por Nathalia - Só viemos porque a coisa é séria.
- Então falem logo. - disse PeLu sentando também.
- Seguinte...- começou Pedro - Quando saímos do pub ontem a noite, antes de cada um ir para sua casa, passamos numa lanchonete para comer alguma coisa porque estávamos mortos de fome. Já estávamos saindo de lá quando o meu celular tocou, era um amigo meu que há muito tempo não via, ele largou a escola e resolveu ser agente ou sei lá o que.
- Eu sei quem é. - disse PeLu, surpreso ao lembrar do garoto - Aquele ruivo que morava perto da sua casa, aquele que parecia sempre estar drogado.
- Esse mesmo. - concordou Pedro - Então, ele me ligou dizendo que vai ter um teste para formação de uma banda nova, estão procurando gente que saiba cantar.
- Mas nós já temos uma banda. - argumentou PeLu meio confuso - Não queremos entrar em outra.
- Foi isso que eu disse a ele. - respondeu Pedro - Mas aí veio a sugestão: Dois de nós vão para o teste, fazem um bom trabalho, se destacam entre os candidatos e se nos escolherem recusamos, assim seremos ouvidos por pessoas importantes que poderão ajudar na nossa carreira.
- Isso... – tentou falar PeLu enquanto olhava o rosto dos amigos apreensivos.
- Perfeito, não? - perguntou Thomas esperançoso.
- É. - disse PeLu por fim - É genial! - completou fazendo os amigos soltarem gritos pela cozinha.
- Não falei que ele não era tão idiota quanto parece? - perguntou Lucas, praticamente gritando.
- Falou, falou... - disse Thomas feliz demais para se importar com a careta de PeLu . - É que às vezes ele pensa.
...

- Que barulho é esse? - perguntou Nathalia de volta - Eu perdi alguma coisa?
- Nath... - disse PeLu indo até a garota - Nós vamos fazer um teste.
- Um teste? Algum produtor vai ouvir a  Restart? - perguntou a garota tentando pensar no meio de tantos gritos.
- Não. - respondeu PeLu - Vão ouvir parte da Restart  - Vocês vão se separar? - perguntou a garota exacerbada - Proíbo vocês, não podem fazer isso.
- Nath, Nath... - disse PeLu a abraçando - Não é nada disso.
- Mas...
- Isso faz parte de um plano- respondeu o garoto- Senta aqui que eu te explico.

Cap. 57

- Por que? Por que? Por que nós não podemos ir também? – perguntava Nathalia andando atrás de Pedro, enquanto o garoto colocava os instrumentos no carro.
- Nós já falamos sobre isso. - lembrou ele fechando o carro e caminhando novamente para dentro da casa.
- Mas eu continuo sem concordar com a explicação boba de vocês. - disse a garota o seguindo - Nós não íamos atrapalhar ninguém. Ficaríamos quietinhas num canto só olhando... se vocês quiserem nem respiramos com freqüência para não gastar todo o oxigênio do local.
- Não é só por vocês tirarem nossa concentração, você sabe que não cabe todo mundo num único carro. - respondeu Pedro parando na porta do porão para gritar - Vamos lá pessoal, já está tudo no carro!!
- Então vamos em dois carros, qual é o problema? - perguntou Nathalia voltando a andar assim que o garoto deu os primeiros passos em direção à porta da frente.
- Nath, que fazer o favor de parar de me seguir? – disse Pedro virando para encarar a garota - Tá pior que a minha sombra.
- Não! – falou a garota emburrada.
- Não o que? - perguntou o garoto confuso - Não tá pior que a minha sombra ou não vai parar de me seguir?
- Os dois. - disse Nathalia cruzando os braços.
- Você é a pessoa mais birrenta que eu conheci em toda a minha vida e aposto que é a mais birrenta de toda a galáxia, sabia? - perguntou Pedro parando na porta.
- Vocês que são absurdamente birrentos, não custava nada levar a gente junto. - respondeu Nathalia levantando a voz - Eu não quero perder esse momento marcante na carreira de vocês.
- Mas é isso mesmo que vai fazer. Vai ficar aqui, como uma boa garota, e quando sua mãe ligar para saber como andam as coisas, não vai poder se queixar que foi levada para um hotel vagabundo por quatro garotos loucos que tem uns trocados no bolso e uma banda de garagem. - rebateu ele de maneira tão rápida que as palavras pareciam até misturadas.
- Isso não é justo. Nós não nos importamos de dormir no carro se for preciso. - falou a garota repetindo o mesmo discurso que fizera para PeLu na noite anterior quando tentava convencê-lo de levá-las junto.
- Qual é o problema de vocês? – perguntou Thomas querendo passar pela porta - Vocês podem discutir em outro lugar?
- NÓS NÃO ESTAMOS DISCUTINDO! - gritaram os dois ao mesmo tempo.
- Perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado. - riu Lucas aparecendo no hall - Lição de sobrevivência número um, nunca se meta na briga desses dois.
- Isso não era uma briga. - disse Pedro saindo da casa para deixar a porta livre.
- Nós estávamos apenas dialogando. - completou Nathalia seguindo o amigo.
- Vocês são loucos, sabiam? – perguntou Thomas fazendo uma cara assustada.
- Que briga é essa, aqui? - perguntou Carol aparecendo na porta.
- Ouvimos os gritos lá de cima. - disse Gabriela seguindo a amiga - Alguém saiu machucado? Algum olho roxo? Braço quebrado?
- Não falei, que parecia uma briga? - disse Thomas - Eu disse.
- Não estávamos brigando. - bufou Nathalia - Era apenas uma conversa cordial entre amigos.
- Sei... – disse Gabriela - Vocês me dão medo.
- Reunião e ninguém me chama? - perguntou PeLu.
- PeLu!!!!!! - disse Nathalia correndo até o garoto - Ela disse que eu dou medo nela. - completou apontando para a amiga.
- Mentira. - defendeu-se Gabriela - Eu disse que ela e o Pedro me dão medo.
- Viu, ela ainda confessa! - falou Nathalia fazendo manha.
- Acho que alguém está sensível porque vai ficar em casa. - riu Lucas aparecendo novamente, dessa vez trazendo Katlen nas costas.
- Não estou, não! - rebateu a garota.
- Ok, ok, cada um cuida da sua vida agora. - disse PeLu puxando a namorada para mais longe dos amigos - Dois minutos para despedidas e quero todos dentro desse carro.
- Vou sentir saudade. - disse Nathalia assim que os dois ficaram fora do campo de audição dos amigos - É incrível a rapidez com que se sai do céu para o inferno. Ontem de manhã tudo estava perfeito, hoje tudo parece errado.
- Nath, não fala bobagem. - falou PeLu segurando seu queixo para poder olhar seus olhos. - Eu volto em três dias, é só o tempo de fazermos o teste e esperar uma resposta.
- Por que vocês não podem esperar uma resposta aqui? - perguntou ela com os olhos molhados por lágrimas, que tentava segurar o máximo possível. - Por que vocês têm que ficar esse tempo todo... longe?
- Porque lá nós vamos estar cercados de pessoas importantes no ramo da música, vamos aproveitar ao máximo essa oportunidade.
- PeLu...
- O que foi, Nath?
- Quando você ficar famoso e viajar pelo mundo todo fazendo shows, quando suas músicas forem tocadas em rádios de vários países e todos souberem mais da sua vida do que você mesmo... Ainda vai lembrar de mim? Ainda vai me amar?
- Eu posso ser mais famoso do que a LADY GAGA , nunca vou te esquecer, nunca mais vou conseguir viver de outra forma que não seja ao seu lado. Será que finalmente você pode entender que eu te amo?
- Do amor eu sei bem. - disse a garota não contendo mais as lágrimas - O problema é que a vida já me ensinou que nem sempre amar... basta.
- Nath, eu sei que já errei muito. - disse PeLu desesperado por tê-la feito chorar - Eu não sou bobo, eu sei que por mais que eu tente nunca vou apagar meus erros passados. Eu só quero que você acredite em mim agora, eu não vou mais errar, não com você, porque eu sei como é ruim te perder e eu não quero que isso aconteça de novo.
- Mas você está fazendo algo parecido comigo, você vai ficar longe, é como te perder por alguns dias. - disse Nathalia passando as costas das mãos no rosto para secar as lágrimas - Eu não gosto de não te ter perto de mim.
- Eu prometo que isso não vai demorar, assim que a banda tiver um futuro garantido, nós casamos. - disse PeLu segurando-a perto de si - Eu te prometo que casamos. Se eu tiver um contrato casamos amanhã mesmo se você quiser.
- PeLu!!!!! - gritou Thomas do carro - Vai ficar aí o dia todo ou vai com a gente?
- Já vou! - disse o garoto olhando sobre os ombros de Nathalia - Eu ligo quando chegar - completou beijando sua testa - Pensa no meu pedido, quando eu chegar quero um “sim”.
Nathalia, Gabriela, Carol e Katlen ficaram na calçada acenando para o carro, que começava a descer a rua com quatro garotos, indo para um lugar desconhecido. O sentimento de perda espalhava-se rapidamente pelo corpo. Cada uma reagia de uma forma à medida que o carro ficava menor no final da rua, cada uma sentia uma sensação diferente, mas todas juntas podiam sentir a dor. Ao não poder mais vê-los, tocá-los, ouvi-los, as quatro sentiram o chão fugir de debaixo de seus pés, era como se o ar ficasse de repente rarefeito e tudo ao redor passasse em câmera lenta. O vizinho que tirava o carro da garagem para mais um dia de trabalho, a mulher que passeava com o cachorro, a criança que brincava achando que poderia voar... Tudo parecia estar acontecendo num lugar muito distante, muito mais calmo e feliz.
- Vamos entrar, então? - chamou Katlen minutos depois, quando as primeiras gotas de chuva, começaram a cair do céu, molhando seus casacos - Não adianta ficarmos aqui fora olhando o nada.
- Você tá certa, Kath. - disse Carol - Já começou a chover, ficar aqui fora é pedir uma gripe.
- O que a gente vai fazer durante esses três dias? - perguntou Gabriela caminhando para dentro.
- Torcer por eles. - falou Nathalia dando uma última olhada no horizonte, onde o carro sumira antes de se arrastar para dentro da casa com o pensamento ainda nas últimas palavras de PeLu. Aquilo tinha sido um pedido de casamento? Ele estava mesmo falando sério?
- Não, não, não, isso não está certo. - disse Gabriela tirando o casaco assim que sentiu o calor aconchegante da sala. - Eles foram porque quiseram, ninguém os obrigou, eles estão felizes então não tem nenhum motivo para nós ficarmos aqui com essas caras de enterro.
- A gente sabe. - falou Katlen sentando no chão - O problema é que a emoção fala mais alto que a razão nessas horas.
- Então vamos embriagar nossas emoções idiotas. - disse Gabriela andando na direção da cozinha - Quem quer beber alguma coisa?
- Você tá mesmo propondo uma embriaguês coletiva? - perguntou Nathalia incrédula ao finalmente conseguir ouvir a conversa ao seu redor.
- Claro que estou. - respondeu a amiga, longe já. - Não vou ficar triste por alguém que está feliz.
- Eu concordo. - falou Carol seguindo a amiga - Vamos curtir esses dias à moda das meninas.
- Como era antigamente? - perguntou Katlen esboçando um sorriso fraco no canto da boca.
- Como era antigamente. - gritaram Gabriela e Carol da cozinha.
- Então estou dentro. - disse Katlen finalmente rindo - Nath você não vem?
- Dane-se. - falou a garota antes de levantar - Preparem um duplo para mim seja lá o que estiverem fazendo que eu tenho muito o que comemorar.
- Como assim muito que comemorar? - perguntou Gabriela, abrindo a porta da geladeira.
- Se eu realmente ouvi o que penso que ouvi acho bom todas rezarem em dobro para um contrato sair dessa viagem. - riu a garota sentindo que finalmente tinha entendido o que PeLu dissera - Acho que vou casar!
- O QUEEEEEEEEEE????


ap. 58

Era começo de primavera e o sol parecia brigar com a espessa camada de nuvem, para aparecer no céu, naquela manhã. Todos os dias da primavera daquele ano estavam sendo assim, uma briga entre o sol e a chuva para ver quem era mais forte, podendo ficar por mais tempo fazendo companhia aos londrinos. As flores começavam a abrir por todos os lugares. Até mesmo numa minúscula fresta entre os blocos de cimento da calçada elas podiam ser admiradas por suas cores, alegrando o ambiente, normalmente, tão cinzento daquela cidade. Ignorando o frio, que deixava Londres, aos poucos, após o inverno rigoroso, as pessoas já saiam de casa sem levar seus casacos e luvas. Todos pareciam aquecidos demais para carregar pesadas roupas naquela estação. Bem, pelo menos internamente estavam aquecidas já que nas ruas tudo que se podia ver eram mãos entrelaçadas, abraços tímidos e rostos corados. Como dizem os franceses “l'amour est dans l'air”.
Em uma ampla sala ela estava sentada em frente a um espelho antigo. Mexia nas pontas do cabelo de maneira despreocupada enquanto seus pensamentos voavam longe, estavam soltos numa mistura de passado e futuro. Era uma missão muito difícil de cumprir permanecendo focada no presente, quando cada escolha do passado a levara a este cômodo ligeiramente frio, quando o futuro parecia se dispor a concretizar profecias passadas.
Quando finalmente voltou a si e conseguiu realmente analisar sua imagem no espelho manchado, pelo tempo, sentiu o coração bater de forma acelerada no peito. Era hoje. Após tantas reviravoltas da vida, após tantos sonhos destruídos pela realidade, ela finalmente pôde sentir que seu final feliz estava próximo, muito mais próximo do que ela jamais poderia imaginar aos dezessete. A vida ensina, os anos que passam são como diplomas recebidos, cada dia uma nova lição. A família nos mostra os primeiros passos. Os amigos abrem nossos olhos para o maravilhoso sentimento da partilha. Não partilha material, mas sim uma bem mais difícil e prazerosa, a partilha espiritual. Os amores vêm para abrir espaço em nossos corações ainda tão egoístas e imaturos. E as decepções de que tanto reclamamos, essas tem um papel essencial, nos mostram que somos bem mais fortes do que jamais sonhamos, nos ensinam a levantar mais uma, duas, três... Mil vezes se necessário.
A garota, que não era mais tão garota, afinal de contas, levantou para olhar seu antigo quarto. Estava na casa que fora de seus pais enquanto estes moravam em Londres. Por ter ficado muito tempo fechada tudo aparentava ser muito mais antigo do que realmente era. O papel de parede amarelado, a cortina com o bordado desfeito, as fotos de uma criança sem os dentes da frente, sorrindo ao lado de bichos exóticos e paisagens de tirar o fôlego... Tudo parecia pertencer à outra pessoa, e ao mesmo tempo, era tanto dela, que por anos, implorou aos pais que não vendessem o único local que ela teve a família unida, por mais tempo, e pôde chamar de lar.

Lar, ela lembrou dessa palavra e isso formou um sorriso no canto da sua boca. Aquela casa velha, trazia a lembrança de lar com seus pais, mas não a única lembrança de lar que ela guardava. Ela conheceu outro lar na vida, um que ficava bem perto, por sinal. Era sempre tão barulhento, tão bagunçado, tão cheio de amigos. Sim, ela teve outro lar, um formado não por laços sanguíneos, mas por laços invisíveis de amizade. Deste segundo lar talvez, ela sentiria mais falta até do que do primeiro, mas uma certeza tentava acalmar seu coração irracional, não importava qual escolha ela estivesse feito, não importava qual caminho ela trilhasse, as pessoas que tornaram ambos os lares tão importantes, estariam guardadas em seu coração.
Nem sempre o que sonhamos quando crianças, coincidem com o nosso destino. De tudo nós podemos escapar, a todos podemos enganar, menos ele. Quando o destino bate em nossa porta, não importa o que estejamos fazendo, ou com quem estejamos lá dentro, somos obrigados a abrir a porta. O destino é assim, quando chega, nos suga ao seu encontro e uma vez encarado de frente, e olhado nos seus olhos. Fugir não é mais uma opção.
Ela levantou, olhou pela última vez sua imagem no espelho e deteve seus olhos um pouco mais ali. Os dedos trêmulos deslizaram sobre a seda fina do vestido, sentiram a delicadeza do discreto colar de pérolas, brincaram um pouco mais com as pontas do cabelo e finalmente pararam em seu rosto. Estava na hora, ela podia ouvir o movimento no andar inferior aumentar, pés apressados andando de um lado para outro fazendo barulho no piso de madeira. Estava na hora e ela já não tinha certeza se fizera a escolha certa, tudo que sabia era que aquele era, inevitavelmente, seu destino.

- Nath, como você demorou. – ela pôde ouvir sua mãe dizendo quando desceu a escada lentamente, com medo de tropeçar no vestido que arrastava um pouco no chão - Estávamos para chamar o corpo de bombeiros para tirá-la daquele quarto.
- Não brigue com ela. - agora era a voz do seu pai que era processada em sua mente - Hoje ela pode tudo. - completou de forma brincalhona abrindo os braços para aconchegá-la junto ao peito - Você está mais bonita que qualquer outra mulher jamais esteve, sunshine.
- Obrigada pai. - ela ouviu-se dizendo enquanto tentava engolir as lágrimas que queriam borrar sua maquiagem - Eu senti tanta saudade.
- Você não imagina a falta que nos fez. - disse sua mãe juntando-se ao abraço - Ficar longe da nossa única filha por quase cinco anos foi a coisa mais dolorosa que fizemos em toda nossa vida.
- Sem exageros, mãe. - disse a garota tentando rir - Vocês vinham aqui sempre que podiam, e eu cheguei a visitá-los duas ou três vezes.
- Deixa você ter filhos para saber como é estar longe deles. - disse seu pai descansando a mão sobre a barriga lisa da filha - Você vai me dizer depois.
- Onde está todo mundo? Quando eu fui me vestir todos estavam aqui na sala.
- Já foram na frente. - respondeu sua mãe sem tirar o sorriso bobo do rosto ao olhar para filha - Você demorou muito lá em cima.
- Acho que perdi a noção do tempo. - disse ela envergonhada - Entre colocar o vestido e me maquiar me distrair um pouco...
- Isso porque você é teimosa e não deixou ninguém ajudar com a roupa. Eu bem que ofereci, a pobre da Carol faltou implorar para pelo menos vê-la se arrumando, mas você expulsou todos do quarto.
- Eu precisava de um tempo sozinha para pensar um pouco, mãe. Nesses últimos dias eu estive tão ocupada e com tantas pessoas ao meu redor que quase sufoquei.
- Mas valeu a pena, tudo está arrumado do jeito que você sempre sonhou. Simples, porém lindo. E você, você está a coisa mais bonita que eu já vi, meu anjo.
- Então vamos? - perguntou seu pai olhando o relógio - Estamos atrasados, bem atrasados se querem saber.
- Vamos. - falaram as duas juntas antes de começarem a rir uma do nervosismo da outra.
Quando a incerteza nos ronda e o medo de escolher a estrada errada nos sufoca, dizer “não” se torna muito fácil, muito simples, quase indolor. Afinal de contas o que é dor? Apenas mais um sentimento como tantos outros que nos mostram que somos humanos, dor, felicidade, ódio, inveja, medo, prazer, andam sempre lado a lado dentro de cada um de nós. Um “não” dito quando todos esperam um “sim” machuca, mas melhor sofrer por um “não” inesperado que por um “sim” precipitado. Uma negação não significa mudança de plano, nem falta de amor, às vezes é por amor que nos recusamos a dizer um “sim”. É por medo de sofrer e mais ainda de fazer o outro sofrer que optamos pelo “não”.
Enquanto o carro passava pelas ruas fazendo as casas, árvores e pessoas ficarem para trás, ela olhava pelo vidro sem perceber a conversa que vinha dos bancos da frente. O passado parecia correr ao lado do carro, fazendo com que ela se perdesse em pensamentos sobre os últimos anos de sua vida. Os risos dos amigos ainda ecoavam nos seus ouvidos, os acordes de suas músicas preferidas faziam seus pés balançarem levemente e os momentos com ele faziam o sangue correr mais rápido em suas veias, martelando em seu ouvido. Se aos dezessete alguém perguntasse a ela qual seria sua escolha, ela não pensaria duas vezes, mas um dia, um único dia tem o poder de mudar toda uma vida. Ela já tinha feito sua escolha, agora o tempo já passara e a escolha não podia ser repensada. O tempo não perdoa, o tempo não esquece, o tempo não espera ninguém, ele apenas continua no seu ritmo e quem quiser que se adapte a ele.

- Mãe, porque eu não posso simplesmente entrar? – perguntou Nathalia, impaciente, quando o carro já estava parado no seu destino.
- Por que nós temos que ver se tudo está pronto, meu bem. - respondeu sua mãe fechando a porta ao sair - Não saia desse carro até eu vim vir buscá-la, entendeu?
- Entendi. - ela falou segurando o impulso de roer as unhas tão bem pintadas.
- Finalmente!!!!!!!! – gritou Gabriela aproximando-se do carro. O vestido alaranjado brilhava tanto exposto ao sol que Nathalia abaixou a cabeça para proteger os olhos da claridade.
- Você está, literalmente, radiante. - brincou ela assim que a amiga sentou ao seu lado no banco traseiro do carro.
- Tão engraçadinha. – riu Gabriela abraçando-a forte - Você que está perfeita, simplesmente perfeita de branco. Quando entrar por aquela porta todos vão perder o fôlego.
- Ele já chegou? - perguntou Nathalia rápido demais para disfarçar o nervosismo que impregnava sua voz.
- Claro que sim, sua boba. - disse Gabriela, rindo. - Praticamente abriu a igreja.
- E como ele está?
- Quase fazendo um buraco no chão de tanto andar em círculos. Acho bom ele mudar de profissão e ir fazer buracos para alguma construtora.
- Posso saber por que tanta gracinha? Está competindo com o Pedro e eu não fui informada?
- Claro que não, eu sou muito melhor que ele. - riu Gabriela - Estou tentando te acalmar um pouco, uma noiva não pode entrar tremendo na igreja.
- Está tão na cara? - perguntou Nathalia, preocupada.
- Sim. - respondeu a amiga com sinceridade - A palidez te denuncia completamente, honey.
- Biiah, eu nunca estive tão nervosa em toda minha vida. - desabafou Nathalia deixando as lágrimas teimosas escorrerem por seu rosto - Eu estou apavorada.
- Calma Nath, está tudo bem. - Gabriela tentava acalmar a garota, que não conseguindo mais segurar, desabou em lágrimas com a cabeça no seu colo- É normal ter duvida, todos nós temos.
- Se eu tivesse aceitado o pedido de casamento que o PeLu me fez quando voltou daquela viagem... – Lembra?
- Claro que sim, foi logo depois da banda conseguir um contrato.
- Se eu tivesse aceitado já estaria casada, quem sabe com um filho, tudo estaria bem. - disse Nathalia entre lágrimas - Por que eu não disse um “sim” naquele dia? Por quê?
- Porque você pensou no futuro, usou a cabeça, Nath. - falou Gabriela lembrando da difícil escolha que a amiga tinha tomado anos atrás - Vocês eram muito novos, imaturos.
- Mas eu o amava. - disse Nathalia sem mais se importar com a maquiagem - Ele também me amava, nós deveríamos ter casado logo.
- Se vocês tivessem casado você não teria ido para faculdade, Nath. Você passaria a vida inteira reclamando de não ter feito nada importante para si mesma. - falou Gabriela tentando acalentar a garota com as mesmas palavras usadas por ela própria quando não aceitou o pedido de casamento de PeLu.
- Será que essa foi a escolha certa? Eu não sei mais se foi. - disse a garota com a voz trêmula.
- Claro que foi. Nath você é nova, linda, saudável, formada, vai casar. Qual a outra prova que você queria para saber que tomou a decisão correta? Sua escolha foi sinal de maturidade, não sinta vergonha dela.
- Mas hoje as coisas não são mais como eram naquele tempo, Biiah. - disse Nathalia tentando refrear as lágrimas - Ele agora é famoso, mais famoso do que nós poderíamos imaginar. Se a gente tivesse começado tudo junto seria fácil, mas começar de onde ele está...
- Está tudo bem, ok? Você está me ouvindo Nath? Tudo está como deveria ser. Até ontem você estava super animada com o seu casamento, com o seu futuro marido e com a vida que vocês vão ter juntos. - falou Gabriela enxugando as lágrimas da amiga com um lenço que tinha na pequena bolsa - Você só está nervosa, isso é normal. Tem que parar de chorar, noivas não choram, entendeu?
- Você acha mesmo que poderei ser feliz com esse casamento? E mais importante que isso, você acha que o PeLu vai ser feliz com a escolha que eu tomei?
- Eu vou ter que fazer um cartaz e por em cima do Big Ben? Claro que sim, isso foi melhor para os dois.
- Ela está vindo. - disse Nathalia se arrumando no banco assim que avistou sua mãe vir em passos largos até o carro.
- Sorria. - cochichou Gabriela guardando o lenço molhado dentro da bolsa.
- Está tudo pronto, meu anjo, mas o que aconteceu com a sua maquiagem? – perguntou ao ver a filha sem cor nenhuma no rosto - Temos que retocar isso antes de você entrar.
- Não precisa mãe, eu estou atrasada. - falou ela saindo do carro. Naquela altura o que ela queria era dizer “sim” e acabar com toda aquela angústia de uma vez por todas.
- Pode ficar parada aonde está. - disse sua mãe pegando uma malinha no banco da frente - Eu trouxe um kit de maquiagem para o caso de uma emergência e isso com certeza é uma.
- Mas mãe... – tentou a garota sem sucesso algum, segundos depois seu rosto estava sendo coberto por várias camadas de blush e rímel.
Nathalia ficou do lado de fora da grande porta de madeira enquanto esperava seu pai fazer um primo distante parar de interrogá-lo sobre suas viagens, para buscá-la na porta. A garota ficou observando os arranhões que tinham na madeira, tentando achar alguma seqüência lógica neles. O sol brilhava mais que em qualquer outro dia do ano, parecia ter vencido sua batalha contra a chuva, pelo menos momentaneamente. Ela podia ouvir os ruídos das vozes que vinham do outro lado da porta e isso fazia seu estômago revirar de forma impiedosa, deveria ter uma lei proibindo noivas de sentirem isso no dia do seu casamento, pensou. O medo continuava a espreita, mas a vontade de resolver tudo era maior e vencia a ânsia de sair correndo para um lugar distante e vazio.

Cap. 59

Uma porta, uma simples porta a separava do passado e do futuro. De um lado a garota simples, criada em mil lugares, tão indecisa e cheia de sonhos. Do outro uma mulher casada, com responsabilidades e deveres a cumprir. Um simples passo para trás ou para frente teria o poder de mudar tudo novamente, mas será que mudar no que já foi mudado era a melhor opção? Às vezes mexer muito em uma coisa para melhorá-la acaba estragando tudo. Às vezes o passo mais importante que damos em nossa vida é o que demoramos mais tempo decidindo.
- Pronta filha? - perguntou seu pai aparecendo assim que a porta abriu seus primeiros centímetros.
- Calma... - disse Nathalia respirando fundo. O ar que continuava frio mesmo com a presença do sol encheu seus pulmões antes dela conseguir responder - Estou.
Assim que a grande porta foi totalmente aberta ela pôde ver vários rostos curiosos virados para entrada entre a delicada decoração de flores do campo e os bancos de madeira escura. Estavam lá alguns antigos amigos de escola, ex professores, parentes distantes, familiares do noivo... Ao lado do altar onde estava posicionado o padre estavam sua mãe, Carol , Gabriela , Katlen , Pedro , Lucas e Thomas , alguns sorrindo, outros chorando, mas todos ao seu lado no seu grande dia. Caminhando lentamente ao som da marcha nupcial Nathalia segurava firme no braço do pai para não ser sabotada por suas pernas trêmulas e cair na frente de todos.
Quando chegou mais perto do altar ela pôde ver um par de olhos verdes nos seus, olhos que ela conhecia muito bem. Ele estava ali, esperando ela chegar enquanto sorria de forma encantadora. Nathalia podia ver que Chris estava feliz, ela podia ler seus olhos, aquele não era o sorriso diplomático, era o sorriso verdadeiro, aquele que ele guardava para ocasiões especias. Ela foi aproximando-se a cada passo, sentindo o coração acelerado mais alto que os suspiros e elogios dos convidados, mais alto que a música ao fundo. Sem tirar os olhos do altar ela passou por ele esboçando um sorriso tímido que aumentou de forma inacreditável quando avistou PeLu no altar.
Quando seus olhos se encontraram foi como ser sugada por um buraco negro, ela não sabia onde isso iria dar, só sabia que não tinha como não se aproximar mais e mais. Quando viu o sorriso nos lábios dele e o brilho em seu olhar todos seus medos dissolveram, todo o temor de assumir uma casa, as responsabilidades que vinham com a aliança, o medo de não conseguir fazê-lo feliz, tudo desapareceu instantaneamente como se nunca tivesse existido. Ver a imagem de PeLu vestindo terno, com o cabelo penteado, sapato social, desviou toda sua atenção da decoração que a rodeava. Como sempre, tudo, inexplicavelmente tudo, resumia-se a ele.
Nathalia sabia de todo o esforço que PeLu fizera para suportar seu “não” e permanecer ao seu lado até ela sentir-se preparada para o casamento. Ele esteve ao seu lado quando ela decidiu ir para faculdade e não para uma casa só deles, quando ela estava ocupada demais estudando para opinar sobre sua nova música, quando ela não podia acompanhá-lo em entrevistas e viagens por causa das provas. Ela por outro lado esteve ao lado de PeLu quando ele assinou o primeiro contrato, quando ele ligava bêbado de madrugada para dizer que sentia sua falta, quando ele estava ocupado demais com a imprensa e com as fãs para ouvir o que ela tinha a falar. Ambos erraram e acertaram ao longo do tempo, sorriram e choraram, foram bons e maus, mas acima de tudo, eles se amaram.
Sem dizer nenhuma palavra PeLu tomou o lugar do pai de Nathalia , ao seu lado, e sem tirar os olhos dela beijou sua mão delicadamente como se fosse o primeiro beijo. As pessoas ao redor eram meros figurantes de uma cena bem maior, bem mais complexa que envolvia apenas os dois protagonistas. Nathalia percebeu que todos os seus temores não tinham nenhuma validade, pois estando diante do padre percebeu que aquela cerimônia era apenas um ritual a ser cumprido, ela já tinha se comprometido com PeLu muito antes de dizer o “sim”. Ela já era dele e ele já era dela desde a primeira vez que se viram.

-Como conseguiu deixar os paparazzis longe daqui? - sussurrou a garota quando o padre pediu para que todos sentassem.
- O Pedro “deixou vazar” que nós tínhamos fugido para Vegas e nos casaríamos vestidos com calça jeans e blusas rasgadas, esta noite. - sussurrou PeLu tentando abafar o riso - Eles devem estar num vôo para os Estados Unidos nesse momento.
- Eu achei que seria impossível mantê-los longe. - surpreendeu-se a garota sentindo o último peso sair de suas costas.
-Não existe impossível para PeLu Munhoz. - disse PeLu com o ar presunçoso antes de completar, piscando para ela – Nada que te faça feliz é complicado o suficiente para eu não conseguir fazer.
As palavras proferidas pelo padre ecoavam por toda igreja, ricocheteando nas grandes vidraças por onde os raios de sol entravam para banhar os convidados de luz. Cada citação, cada simples letra parecia perfeita para a ocasião. Ser famoso tem suas vantagens, até mesmo os padres sabem o bastante de sua vida para falar muito bem dela, melhor do que você. Quando a pergunta mais importante de toda sua vida é feita diante do altar, perante Deus, você simplesmente faz a escolha certa, você esquece todo o resto, você esquece de tudo e apenas o que consegue pronunciar é o “sim”. Quando o padre diz que os declara marido e mulher todos sentem um frio na barriga, mas o beijo do final faz tudo parecer tão correto, tão perfeito, que as dúvidas já não cabem mais. A escolha foi tomada, as alianças trocadas, os noivos casados.
- Viva ao casal!!!!!!!!! - gritaram Lucas, Pedro e Thomas assim que PeLu e Nathalia terminaram o longo beijo.
- Viva!!!!! - responderam em coro os convidados num arrojo de felicidade.
- Como está se sentindo, senhora Munhoz? – perguntou Katlen aproximando-se da amiga para abraçá-la.
- Completa. - respondeu Nathalia, sorrindo, sem soltar a mão do marido.
- Foi o casamento mais bonito que eu já vi em toda minha vida. - falou Carol aproximando-se do casal - Sintam-se felizes, agora eu não terei a menor chance de ter um casamento melhor.
- Não fala assim, Caah. - disse Pedro rindo - Nós vamos ter o casamento mais legal de todos, estava pensando em dizermos o “sim” durante uma queda livre de uns duzentos metros, ninguém supera isso.
- Ai está o engraçadinho. - disse Nathalia abraçando o amigo - Vocês são os melhores padrinhos que eu poderia ter.
- Repete mais uma vez que nós estávamos longe e não ouvimos direito... - brincou Thomas aproximando-se com Gabriela em seu encalce.
- Vocês são os melhores padrinhos do mundo! - gritou a garota levantando os braços. Ser casada não trouxera as mudanças que Nathalia temia, eles eram os mesmos de sempre, ela era a mesma, tudo estava como devia ser.
- Eu gostei muito de tudo isso. - disse Gabriela praticamente saltitando de alegria - Quem são os próximos a casar?
- Não olhem para mim. - disse Thomas imediatamente - Ela bebeu um pouco antes da cerimônia, deve estar bêbada.
- Não estou, não. - protestou Gabriela, que realmente estava um pouco mais alterada que o normal, mas afinal quem consegue ver uma grande amiga casar sem umas doses na cabeça? Ela, com certeza, não.
- E aí? A viagem de lua-de-mel está de pé? - perguntou Lucas batendo no ombro de PeLu - Vocês vão mesmo passar uns dias no Brasil?
- Pode apostar que sim! - respondeu PeLu radiante - Vão ser dias de muito sol, mar, e sossego, meu caro .
- Você não nasceu no Brasil, Nath? - perguntou Carol percebendo a coincidência pela primeira vez desde que a amiga lhe contara o destino de sua viagem.
- Nasci. - riu a garota - Vou voltar lá pela primeira vez desde esse tempo, dá para acreditar?
- Desnaturada. - brincou Pedro - Acho bom vocês aproveitarem bastante esses dias de descanso, porque na volta temos um CD para gravar.
- Sem falar em paparazzis furiosos com o casamento feito às escondidas. - lembrou Thomas, rindo - Queria tanto ver a cara deles quando chegarem em Vegas e descobrirem que não tem casamento nenhum lá.
- Vamos dar uma volta, gente. - sussurrou Gabriela cortando os risos dos amigos ao perceber que mais pessoas queriam cumprimentar o casal.
- Vamos indo lá para fora. - disse Pedro aos dois - Vamos arrumando “aquilo” - completou piscando para PeLu.
- Deixa eu ir antes que eles me puxem para a conversa também. - falou Carol já se afastando - Nos vemos lá fora.
- Arrumar o que? - perguntou Nathalia confusa antes de ser interrompida.
- Filho... - disse um homem de certa idade, muito bem vestido, aproximando-se do casal sendo seguido por uma mulher que parecia uma versão mais velha de Carol. - Não vai dar um abraço no seu pai?
- Claro que sim! - disse o rapaz abraçando-o forte - Mãe, como a senhora está fabulosa. - completou abraçando-a em seguida.
-Meu homenzinho. - disse a senhora Munhoz apertando suas bochechas da mesma forma que fazia quando ele era menino - Você agora está casado, é um homem de verdade.
- E está mulher linda? - disse o pai de PeLu ao puxar a nora para mais perto - Meus netos serão as crianças mais bonitas do universo.
- Papai. - riu PeLu ficando corado - Não assusta a minha mulher com suas idéias loucas.
- Mas seu pai está certo. - disse a senhora Munhoz apertando mais uma vez as bochechas do filho - Nós perdemos tempo demais longe dos nossos filhos, queremos ter outra oportunidade, temos que ter muitos netos para mimar.
- Eu não sei se serão muitos, mas quem sabe um. - disse Nathalia rindo sobre as possibilidades que se abriam em sua frente - Um dia.
- Só um? - perguntou a sogra decepcionada - Eu estava pensando em pelo menos três.
- Mamãe o que a senhora achou da cerimônia? - perguntou PeLu, rapidamente, mudando de assunto. Era claro que ele queria ter filhos, mas isso não era conversa para se ter minutos após o casamento.
- Absolutamente linda. - respondeu ela voltando a sorrir como se nada tivesse perturbado seu bom humor - O padre foi maravilhoso, a decoração de muito bom gosto, o vestido da noiva... Nossa...
- Sem querer atrapalhar a animada conversa... - disse o senhor Munhoz para a esposa - Acho melhor irmos lá para fora, não podemos monopolizar o casal, meu bem.
- Só mais uma coisinha, - disse ela antes de acompanhar o marido para o lado de fora da igreja onde seria a festa - Eu tenho orgulho de vocês. - Completou dando um beijo na testa de cada um - Nos vemos mais tarde.
-Eles estão tão felizes- comentou Nathalia quando os dois se afastaram- Fazia tempo que não via eles assim.
- Fazia tempo que você não via eles de jeito nenhum. - brincou PeLu - É muito bom ter eles aqui nesse dia.
- PeLu!!! - brigou a garota com sua famosa pose com a mão na cintura - Você tinha alguma dúvida de que seus pais viriam para o seu casamento?
- Tinha. - disse o rapaz envergonhado - Eles nunca foram muito ligados em datas comemorativas.
- Nath...- disse a voz de um homem que andava com dificuldade contra os outros convidados que estavam saindo da igreja.
- Chris? - Perguntou Nathalia ficando na ponta dos pés para tentar olhar o dono da voz.
- Nath, - disse Chris finalmente chegando em frente ao casal- PeLu.
- Oi. - disse PeLu de mau gosto segurando Nathalia pela cintura o mais próximo possível do corpo.
- Assim que recebi o convite desmarquei todos os meus compromissos para estar aqui - disse o rapaz sem se deixar abalar pela atitude de PeLu.
- Não precisava fazer isso. - disse a garota preocupada - Espero que não tenha deixado nada de importante para estar aqui.
- Claro que eu tinha que vir. - disse ele ignorando o olhar ameaçador de PeLu. - Eu devia isso a vocês. Eu sinto muito pelo que houve no passado.
- Que bom que sente. - disse PeLu com rispidez na voz - Isso prova que você tem algum caráter, afinal de contas.
- PeLu... – a garota começou a falar, mas foi interrompida por Chris.
- Deixa Nath, ele tem razão. - falou ele humildemente - Eu poderia ter destruído tudo isso aqui se seus amigos não tivessem te contado a verdade. Eu fui um canalha, mas vim aqui dizer o quanto me arrependo disso.
- Chris você não foi um canalha, apenas agiu sem pensar direito nas conseqüências - disse Nathalia sentindo quão insignificante o passado era. Quando uma pessoa te magoa e te faz sofrer, você chora, sente raiva, rancor... Mas com o passar do tempo os detalhes vão se perdendo, outros fatos acontecem e em alguns casos, como nesse, a felicidade é tão grande que rouba o espaço de qualquer outro sentimento. Chris agora não era mais o vilão, o garoto mau, ele era apenas Chris, um velho amigo de escola.
- PeLu eu sinto muito por tudo. Eu só queria o melhor para ela e se o melhor for você, eu tenho apenas que lhe dar os parabéns.
- Está tudo certo. - respondeu PeLu ficando menos tenso - Todos nós cometemos erros na vida, é inevitável.
- Tenho que concordar. - disse Chris rindo. Nunca ele poderia imaginar que fosse concordar com seu rival em algo - Bem, eu tenho que ir, passei aqui só para ver a cerimônia mesmo.
- Eu gostei muito de ter te visto. - falou Nathalia sorrindo - Muito mesmo.
- A gente se vê por aí. - disse PeLu apertando sua mão.
- Claro que sim. - respondeu Chris retribuindo o gesto - Em alguns meses será a vez de vocês me visitarem, vou me casar em alguns meses.
- Nossa Chris, parabéns! - disse a garota feliz pelo amigo ter, finalmente, encontrado alguém para amar e ser amado - Nós estaremos lá com toda certeza, não é mesmo PeLu?
- Claro que sim. Pode contar com a nossa presença.
- Então nos vemos lá. - disse ele se despedindo - Meus parabéns mais uma vez.
Após serem cumprimentados por mais algumas pessoas o casal dirigiu-se para o gramado, que ficava ao redor da igreja, onde teria uma pequena comemoração. Uma grande tenda transparente tinha sido posta sobre a parte mais verde da grama. Dentro, estavam dispostas várias mesas que já estavam ocupadas pelos convidados, no fundo foi montado um pequeno tablado de onde os músicos tocariam. Os suportes de sustentação estavam enfeitados com guirlandas de flores brancas e lilás que juntamente com as flores dispostas ao redor da tenda davam um ar aconchegante e perfumado ao local. Já passava das três e as nuvens pareciam brincar no céu, fazendo desenhos engraçados para as crianças rirem. O tempo, normalmente frio, estava bem agradável e os vestidos coloridos alegravam ainda mais o ambiente.
- O que você achou? - perguntou PeLu quando chegaram em frente a grande tenda - Você estava teimando em nada de festa, então me esforcei ao máximo para tudo ficar bem simples.
- Eu mesma não faria melhor. - disse Nathalia sem conseguir acreditar no que seus olhos viam. Ela não queria festa e por isso não se envolveu com nada dessa parte, mas agora que via aquelas flores, as mesas cheias de comida, as pessoas sorrindo... Não podia acreditar que chegou a pensar em sair direto da cerimônia para o aeroporto.
- Acho que isso é uma coisa boa. - riu PeLu puxando a garota para mais um beijo.
- Isso deve ter dado muito trabalho! - disse Nathalia voltando a admirar tudo aquilo.
- Deixa de besteira, Nath- falou o rapaz caminhando com ela em direção a entrada da tenda - Ainda tem mais uma coisa.
- O que? - perguntou a garota incrédula - O que mais pode haver? Isso tudo é perfeito.
- Os recém casados chegaram. - a voz de Pedro soou no microfone - Um brinde ao novo casal - disse para, em seguida, todos levantarem suas taças alegremente - Agora que estão todos aqui pedimos que nosso caro amigo PeLu junte-se a nós para uma pequena homenagem.
- O que é isso? - perguntou Nathalia, confusa, ao marido.
- Nath senta lá com seus pais. - respondeu PeLu sorrindo - Você verá.
- Mas...
- Faz o que eu digo sem mil perguntas pelo menos uma vez Nath? - pediu ele caminhando até o pequeno tablado enquanto a garota ia sentar-se sem entender nada.
- Bem... - disse PeLu no microfone - Como todos sabem eu esperei muito tempo por esse dia, o dia em que eu casaria com essa mulher, a mulher não só da minha vida, mas sim da minha existência. Então eu compus essa música há um tempo, mas esperei por esse dia para dar de presente para ela. Nath essa é para você, na realidade todas são, mas essa é especial - completou sem tirar seus olhos dos assustados e emocionados olhos dela.
- Em primeira mão nossa mais nova música. - disse Thomas aos convidados enquanto PeLu se posicionava - ESSE AMOR EM MIM .

Você insiste em não acreditar em nada do que eu tenho pra dizer
Acho que eu fiz por merecer
Ou talvez seja mais fácil assim
Aí debocha dos meus versos e depois quer me ligar
Quase implora pra eu ficar, olhar no olho e diz que sim

Então volta pra mim
Vem! Que eu já não aguento mais te esperar
Vem! Que a nossa história não vai acabar
Em todas as minhas canções é só você que está presente sim

Então vem! Que hoje é o nosso dia de mudar
Vem! Chegou a hora de recomeçar
A cada verso que eu escrevo só aumenta esse amor em mim
Esse amor em mim

Me fala da distância e de tudo que eu não fiz
Tenta mostrar que tá feliz.
Que a vida é melhor sem mim

Mais tarde fala que se arrependeu e quer voltar
Me diz como é que eu vou negar
Se eu gosto de ti tanto assim
Então volta pra mim

Vem! Que eu já não aguento mais te esperar
Vem! Que a nossa história não vai acabar
Em todas as minhas canções é só você que esta presente sim

E então vem! Que hoje é o nosso dia de mudar
Vem! Chegou a hora de recomeçar
A cada verso que eu escrevo só aumenta esse amor em mim
Esse amor em mim

Eu sei que é em você que eu vou encontrar
Diferente de tudo a minha forma de amar
Depois de tanto tempo sem pra onde ir
Eu já não quero mais fugir

Que eu já não aguento mais te esperar
A nossa história não vai acabar
Em todas as minhas canções é só você que esta presente sim

Então vem! Que eu já não aguento mais te esperar
Vem! A nossa história não vai acabar
Em todas as minhas canções é só você que esta presente sim

E então vem! Que hoje é o nosso dia de mudar
Vem! Chegou a hora de recomeçar
A cada verso que eu escrevo só aumenta esse amor em mim

Esse amor em mim 
No final da música Nathalia estava de pé em frente ao tablado. Seus olhos úmidos pelas lágrimas não conseguiam deixar PeLu nem se quer por um segundo, seu coração parecia não conseguir ser mais rápido do que já estava sendo. Era isso, ela já sabia, mas agora a certeza era irrevogável, PeLu era o amor de sua vida, de suas vidas passadas e de suas vidas futuras. Durante a fração de segundos que seguiram o final da música eles se olharam. Algumas pessoas dizem que os olhos são a porta da alma, mas nesse caso ambos poderiam jurar realmente terem a visto. Com um pulo PeLu desceu do tablado para abraçá-la fortemente junto ao corpo enquanto todos ao redor levantavam-se para aplaudir.
Entre as mais de seis bilhões de almas que existem no mundo você só precisa encontrar uma para ser feliz. Vocês vão sorrir, mas também vão chorar. Vão brincar, mas vão brigar. Vão se amar e algumas vezes se odiar. Vão fazer feliz e magoar. O que importa é que no final das contas você olhe para aquela pessoa e continue sentindo como se aquele fosse o primeiro olhar.
Na última foto da festa o sol já estava se pondo, o alaranjado de seus raios coloria o vestido branco da noiva e banhava seu sorriso de luz. PeLu segurava Nathalia em seus braços para mais um beijo apaixonado. Nos olhos de ambos ficou registrado o amor. A foto poderia escurecer, eles poderiam envelhecer, mas aquele amor jamais mudaria. Nem as brigas, nem as dificuldades, nem o tempo, nada seria capaz de mudar o que um sentiam pelo outro. Ao fundo estavam os padrinhos, Thomas tentando tomar o buquê das mãos de Gabriela , Lucas abraçava Katlen , Carol enxugava as lágrimas e Pedro ria muito ao colocar seus olhos curiosos no segredo que o vestido de Nathalia tinha escondido tão bem durante todo casamento: o All Star rosa que estava nos seus pés.



                                                        FIM