# Mesmo de longe eu queria te fazer, sentir tudo o q eu sinto por voc

domingo, 5 de setembro de 2010

Sexy Biology '-' (FÃFIC) CAPITULO 19 & 20

- galere mais liinda vou postar 2 caipulos porq eu vou ficar fora até a noite D:
 # enton pra mim num morrer por não ter postado AHAHA tá aii :D
 - amo vocs minhas txucas ♥
Capítulo 19



Desci os degraus novamente, dessa vez me segurando firmemente no corrimão para não cair, e voei até a porta, enquanto o ronco do motor dava lugar ao silêncio outra vez. Hesitei antes de abri-la, com a mão quase esmagando a maçaneta, e respirei fundo. E se fosse só mais uma alucinação? Não, não podia ser. Eu quase podia sentir sua presença, seu perfume, a temperatura quente de sua pele contra a minha, seu hálito úmido em meu pescoço... Ele estava aqui, com toda a certeza que ainda me restava.
Abri a porta, com os olhos fechados, e quando a brisa gelada tocou minha pele, abri também meus olhos. Se eu não estivesse segurando a maçaneta com toda a minha força até agora, acho que desmaiaria.
A Ferrari estava ali. Bem à minha frente.
Graças a Deus, eu estava certa.
No que me pareceu apenas um segundo depois, me vi andando energicamente até o lado do motorista, cuja porta já estava sendo aberta por dentro. Assim que meus olhos encontraram os de Pedro, um tanto confusos, a energia que me faltara durante todo aquele tempo de espera surgiu com força total, fazendo meu coração bater tão descompassado que minha visão se tornou turva.
Seu perfume já infestava meus pulmões antes mesmo de me aproximar dele, e completamente guiada por meus instintos, eu entrei no carro, passando uma de minhas pernas sobre as dele e me sentando em seu colo. Fechei a porta da Ferrari, deixando Pedro totalmente perdido, e jogando no lixo qualquer vestígio de sanidade que ainda me restasse, uni sua boca à minha sem a menor delicadeza.
Os lábios dele permitiram a passagem de minha língua imediatamente, misturando o gosto dele ao meu e me causando um efeito quase anestesiante. Suas mãos, ainda surpresas com a minha pressa, demoraram a se decidir entre minha cintura e minhas coxas, e sem conseguir escolher, foram parar em meus quadris. Eu bagunçava seu cabelo macio, sentindo um calor dominar meu corpo, especialmente onde havia contato com o corpo dele.
Não sei por quanto tempo nos mantivemos ali, apenas nos beijando (lê-se: “nos engolindo feito duas enguias”) e sentindo a presença um do outro. Pela intensidade com a qual ele retribuía o beijo, e até sorria de vez em quando, eu não era a única ansiosa por aquele momento, o que de certa forma me reconfortou. Eu pressionava meu tronco contra o dele com cada vez mais desejo, sentindo-o reagir da mesma forma como se quisesse fundir nossos corpos num só. Quando meus lábios já estavam ficando doloridos pela pressão contra os lábios dele, Pedro começou a puxar minha camisola para cima conforme explorava meu corpo com suas mãos. Minhas pernas se contraíam inconscientemente ao redor de seus quadris, me impulsionando para cima e quase o prensando contra o encosto do banco. Ele continuou subindo seus toques até encontrar meus seios, e envolveu-os com suas mãos, soltando um gemido abafado contra meus lábios. Deixei que ele aproveitasse por um tempo, e logo parti o beijo, com uma mordida em seu lábio inferior, para tirar a camisola.
Voltei a me inclinar sobre ele, colando nossas bocas novamente e deslizando minhas mãos por todo o seu tronco, só parando quando encontrei o que queria. Abri o botão e o zíper da calça sem demora, sentindo-o aumentar sua agressividade no beijo, e acariciei sua já considerável ereção por cima das boxers. Pedro agarrou meus cabelos da nuca em sinal de aprovação, e colocou mais força em seus dedos quando eu passei a beijar seu pescoço, tentando compensar o desvio de minhas mãos para sua blusa. Dedilhei o caminho de volta, sentindo cada músculo de seu abdômen se contrair ao meu toque conforme eu subia, e segui para suas costas quando atingi a altura máxima possível. Ele puxou a camisa pela parte de trás, e eu me afastei, observando-o tirar a peça e jogá-la em qualquer lugar.
Ele segurou minha cintura com firmeza, me inclinando um pouco para trás, e eu apoiei minhas costas sobre o volante, me arrepiando por inteiro quando senti sua língua tocar a pele de minha barriga. Pedro fez uma trilha de beijos enlouquecedores até alcançar meu pescoço, me trazendo de volta à minha posição ereta, e quando seus lábios voltaram a buscar os meus, uma de suas mãos se colocou por dentro de minha calcinha, me provocando com seus dedos. Ensandecida, eu correspondi seu beijo com o triplo de ferocidade, fincando o que restava de minhas unhas em seus ombros tensos sem nem pensar se doeria. Graças à experiência dele, que o possibilitava tocar os lugares certos, eu já estava quase atingindo o clímax quando sua outra mão escorregou até minha bunda, dedilhando o leve alto-relevo causado pela estampa de ovelhinha de minha calcinha. Apesar de todos os outros acontecimentos, aquilo pareceu diverti-lo, já que pude sentir um sorrisinho moldar seu rosto. Gemi alto contra seus lábios quando Pedro ameaçou parar de movimentar seus dedinhos, e ele só o fez quando sentiu que havia terminado seu trabalho.
Suada e precisando urgentemente de ar, eu afastei meu rosto do dele, sugando seu lábio inferior e sentindo-o se afastar na direção oposta só para me fazer sugá-lo com mais força. Ambos sorrimos de leve com a provocação, e se o volume entre as pernas dele não estivesse extremamente convidativo, eu teria voltado a beijá-lo. Pedro segurou meu rosto com uma mão, mordiscando o lóbulo de minha orelha lentamente e me arrepiando com sua respiração ruidosa, enquanto eu descia sua calça jeans ao máximo com um sorriso pervertido. Rocei meus lábios nos dele por um segundo, encarando seus olhos verdes cheios de luxúria, e desci suas boxers até os joelhos, onde a calça havia parado.
Envolvi sua ereção com uma mão, sentindo-a quase pulsar de tão enrijecida, ao mesmo tempo em que as mãos de Pedro acariciaram minhas coxas. Agarrei seus cabelos com a mão livre, puxando-o para um beijo, e com a outra, comecei a masturbá-lo o mais depressa que consegui. Ele se esforçava ao máximo para corresponder às carícias de minha língua, mas a contração ainda mais freqüente de seu abdômen deixava nítido que aquilo não era sua prioridade no momento. Pedro agora soltava gemidos contínuos e quase chorosos de tanta excitação, mas eu não desisti de beijá-lo. Eu queria mesmo que ele sofresse por ter demorado tanto pra chegar.
Ele subiu suas mãos até o cós de minha calcinha e colocou seus polegares por dentro do elástico da mesma, trazendo-a para baixo sem surtir muito efeito. Entendi aquilo como um aviso de que ele não agüentaria por muito mais tempo, e imediatamente parei o que estava fazendo para me desfazer da última peça de roupa que ainda restava. Enquanto eu me despia, ele resgatava a camisinha do bolso de sua calça e rasgava sua embalagem com os dentes, daquele jeito grosseiro e extremamente sexy. Atirei minha calcinha longe, e quando viu que eu já estava livre, ele me deu o preservativo com um sorriso nada angelical. Retribuí seu sorriso safado e coloquei a camisinha nele com cuidado, sentindo meus talentos manuais sendo reconhecidos.
- Você sabe o que fazer – ele murmurou com a voz falha, quando eu terminei, e meus olhos se ergueram até encontrar os dele. Assim que o fiz, foi impossível não me lembrar da última vez em que estive em seu apartamento. O Pedro que eu conheci naquele dia, escondido atrás de uma armadura, me encarava novamente naquele exato momento. O verdadeiro Pedro.
Senti um arrepio percorrer minha espinha, eriçando meus pêlos da nuca e acelerando meus batimentos cardíacos ao reconhecer aquela mudança. Eu poderia passar a vida inteira encarando aqueles olhos sinceros, sem saber classificar o sentimento que eles causavam em mim.
Meu rosto avançou lentamente na direção do dele, unindo nossos lábios com calma, e eu ergui meu corpo até encontrar a posição certa. Pedro colocou suas mãos em minha cintura com sutileza, como se quisesse me incentivar, e eu o coloquei dentro de mim devagar, sentindo-o apertar minha cintura com mais força quando cheguei ao fim. Eu segurei em seus ombros, trêmula, e deixei que todas aquelas novas sensações, que ao mesmo tempo eu já conhecia, fizessem efeito sobre mim. Paramos de nos beijar, mas mantivemos nossos lábios unidos, e abrimos nossos olhos, encarando profundamente um ao outro. A conexão entre nossos olhares por pouco poderia ser tocada, de tão intensa que era. A compreensão e a paciência, apesar de sua vontade gritante de que eu me movimentasse novamente, eram nítidas em seus olhos, o que só me deixou ainda mais tonta.
Ele fechou os olhos, franzindo de leve a testa e escorregando suas mãos até meus quadris, e eu reiniciei o beijo, sentindo o prazer crescer monstruosa e subitamente dentro de mim. Envolvi seu pescoço com meus braços, embrenhando meus dedos em seus cabelos umedecidos de suor, e comecei a me movimentar sobre ele, acelerando a cada segundo como se aquilo fosse natural pra mim. Logo ele estava gemendo de novo, assim como eu, e estava ficando quase impossível nos beijarmos. Nossos rostos se mantiveram próximos, intensificando a mistura quente de nossas respirações, até que atingi o clímax novamente, sendo seguida por ele.
Deixei que meu tronco se apoiasse sobre o dele, sem conseguir definir qual dos dois estava mais ofegante. Minhas mãos deslizaram de seus cabelos para seus ombros, enquanto as dele ainda eram incapazes de largar meus quadris. Afundei meu rosto na curva de seu pescoço, deixando que o perfume dele me acalmasse, e após alguns segundos, senti seus braços envolverem minha cintura e me aconchegarem ainda mais em seu peito. Fechei os olhos, abraçando-o pela cintura também, e pude ouvi-lo rir de leve. Ainda tensa demais para perguntar qual era a graça, apenas ignorei seu riso, e como se tivesse lido minha mente, ele sussurrou, com o pouco de ar que lhe restava:
- Por favor, prometa que vai continuar me surpreendendo... Porque sinceramente... Fica cada vez melhor.
Mesmo sem ar, eu não tive como evitar que a risada baixa dele me contagiasse. Assim como, por mais que eu tentasse fugir ou negar, tudo nele me contagiava quando estávamos juntos.
Aos poucos, minha respiração ia voltando ao normal (não totalmente, porque com ele perto de mim, era inútil conseguir respirar direito) e a tremedeira de minhas mãos ia passando. Pedro esperou calmamente, acariciando desde meus ombros até meus quadris, fazendo uma massagem gostosa conforme deslizava as palmas de suas mãos e vez ou outra dedilhava minha pele devagar. Seu coração batia forte contra meu peito, apesar da respiração calma, o que parecia acelerar ainda mais as batidas do meu.
- Está sentindo isso? – finalmente sussurrei contra a pele de seu pescoço, com os olhos fechados. Deslizei minha mão esquerda até seu peito, indicando a que me referia, e o ritmo acelerado de seus batimentos pareceu se intensificar sob meu toque suave.
- Desde a primeira vez que pus meus olhos em você – ele murmurou, imitando meu gesto com sua mão esquerda – Você também está sentindo isso?
Me afastei dele para poder olhá-lo, e assenti inocentemente, vendo um sorriso se alargar em seu rosto. Logo depois, deixei que meu olhar mergulhasse em seus olhos verdes, como sempre acontecia, e franzi a testa de leve, em sinal de confusão.
- O que foi? – ele perguntou, novamente imitando minha expressão, porém sem se desfazer de seu sorriso.
- O que é isso? – balbuciei, sem conseguir formular direito as frases que colidiam em minha mente – Isso que eu tô sentindo... Que nós estamos sentindo... O que é?
Pedro acariciou meu rosto com as costas de sua outra mão, me olhando daquele jeito intrigado e deslumbrado ao mesmo tempo, e levou alguns segundos para responder:
- Eu não sei... Mas, sinceramente, eu gosto disso.
Meus olhos se fixaram em seus lábios quando ele falou, observando o quão lindos, apesar de serem apenas lábios como os de qualquer outra pessoa, eles eram. Sem que eu pudesse controlar aquele impulso, minha mão subiu lentamente até meus dedos conseguirem tocá-los, e assim que o fiz, dedilhei-os de leve, desenhando seu formato e sentindo sua textura macia. A expressão confusa em meu rosto permaneceu, refletindo o que eu sentia por dentro, e devido a isso, os lábios que eu sentia sob os nós de meus dedos deixaram de sorrir.
- Eu não queria sentir isso – murmurei, com o olhar ainda perdido em sua boca, e comecei a sentir meus olhos se encherem d’água sem que eu permitisse aquilo – Me faz mal.
- Eu sei – Pedro disse, me fazendo erguer meu olhar até encontrar o dele, extremamente misterioso – Se eu pudesse voltar atrás, também escolheria não me sentir assim... Me corrói por dentro.
- Mas não há como voltar atrás – falei, agora com a mão descendo por seu queixo e pescoço devagar, com os olhos ainda fixos nos dele – Você sabe disso.
- Você também – ele sorriu fraco, de um jeito quase amargurado – Pelo menos não estou sozinho nessa.
Abaixei meu olhar, engolindo a tristeza por saber tão bem quanto ele que já não havia mais volta para nós. Já era irreversível, inesquecível... Um pacto secretamente selado entre nossos corpos, sem que nós mesmos tivéssemos tomado conhecimento dele.
- Eu posso ir embora se você quiser – ele falou baixo, parecendo resignado, e na mesma hora, uma pontada latejou em meu peito, como uma fisgada de pânico.
- Não – sussurrei, me encolhendo devido à súbita dor, e o choro que eu tentava reprimir voltou a embaçar minha visão – Por favor... Não vá embora.
Mesmo sem olhá-lo, soube que a expressão no rosto dele não era das mais alegres, mas não havia nada que eu pudesse dizer ou fazer pra mudar isso. Eu mesma estava em conflito, tentando não ceder à vontade monstruosa de sair correndo dali e me afogar naquele mar, eliminando finalmente todas as minhas angústias.
Pedro soltou um suspiro triste, e me puxou sutilmente pelos ombros até nossos troncos voltarem a ficar colados. Ele me abraçou com certa força, e o batimento acelerado de seu coração voltou a repercutir em minha pele, enquanto uma lágrima rolava pelo meu rosto e escorria até alcançar seu ombro. Não era daquele jeito que eu queria que as coisas fossem. Não era daquele jeito que eu queria me sentir.
- Você sabe que nunca vai ser como ele... Não sabe? – sussurrei, pensando em Pepe e tentando evitar que toda aquela dor reprimida em relação a ele me atingisse com sua força esmagadora.
- Sei - Pedro respondeu, amargamente conformado, e eu não consegui dizer mais nada. Talvez o silêncio pudesse amenizar a dor que eu não podia, a dor da verdade, corroendo-o por dentro como um veneno que o dilacerava aos poucos.
Os segundos se passaram, um a um, e nenhum de nós dois tinha coragem o suficiente para dizer alguma coisa, até que ele inspirou profundamente, tomando fôlego para falar.
- Caralho, Carol – ele disse, e eu nem me movi, amedrontada com a repentina irritação em sua voz – Por que eu tenho que ficar desse jeito quando eu tô com você? Eu não sou assim... Esse não sou eu!
- Então quem é você? – perguntei, ainda sem olhá-lo, e ele não foi capaz de responder. Esperei mais alguns segundos e finalmente tomei coragem de encará-lo, encontrando uma bagunça em seus olhos e sentindo uma irritação borbulhar em minha garganta. Não saber definir o que estava sentindo me irritava profundamente, e eu sempre me sentia assim com ele por perto.
- Quem é você, Lanza? – repeti, com uma firmeza que não parecia ser minha, levando-se em conta que eu nunca conseguia ser firme quando estava falando com ele – O que você quer de mim afinal?
- Eu não sei! – Pedro exclamou, franzindo a testa em sinal de raiva – Eu não sei de porra nenhuma quando eu tô com você, não deu pra entender isso ainda?
- Nem eu! – retruquei no mesmo volume que ele, sentindo a irritação crescer cada vez mais rápido dentro de mim – Então pare de colocar a culpa em mim!
- Eu não estou colocando!
- Então por que está gritando?
Ele abriu a boca pra revidar, mas não emitiu nenhum som. Seu olhar estava cada vez mais confuso, junto de sua testa, pesadamente franzida sobre eles, e seus lábios se contraíram, expressando nitidamente sua luta interna. Eu apenas o encarava, respirando fundo na tentativa de diminuir minha raiva. Nenhum de nós sabia definir o que estava acontecendo dentro de nós mesmos, presos numa escuridão desesperadora.
- Eu não quero me deixar envolver com você – ele murmurou, alguns segundos depois, desviando seu olhar do meu – E eu não vou.
- Ótimo – eu concordei, engolindo em seco ao fazê-lo – Nem eu.
- Ótimo – ele repetiu, encarando qualquer lugar, menos o meu rosto, e eu simplesmente me levantei devagar, sentando no banco do carona logo depois. Fiz um coque desengonçado em meu cabelo, sentindo as pontas de meus dedos frias, enquanto ele dava um jeito em sua situação com a camisinha. Pensei em recolher minhas roupas, me vestir e entrar em casa, mas o simples fato de me afastar dele novamente, agora que eu o tinha bem ao meu lado, parecia ser equivalente a me rasgar ao meio. Me parecia loucura deixá-lo ir embora tão cedo, sendo que eu o esperei por tanto tempo, e com tanta ansiedade.
- Por que você demorou pra chegar? – ouvi minha própria voz dizer num tom baixo e grave, sem qualquer emoção. Pedro, que permanecia cabisbaixo, ergueu as sobrancelhas e deu de ombros.
- Porque eu quis – ele respondeu, igualmente frio – Não pensei que você estaria me esperando.
- Eu não estava – menti, encarando o retrovisor ao meu lado, e senti seu olhar repousar sobre mim na mesma hora – Só perguntei por curiosidade.
- Mas agora eu estou aqui – ele disse, sem saber a quantidade de sentimentos conflituosos essa frase me causava - E você está... Bem, você está aí.
Um sorriso teimoso surgiu em meu rosto, apesar da frieza com a qual eu estava agindo. Eu odiava ser sensível a piadas, mesmo que as mais toscas.
- Não, eu é que estou aqui – retruquei, tentando em vão disfarçar meu sorriso - E você é que está aí.
- Hm... Então o que acha de nós dois ficarmos aí? – Pedro sugeriu, e eu nem precisei olhá-lo pra saber que ele estava sorrindo assim como eu, mesmo que timidamente, por sua frase inocentemente engraçada – Ou aqui, como você preferir.
Soltei um risinho baixo, já quase totalmente amolecida pelo jeito dele, e olhei por cima de meu ombro para o banco de trás, que me pareceu extremamente convidativo.
- Aqui me parece um bom lugar – eu disse, me esgueirando para a parte de trás do carro e finalmente encarando-o com um sorriso não mais tão divertido, e já um pouco mais pervertido – O que acha?
Ele semicerrou os olhos, fingindo pensar na idéia por um momento, e dois segundos depois, já estava sobre mim, com os lábios a poucos milímetros dos meus, sussurrando:
- É... Aqui é um ótimo lugar.
Eu sorri involuntariamente, sentindo meu corpo inteiro formigar com a proximidade dele, e deixei que ele me beijasse, apesar de ainda sentir meus lábios sensíveis. O peso de seu corpo sobre o meu acelerava meu coração de um jeito indescritível, assim como suas mãos determinadas em minha cintura pareciam ter sido feitas para estarem ali.
Envolvi seus ombros com minhas mãos, passando meus braços por seu pescoço logo depois e aprofundando o beijo. Pedro apertou minha cintura com mais força, sorrindo, e eu também sorri, enroscando meus dedos em seus cabelos e puxando-os pra trás. Ele deixou que meu puxão afastasse sua cabeça, mordendo meu lábio inferior enquanto a distância aumentava. Senti uma leve dor na região quando ele voltou a me beijar, mas nem liguei pra isso, até que um gosto fraco de sangue começou a se manifestar. Logicamente, ele também sentiu, já que partiu o beijo com a testa franzida e lançou um olhar levemente preocupado para meus lábios.
- O que houve? – ofeguei, encarando-o com o mesmo olhar, e ele ergueu as sobrancelhas num tom surpreso.
- Acho que exagerei um pouco por aqui – ele sussurrou, sorrindo de um jeito quase envergonhado – Hm... Vamos dar um jeito nisso.
Pedro voltou a aproximar nossos lábios, sorrindo agora de um jeito sedutor, e sugou meu lábio inferior devagar, fazendo a dor aumentar um pouco, mas logo cessar quase que completamente. A ponta de sua língua deslizava sobre meu pequeno ferimento, como se quisesse estancar o sangramento.
- Só não pense que eu vou pedir desculpas – ele sorriu daquele seu jeito cafajeste, afastando-se novamente para olhar como estava a situação do corte que ele mesmo havia feito – Porque eu não vou.
- Tudo bem – eu murmurei, posicionando minhas mãos em sua região lombar, fincando o pouco de unhas irregulares que me restava ali e subindo com elas por toda a extensão de suas costas, até alcançar seus ombros – Eu também não.
Sem conseguir conter um sorriso ao ver a expressão de dor e prazer dele, ergui um pouco minha cabeça para poder beijá-lo, voltando a deslizar minhas unhas por sua pele. Pedro desceu seus beijos por todo o meu colo, fazendo minha respiração quase parar tamanho foi o seu capricho, e segurou meus seios com firmeza, aproveitando-se da posição favorável na qual se encontrava.
- Até que enfim tenho tempo suficiente pra dar a devida atenção a essa parte – ele suspirou, olhando para meu busto com uma expressão desejosa, e eu soltei um risinho, agarrando seus cabelos. Ele sugou-os, fazendo movimentos circulares com a ponta da língua, e eu arqueei minhas costas para cima, sentindo o tesão se acumular em cada pedaço de mim. Sua respiração quente batia em minha pele, e ele gemia baixo de olhos fechados, concentrado em extrair o máximo de prazer daquele momento.
Satisfeito, ele continuou seu caminho até minha barriga, e só parou quando alcançou minha intimidade. Pedro me lançou um olhar quase selvagem de tão reluzente quando me tocou com sua língua, e eu imediatamente senti uma onda de calor percorrer minha espinha. Seus movimentos eram quentes e precisos, porém não tinham a menor pressa e brutalidade. Me apoiei em meus cotovelos, quase rebolando devido aos movimentos involuntários de meus músculos contraídos de prazer, e joguei a cabeça pra trás, de olhos fechados para poder senti-lo melhor. A cada segundo, ele intensificava suas carícias, me fazendo gemer cada vez mais alto até chegar ao ponto máximo. Contive um grito, mordendo sem querer a região machucada de meu lábio e me esforçando ainda mais pra não berrar, dessa vez também de dor.
Ele terminou seu serviço e distribuiu beijos lânguidos pelo interior de minhas coxas, acariciando-as com suas mãos, e eu não conseguia me mexer, anestesiada pelos toques dele. Pedro me olhou, afastando seus lábios de minhas pernas, e eu nem esperei que ele voltasse. Ergui meu tronco depressa e praticamente o ataquei, beijando-o com fúria. Ele se sentou, apoiando-se na porta atrás de si, enquanto eu me inclinava cada vez mais sobre ele. Passei minhas mãos por seus ombros e abdômen, parando em seus quadris e dedilhando suas entradas deliciosas. Ele segurava firmemente em minha cintura, correspondendo com muito mais do que avidez ao beijo, e eu segurei sua ereção com uma mão, sentindo-a mais enrijecida do que nunca. Parti o beijo contra a vontade dele e embrenhei meus dedos da mão livre nos cabelos de sua testa, levando-os para trás e fazendo-o jogar a cabeça na mesma direção, totalmente submisso. Sorri maliciosamente, mesmo sem ser vista, e passei rapidamente o dedo indicador da mesma mão por seu tronco, parando quando atingi seu umbigo e simultaneamente começando a masturbá-lo. Ele agarrou minhas coxas e jogou a cabeça para a frente, observando os movimentos rápidos de minha mão. Seus músculos se contraíam visivelmente, e as veias de seus braços estavam saltadas, o que só me deixava ainda mais louca. Tudo nele parecia me atiçar, me convidar, me atrair.
Passei a língua devagar por sua glande, fazendo pressão contra ela, e ele gemeu alto, dolorosamente excitado. Repeti esse ato algumas vezes, tendo a mesma reação dele, até que seus dedos se fecharam ao redor de meus braços, e antes que eu me desse conta, eu já estava deitada e com ele sobre mim, prestes a me penetrar.
- A camisinha, Pedro! – exclamei, com os olhos arregalados de pânico, e ele imediatamente paralisou, retribuindo meu olhar de um jeito tão ensandecido que me fez pensar no que eu tinha feito pra deixá-lo tão fora de si. Pedro voou até sua calça, e poucos segundos depois já estava de volta, devidamente protegido. Soltei um rápido suspiro aliviado, fechando os olhos por um momento, e percebi que dessa vez ele hesitou antes de ir direto ao ponto. Olhei-o em dúvida, e logo percebi o que estava errado.
- É assim que você quer? – pude ouvi-lo arfar, com a testa fortemente franzida em sinal de máximo autocontrole, e eu involuntariamente sorri, quase comovida. Só mesmo na hora do sexo para Pedro Lanza ser gentil comigo e me perguntar se eu queria ficar por baixo. Envolvi seu pescoço com meus braços e aproximei minha boca de seu ouvido, sussurrando logo em seguida:
- Me mostre do que você é capaz.
Senti um jato forte de ar sair de seus pulmões e atingir meu pescoço em cheio, demonstrando sua rendição e me arrepiando da cabeça aos pés. Imediatamente, ele investiu, com uma força extraordinária, e eu por pouco arranquei mechas de seu cabelo, tamanha foi a força coma qual eu o agarrei. Podia senti-lo profundamente dentro de mim, sentia seu corpo quente estremecer rente ao meu, sua voz rouca gemer ao pé do meu ouvido, e a cada vez que ele se movimentava, eu sentia meu coração quase sair pela boca de tão rápido que batia. Envolvi seus quadris com minhas pernas, puxando-o pra mais perto ainda, sendo que ele já estava prestes a me rasgar por dentro, e Pedro afundou seu rosto em meu pescoço, mantendo seus lábios selados contra a minha pele na tentativa de abafar seus gemidos. Minhas mãos nunca estiveram tão indecisas como estavam naquele momento, percorrendo toda a extensão entre seus ombros e suas costas.
- Merda – ele xingou algum tempo depois, quase que num grunhido, e em seguida, chegou ao clímax. Pedro investiu mais algumas vezes em vão, soltando urros de raiva por não conseguir prolongar aquele momento, até finalmente relaxar e deixar-se cair sobre mim, respirando com dificuldade. Eu apenas encarava o teto do carro, tentando absorver o turbilhão de prazer que ele havia desencadeado em mim, extremamente impressionada.
- Me desculpe – ele sussurrou, interpretando mal minha breve paralisia, e eu imediatamente franzi a testa, horrorizada – Mas é que... Você me provoca demais, e... Eu não agüento por muito tempo.
Tudo que consegui fazer foi rir, apesar da falta de ar, e ele se afastou para me olhar, com a expressão confusa. Será que excesso de orgasmos podia causar demência?
- Eu te desculpo por ter salvado a minha vida – eu expliquei, após algum tempo de riso – Se você tivesse continuado, era bem capaz de ter me matado.
Pedro soltou um risinho aliviado, fechando os olhos de um jeito exausto, e eu continuei observando-o. Difícil resistir a uma beleza tão gritante e espontânea como a dele... Eu realmente devo ser muito cega por nunca ter notado isso antes.
Ele se levantou, tomando as devidas providências em relação ao preservativo, e vestiu sua boxer, enquanto eu colocava apenas minha camisola. Assim que o fiz, ele me puxou para si, deitando-me sobre seu peito no banco de trás, e me abraçou. O contraste entre sua respiração, já calma sob minha mão, e seu coração, levemente acelerado sob meu ouvido, estranhamente me tranqüilizou, fazendo com que minhas pálpebras pesassem cada vez mais.
- Pode dormir se quiser – ele sussurrou contra meus cabelos, notando minha moleza sobre ele – Te acordo quando começar a amanhecer, já que vou ficar acordado de qualquer maneira.
- Por que não vai dormir? – sussurrei com esforço devido ao cansaço, acariciando timidamente sua pele com meus dedos.
- Não vou conseguir – ele respondeu com um risinho discreto – Não depois de tudo isso... Ainda há muito para eu observar aqui.
Meu estômago revirou, me causando uma sensação inquietante pelas palavras dele, mas eu estava cansada demais para responder. Tudo que fiz foi sorrir de leve e deixar que o sono me ganhasse após um último suspiro.
- Boa noite, Pedro.


Capítulo 20



- Carol?
Senti uma mão acariciar desde meu ombro até meu pulso devagar, e abri os olhos com a mesma velocidade, acostumando minhas pupilas à pouca claridade do ambiente.
- Hm? – respondi, espreguiçando-me um pouco e abrindo os olhos de vez. A pele de Pedro, que havia servido de travesseiro para mim durante as últimas horas de sono, ocupavam metade de minha visão, enquanto a outra metade era preenchida pelo interior do carro e pelos trechos do céu que os vidros me permitiam ver. Já estava começando a amanhecer.
- Acho melhor você voltar pra sua cama – a mesma voz suave e rouca voltou a falar, enquanto seu dono me fazia um leve cafuné – E eu, pra minha.
Suspirei preguiçosamente, sentindo seu perfume invadir meus pulmões, e por um segundo, o impulso de continuar ali com ele quase foi mais forte que a vontade de voltar para a cama com Pepe.
- Não conseguiu mesmo dormir? – sussurrei, com a voz falha pelo sono, e ergui meu rosto para poder ver o dele. Fortes olheiras marcavam a região abaixo de seus olhos, respondendo à minha pergunta sem que ele precisasse dizer uma palavra.
- Digamos que você dormiu por nós dois – ele sorriu fraco, e eu fiz o mesmo, um pouco envergonhada.
- Desculpe – eu disse, sem jeito, e ele respondeu com um risinho.
- Se você tivesse roncado ou babado em mim, eu não desculparia – ele retrucou, com a expressão levemente autoritária, e logo depois voltou a sorrir – Mas você se comportou bem, então está tudo certo.
- Idiota – resmunguei, sorrindo junto, e um silêncio incômodo se instalou entre nós. Desviei meu olhar do dele, sem mover mais nenhum outro músculo, mas pude sentir que seus olhos se mantiveram fixos em mim. Respirei fundo, sentindo meu coração acelerar por alguma razão desconhecida, e me esgueirei para o banco do carona para vestir minha calcinha. Pedro fez o mesmo, mas só colocou a calça, mantendo-se sem camisa. Homens e sua injusta falta de necessidade de roupas.
- Bom... Vou entrar – murmurei, encarando minhas mãos inquietas, que brincavam com a barra de minha camisola. Pedro virou o rosto para me olhar, e eu resolvi fazer o mesmo, trêmula. Me afastar dele estava ficando cada vez mais difícil, mas eu não queria nem iria me dar por vencida.
- Tudo bem – ele respondeu, e aproximou seu rosto do meu, o suficiente para nossos lábios se encontrarem. Correspondi ao seu beijo calmo e inesperado, sentindo meu corpo arder para ir mais além, mas logo me afastei, ao contrário dele.
- Tchau, Pedro – falei perturbada, deixando-o no vácuo e abrindo a porta do carro, mas ele segurou meu braço.
- Espera – ele pediu, e eu soltei um suspiro contido, com o corpo tenso pelo nervosismo – Só me responda uma coisa... Quando posso te procurar de novo?
Fechei os olhos por alguns segundos, buscando forças para dar uma resposta repreensiva, mas enganar a mim mesma não era meu forte. Muito menos enganar Pedro.
- Você sabe onde me achar – foi tudo o que consegui dizer, abrindo pesarosamente meus olhos e encarando os dele, com esforço para não me perder ali.
Um sorriso discreto apareceu nos lábios dele, que desviou seus olhos dos meus por alguns segundos, como se imaginasse o momento em que me procuraria novamente, e depois voltou a me encarar, agora com um brilho que eu conhecia bem ardendo em suas íris.
- Você também – Pedro murmurou, finalmente soltando meu braço e me permitindo sair do carro. Fechei a porta da Ferrari com cuidado para não fazer muito barulho, e caminhei lentamente até a soleira da casa, toda encolhida devido ao vento levemente frio que soprava. Sem conseguir resistir, olhei na direção do carro e o observei dar ré e sumir pela rua, me causando uma estranha sensação de vazio. Suspirei pesadamente, passando as mãos pelo rosto num discreto ato de desespero, e entrei na casa, engolindo toda a noite passada e me preparando para olhar para Pepe novamente.
Subi as escadas cautelosamente até chegar ao quarto, onde ele ainda dormia. Sua pele parecia estar ainda mais vermelha do que da última vez que o vi, talvez pela luminosidade ainda fraca do sol e pelo contraste ainda maior que ela causava em relação aos lençóis brancos da cama. Apesar de sua respiração estar calma, Pepe mantinha a testa franzida, como se seu sono fosse leve e tenso, e batia o queixo, como se estivesse com frio. Pensei em cobri-lo, mas com certeza eu o acordaria, e a ardência de sua pele não ajudava muito a apoiar minha idéia. Mordi meu lábio inferior, morta de pena e de aflição por não poder nem tocá-lo, e o machucado causado por Pedro nesse local reagiu a essa ação com uma pontada forte e inesperada. Segurei um gemido de dor e passei a ponta da língua pelo corte, sentindo gosto de sangue. Legal, aquele não curaria tão cedo.
Fui até o banheiro da suíte para ver como estava a minha situação, e quase tive um treco. Eu estava deplorável: toda descabelada, pálida, com leves olheiras sob os olhos e com o lábio inferior um pouco inchado, bastante avermelhado na região do machucado. Balancei levemente a cabeça em sinal de negação, encarando meu próprio reflexo com uma conclusão em mente: Pedro Munhoz e Pedro Lanza, dois homens maravilhosamente lindos, só podiam ser loucos por gostarem de uma garota tão feia como eu. Fato.
Fiz minha higiene matinal, aproveitando a temperatura e o silêncio agradáveis para tomar um bom banho, completamente absorta em meus pensamentos. Vesti uma calcinha branca com bolinhas coloridas e uma blusa branca de Pepe que chegava até a metade de minhas coxas, e suspirei profundamente antes de me virar na direção da cama, onde ele continuava imóvel e frágil. Seu rosto carregava os traços inocentes de uma criança, e apesar de ter acabado de sair do banho, me senti completamente podre.
Me sentei ao seu lado devagar, observando seu sono desconfortável, e não demorou muito para que minha visão ficasse embaçada e uma lágrima escorresse pelo meu rosto, descendo rapidamente até pingar na blusa. Imediatamente a enxuguei, fungando baixinho e esfregando os olhos com as costas das mãos. Se ele acordasse e me visse chorando, eu não saberia o que dizer. Ele jamais poderia me flagrar naquele estado, não sem motivo aparente. Além do mais, eu havia escolhido aquele caminho, portanto, eu deveria arcar com as conseqüências de meus próprios atos. Eu era fraca demais, incapaz de controlar minhas ações, e merecia sofrer calada por isso. Não havia perdão para o que eu estava fazendo, e muito menos pelo fato de me conformar com isso. Eu merecia passar por todo aquele sofrimento. A culpa era toda minha.
Deitei a cabeça no travesseiro, ainda encarando o perfil de Pepe, e continuei velando seu sono, até que o cansaço me venceu, auxiliado por mais algumas lágrimas silenciosas e insistentes que escaparam por meus olhos e umedeceram a fronha sob meu rosto. Quando na verdade, eu merecia me afogar nelas.

Dedos se enroscavam em meus cabelos lentamente, fazendo um carinho gostoso no topo de minha cabeça. Um sorriso tímido surgiu em meu rosto; eu podia sentir meus lábios se curvando apesar de ainda estar dormindo. Respirei fundo, apenas aproveitando o toque dos dedos quentes em minha cabeça, e abri os olhos lentamente. Tudo o que vi foi... Rosa?
- Te acordei? – um sussurro ecoou pelo quarto, me fazendo pular de susto e olhar na direção da voz. Em meio a todo o rosa que ocupava minha visão, os olhos castanhos de Pepe entraram em foco, um tanto quanto aflitos.
- Não, eu... Nossa, Pepe, como você está? – suspirei, em choque, só então me dando conta de que todo aquele rosa era nada mais, nada menos que a pele dele, contrastando vigorosamente contra o branco dos lençóis.
- Bem – ele respondeu, acompanhando meu olhar como se aquele fosse seu estado dermatológico normal - Só... Arde um pouco, e faz frio ao mesmo tempo. Chega a ser engraçado.
- Não, Pepe, não é nem um pouco engraçado – gemi baixinho, me sentando na cama – Olhe só pra você... Eu não acredito que te deixei chegar a esse ponto.
- Caah, você não teve culpa de nada – ele negou, franzindo levemente a testa em sinal de indignação – Eu é que devia ter tomado mais cuidado. Além do mais, você não tem a obrigação de cuidar de mim.
- Claro que tenho – retruquei, encarando-o com seriedade – Não é só porque eu sou mais nova que devo me esquecer de ter responsabilidades.
- Pare de se culpar pelo meu bronzeado, senão eu levanto daqui agora mesmo e vou tomar mais sol – Pepe resmungou, me fazendo sorrir de leve alguns segundos depois. Olhei pra ele, que também sorria, só que ainda mantinha alguns traços de sua falsa expressão séria no rosto, e balancei negativamente a cabeça.
- Seu bobo – murmurei, sentindo meus olhos ameaçarem lacrimejar diante da fofura dele, mas engoli o choro e não fugi de seu olhar.
- Eu também te amo – ele riu, mostrando a língua logo depois – Agora vamos mudar de assunto, estou me sentindo um paciente terminal desse jeito.
- Desculpe por me preocupar com você – brinquei, fingindo desprezo – Não tenho culpa por ter calafrios só de te ver rosa desse jeito.
- Ah, vai dizer que eu não estou sexy assim, todo fogoso? – Pepe brincou, fazendo cara de gigolô, e eu por pouco não dei um tapa em seu braço, acostumada a demonstrar minhas reações às suas piadas com uma certa violência.
Assim que nosso riso cessou, um sorriso permaneceu em meu rosto, sem que eu me desse conta disso. Pepe me imitou involuntariamente, me fazendo alargar ainda mais meu sorriso, e logo eu já estava sorrindo abertamente, como se não houvesse motivos no mundo para derrubar uma lágrima sequer. Ele acariciou minhas bochechas sutilmente, e logo depois eu aproximei meu rosto do seu, dando-lhe um leve selinho, que sem querer se transformou num beijo mais intenso.
- Ai, desculpa! – implorei, quando a pele extremamente quente de seu peito entrou em contato com a palma de minha mão por uma fração de segundo, fazendo-o contrair os músculos da região em sinal de dor – Tá ardendo muito?
- Não, tudo bem, já... Já passou – ele gaguejou, com os olhos fechados enquanto a marca amarelada de minha mão em seu peito tornava-se gradativamente vermelha de novo. Pepe voltou a me olhar, com a expressão ainda levemente sofrida, e eu mordi meu lábio inferior, esquecendo-me novamente de meu machucado nesse local. Dessa vez, não consegui conter um gemido de dor, o que o fez notar o corte e olhar com certo interesse para ele.
- Acho que também peguei sol demais – expliquei, com cuidado para não tropeçar nas palavras devido ao nervosismo – Minha boca tá toda rachada.
- Hm – ele respondeu vagamente, e eu senti a tensão se transformar em alívio dentro de mim – Eu ia sugerir que você aproveitasse mais algumas horas de praia antes de irmos, mas parece que não sou o único querendo distância de sol por aqui.
- É – concordei, dando um sorrisinho sem graça. Não tinha conseguido ficar muito bronzeada nem com o dia anterior de sol, o que eu sabia que não conseguiria reverter em poucas horas, e além do mais, eu não queria deixar Pepe sozinho no quarto, muito menos ficar sozinha na praia. Por mais estranho que isso possa parecer, Pepe me distraía de todos os maus pensamentos e aflições que percorriam minha mente, e sem ele, eu provavelmente teria uma síncope. Como isso não estava nos meus planos - pelo menos não enquanto eu não estivesse na minha casa, mais especificamente no meu quarto -, preferi não aceitar a sugestão dele.
- Então o que acha de comermos alguma coisa e voltarmos pra casa? – ele perguntou, entortando a boca em sinal de reflexão. Imitei sua expressão e olhei para o relógio ao lado da cama: meio dia e quarenta e um. Foi então que uma espécie de terremoto tremeu tudo dentro de mim, e eu tive uma grande descoberta: estava terrivelmente faminta.
- Eu acho uma ótima idéia – respondi, assentindo devagar pra ele, que riu de meu olhar sonhador.
- A gente bem que podia comer aquela lasanha instantânea enorme que tá no congelador, né? – Pepe sorriu, adotando o mesmo olhar de criança que eu ao falar.
Não precisei nem responder, apenas sorri de um jeito guloso e corri para a cozinha, ouvindo as gargalhadas de Pepe cada vez mais distantes. Preparei a lasanha (que era realmente enorme e parecia ter uma vinte camadas) o mais rápido que pude, e sem nem me preocupar em parti-la ao meio, levei-a para o quarto. Devoramos quase todo aquele monte de queijo e massa, rindo de nossa própria gula e drenando todo o suco de uva que eu havia levado para o quarto. Só nos demos por satisfeitos quando já era uma e vinte e sete.
- Isso é que é vida - Pepe suspirou de olhos fechados, recostando-se na parede atrás da cama e com as duas mãos cobrindo cuidadosamente sua barriga avermelhada e inchada pelo excesso de comida. Soltei uma risada meio retardada diante da expressão zen dele, o que me deixou na dúvida sobre se o que tínhamos bebido era suco de uva ou vinho.
- Queria poder morar aqui - comentei, após minha breve crise de riso, e encarei o céu azul e limpo que a janela me permitia ver - É realmente um lugar maravilhoso.
- Não sei por que o Pe não se muda de vez pra cá - Pepe disse, olhando vagamente na mesma direção que eu, e assim que ouvi o nome de Pedro, meu estômago revirou perigosamente - Quer dizer, o pai dele é podre de rico, e ele, por ser filho único, também é... Pra que trabalhar naquela espelunca de escola quando se pode viver tranqüilamente num lugar como este? Eu juro que tento, mas já desisti de entender o que o prende naquela cidade.
Franzi levemente a testa após ouvir as palavras dele, com os pensamentos subitamente a mil. Então o pai dele era rico mesmo, como Pedro já havia me dito antes? Como ele teria enriquecido tanto a ponto de poder dar ao filho tamanho conforto financeiro? E já que tinha tanto dinheiro, por que Pedro insistia em morar em Londres, enquanto tinha aquela casa perfeita só para si? O que o prendia àquele apartamento, e o mais intrigante ainda, àquele colégio? Pegar aluninhas era tão importante assim na vida dele?
Omiti um sorrisinho ao imaginá-lo vivendo naquela casa. Por alguma razão, visualizá-lo morando ali me ajudou a entender a razão pela qual ele não o fazia: a solidão. Pedro era exatamente o tipo de pessoa que gostava de viver no meio de gente (em especial mulheres), em meio aos barulhos da cidade, onde ele sabia que sempre havia outras pessoas circulando... Ele precisava constantemente de companhia. E isso era uma das poucas coisas que um lugar como aquele não poderia oferecer.
- Desculpe por ter falado dele... Às vezes, eu me esqueço de que vocês não se dão muito bem - Pepe murmurou, virando-se pra mim com um olhar culpado e me puxando de volta à realidade - Foi sem querer.
- Tudo bem - sorri fraco, engolindo todos os pensamentos sobre Pedro com certa dificuldade e voltando a focá-los em Pepe.
Ficamos mais algum tempo naquele estado de preguiça pós-almoço, até que eu tomei coragem e levei a louça para a cozinha, lavando-a rapidamente e retornando ao quarto logo em seguida. Assim que voltei, dei de cara com Pepe tentando se levantar, totalmente em vão.
- Ei! - exclamei, correndo até ele ao vê-lo cair sentado novamente na cama com uma expressão de dor - Você é doido? Não vai conseguir se levantar sozinho!
- Claro que consigo... Só preciso me esforçar mais - ele disse, com a voz baixa, e agora que estava mais perto, pude ver que seus joelhos haviam adquirido uma tonalidade vermelho berrante devido ao seu esforço para ficar de pé.
- Quantas vezes você tentou se levantar? - perguntei, arrepiada só de pensar no quanto aquilo devia estar ardendo.
- Algumas - ele respondeu, erguendo o rosto pra me olhar e respirando fundo, mas assim que viu meu rosto se fechar numa expressão brava, logo corrigiu - Calma, foram poucas!
- E agora, Pepe? – indaguei, esfregando o rosto com as mãos e encarando-o reflexivamente em seguida – Se você mal consegue se manter de pé, como vai dirigir por horas até voltar pra casa?
- Eu já disse que estou bem! – ele exclamou, irritado – Só preciso treinar mais um pouco, confie em mim!
- Não seja idiota - falei, séria, após respirar fundo junto com ele, numa tentativa de esfriar os ânimos e pensar claramente - Eu não vou deixar você ficar se esforçando dessa maneira, e ainda por cima, pra nada. Nós dois sabemos que não adianta treinar porcaria nenhuma, ficar tentando se levantar só vai piorar as coisas. Temos que arranjar um jeito de ir embora que não envolva você na direção de um carro.
- Eu sei que você está certa, mas a questão é que não temos outro jeito - Pepe suspirou, derrotado, e eu me mantive séria – A não ser que você conheça alguém que possa e queira vir nos buscar.
Na hora, uma pessoa apareceu em minha mente, que serviria exatamente para aquela tarefa, mas juntei o pouco de juízo que me restava e preferi não opinar. Pena que Pepe teve a mesma idéia que eu, e ao contrário de mim, pareceu achar a opção aceitável.
- Se bem que... Tem o Pe.
Engoli em seco, rezando pra que ele desistisse daquela idéia, ou pra que outra pessoa viesse em nossas cabeças e pudesse substituí-lo. Droga, seria tão difícil assim arranjar alguém que não fosse um poço de luxúria pra nos dar uma carona? Além do mais, ele ficaria no mínimo louco de raiva por ter que voltar ao lugar de onde havia acabado de sair, o que não seria algo exatamente bom, tanto para nós como para ele. A simples idéia de ter que interagir com um Pedro irritado me dava uma pontada de medo.
- O Pe? – balbuciei, tentando não demonstrar minha resistência àquela sugestão e buscando desesperadamente um bom empecilho – Mas... E o seu carro, como fica? Se ele aceitar vir nos buscar, terá que vir com o carro dele, ou seja, um dos dois vai ficar sobrando... Não daria muito certo.
Segurei uma risada maléfica diante de minha brilhante escapatória, mas o ar ainda tranqüilo de Pepe ao me responder não me permitiu continuar tão alegre.
- Ah, quanto a isso não precisamos nos preocupar – ele deu de ombros pesarosamente – Quando o empregado vier arrumar a casa amanhã, ele mesmo leva o carro do Pe de volta pra Londres. Além do mais, o Lanza tem dois carros, fora a moto, não vai sentir tanta falta de um deles se tiver que deixá-lo aqui por alguns dias.
- Ah... Entendi – foi tudo que consegui dizer, totalmente desmoralizada pela resposta de Pepe. O dinheiro é uma merda, especialmente quando pertence às pessoas erradas. E que engraçado, ele sempre pertencia às pessoas erradas!
- Então... Acho que ele é nossa única saída – Pepe murmurou, extremamente sem graça pelo desânimo em meu rosto, e eu apenas suspirei, sem outra solução para nosso problema. Era só me controlar, só isso... Algumas horas dentro de um carro com Pedro e Pepe? Tsc, moleza, fala sério.
Pepe pegou o celular que estava na cama e ligou para o amigo, sob meu olhar disfarçadamente apreensivo. Conforme ele conversava com Pedro, eu tentava deduzir sua resposta, e ao mesmo tempo, inevitavelmente imaginava como ele estaria respondendo. Com sono, sem dúvida. E mal-humorado, talvez? É, grandes chances de mau humor.
- Erm, é... Obrigado, cara... E desculpa mais uma vez – Pepe agradeceu pouco antes de desligar, sem graça, e assim que o fez, olhou pra mim com a expressão tristonha – Ele tá vindo... Só espero que não durma pelo caminho, porque até eu fiquei com sono só de ouvir a voz dele.
- Hm – murmurei, engolindo a sincera pena que senti dele, junto com a vontade de falar um palavrão dos bem cabeludos. Agora era oficial: eu estava ferrada. Muito ferrada.
Arrumei nossas coisas dentro das mochilas rapidamente, me vesti, e ficamos esperando o tempo passar, vendo um pouco de TV e conversando menos ainda. Um silêncio estranho caiu sobre nós, mas eu não me incomodei com ele. Confesso que a lembrança de que Pedro estava a caminho quase me fez subir pelas paredes de nervosismo em alguns momentos, mas sempre que eu estava prestes a fazê-lo, Pepe iniciava timidamente algum assunto e eu me recompunha.
Quando o que me pareceu o milésimo seriado de TV estava acabando, um fraco ruído de motor ecoou do lado de fora da casa, me fazendo prender a respiração. De repente, passar o resto da vida dentro daquele quarto me pareceu uma opção muito mais fácil do que sair dele e ter que encarar Pedro outra vez. Um frio com o qual eu já estava relativamente acostumada dominou meu interior, me deixando levemente ofegante, mas eu respirei fundo e simplesmente o ignorei. Ou pelo menos tentei.
- Acho que ele chegou – falei, sem nem pensar, e Pepe, que também parecia ter notado o barulho do lado de fora, pediu:
- Vai lá dar uma olhada, por favor?
Me esgueirei até a janela, sentindo meu coração revirar a cada passo, e assim que o carro de Pepe entrou em meu campo de visão, vi também a moto amarela e linda de Pedro (e obviamente, seu dono sobre ela). Ele desceu da moto, com óculos escuros que o deixavam simplesmente irresistível, um casaco de moletom branco que, mesmo sendo de um tecido relativamente grosso, não conseguia disfarçar sua forma física impecável, e uma calça jeans clara. Nem preciso mencionar os tênis extremamente brancos e perfeitos e o cabelo desajeitado pelo vento de um jeito extremamente sedutor, certo?
- É, ele... Ele chegou – falei, com muito esforço pra respirar, e só desgrudei meus olhos dele quando não era mais possível vê-lo pela janela. Pude ouvi-lo abrir a porta no andar de baixo e subir as escadas, arrastando os pés a cada degrau, como se aquilo lhe custasse a vida. Pedro entrou no quarto, colocando os óculos escuros na gola da camiseta, e a única coisa que fez foi olhar para Pepe e arregalar levemente seus olhos cansados.
- Caralho, Munhoz... Que cagada.
- É, eu sei – Pepe resmungou, encarando o amigo com um olhar envergonhado. Não sei por que, mas senti uma vontade enorme de gargalhar. Como tenho amor à minha vida (pode até não parecer em alguns momentos, mas eu juro que tenho), me contentei em continuar quieta, interpretando parte da mobília do quarto.
- Bom... Vamos? - Pedro perguntou, parecendo segurar o riso assim como eu, e me lançou um rápido olhar divertido. Foi impossível não sorrir de volta, mesmo que discretamente, e uma incrível vontade de abraçá-lo e sentir a textura macia de seu casaco surgiu em minha mente.
- Claro, eu só preciso de ajuda pra me levantar – Pepe apressou-se em responder, me lançando um olhar embaraçado. Entendendo o recado, assenti depressa, com medo de ter viajado demais nos caminhos sinuosos do olhar de Pedro, e caminhei até a cama para ajudá-lo a ficar de pé. Estendi uma mão para que ele se apoiasse, e quando fui oferecer a outra, a mão de Pedro substituiu o vazio, e sua presença inesperadamente próxima me arrepiou da cabeça aos pés.
- Se você pretende mesmo levantar, acho melhor se apoiar em alguém forte de verdade – Pedro explicou, quando Pepe o olhou surpreso, e por mais incrível que isso possa parecer, não identifiquei nenhum rastro de provocação implícita em sua voz. Tentei engolir uma resposta diante da surpreendente educação dele, mas a vontade de retrucar foi mais forte do que eu.
- Eu sou forte de verdade – murmurei, mais pra mim mesma do que para ele, tentando abafar meu leve incômodo com seu comentário, que até então, me parecia benigno. O problema era que, por mais que eu realmente achasse que Pedro conseguiria ajudá-lo a se levantar com mais habilidade do que eu, meu humor sempre ficava um pouco fora dos eixos diante da presença dele, pendendo pra uma certa rispidez desnecessária.
- Caah, calma – Pepe pediu baixinho, me encarando por um momento com o olhar levemente repreensivo, e logo e seguida ficando de pé, graças ao apoio de nossas mãos. Pedro passou cuidadosamente um dos braços do amigo por cima de seus ombros (e se eu não estiver ficando doida de vez, pude jurar ter visto um sorrisinho esperto desenhar seus lábios) e eu fiz o mesmo do outro lado, diminuindo o peso em suas pernas. Descemos as escadas devagar, poupando Pepe de quase todo o contato entre seus pés e o chão – como eu previa, Pedro foi muito mais habilidoso nessa parte do que eu, mesmo carregando também nossas mochilas, graças a sua massa muscular muito mais desenvolvida que a minha -, e rapidamente o colocamos no banco traseiro de seu carro. Quando estava prestes a me sentar ao lado dele, Pedro, que até então guardava nossas coisas no porta-malas, surgiu bem ao meu lado e interferiu:
- Trevisan, é melhor você ir na frente. Ele vai precisar de bastante espaço.
Olhei pra Pedro, sem saber ao certo como reagir, e como Pepe não demonstrou resistência, e até pareceu concordar com ele, fui para o banco do carona. Assim que coloquei o cinto de segurança e vi Pedro sentar-se em seu banco, bem ao meu lado, soube que aquela viagem seria perigosa. Inspirei fundo, esperando que o oxigênio me trouxesse algum conforto logo, mas foi simplesmente inútil. O perfume dele entrou com tudo em meus pulmões, devido à nossa proximidade, e eu rapidamente expirei, como se aquilo fosse me ajudar em alguma coisa.
Pedro ajeitou-se rapidamente e não demorou muito para que já estivéssemos fazendo o caminho de volta a Londres. Passamos boa parte da viagem em silêncio, sem sentir muita necessidade de falar, e quando havia diálogo, era porque Pepe havia puxado algum assunto comigo. Minhas respostas eram monossilábicas, e apesar do clima calmo dentro do carro, meu nervosismo era quase nítido: minhas mãos suavam frio, agarradas uma à outra, meus olhos mantinham-se firmes no horizonte e meu coração batia absurdamente acelerado pelo risco que eu corria estando num lugar tão pequeno com os dois. E como se tudo isso não bastasse, o fato de Pedro estar extremamente tranqüilo, contrariando totalmente o que eu esperava encontrar, me pegou desprevenida e me deixou atordoada. Ele quase parecia uma pessoa normal naquele momento, dirigindo sem pressa, fora a aura de beleza que sempre o envolvia e o destacava dentre os demais mortais. O que será que ele havia fumado pra ficar daquele jeito?
- Meu Deus, que dor de cabeça – Pepe sussurrou, deitado no banco de trás e com uma das mãos sobre a testa. Olhei para ele, que estava de olhos fechados em sinal de sofrimento, e ouvi Pedro dizer, sem tirar os olhos da estrada:
- Eu tenho uma cartela de analgésicos na carteira, se você quiser.
Pepe abriu os olhos e sorriu de leve, aliviado.
- Você quase me mata de tesão quando diz exatamente o que eu quero ouvir, Lanza – ele respondeu, e eu não consegui conter um sorriso.
- Pois da próxima vez, espero que você morra pra que eu não te imagine tendo uma ereção por minha causa – Pedro retrucou, fingindo nojo em sua expressão e também sorrindo um pouco enquanto tirava a carteira do bolso traseiro da calça com certa agilidade – Trevisan, dá um comprimido pra ele.
Fiz o que ele pediu, tentando disfarçar a leve tremedeira de minhas mãos devido à enorme relação de familiaridade entre eu e aquela carteira, e felizmente consegui passar despercebida. Pepe logo engoliu o comprimido, agradecido, e voltou a fechar os olhos, esperando-o fazer efeito.
Comecei a fazer tímidos desenhos abstratos sobre minha coxa, coberta pela calça jeans, apenas contando os segundos para me livrar daquela enrascada e poder respirar tranquilamente pela primeira vez em três dias. O caminho parecia muito mais longo e torturante agora em comparação à ida, e o por que disso era mais do que óbvio. E o que mais me agoniava era o jeito inesperadamente calmo de Pedro, fazendo duas possibilidades disputarem espaço em minha mente: ou algo estava muito certo, o que não ajudou em nada a me acalmar, porque o certo de Pedro não era nada confiável; ou algo estava muito errado. Confesso que a segunda opção me causou leves calafrios, porque sempre que algo errado envolvia sorrisinhos sem motivo aparente dele, era praticamente certeza de que eu também estava envolvida. E particularmente, eu ainda não estava totalmente pronta para saber se gostava de participar de seus erros.
Resumindo: tomara que a primeira opção seja a correta, seja lá o que ela for.
OK. Ou talvez não.
Uns vinte minutos de silêncio ficaram para trás durante minha pequena reflexão, até que um barulho curioso foi crescendo aos poucos no interior do carro e me fez voltar à realidade. Franzi a testa ao perceber que ele vinha do banco de trás, e quando olhei na direção do som, minha respiração parou. O barulho era o ronco de Pepe, que dormia feito pedra, de boca aberta e babando no estofado do próprio carro.
O que significava que eu estava praticamente sozinha com Pedro.
Pedro? Amor da minha vida? Que tal deixar a sonequinha pra mais tarde?
Voltei a olhar pra frente, engolindo em seco, e mantive meus olhos fixos no céu já escuro à minha frente. Sentia meu coração se contorcer em agonia a cada batimento, e cada segundo a mais de silêncio da parte de Pedro era comemorado como um segundo a menos de perigo.
Pena que minha felicidade costuma durar pouco. E ela já estava durando demais, eu sabia disso.
- Vai ficar na casa dele? – Pedro perguntou, naquele seu tom subitamente hippie, e eu quase pulei de susto ao ouvir sua voz, apesar de seu volume razoavelmente baixo. Sem conseguir compreender direito a pergunta, sob pressão demais para organizar as palavras em minha mente, apenas olhei rapidamente para ele, e pude notar que um sorrisinho surgiu em seu rosto.
- Vou – murmurei, quando finalmente consegui recuperar a razão. Será que eu estava finalmente conseguindo ter uma conversa digna com Pedro Lanza ou eu estou prestes a acordar?
- Ah... – ele disse, erguendo as sobrancelhas em tom de lamentação - Que pena.
Franzi a testa, sem entender sua resposta, e voltei a olhar para ele. Assim que o fiz, ele devolveu meu olhar, e imediatamente suas íris me transmitiram uma overdose de malícia, a qual eu não estava exatamente pronta para receber. O choque pela mudança brusca de atitude de Pedro me deixou paralisada por alguns segundos, mas nada que me impedisse de ouvir o fim de sua frase.
- A Ferrari já está com saudades de você.
Senti meus pulmões virarem aço dentro de meu peito, porque além de parecerem momentaneamente impossibilitados de respirar, seu tamanho pareceu quadruplicar, esmagando meu coração e tornando suas batidas absurdamente intensas.
- Do... Do que você... Tá falando? – gaguejei, num sopro de voz, e ele apenas aumentou seu sorriso, voltando a encarar a estrada. Tentei respirar, sentindo meu cérebro pedir por ar, mas o progresso que consegui foi quase nulo. Quando me preparava para tentar novamente, ainda com os olhos presos no local onde antes estavam os dele, senti sua mão explorar a parte superior de minha coxa, acariciando-a com uma certa pressão e somente parando quando a distância entre ela e minha virilha era quase insignificante. Quando atingiu seu objetivo, ele aumentou a intensidade de sua pressão, e imediatamente meu corpo inteiro se arrepiou. A lembrança de seus toques veio à tona, me desnorteando completamente e deixando minha visão levemente turva.
- Acho que já tem sua resposta – Pedro disse, colocando todo o seu charme na voz, e novamente me olhou daquele jeito libidinoso – Ou ainda não é o suficiente?
Ele fez menção de mover sua mão numa direção não muito recomendada, e eu agarrei seu pulso com as duas mãos na mesma hora, em desespero. Meus dedos gelados tremiam escandalosamente contra sua pele quente, mas eu não o deixaria vencer meu autocontrole. Não naquele momento, não naquele lugar.
- Por favor... – ofeguei, fechando os olhos por um momento e buscando a firmeza necessária para tornar minha voz um pouco mais audível – Pare com isso.
- Parar com o quê? – Pedro sussurrou, como se estivéssemos brincando de esconde-esconde e não pudéssemos ser ouvidos, e seu sorriso passou a demonstrar também uma leve diversão – Com isso?
Assim que pronunciou a última palavra, ele voltou a pressionar a parte interna de minha coxa, e eu novamente senti a onda de arrepios percorrer minha espinha. Meu aperto em seu pulso intensificou-se involuntariamente, transmitindo minha reação a ele e fazendo seu sorrisinho só aumentar, tornando-se até um baixo riso.
- Incrível como você está demorando a perder a graça – ele falou, com os olhos maliciosos pairando em direção à estrada – A cada dia, se torna ainda mais divertida, como um perigoso brinquedo que se renova constantemente... E se torna cada vez mais excitante.
Dessa vez, me recuperei mais rapidamente da provocação dele, bem a tempo de assimilar com o que ele estava me comparando.
Um brinquedo? Então era essa a imagem que ele tinha de mim? Um simples objeto, que ele podia subordinar às suas vontades quando bem entendesse?
Em que porra de mundo aquele merda vivia pra se sentir no direito de me dizer algo como aquilo?
Uma raiva incontrolável começou a borbulhar em meu estômago, me fazendo pensar que voaria nele a qualquer momento e o mutilaria até que alguém conseguisse me parar. Respirei fundo, ainda sentindo minhas mãos tremerem, mas agora por outro motivo, e então a raiva atingiu em cheio minha garganta, escalando-a e queimando-a com tamanha fúria que minha voz parecia um rosnado quando as palavras irromperam de minha boca.
- Tire a sua mão imunda de mim. Agora.
Pedro virou o rosto para me encarar, com a expressão repentinamente séria. Ao encontrar meu olhar enraivecido, ele franziu a testa de leve, num misto de confusão e surpresa. Extremamente incomodada com seu insistente contato físico, eu voltei a falar, só que agora com o triplo de firmeza:
- Me solta, Lanza.
Ele parecia ter sido pego totalmente de surpresa pela minha reação negativa, e seus olhos não conseguiam se desgrudar dos meus, como se buscasse alguma explicação neles. Mas tudo que conseguia ver era o enorme nojo que eu sentia, e todos os velhos sentimentos que eu nutria por ele antes de toda aquela loucura começar. Apesar de ainda carregar uma enorme confusão em seus traços, ele pareceu entender o recado e finalmente me soltou, permitindo que minha respiração normalizasse. E então, tudo aconteceu muito rápido.
Uma buzina soou, vinda de trás de nosso carro, nos lembrando de que ainda estávamos na estrada. Alarmados, viramos o rosto bruscamente pra frente, e demos de cara com outro carro parado a menos de dois metros de nós. Pedro pisou no freio na mesma hora, com os olhos arregalados, e só Deus sabe como conseguiu fazer com que parássemos sem causar danos a nenhum dos automóveis.
Devido à parada brusca, fui impulsionada para frente, quase sendo enforcada pelo cinto de segurança, assim como Pedro. Ao mesmo tempo, um baque surdo e um quase grito de dor vieram do banco de trás, e eu nem precisei olhar para saber o que havia acontecido.
- Pepe! – exclamei, assim que meu corpo voltou à posição normal com um movimento nada delicado, e me virei em sua direção. Ele havia caído no chão do carro, e procurava apoio desesperadamente nos bancos ao seu lado para voltar para cima, ainda soltando gemidos doloridos.
- Caah, tá tudo bem com você? Meu Deus do céu, Lanza, o que diabos foi isso? – ele disparou, em desespero, enquanto eu o ajudava como podia a deitar-se novamente, e me concentrava em não olhar para outra direção que não fosse o banco traseiro do carro.
- Desculpa, eu... Me distraí – Pedro murmurou, ainda encarando com certo espanto o veículo à nossa frente, cujo motorista agora empurrava para o acostamento devido a um defeito. Engoli em seco, tentando acalmar meu coração descompassado, e assim que Pepe já estava em seu devido lugar, retornei à minha posição correta.
Levei alguns minutos para recuperar o fôlego e acalmar minhas mãos trêmulas, e para acelerar o processo, abaixei o vidro do carro, apesar do leve frio que fazia, deixando que o vento gelado invadisse meus pulmões com maior facilidade. Durante todo o caminho, Pepe se manteve acordado, porém assustado demais para falar, e com Pedro não foi diferente. Eu ainda sentia minha garganta fechada devido ao grito que prendi na hora da quase colisão, e não pretendia forçá-la tão cedo, ainda mais diante da presença de Pedro, com quem já não mais valia a pena falar. Até a leve proximidade de nossos corpos passou a me incomodar, me sufocar, como se houvessem mãos invisíveis me esganando.
Chegamos com certa rapidez a Londres, fato que me aliviou profundamente. Mais depressa ainda, devido ao trânsito calmo, o prédio de Pepe tornou-se visível, e em menos de cinco minutos, o carro já estava estacionado na frente do edifício. Pedro desligou o automóvel, afundando-nos num silêncio ainda maior, e Pepe foi o primeiro a quebrá-lo:
- Erm, Pe... Muito obrigado mesmo pela ajuda. Desculpe ter te incomodado.
Pedro balançou a cabeça levemente em negação, e seus olhos mantiveram-se perdidos pelo painel do carro. Sem conseguir olhar para nenhum dos dois, continuei fitando minha calça jeans, até que Pedro saiu do carro e seguiu em direção ao porta-malas para pegar nossas mochilas. Fiz o mesmo, sentindo meu estômago afundar, e ajudei Pepe a se levantar, logo depois sendo auxiliada por Pedro. Fomos em silêncio até seu apartamento, passando por um Andy chocado ao ver o estado de Pepe, e só o soltamos quando ele já estava sentado em sua cama.
- Caah, você pode acompanhar o Pe até a porta, por favor? – Pepe murmurou sem jeito, com um sorrisinho fraco, e antes que eu pudesse pensar numa resposta, Pedro se pronunciou:
- Não precisa, Munhoz. Eu conheço o caminho.
- Hm... Bom, boa noite então – Pepe não insistiu, sorrindo sinceramente agradecido e levemente preocupado com o amigo, o que só fez meu estômago afundar mais ainda em sinal de desânimo – Te vejo amanhã... Eu acho.
- Se cuida – Pedro murmurou, erguendo rapidamente um dos cantos de sua boca numa tentativa frustrada de sorrir, e nem sequer me olhou antes de ir embora. Fiquei paralisada por alguns segundos, e somente quando a porta do apartamento bateu, indicando que ele havia realmente partido, meu coração revirou dentro do peito, devolvendo-me a consciência. Ou pelo menos parte dela.
- Eu vou... Trancar a porta e... Eu já volto – gaguejei, sem conseguir organizar as idéias em minha mente e sentindo minha garganta arranhar a cada palavra. A única coisa da qual eu tinha certeza absoluta era de que precisava ficar pelo menos cinco minutos sozinha, caso contrário seria capaz de morrer asfixiada. Pepe apenas assentiu, ajeitando-se melhor em sua cama, e eu praticamente corri até a entrada do apartamento. Girei a chave, que ainda balançava devido ao movimento de Pedro para fechar a porta, na fechadura, ouvindo a tranca mover-se discretamente, e apoiei minhas costas contra a madeira, sentindo minhas pernas tremerem perigosamente.
Abaixei a cabeça num ato derrotado, sendo tomada por pontadas fortes de dor no peito. Sem conseguir entender por que meus olhos estavam se enchendo d’água naquela velocidade monstruosa, desisti de lutar contra a fraqueza súbita de meus joelhos, deixando-os ceder ao meu peso e me derrubar sentada no chão. Enterrei meu rosto discretamente molhado por duas tímidas lágrimas e, por mais que estivesse tentando evitar, minha vontade de chorar só aumentava. Era inútil nadar contra a correnteza. Assim como era inútil fingir que eu não tinha me deixado envolver por Pedro, nem ao menos por um segundo... Seu cheiro, sua pele, seu calor, seu gosto, seu toque, tudo me convidava, me chamava, me envolvia, como um vício, uma praga, uma maldição.
Saber que ele pensava em mim daquela forma tão suja, tão superficial, como se eu fosse um simples brinquedo, foi um golpe duro, e mais dura ainda foi a consciência de que eu jamais poderia esperar mais do que isso dele. Mas, mesmo sabendo disso, eu não cumpri minha parte no trato. Eu me iludi, me deixei levar por sensações supérfluas, momentâneas, e que agora já não bastavam mais para mim. Eu precisava de alguém que realmente me amasse como Pepe me amava, mas que também pudesse me dar o que só Pedro era capaz de me dar. E apesar de me sentir certa em relação ao que havia feito com Pedro, era inegável que meu corpo já dava sinais claros de que sentia falta dele.
Mesmo sabendo que eu estava com a razão, tudo o que eu queria fazer era passar o resto da noite esperando inutilmente pelo momento em que ele voltaria, e eu poderia dizer tudo que estava entalado em minha garganta, mesmo que as palavras não fizessem sentido... Tudo o que eu queria era poder mostrar a ele o quão importante ele havia se tornado em minha vida, por mais errada que tivesse sido sua passagem por ela. E que, apesar de tudo, algo me dizia que ele não podia ficar longe de mim... Que eu não o queria longe de mim.
Mas esse momento não aconteceria, eu tinha plena consciência disso. Ele provavelmente já estaria dentro de um táxi naquele exato momento, voltando para sua enorme e deserta casa, e assim que chegasse, enterraria seu corpo sob o largo e grosso edredom de sua igualmente vasta cama... E igualmente vazia.
Visualizá-lo sozinho naquele apartamento provocou uma fisgada insuportavelmente intensa em meu peito, e eu contive um gemido de dor. Respirei fundo, reunindo todas as forças que aquele fim de semana ainda havia me deixado, e focalizei meus pensamentos em uma única coisa. Pepe.
Ele sim me merecia. Ele sim me amava. Ele sim faria qualquer coisa por mim, eu sabia disso. E, no entanto, não era por ele que eu chorava. Só então eu percebi o quão injustas e traidoras minhas lágrimas eram, passando a queimar meus olhos conforme caíam, e trazendo consigo a pergunta que eu daria a vida para poder responder.
Por que eu insistia em seguir o caminho errado?
Aproveitando-me de um momento de lucidez, ergui meu rosto e engoli o choro, respirando profundamente. Enxuguei minhas lágrimas com as costas de minhas mãos trêmulas, e reunindo os pedaços de mim que ainda restavam, me levantei devagar. Meu caráter podia estar completamente destruído, mas ainda havia alguém por quem valia a pena sorrir. E agora que eu já havia me desfeito de uma de minhas metades, só o que me restava era cuidar da outra, que, naquele momento, precisava de mim mais do que nunca.
Mas talvez não tanto quanto eu precisava dela.