# Mesmo de longe eu queria te fazer, sentir tudo o q eu sinto por voc

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sexy Biology '-' (FÃFIC) CAPITULO 27 & 28

beng beng cheguei UIOEUIOEUIEUEIO !
 vou postar pra @pelanzalitoral nér TE AMO GATINHA ♥
Sexy Biology -CAPITULO  27 & 28


Capítulo 27



- Você vai me contar tudo! – exclamei, assim que pus meus olhos em Manuela na manhã de segunda-feira. Seu sorriso de orelha a orelha denunciava que as coisas com Ewan excederam expectativas, o que só me rasgava meu rosto num sorriso igual ou até maior que o dela.
- Claro que vou, você acha que eu agüento guardar tudo só pra mim? – ela riu, me abraçando quando cheguei perto dela – Acho que nunca estive tão feliz!
- Como é bom ouvir isso! – sorri sincera, retribuindo seu abraço – Eu sei bem o quão chateados vocês dois ficaram quando tiveram que se separar.
- O que não vai acontecer de novo tão cedo! – ela disse, desfazendo o abraço e me olhando com uma animação enorme – Ele me disse que a família vai voltar pra Londres, parece que precisam mais do pai dele na filial daqui, por ser bem maior que a de Oxford e tudo o mais... Resumindo, tudo vai voltar a ser como era antes!
- Então vocês voltaram, é isso? – perguntei, antes de comemorar de verdade, e ela assentiu, mal conseguindo sustentar o tamanho de seu sorriso.
- Ele até vai passar aqui hoje na saída pra me levar pra conhecer seu apartamento novo! – Manu guinchou, quando eu a abracei outra vez – E disse que tá morrendo de saudade de você também.
- Ah, que bom que aquele viadinho não se esqueceu de mim! – eu ri, me afastando e recebendo um beliscão dela, mas logo meu sorriso se desfez quando meus olhos encontraram um moletom verde musgo chegando à escola. Meu coração revirou dentro do peito, meu estômago se contorceu de nervoso, minha respiração falhou, tudo ao mesmo tempo. Além de todos aqueles sentimentos que sua ligação me causara na noite passada voltarem com o triplo de intensidade, havia outro pulsando com eles. Saudade. Muita saudade.
- Pelo visto, ele já voltou ao normal – Manuela comentou, acompanhando-o com o olhar também conforme ele se aproximava cada vez mais – Quer dizer, pelo menos ele não está mais rosa.
- É – respondi vagamente, sorrindo assim que os olhos castanhos dele encontraram os meus, e me segurei muito pra não correr até ele e me enterrar em seu abraço. Provavelmente, para chorar até desidratar, se eu pudesse.
- Muito bom dia, meninas! – Pepe disse, passando por nós e estendendo ainda mais seu sorriso ao se aproximar – Te vejo no intervalo, Trevisan?
- Claro – murmurei, sorrindo fraco, e ele assentiu discretamente antes de entrar no prédio.
- Seus pervertidos – Manuela riu, e eu só não lhe dei um soquinho no braço porque estava perturbada demais – Ficam combinando suas rapidinhas na minha frente, eca.
Suspirei, lutando para voltar ao meu estado controlado, e engoli toda a maré de sentimentos que havia me preenchido.
- Cala a boca – falei, fingindo indiferença e pensando em qualquer meio de mudar de assunto – Quer mesmo que eu mencione o dia em que ajudei o Ewan a escolher sua fantasia de enfermeira para comemorar os dois anos de namoro?
Ela sempre ficava roxa de vergonha e desistia imediatamente de caçoar de mim toda vez que eu citava esse fato. E foi exatamente por isso que eu o citei.
- Seu idiota! – uma voz esganiçada gritou, vinda da sala dos professores, e nós nos viramos rapidamente, assim como o resto dos alunos no pátio, para ver o que estava acontecendo. Não sei por que me surpreendi ao ver Kelly Smithers batendo com sua mochila em Pe, e seguindo-o conforme ele caminhava tranqüilamente até a entrada do bloco, parecendo alheio a qualquer agressão.
- Você vai me pagar por isso, ouviu bem? – ela esbravejava, vermelha de raiva e com os olhos prestes a saltar de suas órbitas - Eu ainda vou fazer você se arrepender de ter nascido, seu imbecil! Eu te odeio! Odeio!
- Oi, Trevisan – Pe disse calmamente ao passar por mim, como se fosse absolutamente normal ele me cumprimentar, e ainda por cima, com uma biscate nervosinha em seu encalço.
- O... Oi – gaguejei, completamente surpresa e atordoada, pelo fato de Pe ter falado comigo tão espontaneamente, e porque seu casaco de moletom azul, sua calça jeans e seu All Star, ambos pretos, me deixaram um pouco desnorteada. Seus olhos estavam cobertos por um Ray Ban que parecia ter sido meticulosamente desenhado para estar em seu rosto (provavelmente para disfarçar suas olheiras, as quais eu também ocultei com um pouco de maquiagem), e ele fazia umas caretas de vez em quando, como se a Smithers estivesse atirando sua mochila bem nos locais doloridos devido à sua queda de minha janela.
Ao ouvi-lo me cumprimentar, Kelly paralisou na minha frente, enquanto ele continuou seu trajeto, e me encarou com indignação, voltando a correr atrás dele e a espancá-lo com sua bolsa. Digamos que o alvo de sua ira havia mudado um pouco, passando a envolver a piranha da Trevisan em seus argumentos.
- OK, vamos ver se eu entendi – Manu falou, observando-o se afastar e levar a gritaria ambulante consigo – Pedro Lanza acabou de te cumprimentar ou eu estou ficando louca? Quer dizer... O que exatamente eu perdi?
- Nada, oras – dei de ombros, como se não o tivesse visto há cerca de vinte e quatro horas (nu) – Você sabe que ele é doido, deve ter cheirado gatinhos demais e decidiu me dar oi assim, do nada.
Ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada, e eu mantive minha expressão inocente, até que ela se deu por convencida.
- Tô de olho em você, viu, Trevisan? – ela avisou, e o sinal tocou logo em seguida, abafando meu riso um pouco tenso. Ter Manuela Trentin, a reencarnação de Sherlock Holmes, na minha cola não era exatamente um fator tranqüilizante.

As três primeiras aulas passaram mais rápido que o esperado, e quando me dei conta disso, já estava caminhando rumo ao pátio para o intervalo. Meu coração começou a bater descompassado ao me lembrar do que havia combinado para aquele momento, e meus olhos procuravam por Pepe no meio da bagunça de gente, apreensivos e temerosos. Eu queria muito vê-lo, mas ao mesmo tempo, desejava poder me manter trancada no banheiro até o sinal tocar e eu ter que retornar à classe.
- Lá vai ela tirar o atraso – Manuela murmurou ao notar meu jeito tenso, e eu mostrei a língua, forjando um bom humor muito fajuto. Mal sabia ela que atraso sexual era a última coisa da qual eu sofreria enquanto Pe existisse, mas eu preferia me manter bem longe de pensamentos como esse.
Descemos as escadas com o fluxo de alunos, e assim que chegamos ao primeiro andar, vi Pepe parado ao lado do bebedouro, cumprimentando alguns idiotas do segundo ano que passaram. Ele sorriu assim que me viu, e eu não pude evitar fazer o mesmo. Olhei rapidamente para Manuela, recebendo um sorriso de incentivo dela, e fui até o banheiro feminino, que ficava ao lado do bebedouro, só para despistar o resto dos alunos. Fiquei me olhando no espelho por algum tempo, mal conseguindo disfarçar meu nervosismo ao forjar uma arrumada no cabelo, enquanto ele fingia amarrar os tênis demoradamente.
Em poucos segundos, o corredor e as escadas ficaram praticamente desertos, e ele assentiu para mim. Caminhamos depressa (aliás, ele me arrastou corredor abaixo porque minhas pernas estavam um pouco bambas e lentas em relação às dele) em direção à sala que sempre ficava vazia naquele andar àquele horário, e assim que nos trancamos dentro dela, senti Pepe envolver minha cintura com força num abraço apertado. Atirei meus braços ao redor de seu pescoço devagar, e fechei os olhos, torturada. Como um abraço podia ser tão bom e doloroso ao mesmo tempo?
- Oi! – ele murmurou, erguendo-me do chão e beijando a curva de meu pescoço demoradamente.
- Oi – repeti, respirando fundo para encher meus pulmões com seu perfume e sentindo meu coração quase explodir de alegria, e ao mesmo tempo, de tristeza, por finalmente poder abraçá-lo.
- Como é bom estar de volta – Pepe sorriu, colocando-me no chão e pela primeira vez olhando em meus olhos sem ter que disfarçar seus verdadeiros sentimentos – E é melhor ainda poder encostar em você de novo!
- Eu que o diga – sorri o mais intensamente possível, segurando seu rosto com minhas mãos, e logo em seguida, nossos lábios colidiram com avidez, dando espaço para que nossas línguas se unissem, cheias de saudade. Não havia como definir aquele beijo; era um equilíbrio entre delicadeza e brutalidade, pressa e calma, amor e tesão, mas ao mesmo tempo, conseguia ser tudo isso junto. Preferi deixar o peso alucinante da culpa e do remorso de fora dessa definição; já não é novidade alguma que eu sou uma garota dividida entre o paraíso e o inferno.
Ele colocou as mãos por baixo de minha blusa, provocando arrepios em minha pele, e eu agarrei os cabelos de sua nuca instintivamente. Ficamos nos engolindo por uns bons minutos, repletos de mãos bobas, gemidos abafados e mordidinhas nos lábios, que após algum tempo, me fizeram esquecer parcialmente o mundo ao meu redor. Uma semana sem sentir os lábios de Pepe nos meus me fez realmente mal; minha mente, antes enevoada e escura, tornou-se menos densa e sombria, me permitindo sentir seu toque e suas carícias com um pouco mais de conforto. Quando tive que decidir entre respirar e sobreviver ou continuar beijando-o e morrer sufocada, me afastei dele, e apenas ficamos nos encarando, ofegantes demais para falar.
- Eu... Gostei disso – ele disse alguns segundos depois, ainda sem fôlego e com uma expressão meio sonhadora, o que me fez sorrir fraco – Podemos repetir de vez em quando?
- Claro – falei, ofegante e ainda envolta naquela sensação levemente anestesiante, prensando seu corpo contra a parede com o meu e sentindo-o realmente empolgado com a sessão de amassos – Só não precisa repetir a parte de ficarmos sem nos ver por mais de uma semana.
- Concordo plenamente – Pepe riu, me roubando um selinho logo em seguida – Se bem que estou começando a achar que essa distância me rendeu bons momentos. E se depender de mim, vai render muitos outros.
- Não pense que vai ser sempre assim... Se você sumir de novo, não vai me encontrar tão disposta quando voltar – ameacei, cerrando os olhos e me sentindo mais leve e involuntariamente contagiada pela maldita atmosfera feliz que o rondava – A quantidade de beijos que eu vou te dar não vai conseguir superar a de tapas.
Ele riu mais uma vez, jogando a cabeça pra trás por um momento, e eu não pude evitar rir junto, mesmo que a dor recomeçasse a surgir em meu peito, intensificando-se a cada segundo. Era sempre assim quando eu estava com ele, ficava difícil não sorrir por qualquer coisa, mesmo que por pouco tempo. Mesmo que eu tivesse todos os motivos do mundo para estar cortando os pulsos naquele exato momento.
- Eu não ligo de apanhar de você – ele sorriu, erguendo as sobrancelhas num tom de superioridade – Honestamente, seus tapas fazem cócegas.
Suas palavras foram seguidas de um estalo alto vindo da colisão entre a palma de minha mão e seu braço, e Pepe gemeu de dor, rindo ao mesmo tempo.
- Retire o que disse se não quiser que eu bata em outro lugar – rosnei, ultrajada.
- Tá, tá, eu retiro! – ele riu, erguendo as mãos em sinal de rendição – Seus tapas me massageiam... Melhorou?
- Vou ignorar essa adaptação – falei com a voz grave, fuzilando-o com o olhar, e ele prendeu o riso, voltando a me abraçar pela cintura – Olha que eu te castro, hein, Pedro. Sei como fazer isso num segundo.
- Ah, não faça isso, meu amor – Pepe murmurou, sorrindo novamente, só que agora de um jeito carinhoso – Eu adoraria ter miniaturas suas pela casa, ainda mais se todas elas fossem tão bonitinhas quando bravas que nem você.
Engoli em seco ao ouvir suas palavras. A breve ausência da dor em meu coração praticamente já não existia mais, deixando-me frágil demais para agüentar aquele tipo de golpe. Meus olhos ameaçaram queimar, anunciando a produção de lágrimas, mas eu os contive, dando um sorriso fraco para Pepe.
- Tudo bem, eu te perdôo – murmurei, desviando meus olhos dos dele para encarar a gola de sua blusa, com a qual meus dedos brincavam nervosamente – Você mereceu.
- Não, eu não mereci – ele disse, no mesmo tom que eu, acariciando meu rosto com as costas de sua mão, e sua voz soou tão profunda que eu tive que encará-lo para entender o motivo daquilo – Nada que eu tenha feito me daria merecimento suficiente para poder ver suas bochechas ficando vermelhinhas, exatamente como estão agora, e poder chamá-las de minhas... Assim como você inteira é.
Senti minha pele mais quente que a dele com seu toque suave em meu rosto, e a diferença de temperatura só aumentou depois de ouvi-lo. Parecia que todos os meus órgãos estavam desmoronando, numa enxurrada veloz e nauseante até atingirem o chão, arrastando consigo todo e qualquer vestígio de força e autocontrole ao qual eu pudesse me prender. Seus olhos castanhos tão límpidos, transbordando sinceridade, logo ganharam um toque de preocupação, e de repente eu não conseguia enxergá-los mais. De repente, seus olhos eram apenas dois borrões coloridos em meio ao resto das manchas que eu via.
- Caah, o que foi? – sua voz sussurrou, num misto de surpresa e pânico exagerados, e logo em seguida, senti meu rosto molhado, assim como um soluço escapou por entre meus lábios – Por que está chorando?
Então era isso. Era assim que uma pessoa podre se sentia. Era isso, e só isso, o que uma pessoa podre como eu conseguia fazer diante de toda a sujeira que guardava dentro de si. Ela chorava. Chorava como se não houvesse mais razão para respirar; agonizava diante de toda a pureza e bondade que existia naquele mundo no qual ela não conseguia mais se encaixar, humilhada por todo aquele amor que um dia lhe pertenceu por pura sorte. E que agora lhe parecia tudo, menos seu. Bastaria que meus dedos o tocassem para que aquele sentimento tão lindo se transformasse em cinzas. Bastaria que eu estendesse minhas mãos para alcançar seu maravilhoso brilho... Para imergi-lo em trevas.
- Por favor, Caah, não faz isso comigo! O que foi? Não se sente bem? – Pepe disparou, ficando absolutamente sério e segurando meu rosto com firmeza, enxugando minhas lágrimas com seus polegares – O que tá acontecendo? Fala pra mim!
Me mantive por alguns segundos paralisada, somente chorando desesperadamente e deixando que pelo menos algumas gotas do oceano de dor e culpa que eu guardava dentro de mim escapassem por meus olhos. Sim, eu estava sendo fraca, e bem na frente de Pepe, mas eu não tinha mais forças para me conter. Ele me abraçou fortemente, prensando-me contra seu corpo, e eu involuntariamente o envolvi com meus braços, apertando-o como se nunca mais fosse poder fazer isso. E eu não deveria mesmo poder.
- Eu... Eu... Senti tanto a sua falta – solucei, com o rosto enterrado em seu peito. Era uma mentira, mais uma, mas eu não era capaz de dizer o que minha consciência implorava para dizer. Vá embora, me machuque, me deixe para trás, eu não mereço você. Vá procurar alguém que seja digno de seu coração. Não, eu não conseguiria dizer aquilo. Minha mente me dizia que isso era o certo a fazer, repeli-lo, mesmo que sem dizer toda a verdade. Ele não podia continuar sendo enganado, apunhalado pelas costas, e eu concordava plenamente com isso.
Mas meu coração parecia arder em chamas quando tais pensamentos me dominavam. Ele pulsava fortemente contra meus pulmões, ameaçando explodir diante de tamanho absurdo. Cada músculo de meu corpo doía ao imaginá-lo longe de mim, sem poder tocá-lo, abraçá-lo, sentir a atmosfera contagiante de alegria que o cercava, sem poder enxergar através de suas íris sempre tão radiantes... Eu já não conseguia mais me lembrar de como era minha vida antes dele, do que eu fazia antes dele, em que eu pensava antes dele. Provavelmente, pensava nele, só que de maneira muito menos íntima que agora. O que só ajuda a comprovar o fato de que antes mesmo de ocupar um espaço tão grande na minha vida, ele já era parte de mim.
Como eu nunca fui boa em ouvir minha consciência, meu coração sempre acabava vencendo, falando mais alto e abafando os murmúrios de minha mente. E era por esse motivo que eu continuava abraçando-o com força, chorando contra seu peito e molhando sua camiseta. Eu precisava dele ao meu lado. Eu era egoísta, inescrupulosa demais para fazer a coisa certa e abrir mão dele. Eu o amava. Mesmo que houvesse outro amor crescendo a cada segundo dentro de mim, numa velocidade que eu jamais poderia imaginar ser possível.
- Awn, Caah – Pepe suspirou ruidosamente, parecendo bastante aliviado, e eu pude sentir seus músculos relaxarem um pouco – Eu também estava com saudade, mas... Não precisava me assustar desse jeito! Quer me matar do coração, é, tampinha?
Sua voz não era de repreensão, e sim, de alívio. Com esforço, contive o choro, enxugando minhas lágrimas rapidamente, e voltei a encará-lo, sentindo-me trêmula e tonta.
- Me desculpe – soprei, tentando secar as manchas de minhas lágrimas em sua blusa, sem o menor sucesso, para evitar contato visual – Eu acho que estou um pouco... Sensível demais.
- Tudo bem, amor, eu entendo – ele sorriu docemente, enxugando uma última lágrima teimosa de minha bochecha – Não se preocupe com isso.
O sinal tocou, indicando o fim do intervalo, e meu estômago revirou de leve em alívio. Pepe fez uma careta mal educada, me fazendo sorrir fraco, e murmurou:
- Droga. Temos que ir.
- É – funguei baixinho, fazendo a melhor cara de resignação que foi possível – Mas tudo bem. Pelo menos matamos um pouco da saudade.
- Um pouco? Isso aqui não deu pra quase nada! – ele resmungou, emburrado – Aliás, vinte minutos não são absolutamente nada... Vou propor intervalos de uma hora na próxima reunião de professores.
- Boa sorte – sorri quase tristemente, achando sua carinha muito fofa – Mas enquanto ela não chega, temos que nos conformar com vinte minutos.
- É, acho que temos – Pepe murmurou, fazendo beicinho - Posso pedir só mais um beijinho antes de irmos?
Ergui meus olhos ainda bastante úmidos e secretamente cheios de dor até os dele, e Pepe olhou fundo neles, como se tentasse ultrapassar a barreira misteriosa que eu havia construído para ocultar meus erros. Não sei o que ele viu em minhas íris; só sei que um sorriso lindo e discreto surgiu em seu rosto, e sem esperar resposta, ele venceu a distância restante entre nossos lábios, me levando para seu mundo feliz, que agora, me parecia simplesmente vazio.
E foi naquele mundo deserto e sem vida que minha mente finalmente foi capaz de enxergar todas as dúvidas que me preenchiam pela perspectiva certa, e tomou o controle sobre meu coração, impedindo-o de gritar por mais que a dor o dilacerasse.
Foi naquele momento, com os lábios de Pepe grudados aos meus, envolta em todo o seu carinho e amor, que eu finalmente tomei minha decisão.

Fui a primeira a cruzar a porta de minha classe, assim que o sinal indicou o fim da última aula, matemática, da qual eu não entendi absolutamente nada. Assim como não entendi nada de nenhuma outra aula, ou de qualquer outro acontecimento ao meu redor. Se eu dissesse que, durante o resto da manhã, escapei por pelo menos dois segundos do domínio extremamente possessivo de minha mente, onde estive mergulhada em seu ponto mais fundo, estaria mentindo. E nem precisei me forçar a fazer isso; meu inconsciente sabia muito bem que se permitisse um único instante de distração de meu foco, meu coração voltaria a me comandar, retomando o controle que agora era de minha razão. E eu não podia mais me permitir o direito da dúvida.
Desci rapidamente as escadas do prédio, aproveitando-me do fluxo ainda praticamente inexistente de pessoas por ali, e caminhei o mais rápido que pude até meus pés encontrarem os degraus que minha sanidade tanto temia. Subi-os com toda a agilidade que pude, já que minhas pernas se recusavam a colaborar e meu coração insistia em bater tão forte que parecia querer se libertar de meu peito, declarando sua irritação por ser ignorado. Andei com passos trêmulos até meu objetivo, sentindo meus pulmões expelirem todo o ar existente neles e trancarem suas portas para que mais oxigênio entrasse. Minha mente podia estar no controle, mas meu coração tinha suas formas de tentar me impedir de segui-la. E mesmo que parte de mim concordasse com ele e não quisesse fazer aquilo, a pouca sensatez que ainda me restava admitia que eu não podia mais adiar essa atitude se quisesse ter um pouco de paz.
Envolvi a gélida maçaneta de ferro com minha mão, apertando-a e tentando me manter calma e consciente. Respirei fundo, conseguindo fazer com que o mínimo de ar inflasse meus pulmões, e entrei no laboratório, sem nem me dar ao trabalho de pensar se ainda havia alguma turma tendo aula. Eu sabia que o único dia no qual o laboratório de biologia era usado durante o último tempo era no dia da aula de minha classe. Só me restava saber se quem eu procurava ainda estava lá.
O que não demorei a descobrir.
Meus olhos encontraram a forma dos ombros largos de Pe assim que pisei no laboratório, e por um segundo, as idéias e palavras se perderam em minha mente, como pequenas gotas de chuva em um vendaval: insignificantes e ridiculamente fracas. Graças à minha entrada não exatamente silenciosa na sala, ele não hesitou em virar-se até seus olhos focalizarem os meus, e quando suas íris verdes se conectaram às minhas, eu desejei poder ignorar por completo tudo que havia me levado até ali e apenas seguir o que meus sentimentos mandavam. Mas eu me contive, sentindo meu estômago revirar-se nervosamente em agonia, e evitei mergulhar demais em seus olhos. Perder meu foco, justamente agora que eu o tinha tão firmemente, naqueles buracos negros de suas pupilas era algo que definitivamente não deveria acontecer, mesmo que eu não estivesse completamente certa disso. Estava doendo demais para sequer pensar.
Sim, já estava doendo, mais do que eu imaginei que doeria. E eu sabia que a partir dali, por mais impossível que isso pudesse parecer, a dor só ficaria pior. Mas eu precisava dar um jeito na minha vida. Chega de desistir, chega de fraquezas. Era hora de agir feito gente grande.
Pe analisou meu rosto rapidamente, recuperando-se da surpresa que havia moldado seus traços numa expressão discretamente feliz, e assim que viu os indícios de más notícias em meus olhos agoniados, suas sobrancelhas se franziram em desconfiança. Seu olhar praticamente falava com o meu, mesmo que estivéssemos em absoluto silêncio. Ele havia entendido que eu não estava ali pra brincadeira; sabia que não precisava de palavras para me incentivar a falar.
E assim eu o fiz. Por mais que eu não o quisesse, eu falei as pequenas e breves palavras que partiriam meu coração ao meio num piscar de olhos.
- Vou ficar com Pepe... Não me procure mais.
Cada palavra parecia uma grande bola de espinhos saindo de minha garganta, lenta e dolorosamente, por mais depressa que eu as tivesse pronunciado. Lágrimas encheram meus olhos, impedindo-me de ver com clareza a expressão em seu rosto, e antes que uma delas pudesse cair, dei meia volta e corri para longe do laboratório, sentindo meu coração doer como se estivesse se autodestruindo.
Eu sabia que seria difícil fazê-lo sobreviver após perder uma de suas metades.
Só não imaginei que seria mais difícil ainda querer que ele sobrevivesse.



Capítulo 28 (Pedro Lanza’s POV)



Vou ficar com Pepe.
Não me procure mais.
Trinta e dois dias haviam se passado. Setecentas e sessenta e oito horas, quarenta e seis mil e oitenta minutos... Dois milhões, setecentos e sessenta e quatro mil oitocentos e mais alguns malditos segundos.
E as malditas oito palavras que ela cuspiu como se fosse um veneno sendo finalmente expelido ainda perfuravam cruelmente meus tímpanos como adagas.
Baguncei de qualquer jeito meu cabelo diante do espelho, sem nem ousar analisar o reflexo de meu rosto. As olheiras, o olhar morto, a boca reta, as íris opacas... Sintomas com os quais eu já estava começando a me habituar.
Mas sabia que jamais os aceitaria de fato.
Ela se manteve firme em sua decisão. Em nenhum momento, durante aquele mês de distância, ela demonstrou arrependimento, sofrimento ou sequer um pingo de consideração por mim. Mal me olhava, evitava se aproximar de mim, estava sempre apressada, mudava de direção se me via... Enfim, usava todos os artifícios que podia para me repelir. E eu, com o resto de orgulho que ainda guardava no fundo de minha alma, fingi que a respeitava. Nunca corri atrás de mulher alguma, e me arrependi amargamente da primeira e última vez em que o fiz. As malditas oito palavras que recebi como recompensa (se é que posso chamá-las assim) não me encorajavam a repetir a experiência.
Ela não me queria mais? Ótimo. Ela preferiu o namoradinho perfeitinho e bonzinho que só faz papai-mamãe? Ótimo. Fui apenas uma atração passageira? Ótimo! Ela poderia perfeitamente ser uma para mim também. Eu também poderia fingir que ela simplesmente não existia, que havia morrido ou então se mudado para bem longe dessa merda de cidade. Ou então que ela foi apenas uma ilusão, um produto de uma mente alterada - no caso, a minha. Mas algo que eu não poderia fingir era o fato de que eu jamais poderia sentir novamente a maciez e o calor de sua pele, assim como a porra de seu perfume e de seus toques suaves e precisos. E que dali a algum tempo, eu já nem me lembraria mais de como era estar com ela. De como eu conseguia ser absurdamente espontâneo e diferente com ela... De como eu conseguia ser simplesmente Pe Lanza.
Eu não poderia fingir aquilo porque não havia como fingir a verdade. Dali a algum tempo, tudo realmente se perderia no tempo. Todos os meus sentimentos, tão únicos e indescritíveis por ela, se resumiriam a meras, vagas e inexatas lembranças.
Mas das malditas oito palavras eu jamais me esqueceria.
Respirei fundo, e encarei meus olhos no espelho. Seus tons verdes desbotados e fúnebres fizeram com que minha mente se perguntasse, pela milésima vez naquele dia, se valia mesmo a pena sair de casa. Há uma semana atrás, Pepe me convidou para uma reunião de amigos em seu apartamento, como forma de comemoração ao seu aniversário. Eu não via muitos motivos para comemorar; já motivos para me suicidar saltavam aos meus olhos. Mas durante aqueles sete dias que se seguiram ao convite de Pepe, eu me preparei psicologicamente para vencer minha crise existencial. Me determinei a ir, e repeti minha meta a cada ameaça de desistência que minha mente lançava. Eu não a deixaria me derrotar, não mesmo. Ela estava absurdamente enganada se pensava que eu iria me deixar abater por sua escolha.
Para ser bem sincero, eu estava com pena dela. Porque eu estava pronto para ir àquela maldita comemoração. E com toda a certeza do universo, ela estaria lá, e eu faria questão de mostrar a ela que sua decisão não mudou absolutamente nada na minha vida.
Pensando melhor, eu tinha um bom motivo para ir à casa de Pepe naquela noite. E esse motivo fez com que um sorrisinho maldoso surgisse em meu rosto, e meus olhos voltassem a arder, intensamente verdes outra vez.
Dentre meus sentimentos favoritos, poucos superavam a vingança.
Eu realmente estou com pena dela. Ou talvez não. Afinal, garotas más merecem ser castigadas.

- Fala, Lanza! – Pepe exclamou, assim que surgi no primeiro andar de seu prédio, com sua habitual overdose de alegria. Eu também estaria super alegre com a mulher que ele tinha ao lado dele. Adoro meu senso de humor mórbido.
- Parabéns, Pedro – sorri, abraçando-o brevemente e dando tapinhas em suas costas – Não acredito que mais um ano se passou e eu ainda não te dei um pé na bunda.
- Valeu, cara – ele riu, afastando-se e me dando passagem para entrar no apartamento - Você sabe que me ama, gatinho.
- Fala baixo, vão nos descobrir – fingi um sussurro, fazendo-o gargalhar enquanto eu observava as pessoas que conversavam na sala. Alguns colegas da faculdade, poucos de profissão, mas não passavam de umas vinte pessoas.
- Fica à vontade, cara, vou buscar uma cerveja pra você – Pepe disse, indo até a cozinha e me deixando na sala. Pensei em segui-lo, me perguntando se Carol estaria por lá, mas resolvi cumprimentar alguns amigos da faculdade e me sentar confortavelmente no sofá. Eu queria estar preparado para vê-la pela primeira vez após um mês de distância, e não queria parecer ansioso.
- E aí, como você tá? – Pepe perguntou alguns minutos depois, me entregando uma cerveja e atirando-se ao meu lado – Parece melhor da crise de enxaqueca.
É, eu sei, dei uma desculpa esfarrapada pra minha reação a um primeiro fora. Mas eu não podia simplesmente dizer pois é, Munhoz, eu fiquei meio deprimido porque sua namorada resolveu ficar contigo e não comigo se ainda queria deixar as coisas como estavam: em segredo.
- Eu estou mesmo – respondi, dando um grande gole na cerveja para não dar mais um de meus sorrisos maldosos ao pensar no motivo de minha melhora – Acho que precisava de umas boas noites de sono, e alguns analgésicos me ajudaram.
O que foi? Estou mentindo de novo? Eu sei. Não quero ir pro céu mesmo, gosto demais de sexo e álcool pra isso.
- Que bom, de verdade – ele assentiu, me dando dois tapinhas no ombro – Tava começando a ficar preocupado contigo.
E eu tô começando a ficar preocupado com a tua namorada. Cadê ela? Já eram quase dez e meia, ou seja, um pouco tarde para se chegar numa festa marcada para as oito, não acha?
- Munhoz, interfone! – uma voz masculina gritou da cozinha, em meio ao falatório dos outros presentes – Uma tal de Carol! É pra mandar subir?
Duas palavras: oi, Trevisan.
- É! – Pepe respondeu, e logo depois se dirigiu a mim – Já volto.
Assenti de leve, observando-o correr até a porta, e dei mais um gole em minha Heineken. Em menos de quinze segundos, Carol surgiu à porta, e os braços de Pepe a envolveram tão rapidamente que eu mal pude vê-la. Tudo que ficou visível foram suas mãos, agarrando os cabelos dele e enterrando suas unhas vermelhas em sua nuca, e seus pés, suspensos no ar devido ao abraço de Pepe. E um detalhe que passaria despercebido por mim, se não fosse ela a garota em questão, chamou minha atenção e, confesso, me assustou pra caralho.
Os sapatos pretos dela eram exatamente iguais aos que ela usava quando sonhei com ela no baile de primavera.
Merda. Só porque eu adoro fazer sexo com mulheres de salto. Eu podia ser um cafajeste, mas ela não ficava muito atrás me provocando daquele jeito.
Pepe a ergueu ainda mais no ar, e o rosto dela se tornou visível sobre o ombro musculoso dele. Carol aproximou sua boca de seu ouvido e murmurou algumas palavras que, pelo que minha leitura labial me permitiu identificar, eram Parabéns, meu amor, eu te amo muito. Ele provavelmente respondeu à altura, porque o sorriso nos lábios rosados dela aumentou. Assim como minhas mãos se fecharam em punhos, quase esmagando a garrafa de cerveja entre meus dedos.
Desviei o olhar, tentando sufocar o grito de ódio que se formou em minha garganta. Engoli todo o resto do conteúdo da garrafa de uma só vez, esfriando a raiva que parecia queimar minhas entranhas, e quando voltei a encará-los, Pepe a havia abraçado pela cintura com um de seus braços e a apresentava para um grupo de amigos. Então eles haviam se tornado públicos? Que bonitinho. Eu bem que podia ser um belo filho da puta e contar tudo pra mãe dela, mas acho que isso dificultaria de certa forma minhas chances de tê-la para mim.
Então eu apenas ia assistir àquela barbaridade sem mover um músculo?
Bem... Não exatamente. Eu tinha meus meios de destruir aquele conto de fadas.
Minha mente trabalhava a todo vapor conforme ele a apresentava a praticamente todas as pessoas presentes, e meus olhos os seguiam com discreto interesse. Os sorrisos ternos que Carol dava a cada uma delas me fez esquecer completamente, por um segundo, que estava bravo. Eu a queria tanto, meu Deus! Por que ela não conseguia simplesmente entender isso? Essa incompreensão queimava com tanta força em minha garganta que eu me sentia prestes a gritar tudo que se passava em minha cabeça, pra que todos ouvissem de uma vez que ela era minha e de mais ninguém.
- E esse aqui você já conhece – a voz de Pepe, perigosamente próxima, me acordou do breve transe no qual havia mergulhado sem querer, com um leve susto. Olhei para cima e o vi parado à minha frente, com a mão de Carol na sua, e logo em seguida, desviei meu olhar até encontrar o dela, extremamente contido e assustado. Como uma presa frente a frente com seu predador.
- Oi, Trevisan – sorri após alguns segundos de silêncio, e a malícia da vingança contornava visivelmente meus lábios. Eu me sentia absurdamente descarado, e não tinha a menor intenção de mudar essa situação, já que Pepe era um tapado e não repararia mesmo.
- Oi – ela murmurou, abaixando seu olhar do meu por um segundo, sem conseguir agüentar a carga de raiva que viu em minhas íris. Coitadinha. Só vai ficar pior.
- Senta aí, Caah, eu vou buscar uma cerveja pra você e já volto – Pepe disse, e sem dar tempo para que ela se manifestasse, ele correu até a cozinha, deixando-a sozinha comigo. Ops. Errou feio, Munhoz.
Carol o acompanhou com os olhos aflitos conforme ele se afastava, até que Pepe sumiu de vista. Ela manteve o rosto virado na direção da cozinha, segurando firmemente a pequena bolsa vermelha de verniz que combinava perfeitamente com suas unhas. Sim, eu tenho o péssimo e delicioso hábito de observar cada pequeno detalhe dela. Posso estar me mordendo de raiva, mas ainda sou fodidamente viciado naquela pirralha.
- Pode ir atrás dele – falei, fazendo-a pular levemente de susto e me encarar – Não é isso o que você sempre faz?
Carol me fitou por alguns segundos, recuperando-se da surpresa por meu contato e ao mesmo tempo absorvendo e tentando formular alguma resposta para minhas palavras. Sem conseguir nenhum de seus dois objetivos, ela simplesmente desviou o olhar do meu e saiu de perto, tomando a mesma direção que Pepe. Observei-a caminhar rapidamente, enfeitiçado pelo tecido esvoaçante de seu curto vestido preto, e um detalhe no qual eu não havia reparado antes me fez sorrir pervertidamente.
Sua roupa deixava exposta quase que toda a extensão de suas costas. Ou seja, ela não estava usando sutiã. Saber que uma peça íntima estava faltando ali era, confesso, bastante excitante.
E só pra relembrar, a filha da puta estava de salto.
Ah, como eu queria transar com ela hoje.
Mordi meu lábio inferior, respirando fundo e desviando meus olhos dela. Seria constrangedor demais até para mim ter uma ereção no meio daquele bando de gente, mesmo que a culpada fosse capaz de me tirar dos eixos em qualquer lugar, a qualquer hora, com qualquer roupa. Percebi que alguém havia ligado a TV, e mantive meus olhos fixos na tela, sem realmente absorver o que estava sendo transmitido. Acho que nem milhares de mulheres gostosas e peladas se esfregando prenderiam minha atenção àquele televisor no momento, mas eu juro que me esforcei para prestar atenção por pelo menos dois minutos.
- Vem cá, Caah, vamos ficar aqui na sala – pude ouvir a voz de Pepe dizer, vinda da cozinha e se aproximando cada vez mais – Aproveita e traz mais uma cerveja pro Pe.
Uma cerveja? Pra mim? Puxa, que gentileza! Pedro Munhoz, eu te amo. Se não fosse tão possessivo sobre a sua namorada, te chamaria pra um ménage. Mas que pena, eu sou. E te ver nu não é algo que eu queira.
Não movi um músculo, apenas esperei até que Pepe voltasse a se sentar ao meu lado no sofá, deixando um lugar vago para Carol de seu outro lado. Bastante egoísta da parte dele, eu achei.
- Fala sério, você tá assistindo TV no meu aniversário? Pensei que você estivesse aqui por mim! – ele brincou, e quando me virei para retrucar, vi Carol se aproximando com duas garrafas de cerveja e uma expressão levemente pálida, como a de quem deseja vomitar. Ela realmente estava tão mal com a minha presença? Quase me dava pena. Eu disse quase, só pra ressaltar.
- Nossa, cara – falei, erguendo uma sobrancelha – Isso soou muito gay.
- É que hoje minha homossexualidade tá aflorada – Pepe gemeu, passando os braços ao redor de meu pescoço e deitando sua cabeça em meu ombro. Era em situações como essa que eu confirmava minha teoria de que Pepe fazia o tipo passivo.
- Argh, sai daqui, sua bicha – grunhi, segurando seus pulsos e tentando tirá-lo de cima de mim, fazendo-o rir – Vai agarrar sua namoradinha, vai.
De repente o clima ficou tenso. Pepe parou de rir e me olhou com certa censura, e Carol, que finalmente havia chegado ao sofá, parou de pé na nossa frente e me encarou por poucos segundos, com o olhar magoado.
- Que é? Só porque eu falei no diminutivo? – perguntei, levemente sarcástico, me aproveitando daquela tensão para atingi-la ainda mais - A menina mal saiu das fraldas e você quer que eu a chame de que? Namoradona?
- Pe – Pepe falou, com um tom de voz grave e repreensivo – Hoje não, por favor.
Revirei os olhos, voltando-os para a TV, mas infelizmente o corpo de Carol me impedia de ver boa parte da tela. Ela me estendeu uma garrafa de cerveja e eu apenas a arranquei de sua mão sem nem agradecer, e logo ela se sentou na outra ponta do sofá, rapidamente sendo envolvida por um dos braços de Pepe. Que bosta, com tantos lugares mais interessantes para ficar, eles realmente pretendiam sentar justo do meu lado?
- Eu acho que vou me deitar um pouco – ouvi Carol dizer baixinho, e sua voz mais fina que o habitual me causou uma pontada de remorso que eu logo destruí – Estou cansada, dormi mal na noite passada.
Chupa, Munhoz. Ninguém manda fazer uma festa numa sexta-feira de provas escolares, seu imbecil.
- Tem certeza de que é só isso, amor? – Pepe murmurou, encurvando-se sobre ela, e meu estômago revirou mais rápido ainda de ciúmes – Está sentindo mais alguma coisa?
- Eu estou bem, juro – ela respondeu, carinhosa – Só preciso descansar um pouco. Enquanto isso, aproveite sua festa.
- Como, se você não vai estar aqui pra aproveitar comigo? – ele perguntou, e a força em meus punhos aumentou tanto que minhas pequenas unhas ameaçaram cortar a pele das palmas de minhas mãos – Mas tudo bem, vá se deitar um pouco na minha cama. Quero que você fique bem para podermos aproveitar quando estivermos sozinhos.
Respirei lenta e profundamente, tentando não deixar o grito de ódio em minha garganta escapar, e me levantei devagar para não deixar meus instintos prevalecerem e me jogar sobre Pepe, pronto para torturá-lo até a morte. Caminhei até o banheiro, já com uma certa pressa, e me tranquei lá, sentindo meu estômago embrulhado.
Eles iam passar a noite juntos. Que maravilha. Quer dizer que eu não teria nem a mínima oportunidade de levá-la para casa (a minha, claro), e que ele a teria toda para si, de unhas vermelhas e com aqueles saltos malditos. Parecia que meu cérebro estava inflando a cada vez que esses fatos ecoavam em minha mente, e estava perigosamente perto de explodir com violência.
Joguei um pouco de água no rosto, respirando fundo, e senti um ódio que não parecia caber dentro de mim se espalhar por todas as minhas células. Por que as coisas tinham que ser assim? Por que eu não podia simplesmente ser o que Pepe era para ela? Por que eu não podia ser o dono da cama onde ela dormia por algumas noites, o namorado que podia explorar aquele corpo sem limites?
Encarei com veemência meu reflexo no espelho, e esperei até que meu rosto se tornasse um pouco menos assassino. Sem sucesso nenhum, apenas fiz uma de minhas especialidades: fingi. Um sorrisinho cordial surgiu em meus lábios com certo esforço, e apesar de meus olhos em brasa, concluí que estava apresentável novamente. As pessoas teriam que se conformar com minha sutil cara de psicopata.
Saí do banheiro, após mais alguns segundos de exercícios respiratórios, e voltei a me sentar no sofá, onde agora só havia Pepe. Alguém havia mudado de canal, e um noticiário entediante passava na TV. Fingi prestar atenção no que o repórter dizia, e logo senti os olhos ressentidos de Pepe sobre mim devido à minha grosseria de alguns minutos atrás. É claro que o ignorei totalmente, e ele não levou muito mais que três segundos para deduzir isso; como se lesse meus pensamentos, simplesmente levantou-se do sofá e foi conversar com alguns amigos. Dali a cinco minutos ele já teria se esquecido de meu pequeno deslize, se eu o conhecia bem.
Uma meia hora se passou, preenchida por conversas rápidas e entediantes com alguns velhos conhecidos da faculdade. Quando já estava começando a ficar impaciente com aquele bando de gente que não tinha mais nada para fazer a não ser comer, beber e fazer barulho (fora o fator atrapalhando minhas possibilidades de invadir o quarto do Pepe e seqüestrar Carol sem ser percebido) e estava considerando radicalmente a hipótese de ir para casa, recebi uma notícia um tanto quanto animadora.
- Ei, Lanza – Michael, um colega nosso da faculdade, chamou, quando finalmente tomei coragem de me levantar do sofá para pegar mais uma cerveja – Todo mundo tá indo jogar sinuca lá no salão de jogos. Quer vir com a gente?
- Defina todo mundo – pedi, fingindo que a possibilidade de esvaziar o apartamento não estava tão distante da realidade para não parecer empolgado demais com aquela informação.
- Todo mundo, literalmente – ele riu em resposta, bêbado – Sabe como é, acabou a cerveja. A gente precisa de alguma outra distração.
- Hm, sei – menti diante de suas afirmações sem nexo, forçando um sorrisinho compreensivo quando na verdade eu queria gargalhar e mandar todos irem à merda do salão de jogos o mais rápido possível – Acho que eu não vou não, cara. Minha cabeça tá explodindo, eu não tô muito legal, é melhor eu ir embora.
- Ih, tá perdendo o jeito, é? – Michael debochou, me dando uma cotovelada fraca – Você costumava ser o rei dos porres, Pe.
Perdendo o jeito? Eu acho que não. Pergunte pra sua mãe, ela saberá te responder melhor do que eu.
- Pois é – respondi simplesmente, ignorando toda a náusea que o bafo de álcool daquele idiota estava me causando – Eu devo estar ficando velho.
Michael deu uma risadinha alienada, e eu me aproveitei de sua falta de atenção para escapar daquela conversa estúpida e pensar com clareza e rapidez no que ia fazer. Se todos iriam ao salão de jogos, era pouco provável que Carol quisesse acompanhá-los. E já que o aniversariante era Pepe, não havia muitas chances de que ele ficasse com ela ao invés de passar algumas horas com os amigos. Ou seja, eu teria pelo menos algum tempo a sós para resolver minhas pendências.
É claro, havia riscos, e não eram poucos. Mas pra quem estava prestes a desistir de tudo, eu havia sido mais do que abençoado com um pouco de sorte, e estava mais do que disposto a me arriscar.
Caminhei em direção ao hall de entrada do apartamento, onde os poucos convidados já se aglomeravam, e ao mesmo tempo, encontrei Pepe voltando do corredor. Provavelmente, tinha ido avisar Carol que estaria fora por algum tempo, mas logo voltaria. Pode deixar, eu cuido dela, pensei em dizer, mas obviamente ignorei tal impulso.
- Munhoz, eu acho que já vou pra casa – falei, forjando um cansaço que se opunha totalmente ao meu estado de humor – Acho que exagerei na bebida.
- Tudo bem, cara, pelo menos você veio e aproveitou um pouquinho – ele concordou, pondo uma mão em meu ombro e me olhando com leve preocupação – Tem certeza de que não precisa de uma carona?
Eu disse que ele logo esqueceria o momento tenso com Carol, não disse? E é exatamente nessas horas que eu me sinto um merda, sabe. Pepe podia ser extremamente bacana quando queria, tipo agora. Pena que ele também sabia ser muito irritante, tipo quando resolveu ficar com a Trevisan. Eu jamais conseguiria definir como me sentia ao lado dele, o conflito entre seus dois lados era gritante demais.
- Relaxa, curte sua festa – sorri, retribuindo a mão em meu ombro – E valeu por ter me chamado, eu precisava dar uma relaxada mesmo.
O que foi que você disse? Que eu sou um puta falso e mentiroso? É, eu sei. Me desculpe por isso, minhas habilidades teatrais afloram naturalmente quando o assunto é Carol Trevisan.
- Ah, imagina, Lanza – Pepe disse, me dando um abraço rápido – Vamos juntos então? Vou levar a cambada pra jogar sinuca.
- Claro – assenti, e o observei caminhar por entre os amigos até a porta do apartamento e abri-la, deixando que todos saíssem.
Seguimos o fluxo calmamente, e eu tentei disfarçar a ansiedade formigando em minhas pernas e mãos, fazendo-as vacilarem e tremerem de leve. Como eu imaginei, ele apenas fechou a porta, deixando a chave para o lado de dentro, provavelmente para Carol trancá-la logo em seguida. Pepe deve ter imaginado (e com razão, por inúmeros motivos) que não seria bom deixá-la trancada, ou então que seria apropriado deixá-la com a chave caso mudasse de idéia e quisesse se unir a ele e aos outros convidados. Posso confessar que gostei de saber que ela não tinha uma cópia da chave do apartamento dele? Definitivamente, seria uma das medidas que eu já teria tomado se estivesse com ela há alguns meses.
- Pelo visto teremos que fazer duas viagens – Pepe observou, ao ver toda aquela gente esperando por um único elevador, e eu acordei de meus pensamentos agitados – Acho melhor você descer pela escada, Lanza.
- Relaxa, eu já ia fazer isso mesmo – sorri, e com um breve aceno, me despedi dele, já que mais ninguém ali estava suficientemente sóbrio para notar meu gesto. Desci tranquilamente o primeiro lance de degraus, sentindo meu coração bater tão forte a ponto de doer, e assim que sumi de vista, parei e esperei, imóvel, até que todos tivessem subido para o salão de jogos e o andar estivesse finalmente deserto. Assim que ouvi o sutil ruído das portas do elevador em movimento e o silêncio predominou, respirei fundo, só então notando que havia praticamente parado de respirar durante aqueles minutos de espera.
Me esgueirei até poder ver o hall, e de fato, não havia mais ninguém. É agora, disse para mim mesmo em pensamento, e enchi meus pulmões de ar, pronto para executar meu plano. Subi os degraus rapidamente e logo cheguei à porta pela qual havia acabado de sair. Girei a maçaneta devagar para não fazer nenhum barulho, e assim que entrei no apartamento, tranquei-me silenciosamente. O fato de não correr o risco de ser pego no flagra fez um certo alívio percorrer meu corpo, e um sorriso tenso se alojou em meu rosto. Eu estava cada vez mais perto de conseguir o que tanto almejava.
Caminhei determinadamente até o quarto de Pepe, cuja porta estava entreaberta, porém não consegui ver nada. O silêncio predominava no apartamento, mas meu coração batia tão forte que eu cogitei a hipótese de meus batimentos terem sido ouvidos a quilômetros de distância. Parei à porta, sentindo o nervosismo me dominar, e lentamente entrei no quarto, deparando-me com a silhueta de Carol sentada na ponta mais distante da cama, de costas para mim. Fiquei um tanto surpreso por não encontrá-la deitada, mas antes que eu pudesse sequer tentar me recuperar, ela virou um pouco a cabeça, como se tivesse sentido minha presença, e me desarmou completamente.
- Você veio mesmo... Exatamente como eu imaginei.