bom curtão de montão :B
Capítulo 31
- O quê?
- É isso mesmo.
- O que exatamente eu perdi, alguém pode me explicar?
Starbucks, eu, Manuela, Ewan e uma verdade bombástica depois da aula de segunda-feira. Eu sabia que esse momento chegaria.
- É... Digamos que você esteve ausente durante algumas reviravoltas – respondi a Ewan, coçando a nuca meio sem jeito – Pensei que a Manuela já tinha te contado.
- Não, eu não estou sabendo de nada – ele negou, boquiaberto, e ambos olhamos para Manuela, cujo queixo sumia de vista sob a mesa e olhos me fitavam com infinito choque – Amor?
- Caralho, Carol – ela xingou, após alguns segundos paralisada, e Ewan soltou um suspiro de alívio diante do sinal de vida dela – Puta que pariu!
- É, eu sei – respirei fundo, tomando um gole de meu cappuccino. Eu precisaria de muita cafeína para agüentar o tranco.
- Alguém pode me inteirar do assunto, por favor? – Ewan reclamou, totalmente confuso, e vendo que Manuela voltara a ficar imóvel, me manifestei.
- Como você já deve saber, eu e Pepe estamos namorando – comecei, vendo-o assentir – Acontece que há algum tempo, Pe e eu acabamos nos envolvendo também, e as coisas aconteceram tão rápido entre nós que acabamos nos apaixonando. Eu sei que isso soa ridículo, mas não é, acredite. Pelo contrário, é a mais pura verdade. E... É tão verdadeiro que eu estou cogitando a possibilidade de terminar tudo com Pepe pra ficar com ele.
- O quê? – Manuela repetiu, um pouco mais alto que antes, e eu fiz uma careta medrosa, enquanto Ewan segurava sua mão e a olhava com preocupação.
- Meu Deus do céu – ele disse, olhando-me com extremo espanto – Você deixa essas coisas acontecerem na sua vida justo quando eu não estou? Vou levar isso como uma ofensa!
- Não fale como se as coisas não acontecessem na minha vida quando você estava por perto também – resmunguei, vendo-o erguer as sobrancelhas, concordando – Não se esqueça que meu primeiro beijo foi no armário do quarto da sua avó com um garoto que eu mal conhecia, e você estava do outro lado da porta ouvindo tudo.
- Eu nunca vou me esquecer do Eric dizendo Não precisa usar os dentes, Carol, sua língua já é o suficiente naquele tom tão assustado – ele suspirou, como se aquela fosse uma belíssima lembrança – Até hoje eu te imagino querendo morder o pobre garoto feito uma barracuda. Coitadinho, ele era um bom rapaz.
- Cala a boca, garoto que peidou e espirrou no meio da encenação de Hamlet – mostrei a língua, prendendo o riso e vendo-o retribuir meu gesto de carinho – Ser ou não ser, eis a questão foi seu trauma durante anos, e você nunca sabia se explicava a versão verdadeira ou se simplesmente deixava as pessoas pensarem que você tinha dúvidas quanto a sua orientação sexual quando te perguntavam por que você odiava tanto Shakespeare. As duas hipóteses lhe pareciam igualmente constrangedoras.
- Caralho, Carol – Manuela voltou a dizer, da mesma maneira de antes, e eu simplesmente a ignorei, assim como Ewan; éramos melhores amigos há eras, sabíamos muito bem que ela ainda repetiria as mesmas palavras por um tempo, até finalmente absorver a notícia – Puta que pariu!
- Você confia nele? – Ewan perguntou, voltando ao assunto e dando uma mordida em seu muffin de chocolate; eu assenti sem hesitar – Tem certeza de que ele te ama?
- Acho que nunca tive tanta certeza de alguma coisa quanto eu tenho disso – respondi, disfarçando um sorriso idiota – É tão nítido que chega a me assustar.
- Bom... Você sabe que eu também te amo – ele falou, após alguns segundos de reflexão, e eu deixei o sorriso idiota surgir – Não é novidade que eu vou achar defeitos em qualquer cara que se aproximar de você, e vou continuar sentindo ciúmes por ele ter conquistado a pessoa mais foda do universo... Mas enquanto você o achar digno o suficiente para merecer estar ao seu lado, eu vou dar a maior força.
- Awn, Ewan! – gemi, emocionada com suas palavras, e dei a volta na mesa, indo até ele e abraçando-o bem apertado – Eu é que tenho muita sorte de ter um amigo como você! - Isso, agora diz que eu sou gostoso – ele piscou, fazendo-me rir e beijar seu rosto.
- Gostoso, tesão! – falei, mandando-lhe um beijo sedutor e vendo-o passar a língua sensualmente pelos lábios.
- Eu posso estar em choque, mas ainda estou aqui – Manuela disse, virando o rosto lentamente para o namorado, que abandonou sua postura pornográfica na mesma hora – E estou ouvindo.
- Calma, amor – ele falou, como se estivesse conversando com uma criancinha – Quer que eu te seduza também?
- Mais tarde – ela cerrou os olhos, fazendo um beicinho falsamente triste surgir nos lábios de Ewan – Eu preciso resolver umas pendências agora, e não quero distrações.
- Tá bom, pode deixar, vou ficar bem quietinho – ele assentiu, feito um cachorrinho, recebendo um selinho de agradecimento da namorada e fazendo-me rir baixinho. Manuela suspirou e virou-se para mim, dando um belo gole em seu mokaccino e entrelaçando os próprios dedos sobre a mesa logo em seguida.
- Você sabe que eu fui a primeira pessoa a saber sobre você e o Pe, e provavelmente a única até poucos minutos atrás – ela começou, olhando-me com seriedade, porém sem parecer furiosa ou ameaçadora – Eu sou a pessoa que te conhece talvez até melhor que a sua mãe, e quase sempre até melhor que você mesma. E eu nunca, nunca, nem quando te disse que já sabia que você sempre se envolvia com os caras errados, imaginei te ouvir dizendo isso.
- Nem eu, Manu, acredite – falei, apreensiva – Você sabe muito bem o quanto eu o odiava.
- Foi exatamente por saber disso que eu me assustei – ela assentiu, compreensiva – E... Bem, não há muito que eu possa dizer. O Ewan já disse tudo. Eu só quero que você pense muito bem antes de escolher um dos dois... Você pode se arrepender muito se tomar a decisão errada, e eu não quero que você sofra.
- Ela tem razão, Caah – Ewan concordou, sério – Não aja por impulso, é a pior coisa que você pode fazer.
- Já faz quase um mês que eu comecei a me envolver com Pe – suspirei, buscando qualquer tipo de falha em minha linha de raciocínio – E desde a primeira vez em que o beijei, esse pensamento assombra a minha mente. No começo foi puro impulso, eu confesso... Mas agora... É muito mais intenso. É tão forte que eu já não consigo mais pensar em Pepe da mesma forma. Eu continuo vendo-o como a pessoa maravilhosa que ele é, mas já não sinto todo aquele amor que sentia antes... É quase como se eu o quisesse como um amigo.
Ewan e Manuela suspiraram ao mesmo tempo, inseguros quanto à minha atmosfera de certeza, e entreolharam-se, finalmente rendendo-se diante de minha convicção.
- Você sabe que pode contar com a gente, não sabe? – Manuela sorriu fraco, ainda um pouco temerosa por minha decisão – Nós só queremos o seu bem, e se você acha que ele te fará feliz... O que nós podemos fazer a não ser te apoiar?
- Ele já me faz feliz, Manu – murmurei com um sorriso carinhoso, segurando sua mão por sobre a mesa – Mas não se preocupe, eu ainda vou pensar com bastante cuidado antes de tomar qualquer atitude. Obrigada por se preocuparem comigo, vocês são demais.
- Faça o que o seu coração manda – Ewan disse, unindo sua mão às nossas, e logo em seguida fez uma careta – Meu Deus, como sou gay de vez em quando.
- Você que não ouse virar gay – Manuela resmungou, prendendo o riso e olhando-o ameaçadoramente – Corto seu brinquedinho fora e te faço ser passivo pro resto da vida.
- Ah, até que deve ser legal dar, né? – ele pensou alto, com um sorrisinho esperançoso no rosto e o olhar vago – Como deve ser a sensação?
- Cala a boca, Ewan! – eu e Manuela exclamamos, incomodadas com a imagem que surgiu em nossas mentes, e ele caiu na gargalhada, assim como nós duas. Logo uma mini guerra de muffins começou, o que nos rendeu olhares de censura das outras pessoas presentes, porém nada com o qual já não estivéssemos acostumados.
Alguma dúvida de que eu tinha os melhores amigos do mundo?
- Acho tão sexy te ver tirando essas luvas, sabia?
Cruzei minhas pernas sobre o banco do laboratório vazio de biologia no qual estava sentada, observando Pe se desfazer de suas luvas plásticas distraidamente. Um sorriso esguio surgiu em seus lábios sedutores, e seus olhos logo se ergueram de suas mãos para minhas íris luxuriosas.
- Seria ainda mais sexy te ver tirando essas luvas pra mim – ele provocou, fazendo-me erguer uma sobrancelha em tom de desafio – Com os dentes.
- Meu hálito de tripa de lula seria tão excitante depois de um fetiche desses! – ironizei, vendo-o gargalhar diante de minha observação inteligente – Mas se forem luvas limpas, eu topo.
- Vou trazer luvas extras de hoje em diante – ele riu, balançando negativamente a cabeça enquanto se dirigia ao cesto de lixo para jogar as luvas fora e logo em seguida tirando o jaleco.
- Ei, eu queria fazer isso! – briguei, fazendo biquinho ao vê-lo colocar a peça branca sobre sua mesa – Põe de novo!
- Você não se cansa de tirar meu jaleco não? – ele perguntou, com um sorriso intrigado enquanto voltava a vestir seu avental – Qual é a graça disso?
- E qual é a graça disso? – rebati, ficando de pé e indicando meu corpo com minhas mãos – Juro que não te entendo.
- Eu vejo muita graça nisso, se você quer saber – Pe murmurou, observando-me de cima a baixo de um jeito nada discreto e fixando seus olhos extremamente verdes nos meus ao terminar sua análise – Ainda mais quando você fica toda arrepiada com os meus olhares que nem agora.
Senti meu rosto esquentar e corar depressa, e fechei os olhos ao ser desmascarada. Como ele sabia que tinha conseguido me arrepiar?
- Agora eu fiquei sem graça – suspirei, cruzando os braços e encarando meus tênis com um biquinho birrento – Odeio você.
- Me odeia tanto que tá toda vermelha – ele sorriu, esperto, indo até mim e erguendo meu rosto com o indicador em meu queixo – Essa vergonha toda some assim que eu tirar essa sua roupa, aposto. Assim como a minha sanidade, é claro.
- Pe! – o repreendi, vendo cerrar os olhos de um jeito provocante – Só você enxerga essa deusa do sexo que eu supostamente sou. Isso é problema mental, sabia?
- Você diz isso porque nunca viu quantos caras ficam secando seu pescoço quando seu cabelo tá preso na aula – ele resmungou, adotando uma expressão um tanto ranzinza apesar do bom humor ainda presente e postando suas mãos em meus quadris – Parecem um bando de vampiros sedentos, juro. Morro de vontade de enfiar bisturis nos olhos de todos eles, e isso inclui o terceiro olho também.
- Cala a boca, Lanza – revirei os olhos, descrente – Isso tudo é fruto da sua imaginação, tenho certeza.
- Ah, tá – ele assentiu, sarcástico, e aproximou seus lábios de meu pescoço, depositando um selinho gostoso no local – E deixar umas boas marcas aqui também é fruto da imaginação deles, posso te garantir.
- Você fala como se algum dia eles fossem realmente conseguir isso – sorri, envolvendo seu pescoço com meus braços e sentindo-o abraçar minha cintura e sentar-me sobre o balcão – Como se algum dia eles fossem capazes de desbancar você.
- Não estou convencido – ele murmurou, dando uma leve mordidinha em meu pescoço e fazendo-me encolher o corpo de leve – Na verdade, nunca vou estar.
- Além de possessivo, você é ciumento? – perguntei, já um pouco bêbada em meio a todo aquele perfume masculino que emanava de sua pele – O que mais eu preciso descobrir sobre você?
- Que eu não meço esforços para defender minhas prioridades – Pe sorriu, fazendo com que seu hálito quente batesse em minha pele e acelerasse meus batimentos cardíacos – Ou seja, é melhor mesmo que eles fiquem bem longe de você.
- Se eu não gostasse tanto de te ver nu, acho que seria capaz de dispensar atividades físicas entre nós só pra te ouvir falar mais dessas coisas no meu ouvido – suspirei, completamente mole em seus braços, e apertei meus dedos em seus cabelos.
- A gente podia experimentar isso qualquer dia desses – ele disse, afastando seu rosto de meu pescoço e olhando-me bem de perto – Tipo um teste de nervos, pra ver quem agüenta mais tempo.
- Acho que eu perderia de primeira – confessei, sem fôlego. Eu não me importava em deixar meu orgulho de lado em certos assuntos quando estava com ele.
- Você que pensa – Pe ergueu uma sobrancelha, com um sorriso divertido – Meu autocontrole fica um pouco frágil com a sua boca perto do meu ouvido, você sabe disso.
- Que tal você parar de usar esse tom de voz e me beijar de uma vez? – pedi, com a visão um pouco turva apenas por ouvir suas palavras e o timbre sedutor com o qual ele as pronunciava – A não ser que você esteja disposto a me segurar caso eu desmaie.
- Você inconsciente de novo não, por favor – ele riu, e eu logo me lembrei de quando apaguei em seu carro após a festa de Kelly – Me lembrar daquela noite é torturante demais.
- Bom, eu não me lembro daquela noite, e prefiro não pensar nisso – balancei negativamente a cabeça, erguendo as sobrancelhas temerosamente – Ficar desacordada não é algo que me agrade, ainda mais com você por perto.
- Eu não fiz nada naquela noite, a não ser ficar preocupado com você – Pe resmungou, com um tom sério e manhoso ao mesmo tempo. Aquele assunto parecia ferir sua moral, e não era difícil compreender por quê.
- Eu sei, eu sei – sorri, apertando suas bochechas e vendo-o fechar a cara – Mas da próxima vez é pra fazer!
Pe jogou a cabeça pra trás, rindo de meu pedido absurdo, e ri junto, até que ele, ainda sorrindo, uniu seus lábios aos meus, iniciando um beijo carinhoso e intenso. Ri baixinho quando ele apertou meus glúteos e me puxou para mais perto de si, e dei uma mordidinha em seu lábio inferior, ouvindo sua respiração tornar-se gradativamente pesada conforme o beijo e as carícias se aprofundavam.
Até que uma batida na porta trancada do laboratório nos interrompeu.
Ambos arregalamos os olhos ao ouvir o som, e levamos alguns segundos para conseguir pensar no que fazer. Quem era o idiota que estava querendo entrar no laboratório vinte minutos após o término das aulas da manhã? Ninguém nunca ia até ali àquele horário.
- Se esconde – li seus lábios pedirem, e pus-me de pé num segundo, sentindo meu corpo inteiro tremer de medo. Corri até a bancada mais distante da porta e me escondi atrás dela, sentada no chão e abraçada às minhas pernas. Meu coração estava a mil dentro do peito, e eu tentava normalizar minha respiração ofegante à medida que ouvia os passos de Pe distanciarem-se até chegarem à porta. Se alguém me visse ali, nós dois estaríamos muito ferrados. Como explicar minha presença no laboratório, trancada com Pe?
- Pepe? – ouvi a voz de Pe dizer, um tanto trêmula, e foi então que meu coração parou.
Pepe.
Minha pressão baixou instantaneamente assim que ouvi Pe pronunciar seu nome, e foi ainda mais difícil não desmaiar ao ouvir sua voz ecoar pelas paredes.
- Cara, ainda bem que você não foi embora! – Pepe suspirou, com desespero e alívio na voz, e pude ouvir seus passos adentrando o laboratório – Eu preciso muito da sua ajuda.
- O que aconteceu? – Pe perguntou, já com um pouco mais de firmeza. Diferentemente de mim, que mal conseguia respirar, tamanho era o meu nervosismo.
- Eu estou numa encrenca enorme – Pepe disse, e eu apenas me mantive imóvel, ouvindo-o com toda a minha atenção – A Jenny quer vir morar comigo!
Deixei meus olhos fixos no pé de um dos bancos próximos a mim, sentindo uma pontada forte em meu peito.
Quem era Jenny?
- A Jenny? – Pe repetiu, surpreso – Como assim, morar com você? Ela não estava trabalhando em Leeds?
- Estava, mas eu fui visitá-la esse final de semana e ela disse que não agüenta mais viver sozinha naquela maldita cidade, que sente minha falta e todas essas idiotices de mulher – Pepe bufou, parecendo muito irritado, e surrealmente diferente do Pepe que eu conhecia – Ou seja, eu estou completamente ferrado, porque se ela vier morar comigo, provavelmente vou ter que casar! Quer dizer, enrolar uma mulher por três anos com um noivado à distância não é nada bom quando o pai dela é um militar aposentado que tem quase uma ogiva nuclear no quintal de casa! E se eu me casar com a Jenny, como vou fazer pra ficar com a Carol? Pior ainda, como vou esconder meu casamento dela?
Alguns segundos de silêncio se seguiram às palavras de Pepe, porém eu não consegui mais ouvir quando a voz de Pe surgiu. Suas palavras eram apenas sussurros, ruídos em meus tímpanos, absurdamente distantes de mim. A voz de Pepe, tão incomum à postura que ele costumava ter, ainda gritava em minha cabeça, fazendo tudo girar ao meu redor e o chão sumir sob meu corpo.
Pepe.
Jenny.
Casar.
Noivado.
De repente, eu só conhecia essas quatro palavras. Num piscar de olhos, eu só sabia pensar nessas quatro simples, e ao mesmo tempo, tão complexas palavras. Num segundo, meu vocabulário se resumiu a meras quatro palavras, que mudariam minha vida por completo. Alguns segundos de pane se passaram, sem que eu conseguisse mover um músculo ou pensar em qualquer outra coisa a não ser naquelas quatro palavras. E quando elas finalmente começaram a fazer sentido, foi como se tivessem golpeado fatalmente meu coração com uma estaca.
Pepe tinha uma noiva.
Pepe tinha uma noiva chamada Jenny.
Pepe tinha uma noiva chamada Jenny e provavelmente se casaria com ela.
Pepe tinha uma noiva chamada Jenny e provavelmente se casaria com ela sem nem ao menos me contar.
Quem era Pepe afinal? Que tipo de monstro ele era? Ele realmente me amava como fazia parecer?
Meu Deus do céu... A quem eu havia confiado meu coração durante todo aquele tempo?
Lágrimas embaçaram minha visão por completo em questão de segundos quando me vi diante de todas aquelas afirmações e dúvidas. Levei as mãos à boca para abafar um grito de horror que parecia ter entalado no enorme nó de minha garganta, e sem que eu sequer notasse, meu rosto foi lavado pelo oceano salgado que escapava por meus olhos. Grossas e pesadas gotas de minha dor líquida misturavam-se silenciosamente ao fluxo de água que já corria por minhas bochechas, enquanto eu aos poucos compreendia o que havia acabado de descobrir.
Enquanto eu o considerava minha prioridade... Para Pepe, eu sempre fui e sempre seria a outra.
- Desculpa ter aparecido assim do nada, mas é que eu realmente tô desesperado – a voz de Pepe voltou a falar, após o que me pareceram longos minutos de silêncio, mas que na verdade só haviam sido mudos em minha percepção – A gente se fala mais amanhã, e por favor, pensa em alguma coisa que possa me ajudar, eu imploro!
- Pode deixar, cara, e vê se fica calmo – Pe disse num tom convincentemente tranqüilo, provavelmente após uma boa desculpa para dispensar o amigo – Amanhã eu falo contigo.
Os passos de Pepe ficaram cada vez mais distantes, até que a porta se fechou e eu ouvi a chave girar na fechadura. Meus olhos encharcados ainda mantinham-se fixos no mesmo banco, arregalados e vazios, e as lágrimas ainda escorriam por eles sem controle, quando Pe preencheu o espaço antes vazio de minha visão periférica. Mesmo sem olhá-lo, pude perceber seu susto e hesitação ao me ver naquele estado de choque, e sua voz não demorou a me chamar num tom preocupado.
- Caah?
Levei alguns segundos para conseguir reagir, e quando finalmente o torpor parecia estar se esvaindo lentamente de meu corpo, fui capaz de desviar meu olhar estarrecido até o dele. E bastou que os olhos de Pe entrassem em foco para que eu simplesmente desabasse.
- Carol, o que aconteceu? – ele perguntou, assustado, chegando até mim em passos largos e agachando-se à minha frente. Ele tomou minhas mãos fracas nas suas, enquanto eu apenas deixava o choro escapar por meus olhos e os soluços que eu até então prendia fugirem por minha garganta. A dor era tão intensa e se alastrava tão rapidamente por meu corpo que este se contraiu por inteiro, tentando lutar contra aquele sentimento pavoroso que o dominava. Senti os braços de Pe me envolverem, puxando-me para mais perto de si, porém eu não fui capaz de retribuir seu abraço; sua voz sussurrava palavras que soaram ininteligíveis aos meus ouvidos, e eu simplesmente não conseguia encontrar minha voz para respondê-lo. Por um tempo que fui incapaz de calcular, permaneci inerte, sem sequer me preocupar com fatores básicos como respirar. As lágrimas continuavam a cair, mas todo o resto parecia estar retesado, imobilizado.
- Por favor, me responde – Pe pediu baixinho, aflito, e afastou-se de mim para poder examinar meu rosto lavado de lágrimas. Seus olhos demonstravam todo o pânico e dor que meu estado lhe transmitia, e a tortura neles doeu em mim.
- Pe... – murmurei apenas, agarrando seu jaleco, puxando-o para perto de mim novamente e afundando-me em seu abraço.
- Eu estou aqui, está tudo bem – ele sussurrou, apertando-me com força contra si – Ele já foi embora, não desconfiou de nada...
Um soluço dolorido escapou por entre meus lábios e meus olhos se fecharam fortemente à menção de Pepe, assim como meu corpo se encolheu subitamente. Obviamente, Pe percebeu minha reação, e após alguns segundos em silêncio, finalmente deduziu o motivo de meu comportamento destruído.
- Você não sabia sobre a Jenny.
Senti o choro intensificar-se, e balancei negativamente minha cabeça sobre seu ombro. Pe levou alguns segundos para voltar a falar, completamente desnorteado diante de sua descoberta.
- Meu Deus... – ele murmurou, chocado, e eu apertei ainda mais meus braços ao redor de seu pescoço, sentindo-o puxar-me para seu colo – Ele nunca te contou?
Repeti meu gesto com a cabeça, deixando que minhas lágrimas inundassem o tecido de seu jaleco, e novamente ficamos em silêncio por alguns segundos, sem saber o que falar.
- Por que você nunca me contou? – perguntei baixinho, reunindo o pouco de oxigênio que existia em meus pulmões, porém sem agressividade ou mágoa. Não era obrigação dele me dizer nada a respeito do noivado de Pepe.
- Eu sempre achei que ele tivesse te contado – ele respondeu, com a voz nitidamente desorientada – E que você tivesse aceitado ser sua amante.
Levei alguns segundos para me recuperar do emprego da palavra amante para me definir, e respirei fundo antes de continuar.
- Não... Ele nunca me disse nada.
- Me desculpa, Caah – ele pediu, afastando-se novamente de mim para poder me olhar, e suas mãos seguraram gentilmente meu rosto, erguendo-o até o dele – Eu não sabia que ele estava te enganando desse jeito. Eu devia ter te contado, eu já devia saber que você não aceitaria uma condição dessas... Nossa, aquele filho da puta vai sofrer na minha mão, você vai ver, eu não vou deixar as coisas ficarem assim, mas não mesmo...
- Pelo amor de Deus, Pe, você não vai fazer nada – o interrompi, assustada ao ver a fúria crescer nos olhos dele – Não vamos nos precipitar.
- Ele não pode sair ileso, Carol, eu não vou permitir uma coisa dessas! – Pe exclamou, franzindo a testa com a expressão nitidamente enraivecida – Olha o que ele fez com você! Ele mentiu desde o começo!
- Eu vou terminar tudo com ele amanhã mesmo – solucei, sentindo a surpresa lentamente ceder cada vez mais lugar à dor e à revolta dentro de mim – Você não vai precisar sujar suas mãos por minhas causa.
- Eu não sei se tenho todo esse sangue frio – ele respirou fundo, com os olhos coléricos disfarçados sob uma fina camada de autocontrole, e logo em seguida os fechou – Me dá nojo só de te imaginar perto dele outra vez.
- Ninguém quer mais distância dele do que eu, acredite – falei, cobrindo meu rosto com as mãos ao sentir o choro voltar a se intensificar – Mas eu não posso simplesmente fingir que ele não existe mais... Não sem antes desfazer nosso compromisso.
Pe não disse nada por alguns segundos, apertando seu abraço em minha cintura e beijando a curva de meu pescoço. Fechei meus olhos com força, tentando conter minhas lágrimas, e pude ouvi-lo sussurrar determinadamente contra minha pele:
– Ele vai ter o que merece... Pode apostar.
- Eu quero ir pra casa – foi tudo que consegui murmurar, sentindo meu choro se intensificar novamente, e precisando apenas do meu quarto e de meu recanto de paz particular. Eu já estava sofrendo o suficiente, não queria fazê-lo sofrer comigo, muito menos desperdiçar seu tempo chorando em seu ombro.
- Eu te levo – ele se prontificou, levantando-se comigo em seu colo agilmente – Não vou te deixar ir a pé sozinha nesse estado.
- Não... As pessoas vão nos ver – soprei, com o rosto na curva de seu pescoço, já sentindo meu peito doer de tanto chorar.
- Foda-se – ele disse tremulamente, passando por sua mesa para pegar sua mochila, e num segundo estávamos a dois passos da porta do laboratório.
- Me põe no chão pelo menos – relutei, afastando meu rosto de seu pescoço com um fungado baixo – Eu estou bem, de verdade.
Pe atendeu ao meu pedido após alguns segundos de ponderação, colocando-me de pé com cuidado, porém manteve suas mãos em meus cotovelos, apoiando-me caso eu tivesse uma tontura.
- É claro que você não está bem, tem certeza de que quer andar? – ele perguntou, escorregando uma de suas mãos até encontrar a minha, e eu assenti devagar – Podemos fingir que você torceu o tornozelo ou algo do tipo e eu te carrego até o carro.
Não consegui responder, sentindo seu amparo me reconfortar minimamente; se não estivesse tão destruída por dentro, o teria agradecido, porém tudo que consegui fazer foi negar sua proposta com um leve aceno de cabeça, fazendo uma lágrima escorrer pelo canto de meu olho. Pe me olhou com profunda preocupação, e segurou gentilmente meu rosto com uma de suas mãos, levando seus lábios até a gota salgada e enxugando-a rapidamente. Não foi preciso dizer nada; eu sabia que ele estava comigo, e seus olhos já me diziam que ele me amava de uma maneira muito mais intensa e verdadeira que palavras seriam capazes de expressar.
Ele destrancou a porta do laboratório, entrelaçando nossos dedos e apertando-os com firmeza, e eu respirei fundo antes de sair, enxugando meu rosto com a mão livre e me concentrando para conter o fluxo de lágrimas por alguns minutos, o que me parecia absurdamente impossível. Pe me deu passagem para sair primeiro, após uma breve olhada no corredor vazio, e eu, temendo desmontar sobre minhas pernas trêmulas, deixei o laboratório, olhando para meus próprios pés enquanto ele trancava a sala da qual havíamos acabado de sair. Conforme o barulho das chaves colidindo no molho ecoava pelo corredor, tive a impressão de que o ruído estava sendo acompanhado por outro som vindo dos degraus, que meus ouvidos não tiveram rapidez suficiente para reconhecer a tempo.
Porém, quando eu finalmente entendi o que ele significava, já era tarde demais.
Minha cabeça rapidamente virou-se na direção do som de sapatos se chocando contra os degraus, assim como a de Pe, e uma fração de segundo depois, um par de olhos castanhos retribuiu nossos olhares assustados. Com o mesmo choque com o qual o encarávamos.
Foi como se o chão tivesse simplesmente sumido em um piscar de olhos.
Bem à nossa frente, a cinco passos de distância, Pepe nos encarava com a expressão surpresa.
Meu maior temor, meu pior pesadelo, havia enfim, se tornado realidade.
Minha cabeça parecia estar dentro de um liquidificador quando meu olhar encontrou o dele. Os dedos de Pe se fecharam com força entre os meus, como se ele soubesse que eu seria capaz de desfalecer a qualquer segundo. Porém, sua força foi inútil; minhas pernas vacilaram perigosamente para baixo, mas num último esforço, eu me mantive de pé, disfarçando meu equilíbrio prejudicado. Eu tinha que ficar consciente. Eu não podia me permitir ser tão fraca, não num momento como aquele, por mais que tudo que eu quisesse fosse simplesmente apagar.
- Carol? – a voz falha de Pepe pronunciou meu nome, fazendo jus à sua expressão perplexa – O que... O que você tá fazendo aqui?
Meus pulmões pareciam completamente vazios, causando-me uma falta de ar insuportável, porém era como se eu os fosse explodir se inspirasse. Tudo ao meu redor girava a uma velocidade alucinante, fazendo com que apenas Pepe se mantivesse parado à minha frente enquanto todo o resto rodopiava, transformando-se em borrões coloridos e desnorteando-me por completo.
- Pe, o que está acontecendo? – ele voltou a falar, demorando a desviar seu olhar do meu para encarar o amigo – Alguém pode me explicar o que...
Sua voz, já um pouco mais alta que o habitual, subitamente cessou quando ele finalmente encontrou a resposta muda às suas dúvidas. O assombro percorreu seu rosto por alguns segundos, fazendo-o soltar todo o seu ar de uma única vez e contorcer seus traços em uma compreensão indesejada.
Meus dedos, firmemente entrelaçados aos de Pe, o fizeram entender o que estava acontecendo todo o tempo, bem debaixo de seu nariz.
- Pepe, calma – Pe pediu, com a voz determinada, porém assim que ele fez menção de continuar, foi bruscamente interrompido.
- Calma? – Pepe exclamou, encarando-o com olhos vidrados e gradativamente homicidas – Por que eu deveria ficar calmo ao ver você de mãos dadas com a minha namorada?
- Porque não é ele quem está segurando minha mão – pude ouvir minha própria voz dizer, estrangulada, fazendo com que Pepe transferisse seu olhar colérico até mim – Eu estou segurando a mão dele.
Seus olhos castanhos continuaram me fitando com horror por alguns segundos, como se testassem minha capacidade de encará-lo. Não consegui fitá-lo por muito tempo, e logo voltei a olhar para o chão, sentindo mais lágrimas se formarem. Após minhas recentes descobertas sobre Pepe, meus sentimentos por ele haviam mudado da água para o vinho, mas ainda assim não era daquele jeito que as coisas deveriam estar acontecendo. Pe não deveria ter sido envolvido em nenhum momento de meu acerto de contas com Pepe.
- Então... Você acabou de dizer que está me traindo, Carol? – Pepe perguntou entre dentes, e eu fechei os olhos, me sentindo um monstro ao ouvir sua voz trêmula sintetizar nossa situação – E ainda por cima com o meu melhor amigo?
- Não aja como se ela fosse a única errada nessa história – Pe interveio, com a voz grave, e um soluço baixo escapou por entre meus lábios – Suas atitudes também não foram das mais nobres com ela.
- Não foram das mais nobres? – Pepe repetiu, e mesmo sem olhá-lo, senti a ironia em seu tom – Por acaso eu fui um mau namorado? Por acaso eu deixei de dar o que ela queria em algum momento?
- Você não pode estar falando sério – sussurrei, sem conseguir conter minha raiva diante de sua postura, fechando meus olhos com mais força – Esconder uma noiva por todos esses meses lhe parece uma atitude nobre?
- Noiva? Que noiva? – Pepe questionou, tentando isentar-se da culpa, e Pe logo fracassou suas expectativas.
- Ela nos ouviu conversando sobre a Jenny agora pouco, não adianta tentar negar. Assuma seus erros, Munhoz, assim como estamos assumindo o nosso.
- Isso não muda nada – Pepe disse após alguns segundos de silêncio, e eu senti uma dor lancinante percorrer todo o meu corpo ao ouvir sua confissão – Ela não sabia de nada antes de me trair, e aposto que não pensou duas vezes antes de me apunhalar pelas costas, não é, sua vadia?
- Cala a boca – Pe rosnou, com a respiração cada vez mais pesada, e eu ergui meus olhos vermelhos e molhados até encontrar os de Pepe.
- Cala a boca você, Lanza! – ele retrucou num volume alto, aproximando-se de mim com um olhar neurótico, e parou a um passo de distância – Ela é uma vadia mesmo, e é assim que vadias merecem ser tratadas!
Antes que Pe pudesse abrir a boca mais uma vez, a mão forte de Pepe voou na direção de meu rosto, dando-me um tapa ardido e doloroso que me fez cair a alguns passos de distância dos dois.
- Qual é o seu problema, seu merda? – Pe exclamou, empurrando Pepe pelo peito, e eu prendi um grito de dor, engolindo meu choro desesperado e sentindo gosto de sangue em minha boca. O lado agredido de meu rosto pareceu inchar e latejar imediatamente, e toda a dor só aumentava a cada segundo, porém eu não ousei fechar meus olhos ou derrubar uma lágrima. Eu havia errado e merecia um castigo por isso.
- Sua puta! – Pepe xingou, apontando para mim, e eu me levantei rapidamente, vendo Pe avançar cada vez mais para cima dele – Vadia, piranha, biscate!
- Você mentiu pra mim desde o começo, Pepe – falei, balançando negativamente a cabeça e encarando-o com tristeza, ainda sem acreditar que ele havia realmente sido capaz daquilo – Você sempre me enganou... Por quê?
- Porque eu amo você! – ele exclamou, com a testa pesadamente franzida, e duas grossas lágrimas caíram de seus olhos – Eu amo você, sua maldita! Como você foi capaz de fazer isso comigo?
- Você me ama? – repeti, cerrando os olhos e sentindo minha barreira invisível contra as lágrimas aos poucos ceder – Se me amasse de verdade, teria me contado.
- Foi exatamente por isso que eu nunca te contei! – ele disse, contorcendo o rosto em tristeza e deixando ainda mais nítido que estava chorando – Eu sabia que você jamais aceitaria ficar comigo se soubesse!
- E por isso a enganou? Você realmente achou que esse seu plano funcionaria para sempre? – Pe perguntou com fúria na voz, ainda mantendo uma postura ameaçadora diante de Pepe – Foi muita imaturidade sua, Pedro!
- Quem é você pra me falar de maturidade, Pe? – Pepe retrucou, encarando-o com ódio e dando um passo em sua direção – Olha o que você foi capaz de fazer comigo!
- Nada que você não merecesse! – Pe cuspiu, e assim que o punho de Pepe avançou na direção dele, um grito de pavor escapou por minha garganta.
- Não!
Lancei-me na direção de Pe, segurando em seu braço e puxando-o para trás antes que fosse golpeado. Por pouco o punho de Pepe não o acertou, e eu segurei firme no braço de Pe para que ele não tentasse revidar a agressão.
- Eu vou matar você! – Pepe o ameaçou, avançando em nossa direção, e antes que ele se aproximasse muito, Pe, cego de ódio, desvencilhou-se de mim e o empurrou novamente, dessa vez derrubando-o no chão.
- Some da minha frente antes que eu te mate! – ele urrou, mantendo contato visual com Pepe por alguns segundos até que este se levantou e desviou seu olhar repleto de ira até o meu.
- Eu ainda não acabei com você – ele murmurou, novamente apontando em minha direção, e o tom psicopata em sua voz me arrepiou da cabeça aos pés – Pode esperar... Nós ainda vamos acertar nossas contas.
- Some daqui, Munhoz! – Pe gritou, apontando para as escadas, e após mais alguns segundos me encarando, Pepe deu meia volta e desceu rapidamente os degraus. Pe e eu continuamos paralisados por um tempo, apenas encarando o espaço vazio antes ocupado por Pepe, sem saber como reagir. Minhas pernas tremiam assustadoramente, e assim que minha mente compreendeu que a ameaça imediata de perigo já havia ido embora, a dor física e emocional começou a se manifestar com toda a sua intensidade, fazendo com que meus joelhos cedessem ao meu peso. Porém, antes que eu caísse, as mãos de Pe envolveram meus braços com firmeza, mantendo-me de pé.
- Calma, calma – ele soprou, puxando-me para si e afundando-me em seu abraço – Vai ficar tudo bem, eu prometo.
Tentei abrir a boca para dizer que não, mas não consegui. Eu sabia que nada ficaria bem dali em diante, e que todas as minhas certezas seriam apenas lembranças muito em breve. Pepe faria de minha vida um inferno, espalharia para quem quisesse ouvir o que aconteceu entre nós, mancharia minha imagem e me prejudicaria de todas as maneiras que lhe fossem possíveis.
- Vem, vamos cuidar de você – Pe sussurrou, desfazendo nosso abraço e me guiando até a porta do laboratório outra vez. Ele rapidamente destrancou-a para que entrássemos, e logo em seguida voltou a trancá-la, dando-nos total segurança. Meu corpo estava completamente mole, inerte, sem forças para realizar qualquer movimento. A dor em meu rosto ficava mais forte a cada segundo, mas na realidade era sua causa moral quem a fazia latejar. Eu já havia tido vários pesadelos com aquele momento, mas nunca imaginei que eles fossem se concretizar daquela maneira tão inesperada e cruel.
- Senta aqui – ele pediu, erguendo-me do chão e colocando-me sobre a bancada. Seus olhos pairaram sobre o lado agredido de meu rosto por alguns segundos, e um suspiro escapou por entre seus lábios, denunciando que os dedos de Pepe provavelmente haviam ficado marcados ali. Nada que eu não merecesse.
- Eu sou um monstro – solucei, sem sequer conseguir encará-lo, e ele colocou suas mãos delicadamente em meu rosto, sem tocar a parte afetada – Ele tem razão em tudo que disse sobre mim.
- Não, Carol, ele está errado – Pe sussurrou, erguendo meu rosto sutilmente para que eu não tivesse como fugir de seu olhar – Você sempre se preocupou com ele, apesar de tudo, enquanto ele te enganou de propósito por todo esse tempo... Pra mim, ele é o monstro, não você.
Balancei negativamente a cabeça e fechei os olhos com força, sem conseguir respirar e sentindo meu choro se intensificar a cada vez que os olhos de Pepe voltavam à minha mente.
- Me escuta – ele insistiu, enxugando minhas lágrimas com cuidado e me olhando com determinação – Se existe algum culpado nessa história toda, essa pessoa sou eu. Se você está nessa situação hoje, a culpa é inteiramente minha. Eu te persuadi a ficar comigo, eu fui inescrupuloso ao te querer pra mim mesmo sabendo que você já estava com ele...
- Não, Pe – gemi baixinho, segurando suas mãos e erguendo meus olhos até os dele – Eu sou a culpada...
- Claro que não! – ele persistiu, aproximando seu corpo do meu e franzindo levemente a testa, como se estivesse sofrendo comigo – Se você quiser, eu posso ir atrás dele e dizer que foi tudo culpa minha, e que eu te chantageei para poder ficar com você...
- Você não vai fazer um absurdo desses – o interrompi, horrorizada com seus pensamentos errôneos – Não há nada que possamos fazer... Nada vai mudar o que aconteceu.
Ele apenas me encarou, soltando um suspiro derrotado, e seu olhar triste sustentou o meu por alguns segundos, até que seus braços envolveram minha cintura delicadamente. Afundei meu rosto em seu peito, sentindo as lágrimas caírem livremente por ele, e fechei fortemente os olhos, sentindo meu coração se contorcer de dor. Ergui meu rosto para poder observar o dele, e minha bochecha machucada roçou seu peito com certa força, fazendo com que uma dor pulsante encolhesse meu corpo de imediato.
- É melhor eu pegar algo gelado pra colocar aí - Pe disse, se afastando de mim, e eu pude ver tristeza em seus olhos ao fitar meu rosto dolorido. Respirei fundo, encarando o espaço vazio onde antes ele estava por um tempo, mas que logo foi ocupado por seu corpo novamente.
Pe sorriu fraco, porém sem alegria nenhuma, e me estendeu uma luva de plástico com alguns cubos de gelo dentro e uma carinha feliz desenhada nela. Fitei o sorriso disforme que ele havia improvisado sem que eu sequer me desse conta, e mesmo me sentindo horrível, um sorrisinho triste surgiu em meu rosto.
– Vamos esperar até você se acalmar um pouco e eu te levo pra casa, está bem? – ele murmurou, afastando algumas mechas de cabelo de meu rosto, e eu assenti fracamente. Coloquei a luva sobre meu rosto e fechei os olhos ao sentir o efeito da baixa temperatura em contato com minha pele.
- Estou com medo de ir pra casa – sussurrei após longos segundos de silêncio, vendo-o me olhar em dúvida – Não vou conseguir esconder de minha mãe.
- Quer ir pra minha então? – ele perguntou baixo, inclinando um pouco a cabeça para o lado, e eu pensei por alguns segundos antes de negar fracamente – Por que não? Vai ser bom poder cuidar de você.
- Eu estou bem – murmurei, desviando meu olhar do dele e engolindo a tristeza presa em minha garganta com toda a força que encontrei, para que ele não se preocupasse tanto comigo – Só preciso ficar sozinha um pouco.
- Tudo bem... Mas por que você mente pra mim? – ele indagou, ajeitando carinhosamente meus cabelos para que eles se comportassem atrás de minha orelha e fazendo minhas lágrimas silenciosas voltarem a cair – Tudo que eu quero é cuidar de você agora.
- Eu não gosto de compartilhar minhas dores – falei com a voz contida, voltando a encarar seus olhos, agora ainda mais escuros que de costume – Prefiro assim... Não quero que as pessoas sintam pena de mim.
- Eu não sinto pena de você – Pe disse, encarando-me com seriedade – Eu gosto de sentir o que você sente... Mesmo que seja dor. Sabe, isso me faz bem. Me faz sentir um pouco menos frio por dentro.
Soltei um suspiro fraco, e fechei meus olhos por um momento antes de voltar a fitá-lo. Ele não podia ser real.
- Você não é frio por dentro – o corrigi baixo, entrelaçando meus dedos nos dele inconscientemente e sentindo meu rosto completamente lavado de lágrimas.
- Eu era – ele suspirou, olhando para nossas mãos unidas, e havia um certo tom de confissão em sua voz – Mas você tem me ajudado bastante nisso.
Minha mão havia relaxado inconscientemente, e o contato repentino de sua pele quente contra a minha já um pouco mais gelada me arrepiou de leve conforme ele voltava a ajeitar a luva sobre meu rosto com um sorrisinho compreensivo, porém ainda muito triste. Tudo que consegui fazer foi continuar chorando silenciosamente e apertar seus dedos entre os meus.
- Digamos que você é minha pequena faísca de felicidade – ele murmurou com a voz e o olhar baixos – E eu não vou deixar que suas lágrimas te apaguem.
Não consegui responder nada, sentindo mais lágrimas se formarem, porém dessa vez, havia um mísero fio de alegria nelas. Pe soltou um risinho de deboche, envergonhado, e eu selei nossos lábios com carinho, segurando seu rosto com a mão livre e acariciando sua pele com meus polegares. Ele chegou mais perto, envolvendo minha mão que segurava a luva para que ela não saísse do lugar, e afastou nossos lábios, mantendo seu rosto muito próximo.
- Não vai embora, por favor... Não agora – funguei, sendo involuntariamente infantil, e ele deu um sorriso adorável – Eu preciso muito de você, agora mais do que nunca.
- Eu não estava indo a lugar algum – ele soprou contra meus lábios enquanto eu o abraçava pelo pescoço com o braço desocupado – Nem agora, nem depois.
Sem, palavras diante das dele, levei alguns segundos para conseguir sorrir fraco, admirada com sua atitude. Pela milésima vez naquele dia.
- Desse jeito eu não vou parar de chorar – confessei, respirando fundo e contendo minhas emoções afloradas.
- Ah, não, chega de chorar – ele pediu fazendo uma careta, e se afastou de mim – Vem, eu vou te levar pra casa. Você precisa descansar.
Concordando e agradecendo-o mentalmente, assenti, descendo da bancada com uma certa ajuda dele, e lhe entreguei a luva já morna para que ele a jogasse fora. Enquanto ele o fazia, fitei a porta do laboratório, sentindo meu coração acelerar só de pensar em sair. Tudo o que eu queria no momento era distância daquele lugar, porém a idéia de atravessar aquela porta novamente me parecia extremamente assustadora.
- Caah? – a voz de Pe me acordou de meu rápido devaneio, e quando o olhei, vi que ele já estava parado perto da porta, com minha mochila em suas costas – Tudo bem?
Confirmei rapidamente, soltando um suspiro baixo, e ele abriu a porta do laboratório, saindo primeiro e esperando que eu o fizesse para trancar a sala. Descemos as escadas o mais normalmente possível, apesar da leve tremedeira em minhas pernas, e caminhamos até a rua em silêncio, deparando-nos com o Porsche de Pe do outro lado da rua. A vaga de Pepe, que sempre estacionava a poucos metros dali, estava vazia, o que significava que ele já havia ido embora. Repreendi minha própria mente ao retornar suas atenções para ele, e desviei meu olhar do espaço vazio no acostamento. Entrei no carro pelo lado do carona, sem me preocupar muito por estar sendo vista, já que não havia mais ninguém na porta do colégio a não ser as poucas pessoas que passavam pela rua, e pus o cinto de segurança.
Pe fez o mesmo em silêncio, colocando minha mochila no banco traseiro, e logo arrancou com o carro, ganhando velocidade facilmente e fazendo com que uma leve brisa batesse em meu rosto quando abriu um pouco meu vidro. Abaixei meus olhos até que eles fitassem meus joelhos e inconscientemente me perdi no silêncio do carro, absorta numa espécie de retrospectiva de todos os acontecimentos recentes.
A dor voltou a me preencher aos poucos, subindo por minhas pernas e dominando meu interior, como um veneno letal escalando meu corpo.
Fechei meus olhos com força, tentando evitar que as lágrimas neles caíssem, mas foi em vão. Virei meu rosto para a janela, sem querer que Pe percebesse minha recaída, porém assim que o fiz, sua mão envolveu a minha. Me mantive imóvel, sentindo-o apertar de leve meus dedos entre os seus, e um soluço baixo escapou por entre meus lábios.
- Eu não gosto de te ver chorando – ele murmurou, com a voz baixa e compreensiva – Mas acho que pra quem guarda tantas preocupações só pra si... Faz bem desmoronar de vez em quando.
Funguei baixo, sentindo meu choro se intensificar com suas palavras, e fitei nossas mãos unidas por alguns segundos, sem saber como encará-lo. O carro parou num sinal vermelho e Pe acariciou as costas de minha mão com seu polegar, suspirando baixo e fitando vagamente algum ponto à frente. Eu sabia que ele também havia sido duramente afetado por tudo que havia acontecido, e sabia que levaria algum tempo até que absorvêssemos todas aquelas emoções. Ergui meus olhos vermelhos até ele, me sentindo a pior pessoa do mundo por fazer duas pessoas sofrerem por atitudes erradas minhas, cujas conseqüências amargas somente eu deveria sentir, e o vi me olhar de volta, sério e inexpressivo. Apenas digerindo os fatos.
E por todo o trajeto até minha casa, prosseguimos naquele mesmo silêncio. Não havia muito mais a ser dito; nossas mentes e corações estavam entorpecidos e doloridos demais para que soubéssemos o que dizer um ao outro.
- Obrigada pela carona – murmurei quando ele estacionou em frente à minha casa.
- Se precisar conversar... Bem, você tem meu número, e em hipóteses mais drásticas, sabe meu endereço – ele sorriu fraco, erguendo meu rosto até que pudesse me encarar – E não se preocupe com o horário, eu adoraria acordar pra falar com você.
- Obrigada – repeti, sem saber o que mais dizer. Ele estava sendo totalmente carinhoso e preocupado comigo... O que mais eu poderia fazer naquele momento a não ser agradecê-lo?
- E cuide do seu rosto... Já está bem melhor, mas ainda deve estar doendo – Pe recomendou, analisando a parte levemente inchada de minha bochecha, e logo em seguida desviando seu olhar até o meu como se ver a fraca vermelhidão em minha pele lhe transferisse minha dor – Me desculpe por não ter evitado isso.
- Eu não aceito que você me peça desculpas por isso – falei, engolindo minha crescente e incessante vontade de chorar – Eu mereci.
- Se alguém aqui merece apanhar, sou eu – Pe negou com a voz grave, encarando-me com seriedade – Mas não vou falar disso agora... Você deve estar com a cabeça explodindo.
- Eu estou bem, Pe – suspirei, mas ao vê-lo me repreender com o olhar, reformulei minha frase – Eu vou ficar bem. Não se preocupe.
- Eu odeio quando você mente – ele fechou os olhos por alguns segundos, respirando fundo, porém logo voltou a me olhar e aproximou seu rosto do meu, dando-me um selinho – Descanse bastante, e cuide direitinho desse rosto, porque ele é meu, entendeu?
Assenti fraco, sentindo a respiração dele se misturar à minha, e com um carinho gostoso em meu queixo, ele voltou a unir nossos lábios, dessa vez aprofundando o beijo e fazendo-me esquecer qualquer dor por alguns segundos.
- Eu te amo – Pe soprou baixinho, após incontáveis segundos apenas sentindo a respiração um do outro – Não se esqueça disso.
- Eu não vou esquecer – falei, abrindo meus olhos e encontrando os dele muito próximos. Ele sorriu fraco e voltou lentamente à sua posição ereta em seu banco, pegando minha mochila no banco de trás. Saí do carro, ajeitando as alças da mochila em meus ombros e caminhando lentamente até minha casa. Não olhei para trás; vê-lo ir embora não costumava me fazer bem, mesmo sabendo que não poderíamos estar mais unidos do que naquele momento.
Tranquei a porta atrás de mim e me deparei com a casa vazia. Mamãe estava trabalhando, o que era bom e ruim ao mesmo tempo. A solidão me asfixiava em certos momentos. O silêncio me ensurdeceu de imediato, mergulhando-me na agonizante realidade. As lágrimas voltaram aos meus olhos, tão dolorosas quanto antes, e tudo que pude fazer foi subir correndo as escadas, trancar-me em meu quarto e atirar-me em minha cama, enterrando meu rosto no travesseiro.
Eu era um turbilhão de sentimentos angustiantes por dentro. Revolta, remorso, culpa, dor. Mas principalmente medo.
Eu estava com muito, muito, muito medo. Tanto medo que eu tinha até medo de explodir por sentir tanto medo. Um medo monstruoso estava presente em cada milímetro de mim.
E meu medo não era somente por mim. Havia outra pessoa pela qual eu tinha medo, talvez até mais medo por ela do que por mim mesma.
Eu sabia que Pepe daria um jeito de me separar de Pe... O jeito mais cruel e sádico possível.
E era justamente por isso que eu tinha medo. Muito, muito medo do que ainda estava por vir.
Capítulo 33
Meu despertador tocou, anunciando as seis horas da manhã de mais um dia letivo. Até mesmo seu som propositalmente estridente parecia intimidado com a atmosfera densa que me rondava, e como que num gesto de compaixão desmerecida ou até mesmo pena, tocava com menos escândalo que o habitual naquela manhã. O que veio a calhar, já que eu não precisava de nada para me manter acordada.
Meus olhos estavam escancarados desde que me lembrava de ter deitado, fixos agora no dia que amanhecia e refletindo os tímidos raios solares que invadiam meu quarto. Minhas pálpebras ardiam levemente devido às lágrimas que haviam secado ao redor delas, as quais eu não me dei ao trabalho de enxugar. Soltei um suspiro fraco, fechando meus olhos insones por alguns segundos. Apesar do cansaço mental que fazia minha cabeça pesar o triplo do normal, as horas de reflexão haviam ajustado algumas idéias e estabelecido alguns fatos que eu me negava a aceitar há algum tempo. Pela primeira vez desde que tudo acontecera, eu estava sendo totalmente franca e objetiva comigo mesma.
Talvez tudo tivesse acontecido no momento certo. Talvez minhas suspeitas fossem concretas e eu já não amasse mais Pepe como antes.
Quer dizer... Se eu o amasse, ainda deveria estar doendo muito, não deveria?
Então por que eu só conseguia sentir um... Vazio? Era como se tivessem colocado uma pedra de gelo dentro do meu peito, porém ela não doía. Ela apenas... Gelava tudo ao seu redor. Entorpecia os órgãos próximos, anestesiava qualquer tipo de dor que eu pudesse sentir, quando na verdade sua existência a deveria estar causando. Tudo ainda estava estranho demais dentro de mim para que eu conseguisse me definir com exatidão, mas uma noite em claro me permitiu enxergar certos pontos em meio ao breu que se instalara em minha mente.
Eu já não o amava mais, mesmo antes de descobrir sobre Jenny. Apesar de meus receios diante dessa constatação, de meu medo de me desprender de algo que fora uma verdade absoluta para mim por tanto tempo, minha ausência de sentimentos em relação a ele agora era uma certeza.
Não era como se eu precisasse de muito esforço para apagar as imagens de Pepe com outra mulher de minha mente. Se Pe não tivesse surgido, eu estaria agonizando naquele momento, sem dúvidas. Mas devido às mudanças drásticas em minha vida, agora eu podia dizer que até aceitava o fato de Pepe amar outra mulher. Eu apenas não aceitava a parte de ele ter me enganado a respeito disso.
Eu queria sentir raiva por ter sido enganada, mas não havia nada formigando em minha garganta. Eu queria sentir vontade de chorar só de pensar nele com ela, enquanto eu sonhava com nosso futuro, mas meus olhos simplesmente se mantiveram secos ao visualizarem tal cena. Eu queria sentir alguma coisa... Mas, por mais que eu tentasse, só havia ele.
O vazio.
- Filha? – ouvi a voz baixa de minha mãe chamar da porta, e apenas dirigi meus olhos até seu rosto carinhoso – Como você tá?
Funguei baixo, só então me dando conta de que o despertador ainda tocava, e o desliguei, vendo mamãe caminhar até mim. Ela se sentou ao meu lado na cama, e colocou a mão suavemente sobre minha testa, verificando minha temperatura. Mães e sua eterna proteção desmedida.
- Não sei – murmurei, encarando-a com inexpressividade – Igual, eu acho.
- Tem certeza de que não quer me contar o que aconteceu? – ela perguntou, aflita, acariciando meu rosto, e eu neguei com a cabeça – Por favor, querida... Quem sabe eu possa te ajudar.
- Vai ficar tudo bem, é só uma TPM meio exagerada – recusei, esboçando um sorriso que mais deve ter parecido uma dor de barriga – Eu ando meio pressionada na escola, aí acaba juntando tudo e dá nisso.
- Pressionada como? – mamãe quis saber, mexendo em meus cabelos devagar – Você sabe que eu não exijo que você seja uma aluna exemplar, por mais que você seja...
- Eu sei – a tranqüilizei, desejando mais do que tudo poder desabafar com ela e ter seu apoio, mas o medo da reação contrária me impedia – Eu mesma acabo me pressionando, é coisa minha. É sério, daqui a pouco passa.
Ela soltou um suspiro, olhando para o despertador sobre o criado-mudo, e fez a pergunta que eu mais queria ouvir.
- Quer faltar hoje?
Fingi ponderar sua proposta, encarando os números do despertador digital, e fechei os olhos, assentindo após alguns segundos.
- Por favor, mãe – falei, agradecendo-a mentalmente com fervor – Prometo que vai ser só hoje.
- Tudo bem, filha... O ano letivo já está acabando mesmo – ela sorriu, dando um beijinho em meu rosto – Durma mais um pouco, fique o dia todo jogada no sofá comendo besteiras, depois chame a Manuela se quiser... Relaxe por hoje, tá?
- Obrigada – eu disse, sorrindo fraco pra ela e recebendo uma mordidinha na bochecha.
- De nada, meu amor – ela murmurou, falando de um jeito que me fez sentir uma criança de dois anos, dando um beijo estalado em meu rosto e se afastando logo em seguida – Bom... Eu preciso trabalhar. Qualquer coisa me ligue, está bem?
Assenti, sorrindo e mandando beijo ao vê-la se levantar e deixar o quarto. Suspirei baixo, esfregando o rosto com minhas mãos, e alguns segundos depois, ouvi um barulho estranho sobre o criado-mudo. Olhei na direção do som e vi o visor de meu celular aceso, enquanto ele vibrava sobre a superfície da mesa e uma música começava a se tornar gradativamente audível. Peguei-o sem muito ânimo, e vi que alguém estava me ligando.
- Alô? – murmurei, rouca, e a voz do outro lado da linha fez uma pontada de conforto surgir em meu peito.
- Bom dia – Pe sorriu, e uma saudadezinha idiota me fez sorrir junto imediatamente – Te acordei?
- Não – respondi, sentindo uma chama se acender dentro de meu peito, porém a pedra de gelo parecia quase imune ao seu calor – Bom dia pra você também. Como você está?
- Me diga você – ele falou, e eu suspirei baixinho – Como estamos?
- Não sei dizer – fui sincera, e minha voz denunciou o vazio em meu interior. Como ele conseguia arrancar tudo de mim com apenas algumas palavras?
- Não gostei muito dessa resposta – ele suspirou, parecendo preocupado – Eu queria muito te ver hoje, mas não queria que você fosse à escola.
- Eu não vou – eu disse, observando a brisa brincar levemente com a cortina, e um milésimo de segundo depois, uma idéia maravilhosa me ocorreu – Você pode vir aqui mais tarde, se quiser.
- Sua mãe vai estar trabalhando? – ele perguntou, certificando-se de que nada poderia dar errado em minha sugestão – Até que horas?
- O turno dela é até as oito hoje – respondi, aprovando a idéia de passar a tarde com ele – Você pode ficar aqui comigo enquanto ela não chega.
- Era tudo que eu queria ouvir – Pe disse num tom aliviado, e meu sorriso se alargou um pouco – Estarei aí às duas horas, pode ser?
- Claro – concordei, sentindo meu coração bater com um pouquinho mais de força, movido pela ansiedade – Experimente tocar a campainha e entrar pela porta dessa vez.
- Hm, boa sugestão – ele riu, fazendo-me acompanhá-lo, mesmo que baixinho – Bom... Eu preciso me arrumar e ir pro colégio. Te vejo em oito horas.
- Vou contar os segundos – confessei, encarando timidamente meus dedos brincando com a barra do edredom – E por favor... Tome muito cuidado. Não arrume confusão.
- Não vou garantir nada, Caah – ele suspirou, e seu tom voltou a ser sério, assim como meus olhos se fecharam, temendo o que poderia acontecer – Mas eu pensei muito sobre tudo essa noite, e vou me esforçar pra ficar calmo.
- Obrigada... Eu sei que você consegue – agradeci, respirando fundo – Te amo.
- Eu também – Pe murmurou, e a firmeza em sua voz me deu uma sensação boa – Muito.
Suspirei baixo, hesitando por alguns segundos antes de desligar, e quando o fiz, me afundei ainda mais em minhas cobertas, com meu estômago revirando de ansiedade e medo. A mera idéia de imaginar Pe e Pepe discutindo outra vez me causou calafrios, e meus olhos se fecharam com força ao me lembrar do olhar demoníaco de ambos ao brigarem no dia anterior. Cobri meu rosto com as mãos, lutando para parar as engrenagens enlouquecidas de minha mente por apenas um segundo, e de alguma forma muito imperceptível, dormi. Talvez a noite em claro tivesse finalmente surtido efeito.
Acordei por volta de uma da tarde, devido aos roncos de meu estômago vazio desde a manhã anterior, e decidi me arrastar até a cozinha para resolver aquele problema. Eu não botava muita fé de que fosse conseguir digerir bem qualquer tipo de alimento, mas eu precisava tentar, e agradeci profundamente por encontrar comida congelada no freezer. De comer, relativamente gostoso e prático. Era tudo o que eu queria.
Sentei no sofá com meu prato no colo, com a TV ligada apenas para me tirar do silêncio que imperava na casa. Apesar de estar realmente faminta, comi devagar, com os olhos vagando pela TV, sem exatamente enxergar alguma coisa. Minha cabeça estava pesada pelas poucas horas de sono e muitas de esforço, meus olhos estavam levemente inchados, meu cabelo estava uma zona e eu me sentia totalmente estranha. Uma bagunça, para ser mais precisa.
Estava caminhando até a cozinha para deixar meu prato vazio na pia quando ouvi a campainha tocar. Franzi levemente a testa. Não podia ser Pe, poucos minutos haviam se passado depois da uma da tarde. Me desfiz da louça e rastejei até a porta, abrindo-a e deixando somente uma fresta para que eu pudesse reconhecer o visitante.
- Caah? – Manuela chamou, inclinando a cabeça levemente para o lado.
- Manu? - murmurei, abrindo a porta normalmente ao me dar conta de quem era – O que você tá fazendo aqui?
- Tem certeza de que não sabe? – ela respondeu, olhando-me com a expressão um pouco triste. Ela sabia.
- O Pe falou com você? – chutei, e Manuela assentiu com um sorrisinho calmo - O que ele te disse?
- Hm... Posso entrar primeiro? – ela pediu sem jeito, e só então eu percebi que ainda não a havia chamado para dentro.
- Desculpe – falei, dando passagem para que ela entrasse, e nos sentamos no sofá. Assim que nos acomodamos, Manuela começou a explicar.
- Ele me chamou na hora do intervalo, disse que precisava conversar comigo. Eu concordei, já imaginando que fosse algo sobre você, ainda mais vendo que você tinha faltado. Fomos até o laboratório, e bem... Ele me explicou tudo. Desde coisas que eu já sabia até... Os recentes acontecimentos. E eu decidi vir te ver, antes mesmo de ele me pedir pra fazer isso. Eu não podia te deixar sozinha justo agora.
Ela soltou um suspiro baixo ao finalizar sua explicação, e eu abaixei meus olhos dos dela para o chão, sem saber o que pensar da atitude de Pe. Eu não esperava que ele fosse se preocupar tanto comigo àquele ponto. Sem dúvida, foi um gesto muito gentil de sua parte, e eu não poderia deixar de agradecê-lo mais tarde.
- Obrigada, Manu – foi só o que consegui dizer, olhando-a vagamente – Até que eu estou... Bem.
- Caah, eu te conheço – ela murmurou, segurando uma de minhas mãos entre as suas – Sei que você deve estar se crucificando e se repugnando pelo que aconteceu... Mas eu não posso permitir isso, e sei que o Pe concorda comigo. É normal que você fique abalada, mas...
- É sério, Manuela – a interrompi, sem querer ouvir discursos repetitivos – Eu estou me culpando sim, não vou negar, afinal, eu errei. Mas eu pensei que fosse ser bem pior. De verdade, eu estou bem. Não... Dói.
- Não? – ela perguntou, delicadamente surpresa, e eu neguei com a cabeça, vendo-a disfarçar um sorriso aliviado – Isso é... Bem, isso é ótimo!
- Você acha? – falei baixo, vendo Manuela franzir a testa – Tudo desmoronou sobre a minha cabeça e eu não consigo sentir nada... Você acha isso ótimo?
- Tudo desmoronou sobre a sua cabeça? – ela repetiu, com a expressão duvidosa – Por que você pensa assim?
- Minha vida está toda de cabeça pra baixo – respondi, encarando-a sem esconder a confusão em meu olhar – Pepe descobriu tudo, vai me odiar pra sempre, vai fazer de tudo pra me separar do Pe e ferrar com a minha vida e você ainda me pergunta por que eu penso assim?
- Deixe que ele tente – ela deu de ombros, olhando-me com uma serenidade que eu invejei – Você e o Pe são mais fortes do que isso, eu tenho certeza. Eu não acreditava nessa intensidade toda entre vocês, mas hoje, enquanto ele me contava tudo o que aconteceu... Foi como se um outro Lanza tivesse surgido bem diante dos meus olhos. Ele te ama, Caah. E é pra valer.
- Pode parecer esnobe da minha parte, mas eu sei – assenti, esboçando um sorriso ao ouvi-la falar dele daquela maneira – Quanto a ele, eu me sinto muito segura.
- E com razão. Ele não vai se deixar influenciar por nenhum tipo de armadilha que o Pepe possa aprontar... Isso foi até uma das coisas que nós citamos enquanto conversávamos hoje – ela continuou, me observando distraidamente – O ponto mais frágil, que ele provavelmente vai querer atacar, é o sigilo da relação de vocês. Na minha opinião, é a única forma que ele tem de afetar vocês dois.
- Eu tenho certeza de que ele vai dedurar o Pe na diretoria o mais rápido possível – concordei, fechando os olhos por um momento; as conseqüências dos futuros atos de Pepe me traziam uma sensação de asfixia – Além de fazê-lo perder o emprego, minha mãe vai ser chamada na escola e vai descobrir tudo da pior maneira.
- Isso é verdade, infelizmente – ela disse, pensativa, inclinando a cabeça levemente para o lado com o olhar vago – O Pe já não deve ter uma boa moral no histórico da escola, mas pelo que ele me disse hoje, o emprego é a última coisa que o preocupa. E quanto à sua mãe... Bem, eu acho que você deveria abrir o jogo com ela antes que a diretora faça isso por você.
Suspirei profundamente, tentando me imaginar contando tudo para minha mãe. Um dos meus piores pesadelos, sem dúvida. Ela provavelmente acabaria comigo e expulsaria de casa o que sobrasse de mim. Era um beco sem saída.
- Talvez você esteja certa – murmurei, concordando com uma decisão que provavelmente seria uma das mais marcantes da minha vida – Eu só preciso... Me encontrar no meio dessa bagunça pra poder tomar as decisões certas.
- Eu entendo – Manuela sorriu fraco, erguendo seus olhar de minha mão para os meus olhos - Tudo aconteceu muito rápido, você precisa de um tempo para digerir as coisas.
- É... - suspirei, apertando sua mão e devolvendo seu sorriso – Obrigada por se importar comigo.
- Que tipo de amiga eu seria se não me importasse com você? – ela ergueu uma sobrancelha, me abraçando logo em seguida - Vai ficar tudo bem, confie em mim.
- Assim espero – murmurei, sentindo que talvez nem tudo estivesse tão perdido assim. Depois que minha mãe me expulsasse de casa, o que provavelmente aconteceria quando eu contasse tudo a ela, eu poderia passar um tempo morando com Manuela, mesmo que tivesse que arranjar um emprego apenas para bancar meus gastos na casa. Tudo o que me restaria daquele inferno seriam algumas semanas de colégio até que eu me formasse. Um dia, talvez, se eu realmente me esforçasse, minha mãe me perdoasse por tudo o que fiz, e então tudo estaria resolvido.
- Ele me disse que vem passar a tarde com você hoje – Manuela disse ao se afastar, e eu assenti – Não acha que é arriscado?
- Mamãe vai estar trabalhando, e ele vai embora cedo – falei, e ela assentiu, sem enxergar grandes falhas em meu plano – Vai me fazer bem passar um tempo com ele aqui.
- Sabe... Eu acho que ela vai entender – Manu suspirou, reflexiva – Não acho que ela vá te expulsar de casa, muito menos pensar que você é uma vadia, como você tanto teme. Sua mãe é bastante mente aberta e compreensiva, não a subestime.
- Tomara que você esteja certa – falei, olhando-a com incerteza – Seria a solução pra quase todos os meus problemas... O apoio dela me daria muita força.
- Eu vou estar certa, você vai ver – ela sorriu ternamente, confiante – Pensamento positivo, por favor, Carol.
- É fácil falar – soltei um risinho descrente, vendo-a me olhar com censura – Mas eu vou tentar.
- Isso mesmo – Manuela assentiu, fazendo uma cara mandona engraçada – Agora vai se arrumar, seu bofe vai chegar daqui a pouco e você ainda está um trapo.
- Obrigada pela parte que me toca – ironizei, vendo-a me mandar um beijo falso conforme se levantava e me arrastava para o andar de cima. Fui arremessada para dentro do banheiro, onde tomei um banho rápido, porém revigorante. Escovei os dentes e penteei meus cabelos, e quando cheguei ao quarto, Manuela estava sentada sobre a cama.
- Tomei a liberdade de separar suas roupas – ela sorriu, indicando algumas peças sobre a cama, e eu devolvi o sorriso em forma de agradecimento. Eu não estava com cabeça para escolher roupas naquele dia. Vesti minhas roupas íntimas, um shorts branco e uma blusa cinza larga, que deixava um de meus ombros à mostra, e conseqüentemente, uma alça do sutiã preto. Mal terminei, a campainha tocou.
- Será que é ele? – comentei, checando a hora no relógio ao lado da cama - Ainda são quinze pras duas.
- Melhor pra vocês, quinze minutos a mais – Manuela disse, me seguindo até o andar de baixo. Paramos em frente à porta, e eu respirei fundo antes de abri-la.
- Oi, meninas - ele sorriu de uma maneira agradável.
– Oi, Lanza - Manuela respondeu, simpática, virando-se para mim logo em seguida - Bom... Eu vou deixar vocês ficarem sozinhos agora. Ewan deve estar me esperando para almoçarmos juntos.
- Mande um beijo pra ele – falei, abraçando Manuela rapidamente – E obrigada por ter vindo... Você me ajudou muito.
- Que bom - ela murmurou, apertando-me com força antes de me soltar – Tchau, Pe. Cuide bem dela, por favor, senão eu acabo com você, entendeu?
- Pode deixar – ele disse sem nem se abater com a ameaça de Manuela e olhando-me com intensidade. Apenas isso bastou para que eu me arrepiasse por inteiro.
- Entra – falei, quando Manuela já havia se distanciado, e ele obedeceu.
- É bem estranho entrar pela porta, sabia? – o ouvi comentar enquanto eu trancava a porta, rindo baixo – Não é tão emocionante.
- Imagino – falei, aproximando-me dele com um sorrisinho divertido. Fechei os olhos ao senti-lo envolver minha cintura com seus braços, inalando seu cheiro de quem havia acabado de sair do banho, e o abracei pelo pescoço sem pressa. Pe esfregou a ponta de seu nariz no meu devagar, unindo nossas testas e fazendo com que sua respiração quente batesse em meu rosto. Senti meu equilíbrio se prejudicar quando ele beijou o canto de minha boca, e deslizei minhas mãos para seus ombros, aprofundando o beijo com urgência, num claro ato de carência e fragilidade. Ele sorriu após dar passagem à minha língua, e estendeu o beijo por alguns segundos.
- Essa recepção com certeza compensou a entrada não triunfal – Pe sorriu ao afastar nossos lábios, e eu retribuí, sentindo meu rosto corar de leve – Mas não matou a minha saudade ainda.
- Ah, não? – balbuciei, ainda zonza, vendo-o sorrir ainda mais e cerrar os olhos pra mim – Acha que devíamos fazer de novo?
- E de novo – ele disse, roubando-me um selinho a cada vez que falava – E de novo... E outra vez... E mais uma.
- Pare de abusar de mim, eu estou sensível – fechei os olhos ao senti-lo sugar meu lábio inferior, o que fez com que de repente a sala começasse a girar ao meu redor. Apertei algumas mechas de seus cabelos entre meus dedos, me arrepiando conforme ele dedilhava minhas costas delicadamente, e ele suspirou baixinho contra meus lábios.
- Desculpe... Sua boca me desconcentra – Pe sussurrou, respirando fundo e afastando seu rosto até uma distância que me permitisse manter meu equilíbrio – Prometo que não vai acontecer de novo.
Levei alguns segundos para restabelecer a firmeza em minhas pernas. Talvez eu estivesse mesmo frágil.
- Vem, vamos nos sentar um pouquinho – falei, entrelaçando nossos dedos e conduzindo-o até o sofá. Acomodei-me, com as pernas flexionadas contra meu peito, e as abracei, vendo-o se sentar ao meu lado e me puxar para seu colo, sem nem se importar com o fato de que eu já estava confortável. Com certeza eu teria o triplo de conforto abraçada a ele, por isso, apenas sorri e deitei minha cabeça em seu ombro, enquanto ele me abraçava pela cintura e passava suas mãos por debaixo de minha camiseta larga.
- Você parece melhor – ele disse baixinho, deslizando as pontas de seus dedos gentilmente por minha pele, e eu assenti devagar – Imaginei que conversar com a Manuela te faria bem.
- Obrigada por ter explicado tudo a ela – murmurei, brincando timidamente com a gola de sua camiseta pólo azul e branca, uma de minhas favoritas – Foi muito sensato da sua parte.
- Era o mínimo que eu poderia fazer – ele suspirou, fazendo com que sua respiração quente batesse em meus cabelos com mais força – A Trentin é uma garota muito legal... Não pensei que ela fosse aceitar tudo tão bem.
Sorri fraco, me sentindo a pessoa mais abençoada do universo por tê-la como amiga. Ela era realmente um anjo. Meus olhos se perderam por alguns segundos, vagando pela mobília da sala, e eu mordi meu lábio inferior, sem conseguir mais segurar a pergunta que ecoava em minha mente.
- Como foi hoje na escola?
Pe ficou em silêncio por algum tempo, observando algum ponto distante, e eu o encarei, tensa por uma resposta.
- Ele não apareceu – sua voz grave falou, e seus olhos verdes continuaram sem fitar os meus, talvez escondendo a raiva que seu timbre já denunciava – Tive que substituí-lo em duas aulas.
Soltei todo o ar que involuntariamente havia prendido em meus pulmões, me sentindo mais tranqüila por não ter existido um contato entre os dois. Eu jamais me perdoaria se um deles perdesse a cabeça e iniciasse uma briga em pleno ambiente de trabalho, ainda mais sem que eu pudesse fazer algo para tentar evitar. Mesmo aprovando a ausência de Pepe, uma pequena parte de mim não conseguiu deixar de sentir preocupação e culpa por seu sumiço. Será que ele havia feito alguma loucura?
- Ainda bem – sussurrei, voltando a afundar meu rosto na curva perfumada de seu pescoço – Foi melhor assim.
- Não, não foi – Pe rosnou, balançando negativamente a cabeça – Ele devia ter sido homem pelo menos uma vez na vida e ter aparecido. Eu o ensinaria a nunca mais agir feito um imbecil, e a cada vez que ele se olhasse no espelho e visse o estrago que minhas mãos causariam em sua arcada dentária, ele se lembraria nitidamente de mim.
- Calma, não fala assim – falei tentando acalmá-lo, acariciando seu peito, e senti suas mãos se fecharem em punhos – Não vamos perder a cabeça, por favor.
- Espere só até toda essa turbulência passar – ele disse, com os músculos tensos e o olhar distante, porém afiado como uma navalha – Ele ainda vai ter muitos pesadelos comigo.
- Pe, olha pra mim – pedi, desaprovando toda aquela raiva crescendo dentro dele, e virei seu rosto até que seus olhos vingativos fitassem os meus – Se acalma, por favor... Vamos esquecer tudo isso, fingir que ele nunca existiu e virar essa página, está bem?
Ele me encarou por alguns segundos, com a expressão impassível, até que eu lhe dei um selinho demorado e seus músculos começaram a relaxar gradativamente.
- Eu tenho tanta raiva dele... – Pe soprou, fechando os olhos por um momento e logo depois voltando a me olhar - Por ter te enganado durante todos esses meses, te fazendo de amante, te prendendo a ele, enquanto você podia ter sido minha... Só minha... Isso me envenena.
- Eu sei – assenti, com o rosto muito próximo ao dele, e um sorrisinho desanimado se formou em meu rosto – Eu sei como você se sente, acredite... Sei que é difícil controlar a raiva, mas pense que nós também o machucamos.
- Não foi planejado, Carol – ele retrucou, adotando um tom de voz menos agressivo – As coisas foram muito rápidas e loucas entre a gente, não foi algo que pudéssemos ter evitado.
- Mesmo assim, Pe – insisti, desviando meus olhos dos dele para baixo – Nós estamos errados também, e teremos de pagar um certo preço por isso, querendo ou não.
- Nada que ele faça vai tirar você de mim, justo agora que eu te consegui do jeito que eu quero – Pe afirmou, olhando fundo em meus olhos e segurando meu rosto com as duas mãos – Deixe que ele venha... Eu vou estar esperando.
Olhei fundo em seus olhos sinceros, sentindo meu autocontrole desmoronar, e um sorriso grato se formou em meu rosto. Confesso que por um momento, meus olhos lacrimejaram, porém agora obviamente de felicidade. A cada dia eu me dava mais conta de que Pe não podia ser de verdade. Em algum momento, eu descobriria que ele era um andróide ou um alienígena. Ou talvez apenas um sonho bom, do qual eu jamais queria acordar.
- Obrigada por não ter desistido de mim – sussurrei, fazendo carinho em seu rosto e vendo-o dar seu típico sorriso enviesado – Se eu não tivesse você, acho que estaria sozinha e completamente perdida agora.
- Eu sabia que um dia você ia me agradecer por ter sido tão insistente – ele piscou, fazendo-me rir um pouco.
- Preciso aprender a não duvidar de você – falei, dando-lhe um beijinho de esquimó e sentindo-o morder meu lábio inferior demoradamente. Ele não desgrudou sua boca da minha, iniciando mais um beijo intenso, e eu acariciei sua nuca, sentindo-o fazer o mesmo enquanto sua outra mão apertava minha cintura.
Incrível como tudo parecia estar perfeito quando ele me beijava daquele jeito. Ele realmente devia ter algum super poder.
Uma música baixa começou a tocar no andar de cima após alguns minutos, e eu demorei para me dar conta de que a fonte do som era meu celular.
- Não vou deixar você atender – Pe resmungou, com os lábios rentes ao meu, e eu soltei um risinho divertido.
- Deve ser minha mãe – sussurrei, levando minhas mãos até seu peito e me afastando, mesmo que contra a vontade dele – Ela pode ficar preocupada se eu não atender.
Ele bufou, cerrando os olhos para mim, e eu lhe mandei um beijinho enquanto subia até meu quarto. Peguei meu celular, que estava sobre a cama, e olhei rapidamente para o visor.
Franzi a testa, e imediatamente, meu sorriso se esvaiu assim que li o nome de Pepe na tela.
Fiquei encarando seu nome no visor, totalmente sem reação, mas apesar de minha hesitação, ele não desistiu e continuou esperando que eu o atendesse. Nada que me surpreendesse, afinal, ele estava morrendo de ódio de mim e deveria estar disposto a tudo para me infernizar. Aguardar alguns segundos para ser atendido não o mataria.
Respirei fundo, me preparando para encarar a situação como ela devia ser encarada: com maturidade. Fechei os olhos por um momento, tomando coragem, e deslizei o slide, atendendo a chamada. Conduzi o aparelho ao ouvido, sentindo minha garganta se fechar, e apenas esperei.
- Carol? – a voz cortante de Pepe rosnou, e eu mordi meu lábio inferior, muito nervosa. Eu precisava dizer algo, mas estava tão assustada que não sabia se conseguiria.
- Sou eu – respondi, abrindo os olhos e sentindo minhas mãos tremerem um pouco de medo; obviamente, não permiti que meu leve temor ficasse explícito em minha voz – O que você quer?
- Me encontre em meu apartamento daqui a uma hora – ele disse, ríspido, e eu arregalei os olhos, assustada – Vamos colocar um ponto final nisso.
Não consegui dizer nada, sentindo meu coração bater muito forte e bombear adrenalina para todos os cantinhos de meu corpo.
Vamos colocar um ponto final nisso. O que exatamente ele queria dizer com aquilo?
Ignorando meu silêncio, Pepe aguardou alguns segundos antes de simplesmente desligar. Eu não esperava nenhum tipo de despedida, de qualquer maneira. Mantive o celular próximo de meu ouvido por um tempo, até minha mão cair sobre meu colo num movimento mecânico.
Sim, eu confesso. Eu estava um pouco apavorada.
Com que cara eu desceria as escadas e olharia para Pe? Será que eu seria capaz de esconder minha insegurança e arrumar uma desculpa para que ele fosse embora antes de eu precisar encontrar Pepe?
Não, disse a mim mesma. É melhor que ele saiba, para a minha própria segurança. Seria arriscado demais ir totalmente sozinha até o seu apartamento sem ao menos avisar alguém de meu paradeiro. Eu não conhecia aquele Pepe, não podia prever o que ele seria capaz de fazer comigo.
Mas de uma coisa eu sabia. Estava na hora de resolver aquela situação.
Mais uma vez, eu respirei fundo, tentando disfarçar minha expressão perplexa, e me levantei. Caminhei lentamente até as escadas, e desci os degraus no mesmo ritmo, sentindo minhas pernas um tanto bambas.
- Era ela? – Pe perguntou, porém assim que me aproximei e ele pôde me ver melhor, seu rosto ficou sério – Nossa, você tá pálida... O que aconteceu?
Hesitei por alguns segundos antes de falar. Somente agora eu estava realmente absorvendo o que havia acontecido.
- Era o Pepe – respondi, porém não deixei que sua expressão, agora um misto de surpresa e indignação, me desencorajasse – Ele quer que eu vá até o apartamento dele daqui a uma hora.
- O quê? – ele exclamou, revoltado, e eu me mantive imóvel – No apartamento dele? Mas o que ele... Você vai?
- Pe, você sabe que fugir não é certo – suspirei, olhando-o com seriedade – Eu entendo que ele queira resolver tudo, e concordo que quanto mais rápido isso aconteça, melhor.
- Resolver tudo como, Carol? – Pe perguntou, sem entender – Ele vai pedir desculpas por ter te feito de amante por todos esses meses e o que mais? Eu não quero você sozinha com ele naquele apartamento, pode ser perigoso.
- Acha que eu não sei disso? – perguntei, e ele respirou fundo, passando uma mão nervosamente pelos cabelos – Mas eu preciso resolver logo essa situação e terminar com essa novela de uma vez por todas.
Pe me encarou, parecendo um pouco mais resignado, e se levantou, caminhando até mim devagar. Ele me abraçou apertado, como se quisesse me proteger de alguma coisa, e eu o apertei com a mesma força em meus braços.
- Eu tenho medo de deixar você sozinha com ele – ouvi sua voz murmurar, e suspirei baixo – Tenho medo de que ele perca a cabeça e...
- Eu também tenho – o interrompi, sem querer ouvir o fim de sua frase, erguendo meu rosto até poder ver o dele – Mas eu preciso ter um pouco de coragem, pelo menos uma vez na vida, para fazer o que é certo. Eu quero ajeitar as coisas, Pe. Tudo está uma bagunça, eu não agüento mais essa situação. Eu vou enfrentar Pepe hoje, assim como vou abrir o jogo para minha mãe amanhã. Não quero mais ter que mentir para ela nem para ninguém.
- Você vai contar a ela? – ele perguntou, surpreso, e eu assenti com firmeza – Tem certeza?
- Tenho – assenti, mas preferi voltar a me concentrar no assunto mais urgente – E então... Você pode me levar até o prédio dele hoje?
Pe me olhou com pesar, numa súplica muda para que eu desistisse de ir, mas eu não me deixei atingir. Mantive minha expressão firme, e após alguns segundos, vendo que eu não cederia, ele apenas respirou fundo, fechando os olhos em tom de derrota.
- Não o deixe encostar um dedo em você – ele disse, resignado e enfurecido ao mesmo tempo – Fale o que tiver pra falar, ouça o que quiser ouvir e saia. Entendeu?
- Ele não vai fazer nada – falei, porém havia uma certa insegurança dentro de mim. Como não ficar insegura diante daquele outro Pepe e de todo o seu rancor?
- Como você pode ter certeza? – Pe questionou, me olhando com o rosto sério, e eu hesitei antes de responder.
- Eu não tenho... Mas é o que eu espero.
Pe sustentou meu olhar por alguns segundos, e pela primeira vez, eu vi uma dose considerável de medo em suas íris. Mesmo sem poder confirmar minha hipótese, tive certeza de que seus olhos eram uma espécie de reflexo dos meus, igualmente inseguros diante do que nos aguardava.
Lá estava eu novamente... Temendo pelo que nos aconteceria.
