Sexy Biology '-' (FÃFIC)
CAPITULO 6 Parte 1
Um mês e meio se passou desde a primeira vez em que dormi na casa de Pepe. E a cada vez que eu voltava àquele apartamento, as coisas melhoravam, o que eu achava ser impossível. Nunca pensei que pudesse me sentir tão feliz e completa com alguém como eu me sentia com ele, e eu sorria até nas aulas do Lanza, que agora me ignorava total e completamente. Só me dirigia a palavra quando era estritamente necessário falar comigo, e me tratava com indiferença, o que por mim, podia continuar assim pelo resto dos meus dias.
- Antes do fim da aula, eu quero lhes informar que houve uma pequena mudança quanto a excursão à reserva ambiental de depois de amanhã – Pepe disse, durante os últimos minutos da aula de biologia, sendo fixamente observado por mim, claro – Como vocês já sabem, a reserva fica a algumas horas daqui, então pode ser que a excursão só acabe pouco antes do anoitecer, e como de costume aqui na escola, vocês serão acompanhados por dois professores.
Como o final do bimestre estava próximo, os professores que já tinham dado todo o conteúdo previsto para aquele espaço de tempo costumavam marcar excursões com as classes, e pedir relatórios ou trabalhos sobre o que aprendíamos no passeio. Eu já estava sabendo dessa excursão, portanto nem me alarmei muito, só não sabia que pequena mudança era essa. E se eu soubesse que a resposta pra esse mistério me renderia maus momentos, preferia continuar não sabendo.
- Eu e a professora Keaton estávamos escalados para acompanhar a classe de vocês – Pepe prosseguiu, me lançando um breve olhar conformado, que eu devolvi com um pouco de tensão – Mas a diretora resolveu fazer uma pequena alteração. De acordo com a nova escala, eu e a srta. Keaton acompanharemos o primeiro ano na excursão deles, que será amanhã, e quem irá acompanhá-los na excursão de vocês serão os professores Hammings e Lanza.
Acho que é agora que eu rodo a baiana, não é? Que papo é esse de ‘vou com as menininhas putinhas do primeiro ano amanhã enquanto vocês sofrem na mão do pedófilo nojento e sem escrúpulos do Lanza’? Se ele achava que eu ia deixar isso passar em branco, estava muitíssimo enganado.
- Podem ir para o laboratório, até semana que vem e boa excursão – Pepe encerrou, enquanto todos se levantavam com as mochilas nas costas rumo à aula do Lanza. Eu arrumava lentamente meu material, de cara fechada, esperando até o último aluno sair e me deixar sozinha com Pepe. Assim que todos haviam saído, ele fechou a porta da sala e já começou a falar:
- Eu sei que você não gostou da notícia, mas...
- Mas o que, Pepe? - cortei, inconformada, sem nem me mexer na cadeira enquanto ele se aproximava – Por que você não me contou antes?
- Eu não pude evitar, só fiquei sabendo disso hoje! – ele explicou, agachando-se à minha frente – Você acha que eu fiquei feliz de não poder mais ir com a sua classe?
Soltei um suspiro chateado e fechei os olhos. Ele realmente não tinha culpa, dava pra ver que ele estava sendo sincero. Voltei a encará-lo, me imaginando naquela reserva ambiental tendo que respirar o mesmo ar de Pedro Lanza por mais de uma hora. O pior pesadelo que alguém poderia ter.
- Me desculpa, acho que eu surtei um pouquinho – murmurei, sorrindo sem graça e colocando as mãos em seus ombros – Mas é que ia ser simplesmente ótimo passar o dia todo com você, e além do mais, você sabe que eu odeio o professor Lanza.
- É, eu já notei essa birra que você tem com ele – Pepe riu, erguendo as sobrancelhas.
- Essa birra que eu tenho com ele? – repeti, apontando pro meu próprio peito, um tanto incrédula – Ele é que tem birra comigo e não é capaz de me dar uma nota justa pelos meus relatórios, você sabe bem disso!
- Eu também não entendo, mas não posso me meter no método de correção dele, já te falei milhares de vezes – ele explicou, revirando os olhos – Mas você bem que podia tentar ser gentil com ele... Quem sabe as coisas não melhoram, incluindo a sua nota?
- Você tá de brincadeira, né? – eu falei, rindo sarcasticamente – Eu ser mais gentil com o Lanza? Mas nem morta! Eu me recuso a tratar aquele imbecil como algo mais além de um verme inútil!
- Você não devia falar essas coisas dele – Pepe retrucou, subitamente sério e parecendo ofendido – O Pe é um dos meus melhores amigos e é um cara muito legal. Não fale do que você não sabe.
Franzi minha testa, boquiaberta com aquela resposta, e assenti devagar.
- Acho que se tem alguém aqui que não sabe do que tá falando, esse alguém é você, Pedro – murmurei, tentando conter minha raiva só de me lembrar de tudo que o Lanza já tinha me feito (ou tentado fazer) de mau – Mas se você quer tanto defender seu amigo, não vou te impedir. Só não venha me dizer que não te avisei.
- Caah, espera – Pepe pediu, me impedindo de levantar quando eu tentei ficar de pé, já com a mochila sobre um ombro – Não precisa ficar brava, eu não quis te chatear...
- Me deixa levantar, por favor – pedi, sem olhá-lo, com um sentimento enorme de injustiça dentro de mim. O cara que eu amava defendendo o canalha que vivia atormentando a minha vida e ainda me destratando por causa dele? E o pior de tudo, eu não podia simplesmente chegar contando tudo que o professor Lanza já tinha me feito sem ter como provar, Pepe jamais acreditaria. Ele era cego pela imagem de bom moço do amigo, já dava pra perceber isso há um bom tempo. Péssimo, horrível, deplorável, humilhante.
- Não, eu não vou te deixar ir embora brava comigo desse jeito, não sabendo que amanhã não vou poder te ver! – ele negou, ficando irritado – Pára de ser infantil, Carol!
- Infantil? – perguntei, ainda mais inconformada, sem nem conseguir raciocinar direito – Se eu sou tão infantil, por que quis ficar comigo? Se você não acredita no que eu digo, por que insiste em se desculpar? Se eu só falo mentiras sobre o que eu não sei, me deixa ir embora, afinal, eu tô perdendo a aula do seu tão querido melhor amigo, esqueceu?
Consegui levantar, apesar dos esforços dele pra que eu ficasse, e sem nem olhar pra trás, deixei a sala de aula, trêmula da cabeça aos pés. Apesar do medo de acabar ferrando tudo com aquela primeira briga, eu me sentia firme, agindo do jeito certo. Pepe não conhecia o amigo que tinha, e depois de tudo que aquele crápula me fez passar, eu não seria capaz de ouvir todos aqueles absurdos calada. Engoli em seco, levando a vontade de chorar e de voltar correndo pros braços de Pepe pro fundo do meu estômago, enquanto caminhava rapidamente em direção ao laboratório.
- Ih, que cara é essa? – Manu perguntou, na hora da saída, quando se sentou ao meu lado na mureta que ficava em frente ao colégio – O Lanza aprontou alguma?
Neguei com a cabeça, encarando o nada com a expressão fechada. Os 50 minutos da aula de laboratório tinham conseguido ser mil vezes mais tranqüilos que os poucos minutos em que eu e Pepe brigamos na aula de teoria, fora meus olhares carregados de ódio pro Lanza durante sua explicação. O olhar sério de Pepe me censurando não saía da minha cabeça, e aquele sentimento de injustiça continuava dançando dentro de mim.
- O que foi então? – ela insistiu, e eu nem precisei responder. Assim que ela terminou de falar, Pepe saiu do colégio, e logo nossos olhares se encontraram. Seus olhos castanhos estavam sérios, e eu sustentava seu olhar, igualmente chateada. Pepe só tirou seus olhos dos meus quando foi atravessar a rua, e não ousou olhar na minha direção até arrancar com o carro e deixar a escola. Assim que ele sumiu de vista, abaixei a cabeça e soltei um suspiro triste, de olhos fechados.
- Acho que já entendi o que aconteceu por aqui – Manu murmurou, ainda olhando na direção pra onde Pepe seguiu com o carro – Vocês brigaram.
Quando abri a boca pra começar a contar, minha mãe chegou pra me levar pra casa. Apenas sorri fraco pra Manu, tentando não parecer tão arrasada, e balancei a cabeça negativamente.
- Depois a gente conversa – murmurei, me despedindo dela e entrando no carro.
Eu não tenho nada contra excursões escolares. Só odeio o tipo de organização que a minha escola usava. Nem pra ter um pouco de respeito por quem tá estudando nos andares de cima, sabe. A diretora tem que ficar berrando os nomes dos alunos naquele microfone ensurdecedor pra todo mundo ouvir, parece que é uma necessidade vital pra ela. Como se eu me importasse em saber se Colin McPhearson já estava na escola, francamente. Pra ser honesta, eu só me importava com uma coisa. Pedro Munhoz.
Após um dia inteiro sem conseguir tirar aquele desentendimento da cabeça, refleti muito sobre como devia agir dali em diante. Ele até que podia estar errado, mas não era por maldade. Pepe realmente acreditava que o professor Lanza era um cara legal, e eu não duvido nada que ele tenha seus meios de enganar os outros. Tava pra nascer cara mais cafajeste que ele, fato. Soltei um suspiro arrependido, encarando vagamente a janela ao meu lado, de onde eu podia observar o pátio lotado de alunos do primeiro ano. Mal tinha começado a primeira aula e o professor de química já estava escrevendo na lousa, mas eu não me importava com o sr. Brown naquele momento. Outro professor estava prendendo minha atenção, e ele não parecia estar tendo a menor dificuldade em organizar a fila de pirralhos do primeiro ano que logo entrariam num dos enormes ônibus estacionados na frente da escola para passar um dia inteiro em sua companhia na reserva ambiental.
Continuei observando Pepe lá embaixo, ajudando o último aluno fora de sua fila a achar seu lugar, e assim que terminou, colocou as mãos nos quadris e jogou a cabeça pra trás, encarando o céu nublado. Estava doendo em mim vê-lo pela primeira vez depois da discussão de ontem, e tudo que eu queria fazer era pular por aquela janela e me desculpar por tudo. Mas eu estava presa na aula de química, e ele estava preso àquela excursão idiota. Pepe lentamente se virou até ficar de frente para o prédio de onde eu o olhava, e pra minha surpresa, seus olhos não hesitaram em se cravar na janela da minha classe. A janela por onde ele podia me ver também, mesmo que de uma certa distância. Seu olhar, apesar de distante, conseguiu me deixar pior do que eu já estava. Sua expressão ao me encarar era séria, mas pelo menos ele não parecia tão bravo quanto ontem. Por que eu tinha que deixar meu orgulho ser maior que o que eu sentia por ele? Você gosta de uma idiota, Munhoz, fato.
Mais atrás, a srta. Keaton já encaminhava alguns alunos na direção da saída da escola, e pude ver seus lábios chamarem o nome de Pepe. Voltei a encará-lo, me odiando pra sempre, até que ele se virou na direção dela e a ajudou com a organização dos alunos. Merda. Essa piranha ia ter seu dia de sorte hoje, passando o dia todo ao lado de um homem lindo, perfeito e insatisfeito com a garota infantil com quem tinha escolhido se relacionar. Bela oportunidade de tirar uma lasquinha. Fechei meus olhos quando ele sumiu do meu campo de visão, tentando afastar o ciúme que ardia neles, e voltei a me concentrar na matéria de química.
- Você vai mesmo amanhã? – ouvi Manu perguntar, na hora da saída, e assenti devagar, observando os carros que passavam. Não tinha como não encarar o carro vazio de Pepe, estacionado no lugar de sempre, e não querer que ele subitamente saísse da escola, com seu sorriso habitual, e atravessasse a rua naquela direção.
- Tem certeza de que não vai mesmo poder ir? – suspirei, olhando pra ela com cara de nada – Ter alguém com quem conversar ia me fazer bem... Eu acho.
- Não, minha mãe não quer que eu vá e acabe sendo atacada por mosquitos do tamanho de azeitonas ou coisas do tipo – Manu respondeu, cruzando os braços e revirando os olhos – Você conhece minha mãe, super protetora até a medula.
Não deu pra não rir um pouquinho com aquele comentário mais do que verdadeiro. A sra. Trentin costumava ser bem enérgica quando o assunto era proteger Manu.
- Que exagero, mosquitos do tamanho de azeitonas só existem na África – chutei, com um sorriso fraco no rosto.
- Eu sei disso, mas minha mãe não sabe – Manu resmungou, um pouco irritada – Já tentou dizer isso a ela? Vai entrar por um ouvido, ela até vai fingir pensar no seu caso, e depois vai sair pelo outro lado.
Ri mais um pouco, e ela logo caiu no riso comigo. Só ela mesmo pra me fazer rir naquele estado deplorável no qual eu me encontrava por dentro.
- Você falou com o Munhoz hoje? – ela murmurou, voltando a ficar séria, e senti meu estômago revirar. Eu tinha telefonado pra ela na tarde anterior e tinha contado tudo que tinha acontecido depois da aula de teoria. Manu concordou comigo, e disse que eu devia contar tudo que o Lanza tinha aprontado, mesmo correndo o risco de Pepe não acreditar em mim. Durante o resto do dia, fiquei pensando no que deveria fazer, e decidi que iria seguir o conselho dela. Só não tive a oportunidade de conversar com ele ainda.
- Não – respondi, sem olhar pra ela – Ele tá na excursão hoje, lembra?
- E amanhã é a sua – Manu disse, e eu pude sentir seu olhar tristonho sobre mim – Você vai à casa dele nessa sexta?
- Só vou se ele me chamar – falei, dando de ombros tristemente - Não vou simplesmente aparecer sem ter sido convidada.
Desde a primeira vez em que fui à casa dele, não tinha deixado de passar as tardes de sexta-feira lá uma vez sequer, nem que fosse pra ajudá-lo com a correção de algumas provas e trabalhos enquanto conversávamos. Talvez essa fosse ser a primeira vez em que não nos veríamos, e era tudo culpa da minha imaturidade. Palmas pra mim.
- Eu acho que ele vai te chamar sim – Manu me encorajou, deitando sua cabeça em meu ombro de um jeito carinhoso e até um pouco engraçado – No mínimo pra vocês se resolverem.
- Assim espero – sorri fraco, olhando vagamente os carros que passavam pela rua, com o pensamento a algumas horas de distância dali.
- Carol Trevisan!
Ergui minha mão assim que a diretora berrou meu nome no microfone, entediada e com todos os tipos de sentimentos negativos em relação àquela excursão idiota. Me senti ainda pior quando o professor Hammings, com sua usual cara de quem tinha estrume de vaca debaixo do nariz, indicou que eu já podia ir para o ônibus com um aceno de mão. Ajeitando minha pequena mochila no ombro, andei vagarosamente até o veículo, como se eu pudesse evitar aquela tortura se andasse devagar. Como eu era tosca algumas vezes.
- Eu já mandei você escolher um lugar e se sentar, Kelly – ouvi uma voz murmurar assim que me aproximei do ônibus, e quando cheguei à porta, vi o professor Lanza e a Smithers conversando a uma distância menor do que a recomendada. E pela cara de dor de barriga dela, o clima não era dos melhores.
- Tudo bem, professor – ela concordou, me lançando um olhar surpreso, e entrou no ônibus. O professor Lanza passou uma mão pelos cabelos, usando sua técnica mais que aprovada de me tratar com indiferença, e eu apenas o ignorei, entrando no ônibus logo depois.
Me sentei num dos primeiros assentos, evitando me misturar demais com o povo fútil que provavelmente começaria uma bagunça no fundo do ônibus. Peguei meu iPod de dentro da bolsa e coloquei a primeira música mal educada que achei no volume máximo, com uma cara espontânea de poucos amigos. Talvez porque eu realmente não quisesse estar ali, num ônibus cheio de gente que eu odeio, rumo a um lugar distante, cheio de mato, terra e bichos. Talvez porque tudo que eu quisesse era estar com Pepe e resolver as coisas entre nós, pra exterminar o aperto em meu peito que quase me sufocava.
Não demorou muito e o professor Hammings entrou no ônibus, acompanhado do Lanza. Contaram rapidamente o número de pessoas, pra ter certeza de que todos estavam no ônibus, e assim que terminaram, fizeram sinal para que o motorista começasse a dirigir. Tirei um dos fones, entediada, para (infelizmente) ouvir o que o Lanza estava dizendo enquanto o veículo andava os primeiros metros em direção à reserva.
- Tentem não se afastar do grupo, o local é enorme e bastante confuso, portanto todo cuidado é pouco – ele avisou, sério, e eu notei que seus olhos estavam especialmente verdes hoje, talvez porque estivessem realçados pela blusa da mesma cor - Não se distraiam com os animais ou plantas exóticas que virem e prestem atenção nas explicações que os guias lhes darão, informações como aquelas não existem nos livros escolares. Qualquer problema, basta chamar o professor Hammings ou eu.
Mudo, o sr. Hammings apenas assentiu devagar para todos que o observavam, e os dois professores se encaminharam na direção de seus assentos. Que, por sinal, ficavam bem à minha frente. Eu já devia saber que aquela excursão seria ainda pior do que eu imaginava.
Coloquei os dois fones, batendo os pés de acordo com a bateria da música, e me contive a observar o céu nublado. Sem ter que aturar ninguém sentado no assento ao meu lado, silenciosamente ocupado pela minha mochila, não demorei muito tempo pra me distrair com os prédios e árvores que passavam rapidamente pela minha janela. Logo meu pensamento voou até Pepe, e me peguei pensando no que ele devia estar fazendo àquela hora. Dando aula, provavelmente. Tentei evitar que minha mente criasse qualquer tipo de imagem da excursão do dia anterior, ou de Pepe sendo consolado pela srta. Keaton, mas foi impossível. Deus, por que raios eu tinha que sentir ciúmes daquela mexerica desbotada? Ela ser bonita, atraente e um pouco viciada demais em testosterona definitivamente não deveriam ser razões preocupantes o suficiente.
Algum tempo depois, senti uma mão tocar meu ombro devagar, e pulei de susto. Olhei na direção da pessoa, e dei de cara com Pedro Lanza. Tirei um dos fones contra a minha vontade e esperei ele falar.
- Trouxe celular, Trevisan?
Assenti, sentindo um gostoso perfume masculino invadir meus pulmões, e ignorei o fato de que só podia ser o dele.
- Pode me passar o número? – ele perguntou, parecendo um pouco decente pela primeira vez na vida - É pro caso de você se perder na reserva.
- Eu não vou me perder – respondi, sem muita vontade de dar meu número de celular pro Lanza – Pode ter certeza.
- Mesmo assim, são normas da escola – ele insistiu, com um sorrisinho cordial, e eu tive que dar o número. Escolinha chata a minha, pelo amor de Deus. Assim que terminou de gravar meu número em seu celular, ele agradeceu rapidamente e voltou a se sentar ao lado do Hammings. Mas esqueceu de levar uma coisa com ele. A porcaria daquele perfume.
Odores a parte, continuei a ouvir música e pensar em qualquer coisa que passasse pela minha cabeça (lê-se: Pedro Munhoz) por todo o trajeto. Pouco tempo depois de deixarmos a escola, uma chuva fina começou a cair, explicando o céu nublado que já durava dois dias. E pelas nuvens negras que pairavam mais à frente, o tempo não melhoraria tão cedo.
- Pessoal, chegamos à reserva ambiental - o professor Lanza disse algumas horas depois, enquanto o motorista entrava num grande estacionamento e eu guardava meu iPod na mochila – Antes de sair, peguem as capas de chuva que trouxemos devido ao tempo chuvoso que estava previsto pra hoje. Eu vou distribuí-las na porta do ônibus.
Legal, ia ter que fazer contato com aquele idiota mais uma vez, e mal tínhamos chegado à reserva. Peguei minha mochila e a coloquei direito nas costas, com uma alça em cada ombro (diferentemente do que eu costumava fazer), já de pé. Esperei até que a aglomeração no corredor do ônibus diminuísse e me encaixei na primeira brecha que encontrei.
- Capa de chuva, Smithers – ouvi o professor Lanza dizer assim que Kelly, que estava bem à minha frente, passou por ele – Não vai querer que as horas arrumando o cabelo sejam em vão, vai?
Eu sei que o odeio e já cansei de expressar meu desprezo por ele, mas não deu pra não rir daquele comentário. Até que ele era engraçado quando tirava sarro das pessoas certas. E tinha um perfume viciante também. Não que isso importe.
Ainda rindo disfarçadamente da cara de joelho da Smithers ao pegar sua capa, peguei a minha, dobrada dentro de um pacote plástico, evitando contato visual com o sr. Lanza. Uma simples piadinha não o tornaria um cara aceitável no meu conceito.
Burocracias à parte, logo estávamos dentro da reserva, ridiculamente iguais com nossas capas transparentes debaixo da chuva, que tinha aumentado consideravelmente. Aquele lugar era enorme, fato. Acho que nunca estive num lugar tão cheio de vegetação e terra na vida. O único cheiro que conseguia sentir era o de terra molhada, tão forte que minha cabeça doía um pouco. Um dos guias começou a nos levar reserva adentro, e eu apenas seguia o fluxo, já querendo que aquela excursão terminasse logo.
- Antes de começarmos a conhecer a reserva, vamos lhes mostrar um pequeno documentário sobre os efeitos do aquecimento global e da exploração prejudicial do homem à natureza, e também algumas medidas quem favorecem o desenvolvimento sustentável – explicou o guia, quando chegamos a uma grande sala onde uma tela de cinema ocupava uma parede que ficava de frente para várias poltronas enfileiradas.
- Antes do fim da aula, eu quero lhes informar que houve uma pequena mudança quanto a excursão à reserva ambiental de depois de amanhã – Pepe disse, durante os últimos minutos da aula de biologia, sendo fixamente observado por mim, claro – Como vocês já sabem, a reserva fica a algumas horas daqui, então pode ser que a excursão só acabe pouco antes do anoitecer, e como de costume aqui na escola, vocês serão acompanhados por dois professores.
Como o final do bimestre estava próximo, os professores que já tinham dado todo o conteúdo previsto para aquele espaço de tempo costumavam marcar excursões com as classes, e pedir relatórios ou trabalhos sobre o que aprendíamos no passeio. Eu já estava sabendo dessa excursão, portanto nem me alarmei muito, só não sabia que pequena mudança era essa. E se eu soubesse que a resposta pra esse mistério me renderia maus momentos, preferia continuar não sabendo.
- Eu e a professora Keaton estávamos escalados para acompanhar a classe de vocês – Pepe prosseguiu, me lançando um breve olhar conformado, que eu devolvi com um pouco de tensão – Mas a diretora resolveu fazer uma pequena alteração. De acordo com a nova escala, eu e a srta. Keaton acompanharemos o primeiro ano na excursão deles, que será amanhã, e quem irá acompanhá-los na excursão de vocês serão os professores Hammings e Lanza.
Acho que é agora que eu rodo a baiana, não é? Que papo é esse de ‘vou com as menininhas putinhas do primeiro ano amanhã enquanto vocês sofrem na mão do pedófilo nojento e sem escrúpulos do Lanza’? Se ele achava que eu ia deixar isso passar em branco, estava muitíssimo enganado.
- Podem ir para o laboratório, até semana que vem e boa excursão – Pepe encerrou, enquanto todos se levantavam com as mochilas nas costas rumo à aula do Lanza. Eu arrumava lentamente meu material, de cara fechada, esperando até o último aluno sair e me deixar sozinha com Pepe. Assim que todos haviam saído, ele fechou a porta da sala e já começou a falar:
- Eu sei que você não gostou da notícia, mas...
- Mas o que, Pepe? - cortei, inconformada, sem nem me mexer na cadeira enquanto ele se aproximava – Por que você não me contou antes?
- Eu não pude evitar, só fiquei sabendo disso hoje! – ele explicou, agachando-se à minha frente – Você acha que eu fiquei feliz de não poder mais ir com a sua classe?
Soltei um suspiro chateado e fechei os olhos. Ele realmente não tinha culpa, dava pra ver que ele estava sendo sincero. Voltei a encará-lo, me imaginando naquela reserva ambiental tendo que respirar o mesmo ar de Pedro Lanza por mais de uma hora. O pior pesadelo que alguém poderia ter.
- Me desculpa, acho que eu surtei um pouquinho – murmurei, sorrindo sem graça e colocando as mãos em seus ombros – Mas é que ia ser simplesmente ótimo passar o dia todo com você, e além do mais, você sabe que eu odeio o professor Lanza.
- É, eu já notei essa birra que você tem com ele – Pepe riu, erguendo as sobrancelhas.
- Essa birra que eu tenho com ele? – repeti, apontando pro meu próprio peito, um tanto incrédula – Ele é que tem birra comigo e não é capaz de me dar uma nota justa pelos meus relatórios, você sabe bem disso!
- Eu também não entendo, mas não posso me meter no método de correção dele, já te falei milhares de vezes – ele explicou, revirando os olhos – Mas você bem que podia tentar ser gentil com ele... Quem sabe as coisas não melhoram, incluindo a sua nota?
- Você tá de brincadeira, né? – eu falei, rindo sarcasticamente – Eu ser mais gentil com o Lanza? Mas nem morta! Eu me recuso a tratar aquele imbecil como algo mais além de um verme inútil!
- Você não devia falar essas coisas dele – Pepe retrucou, subitamente sério e parecendo ofendido – O Pe é um dos meus melhores amigos e é um cara muito legal. Não fale do que você não sabe.
Franzi minha testa, boquiaberta com aquela resposta, e assenti devagar.
- Acho que se tem alguém aqui que não sabe do que tá falando, esse alguém é você, Pedro – murmurei, tentando conter minha raiva só de me lembrar de tudo que o Lanza já tinha me feito (ou tentado fazer) de mau – Mas se você quer tanto defender seu amigo, não vou te impedir. Só não venha me dizer que não te avisei.
- Caah, espera – Pepe pediu, me impedindo de levantar quando eu tentei ficar de pé, já com a mochila sobre um ombro – Não precisa ficar brava, eu não quis te chatear...
- Me deixa levantar, por favor – pedi, sem olhá-lo, com um sentimento enorme de injustiça dentro de mim. O cara que eu amava defendendo o canalha que vivia atormentando a minha vida e ainda me destratando por causa dele? E o pior de tudo, eu não podia simplesmente chegar contando tudo que o professor Lanza já tinha me feito sem ter como provar, Pepe jamais acreditaria. Ele era cego pela imagem de bom moço do amigo, já dava pra perceber isso há um bom tempo. Péssimo, horrível, deplorável, humilhante.
- Não, eu não vou te deixar ir embora brava comigo desse jeito, não sabendo que amanhã não vou poder te ver! – ele negou, ficando irritado – Pára de ser infantil, Carol!
- Infantil? – perguntei, ainda mais inconformada, sem nem conseguir raciocinar direito – Se eu sou tão infantil, por que quis ficar comigo? Se você não acredita no que eu digo, por que insiste em se desculpar? Se eu só falo mentiras sobre o que eu não sei, me deixa ir embora, afinal, eu tô perdendo a aula do seu tão querido melhor amigo, esqueceu?
Consegui levantar, apesar dos esforços dele pra que eu ficasse, e sem nem olhar pra trás, deixei a sala de aula, trêmula da cabeça aos pés. Apesar do medo de acabar ferrando tudo com aquela primeira briga, eu me sentia firme, agindo do jeito certo. Pepe não conhecia o amigo que tinha, e depois de tudo que aquele crápula me fez passar, eu não seria capaz de ouvir todos aqueles absurdos calada. Engoli em seco, levando a vontade de chorar e de voltar correndo pros braços de Pepe pro fundo do meu estômago, enquanto caminhava rapidamente em direção ao laboratório.
- Ih, que cara é essa? – Manu perguntou, na hora da saída, quando se sentou ao meu lado na mureta que ficava em frente ao colégio – O Lanza aprontou alguma?
Neguei com a cabeça, encarando o nada com a expressão fechada. Os 50 minutos da aula de laboratório tinham conseguido ser mil vezes mais tranqüilos que os poucos minutos em que eu e Pepe brigamos na aula de teoria, fora meus olhares carregados de ódio pro Lanza durante sua explicação. O olhar sério de Pepe me censurando não saía da minha cabeça, e aquele sentimento de injustiça continuava dançando dentro de mim.
- O que foi então? – ela insistiu, e eu nem precisei responder. Assim que ela terminou de falar, Pepe saiu do colégio, e logo nossos olhares se encontraram. Seus olhos castanhos estavam sérios, e eu sustentava seu olhar, igualmente chateada. Pepe só tirou seus olhos dos meus quando foi atravessar a rua, e não ousou olhar na minha direção até arrancar com o carro e deixar a escola. Assim que ele sumiu de vista, abaixei a cabeça e soltei um suspiro triste, de olhos fechados.
- Acho que já entendi o que aconteceu por aqui – Manu murmurou, ainda olhando na direção pra onde Pepe seguiu com o carro – Vocês brigaram.
Quando abri a boca pra começar a contar, minha mãe chegou pra me levar pra casa. Apenas sorri fraco pra Manu, tentando não parecer tão arrasada, e balancei a cabeça negativamente.
- Depois a gente conversa – murmurei, me despedindo dela e entrando no carro.
Eu não tenho nada contra excursões escolares. Só odeio o tipo de organização que a minha escola usava. Nem pra ter um pouco de respeito por quem tá estudando nos andares de cima, sabe. A diretora tem que ficar berrando os nomes dos alunos naquele microfone ensurdecedor pra todo mundo ouvir, parece que é uma necessidade vital pra ela. Como se eu me importasse em saber se Colin McPhearson já estava na escola, francamente. Pra ser honesta, eu só me importava com uma coisa. Pedro Munhoz.
Após um dia inteiro sem conseguir tirar aquele desentendimento da cabeça, refleti muito sobre como devia agir dali em diante. Ele até que podia estar errado, mas não era por maldade. Pepe realmente acreditava que o professor Lanza era um cara legal, e eu não duvido nada que ele tenha seus meios de enganar os outros. Tava pra nascer cara mais cafajeste que ele, fato. Soltei um suspiro arrependido, encarando vagamente a janela ao meu lado, de onde eu podia observar o pátio lotado de alunos do primeiro ano. Mal tinha começado a primeira aula e o professor de química já estava escrevendo na lousa, mas eu não me importava com o sr. Brown naquele momento. Outro professor estava prendendo minha atenção, e ele não parecia estar tendo a menor dificuldade em organizar a fila de pirralhos do primeiro ano que logo entrariam num dos enormes ônibus estacionados na frente da escola para passar um dia inteiro em sua companhia na reserva ambiental.
Continuei observando Pepe lá embaixo, ajudando o último aluno fora de sua fila a achar seu lugar, e assim que terminou, colocou as mãos nos quadris e jogou a cabeça pra trás, encarando o céu nublado. Estava doendo em mim vê-lo pela primeira vez depois da discussão de ontem, e tudo que eu queria fazer era pular por aquela janela e me desculpar por tudo. Mas eu estava presa na aula de química, e ele estava preso àquela excursão idiota. Pepe lentamente se virou até ficar de frente para o prédio de onde eu o olhava, e pra minha surpresa, seus olhos não hesitaram em se cravar na janela da minha classe. A janela por onde ele podia me ver também, mesmo que de uma certa distância. Seu olhar, apesar de distante, conseguiu me deixar pior do que eu já estava. Sua expressão ao me encarar era séria, mas pelo menos ele não parecia tão bravo quanto ontem. Por que eu tinha que deixar meu orgulho ser maior que o que eu sentia por ele? Você gosta de uma idiota, Munhoz, fato.
Mais atrás, a srta. Keaton já encaminhava alguns alunos na direção da saída da escola, e pude ver seus lábios chamarem o nome de Pepe. Voltei a encará-lo, me odiando pra sempre, até que ele se virou na direção dela e a ajudou com a organização dos alunos. Merda. Essa piranha ia ter seu dia de sorte hoje, passando o dia todo ao lado de um homem lindo, perfeito e insatisfeito com a garota infantil com quem tinha escolhido se relacionar. Bela oportunidade de tirar uma lasquinha. Fechei meus olhos quando ele sumiu do meu campo de visão, tentando afastar o ciúme que ardia neles, e voltei a me concentrar na matéria de química.
- Você vai mesmo amanhã? – ouvi Manu perguntar, na hora da saída, e assenti devagar, observando os carros que passavam. Não tinha como não encarar o carro vazio de Pepe, estacionado no lugar de sempre, e não querer que ele subitamente saísse da escola, com seu sorriso habitual, e atravessasse a rua naquela direção.
- Tem certeza de que não vai mesmo poder ir? – suspirei, olhando pra ela com cara de nada – Ter alguém com quem conversar ia me fazer bem... Eu acho.
- Não, minha mãe não quer que eu vá e acabe sendo atacada por mosquitos do tamanho de azeitonas ou coisas do tipo – Manu respondeu, cruzando os braços e revirando os olhos – Você conhece minha mãe, super protetora até a medula.
Não deu pra não rir um pouquinho com aquele comentário mais do que verdadeiro. A sra. Trentin costumava ser bem enérgica quando o assunto era proteger Manu.
- Que exagero, mosquitos do tamanho de azeitonas só existem na África – chutei, com um sorriso fraco no rosto.
- Eu sei disso, mas minha mãe não sabe – Manu resmungou, um pouco irritada – Já tentou dizer isso a ela? Vai entrar por um ouvido, ela até vai fingir pensar no seu caso, e depois vai sair pelo outro lado.
Ri mais um pouco, e ela logo caiu no riso comigo. Só ela mesmo pra me fazer rir naquele estado deplorável no qual eu me encontrava por dentro.
- Você falou com o Munhoz hoje? – ela murmurou, voltando a ficar séria, e senti meu estômago revirar. Eu tinha telefonado pra ela na tarde anterior e tinha contado tudo que tinha acontecido depois da aula de teoria. Manu concordou comigo, e disse que eu devia contar tudo que o Lanza tinha aprontado, mesmo correndo o risco de Pepe não acreditar em mim. Durante o resto do dia, fiquei pensando no que deveria fazer, e decidi que iria seguir o conselho dela. Só não tive a oportunidade de conversar com ele ainda.
- Não – respondi, sem olhar pra ela – Ele tá na excursão hoje, lembra?
- E amanhã é a sua – Manu disse, e eu pude sentir seu olhar tristonho sobre mim – Você vai à casa dele nessa sexta?
- Só vou se ele me chamar – falei, dando de ombros tristemente - Não vou simplesmente aparecer sem ter sido convidada.
Desde a primeira vez em que fui à casa dele, não tinha deixado de passar as tardes de sexta-feira lá uma vez sequer, nem que fosse pra ajudá-lo com a correção de algumas provas e trabalhos enquanto conversávamos. Talvez essa fosse ser a primeira vez em que não nos veríamos, e era tudo culpa da minha imaturidade. Palmas pra mim.
- Eu acho que ele vai te chamar sim – Manu me encorajou, deitando sua cabeça em meu ombro de um jeito carinhoso e até um pouco engraçado – No mínimo pra vocês se resolverem.
- Assim espero – sorri fraco, olhando vagamente os carros que passavam pela rua, com o pensamento a algumas horas de distância dali.
- Carol Trevisan!
Ergui minha mão assim que a diretora berrou meu nome no microfone, entediada e com todos os tipos de sentimentos negativos em relação àquela excursão idiota. Me senti ainda pior quando o professor Hammings, com sua usual cara de quem tinha estrume de vaca debaixo do nariz, indicou que eu já podia ir para o ônibus com um aceno de mão. Ajeitando minha pequena mochila no ombro, andei vagarosamente até o veículo, como se eu pudesse evitar aquela tortura se andasse devagar. Como eu era tosca algumas vezes.
- Eu já mandei você escolher um lugar e se sentar, Kelly – ouvi uma voz murmurar assim que me aproximei do ônibus, e quando cheguei à porta, vi o professor Lanza e a Smithers conversando a uma distância menor do que a recomendada. E pela cara de dor de barriga dela, o clima não era dos melhores.
- Tudo bem, professor – ela concordou, me lançando um olhar surpreso, e entrou no ônibus. O professor Lanza passou uma mão pelos cabelos, usando sua técnica mais que aprovada de me tratar com indiferença, e eu apenas o ignorei, entrando no ônibus logo depois.
Me sentei num dos primeiros assentos, evitando me misturar demais com o povo fútil que provavelmente começaria uma bagunça no fundo do ônibus. Peguei meu iPod de dentro da bolsa e coloquei a primeira música mal educada que achei no volume máximo, com uma cara espontânea de poucos amigos. Talvez porque eu realmente não quisesse estar ali, num ônibus cheio de gente que eu odeio, rumo a um lugar distante, cheio de mato, terra e bichos. Talvez porque tudo que eu quisesse era estar com Pepe e resolver as coisas entre nós, pra exterminar o aperto em meu peito que quase me sufocava.
Não demorou muito e o professor Hammings entrou no ônibus, acompanhado do Lanza. Contaram rapidamente o número de pessoas, pra ter certeza de que todos estavam no ônibus, e assim que terminaram, fizeram sinal para que o motorista começasse a dirigir. Tirei um dos fones, entediada, para (infelizmente) ouvir o que o Lanza estava dizendo enquanto o veículo andava os primeiros metros em direção à reserva.
- Tentem não se afastar do grupo, o local é enorme e bastante confuso, portanto todo cuidado é pouco – ele avisou, sério, e eu notei que seus olhos estavam especialmente verdes hoje, talvez porque estivessem realçados pela blusa da mesma cor - Não se distraiam com os animais ou plantas exóticas que virem e prestem atenção nas explicações que os guias lhes darão, informações como aquelas não existem nos livros escolares. Qualquer problema, basta chamar o professor Hammings ou eu.
Mudo, o sr. Hammings apenas assentiu devagar para todos que o observavam, e os dois professores se encaminharam na direção de seus assentos. Que, por sinal, ficavam bem à minha frente. Eu já devia saber que aquela excursão seria ainda pior do que eu imaginava.
Coloquei os dois fones, batendo os pés de acordo com a bateria da música, e me contive a observar o céu nublado. Sem ter que aturar ninguém sentado no assento ao meu lado, silenciosamente ocupado pela minha mochila, não demorei muito tempo pra me distrair com os prédios e árvores que passavam rapidamente pela minha janela. Logo meu pensamento voou até Pepe, e me peguei pensando no que ele devia estar fazendo àquela hora. Dando aula, provavelmente. Tentei evitar que minha mente criasse qualquer tipo de imagem da excursão do dia anterior, ou de Pepe sendo consolado pela srta. Keaton, mas foi impossível. Deus, por que raios eu tinha que sentir ciúmes daquela mexerica desbotada? Ela ser bonita, atraente e um pouco viciada demais em testosterona definitivamente não deveriam ser razões preocupantes o suficiente.
Algum tempo depois, senti uma mão tocar meu ombro devagar, e pulei de susto. Olhei na direção da pessoa, e dei de cara com Pedro Lanza. Tirei um dos fones contra a minha vontade e esperei ele falar.
- Trouxe celular, Trevisan?
Assenti, sentindo um gostoso perfume masculino invadir meus pulmões, e ignorei o fato de que só podia ser o dele.
- Pode me passar o número? – ele perguntou, parecendo um pouco decente pela primeira vez na vida - É pro caso de você se perder na reserva.
- Eu não vou me perder – respondi, sem muita vontade de dar meu número de celular pro Lanza – Pode ter certeza.
- Mesmo assim, são normas da escola – ele insistiu, com um sorrisinho cordial, e eu tive que dar o número. Escolinha chata a minha, pelo amor de Deus. Assim que terminou de gravar meu número em seu celular, ele agradeceu rapidamente e voltou a se sentar ao lado do Hammings. Mas esqueceu de levar uma coisa com ele. A porcaria daquele perfume.
Odores a parte, continuei a ouvir música e pensar em qualquer coisa que passasse pela minha cabeça (lê-se: Pedro Munhoz) por todo o trajeto. Pouco tempo depois de deixarmos a escola, uma chuva fina começou a cair, explicando o céu nublado que já durava dois dias. E pelas nuvens negras que pairavam mais à frente, o tempo não melhoraria tão cedo.
- Pessoal, chegamos à reserva ambiental - o professor Lanza disse algumas horas depois, enquanto o motorista entrava num grande estacionamento e eu guardava meu iPod na mochila – Antes de sair, peguem as capas de chuva que trouxemos devido ao tempo chuvoso que estava previsto pra hoje. Eu vou distribuí-las na porta do ônibus.
Legal, ia ter que fazer contato com aquele idiota mais uma vez, e mal tínhamos chegado à reserva. Peguei minha mochila e a coloquei direito nas costas, com uma alça em cada ombro (diferentemente do que eu costumava fazer), já de pé. Esperei até que a aglomeração no corredor do ônibus diminuísse e me encaixei na primeira brecha que encontrei.
- Capa de chuva, Smithers – ouvi o professor Lanza dizer assim que Kelly, que estava bem à minha frente, passou por ele – Não vai querer que as horas arrumando o cabelo sejam em vão, vai?
Eu sei que o odeio e já cansei de expressar meu desprezo por ele, mas não deu pra não rir daquele comentário. Até que ele era engraçado quando tirava sarro das pessoas certas. E tinha um perfume viciante também. Não que isso importe.
Ainda rindo disfarçadamente da cara de joelho da Smithers ao pegar sua capa, peguei a minha, dobrada dentro de um pacote plástico, evitando contato visual com o sr. Lanza. Uma simples piadinha não o tornaria um cara aceitável no meu conceito.
Burocracias à parte, logo estávamos dentro da reserva, ridiculamente iguais com nossas capas transparentes debaixo da chuva, que tinha aumentado consideravelmente. Aquele lugar era enorme, fato. Acho que nunca estive num lugar tão cheio de vegetação e terra na vida. O único cheiro que conseguia sentir era o de terra molhada, tão forte que minha cabeça doía um pouco. Um dos guias começou a nos levar reserva adentro, e eu apenas seguia o fluxo, já querendo que aquela excursão terminasse logo.
- Antes de começarmos a conhecer a reserva, vamos lhes mostrar um pequeno documentário sobre os efeitos do aquecimento global e da exploração prejudicial do homem à natureza, e também algumas medidas quem favorecem o desenvolvimento sustentável – explicou o guia, quando chegamos a uma grande sala onde uma tela de cinema ocupava uma parede que ficava de frente para várias poltronas enfileiradas.
